Não Se Apega, Não

Isabela Freitas · Capítulo 9 de 13

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Não Se Apega, Não

8. As pessoas sempre descobrem novas formas de nos decepcionar

A verdade é que eu estava cansada de ter sempre que atender às expectativas de todos à minha volta. Sabe, acho que nasci com uma doença que se chama preciso-fazer-todo-mundo-feliz-mas-em-troca-disso-serei-infeliz. É que tornar as pessoas felizes me faz um pouco feliz. Pelo menos por um tempo determinado. E eu cansei. Cansei mesmo. E olha que eu nunca me canso de nada.

Desde pequena eu estava nessa de ser o que todos queriam que eu fosse. Veja bem como as coisas aconteciam. Sou a primeira filha dos meus pais e a primeira neta da família por parte de pai, e aprender a falar “mamãe, eu te amo” e “tô com fome” parecia ser a sensação do verão. Tarefas que executei com sucesso, claro. Com seis meses de vida eu já balbuciava quase todas as sílabas que um neném pode precisar.

Com um ano, comecei a andar — claro que depois de muitos tombos. Aos três, já fazia balé. Sonho da mamãe. Agora, me pergunta se algum dia eu gostei de balé. Ora, é óbvio que não. Uma chatice sem fim fazer todos aqueles exercícios ao som de músicas que mais pareciam baladas para o sono profundo. Mas eu fazia balé porque minha mãe gostava de balé. E eu gostava da minha mãe. Com quatro anos já fazia inglês, e tá, disso eu gostava, e gostava muito. Me imaginava sendo uma daquelas pessoas importantes que traduziam o que os estrangeiros falavam. Tive também o sonho de ser arqueóloga. Imagine só, descobrir tesouros escondidos? Coisas que ninguém vivo havia visto antes? Devia ser demais.

Aos cinco, aprendi a ler. E aí não parei. Lia todos os outdoors da cidade que via pela frente. Lia bulas de remédio. Lia até placas de carro. Via poesia em tudo. Confesso que nunca fui uma amante da leitura para agradar a alguém (por mais que eu fizesse meu pai extremamente orgulhoso cada vez que chorava pedindo um livro novo). Com a paixão pela leitura, veio também a utopia de um dia me tornar escritora. Tão difícil ser criança...

Sabe, poucas coisas na minha vida eu fiz porque realmente quis. Acho que não sou muito diferente dos outros, quer dizer, é só dar uma volta no calçadão de Juiz de Fora que eu vejo centenas de pessoas que não são aquilo que queriam ser. Uma vez, li em algum lugar que as crianças nascem com sonhos puros dentro do coração e que, aos poucos, vão perdendo isso e viram adultos frios, secos, robóticos. Executam as tarefas do dia a dia como quem nem percebe o que está fazendo. Acordar, tomar café da manhã, trabalhar, dar um beijo na esposa, perguntar como foi o dia das crianças. E assim se passa mais um dia infeliz na vida de um adulto que esqueceu que, lá na infância, o seu desejo era viajar pelo mundo apenas com uma mochila nas costas e a felicidade no bolso. Por que é que a gente se esquece de ser feliz?

Aos doze, tive o meu primeiro namorado, aquele, que beijei encostada em um carrossel. Eu queria desesperadamente fazê-lo feliz. Percebia que ele gostava de mim e que eu, provavelmente, seria alguém de quem ele não se esqueceria tão cedo. E por isso insisti na relação por tanto tempo. O problema era que eu não conseguia mais sentir o chão desaparecer sob os meus pés, nem escutar sinos tocando, como no começo da paixão. Esse meu namorado precisava de um apoio, de uma amiga, uma companheira. E por anos eu fui tudo que ele precisava, deixando mais uma vez de lado a minha felicidade. Toda vez que eu tentava terminar o relacionamento, ele chorava pedindo que eu não fizesse isso. Então, eu cedia. Ele, feliz; eu, mais uma vez, infeliz.

Sabe que é uma merda ver alguém chorar? Não sei lidar com isso. Sempre dou uns tapinhas e digo que vai ficar tudo bem. Vai mesmo? Ficar tudo bem? Nem sempre fica tudo bem. Como se vira as costas para a pessoa que nos proporcionou bons momentos e se diz a ela que não a queremos mais? Nunca mais?

Tá. Confesso. Eu não sei terminar. Nunca soube. Esse meu primeiro namoro eu tentei terminar de várias formas. Mensagem bonitinha (bonitinha?), ligação no meio da noite, olhando olho no olho (ele achou que eu estava brincando), escrevendo uma cartinha (ele achou que era pegadinha e eu não tive coragem de desmentir), pombo-correio (ok, eu não mandei um pombo-correio, mas, se tivesse um, com certeza mandaria), carro de mensagem (imagina que legal?!?!). Por mais que eu tentasse, nada dava certo. Ele sempre dava um jeito de sair pela porta dos fundos, e eu, bem, era fraca demais para impedir que isso acontecesse.

Foi aí que criei uma nova forma de acabar namoro: fazer a outra pessoa me odiar. Com todas as forças. Isso me livrava do fardo de ter a iniciativa, porque a pessoa ficaria com tanto ódio que, uma hora ou outra, acabaria terminando em meu lugar. E assim eu fiz. Comecei não atendendo o telefone, não respondendo às mensagens, sendo grossa, até chegar a ponto de...

— Isa, o que é que tá acontecendo, hein? Tu tá estranha...

— Tô nada. Tô normalzinha.

— Tá sim. Tá distante, fria, não me responde direito...

— Eu sou assim.

— Nunca foi assim. Por que tá assim agora?

— Porque eu sou assim agora, ué.

— Mas eu não gosto da Isabela assim. Cadê minha bebexinha lindinha que maix amul?

Ok. Ele falava com voz de neném. Maldito o dia em que permiti que esse ser falasse assim. Nos dias finais de nosso relacionamento eu tinha vontade de golfar toda vez que ele começava com essa voz.

— Hum, err... Olha, eu gosto de outro. É isso.

— Oi? Quê?

— E-u, eu, euzinha, gos-to de ou-tro. Não entendeu o quê?

— Como assim, Isabela? E a gente? E o nosso namoro? Como você pode fazer isso com a gente? Como? Isabela? Isabela?!

— Então é isso.

E lá se foi o meu primeiro namoro (de sucesso, hein?). Ele, é claro, ainda tentou me procurar algumas vezes para conversar sobre o “outro”, que sequer existia. Só que fiz questão de ressaltar que estava muito feliz e que não queria tentar mais uma vez. Covarde, eu sei. Me dói na alma ter que magoar alguém. Eu nunca sei o que dizer, como dizer, nem quando dizer. Afinal, nunca é a hora certa para dizer adeus.

Sabe aquela sensação de se libertar e sentir como se você fosse um pássaro pronto para voar pela primeira vez? Foi assim que me senti quando o deixei. Como se meu coração se livrasse de um peso que o colocava pra baixo dia após dia. E, pelo que li e ouvi por aí, isso quer dizer que não era amor. Ufa! Ainda bem. Imagine só o amor ser assim? Alguém que fala com voz de neném e te chama de bebexinha? Mas a história da menina que queria atender às expectativas não termina por aí.

Meu pai sempre foi um nerd. Nerd da pesada. Aquele garoto que veio de família humilde, estudou pra caramba, conquistou o mundo e hoje bate no peito com orgulho ao contar a sua história. Eu admiro meu pai, muito mesmo. Admiro muitíssimo essas pessoas que colocam todo o empenho em coisas como Química e Física. Por Deus, tem algo pior? A questão é que meu pai sempre quis que eu fosse igual a ele. A primeira da sala. A aluna nota A+. A condecorada da escola. E, bem, eu nunca fui nada disso. Até o sétimo ano eu era uma aluna ok. Nem a melhor nem a pior. Não era motivo de orgulho, mas também nada que o fizesse tremer nas bases.

No oitavo ano tive minha primeira nota vermelha. Me lembro até hoje da cara de decepção dele. Tsc tsc. Matemática? Uma coisa tão simples como matemática? Sim, pai. Matemática. Eu já disse que odeio números? Pois então, eu odeio números com todas as minhas forças. Acho que números não dizem nada e só servem para agrupar coisas que não têm nome. Um grupo de quarenta pessoas é o quê? Quarenta pessoas. O que esse número nos diz sobre essas pessoas? Nada. O número “quarenta” não nos diz nada, já a palavra “pessoas” nos faz supor que elas têm histórias, amores mal-resolvidos, sonhos, mágoas, problemas. Entende por que não consigo gostar de números? Eles não me dizem nada.

No nono ano tive mais duas notas vermelhas: em Química e Física. Mais números. Mais decepções. Era engraçado ver que a leitora do ano (esse era o nome que minha antiga escola dava aos alunos que mais alugavam livros na biblioteca) era também “a nota vermelha do ano”. Como assim? Ela não passa o dia na biblioteca? Sim, eu passava o dia na biblioteca. Só que lendo livros que contavam histórias sobre dragões, bruxos, princesas, sapos que viravam príncipes, chapéus que falavam, carros que voavam e muitas outras coisas incríveis. O normal não me atraía nem um pouco. E isso não era certo aos olhos do meu pai.

Aos dezesseis anos fiz meu primeiro “vestibular”. É que aqui em Juiz de Fora tem um programa de vestibular parcelado, sabe? Nessa idade eu não tinha ideia alguma do que eu queria ser, aliás, até tinha. Eu queria ser arqueóloga. Ou escritora. Ou tradutora. Ou psicóloga. Ou uma das princesas sobre as quais lia em meus livros.

— Psicóloga? Ah! Essa é boa. Psicólogo não ganha dinheiro, minha filha. Você precisa fazer uma faculdade que vá te dar uma vida boa... Medicina, quem sabe?

— Não, mãe. Eu odeio sangue!

— Então engenharia, que tal? Mulheres engenheiras vão dominar o mundo.

— E se eu quiser ser escritora, mãe? Eu faço o quê?

— Escritora, Isabela? Você sabe as probabilidades de isso acontecer? Não? Pois eu te digo: nenhuma. Não é fácil assim como você acha que é.

— Poxa, mãe... E se eu for aquela pessoa que trabalha com os estrangeiros? Faz traduções? Legal, né?

— O quê? Diplomata?

— O que é diplomata?

— Você nem sabe o que é diplomata e quer ser uma. Isabela, faça algo que está a seu alcance. Direito, que tal?

— Direito? Hum...

— Você gosta de ler, escrever, se expressa bem... Acho que vai se dar muito bem...

— É. Pode ser...

E assim se foram os sonhos de mais uma garotinha neste mundo. Anos atrás, quando completei o terceiro ano do ensino médio, me inscrevi na Faculdade de Direito, e aqui estou eu. Fazendo um curso que em nada me encanta, mas é preciso corresponder aos desejos dos meus pais. Ter um diploma para que eles mostrem aos amigos e digam: “Isabela? Ah, Isabela vai ser advogada. Grande advogada!”. E mais uma vez eu estava deixando a minha felicidade de lado.

No campo das amizades também não era diferente, lá estava eu, sempre colocando a felicidade do outro à frente da minha. Um bom exemplo disso foi ainda aos dezesseis anos, quando tive uma paixonite por um garoto da minha sala. William, se chamava. O Will era tudo o que eu esperava de um garoto. Gostava de ler, era educado, tímido e conversava pelo olhar. Passávamos horas trocando ideias sobre Harry Potter, Senhor dos Anéis, e chegamos até a disputar quem conseguia ler livros mais rápido, o que fazia com que eu passasse noites em claro lendo e imaginando que o Will estava lendo o mesmo livro que eu, no mesmo momento. Tínhamos uma conexão, além dos olhos verdes dele. Isso poderia ser o início de uma linda história de amor, não fosse pela Vitória. A Vitória era da nossa sala também, e ela sabia, sabia sim, que eu estava caidinha pelo Will. A Vitória era a Marina do meu ensino médio, e assim se fez.

Em uma festa em que o Will foi, e eu não pude ir (estava visitando meus avós na cidade deles), ela deu um jeito de agarrar o garoto. Isso mesmo. Lascou um beijão nele no meio de todo mundo. A notícia estava na boca de todos do colégio na segunda-feira. Quando fiquei sabendo, um tremor percorreu meu corpo. Por que o Will? Por quê? Por que o meu Will? Acho que deve ter sido por minha cara de enterro, ou por eu ter parado de escrever no meio de uma frase e ter ficado olhando o nada; o fato é que o Will fez sinal para que eu o acompanhasse para fora da sala. Eu fui.

— E aí?

— Oi, tá tudo bem entre a gente?

— Tá sim. Por que não estaria?

— Sei lá. Deixei um bilhetinho em cima da sua mesa e você jogou no lixo sem ler. Queria dizer que já acabei de ler aqueles livros da série que você me indicou, A mediadora. Adorei, muito bons mesmo.

— Ah, legal.

— Isabela? Tá acontecendo alguma coisa? Ah, já sei...

Olhei pela janela e observei uma criança que brincava de amarelinha na calçada. Como eu queria voltar a ser criança e não ter DR às oito horas de uma manhã de segunda-feira.

— Você ficou sabendo da Vitória...

— Pra falar a verdade, fiquei sim.

— Achei que você ficaria feliz.

— Feliz? Por que diabos eu ficaria...

Foi quando uma Vitória sorridente entrou no meio da conversa.

— Feliz? Isa? Eu contei pra ele! Contei que você apoiava a nossa união. Eu, sua melhor amiga; ele, seu melhor... amigo — ela falou, enfatizando a palavra “amigo”.

— Ah, é sério isso, Will? — perguntei, me virando para ele.

— É, então... Eu disse que, que gostava muito de você, Isabela...

— Como amigo, né? — interrompeu Vitória.

— É, gostava, gostava, sabe? E ela disse que você não ia se importar, porque apoiava, e queria que eu ficasse com ela... Sendo assim, eu, eu...

— Me deu um beijo inesquecível. Foi isso, Isa. Você não fica feliz por nós?

— Fico, fico muito feliz mesmo. Parabéns ao casal.

Eu poderia ter dito que tudo isso não passava de uma mentira da Vitória para fazer com que ele ficasse com ela. Poderia, sim. Só que eu preferi deixar pra lá. Se foi assim, é porque era pra ser, né? Não.

Olha, de uma vez por todas, a verdade é que não existe isso de “era pra ser”. Nada é pra ser, sempre haverá outros caminhos, alternativas, outro fim pra mesma história. O poder de moldar o destino está nas nossas mãos, mas, por nos sentirmos impotentes diante de tamanha grandiosidade, escolhemos não mudar nada. A Vitória, por exemplo, mexeu uns pauzinhos e mudou o destino dela. Já eu, me conformei e deixei que meu destino escolhesse por si próprio o seu rumo. E, bem, o destino às vezes não sabe o que é melhor pra gente. E mais uma vez eu coloquei a felicidade do outro à frente da minha, ainda que manter uma falsa amiga não me trouxesse nem um pinguinho de satisfação pessoal. Eu simplesmente preferi abrir mão de alguém de quem gostava, desisti de lutar por ele. É bem mais fácil, sabe?

Abrir mão. Deixar ir. Desapegar. Isso liberta de alguma forma. Por mais que nos aprisione em lembranças do que poderia ter sido.

E foi assim por boa parte da minha vida. Até o meu último namoro, o tal do início deste livro. As pessoas me perguntam, às vezes: “Nossa, mas como você aguentou dois anos uma pessoa que nada tinha a ver com você?”. E eu tenho vontade de responder:

Porque simplesmente eu estava cansada de dar errado. De deixar para lá. De dizer adeus. De admitir para mim mesma que estava errada sobre alguém. E tentei, e insisti, e chorei. Tentei moldá-lo da forma que achei ser perfeita para mim. E com isso aprendi que não podemos moldar ninguém. Aprendi que não adianta querer muito dar certo, que o certo, certo mesmo, só acontece nas horas erradas. Aprendi que não adianta pedir aos céus por um amor de verdade, porque amores de verdade não caem do céu, assim como estrelas cadentes não passam quando queremos. É preciso se ferrar, é preciso bater com a cara na porta, é preciso se decepcionar, é preciso desistir. Desistir não é fracassar. É admitir em voz alta que você insistiu por tempo demais. E eu insisti por tempo demais. Era hora de deixar ir...

Mas, em vez disso, só levanto meus ombros e digo um nada sincero “não sei”.

O Gustavo queria ter uma namorada ao lado para apresentar aos amigos, à família, e para poder colocar fotos com legendas românticas no Facebook. Ele não fazia esforço algum para que eu me sentisse especial, porque, na real, eu não era especial para ele. Ele queria apenas uma companhia que afastasse a solidão que era conviver consigo mesmo. Eu entendo, entendo de verdade. Viver por tempo demais em sua própria companhia às vezes cansa, e a gente acaba depositando essa vontade de “ser dois” no outro. Ainda que esse outro não seja nada mais que isto: uma companhia.

A meu lado ele podia desabafar sobre o trabalho no fim do dia, ou me contar sobre a última que algum amigo dele havia aprontado. Não posso culpá-lo pelo fim do nosso relacionamento, como se ele fosse um monstro ou algo do tipo. A verdade é que somos todos almas procurando por outra alma, aquela única, que vai nos fazer querer ser melhores. E todos os outros que encontramos pelo caminho são nada mais que uma simples companhia. Como uma pessoa com quem você conversa no ponto de ônibus, conta alguma história da sua vida, escuta uma história dela e se lembra disso pelo resto dos seus dias. Essa pessoa te marcou. Não como o amor da sua vida nem como alguém especial, mas como alguém que fez parte da sua história e contribuiu com um pouco de sabedoria para o que você é hoje.

O problema é que, nessa de ser o que todos queriam que eu fosse, nunca fui aquilo que sempre quis ser. Eu. E isso cansa, sabe? Era hora de vestir um vestido de mim mesma, bater no peito e estabelecer ordem nessa bagunça que eu chamo de “pensamentos”.