Não Se Apega, Não
6. Querido Cupido, desejo que você morra atingido pela própria flecha
Sabe aqueles dias em que você fica se revirando na cama porque sabe que, se acordar, vai ter que enfrentar o mundo? Então. Hoje eu estava assim. E, olha, não é só por ser uma covarde. Porque eu sou. É que hoje eu realmente estava precisando de umas férias de todo esse drama que me cerca. Fim de namoro, melhor amigo em intercâmbio (eu já contei que o Pedro tá na Austrália, né?), punhalada nas costas pela pseudoamiga-de-balada, ex-namorado me mandando mensagem… Opa, ESPERA AÍ. Isso era uma mensagem do Gustavo no meu celular?
Isabela, precisamos conversar. Sei q provavelmente vc não quer me ver nem pintado de
ouro, como vc sempre diz, mas preciso te ver. Espero que entenda. Passo hoje na sua
casa 4h.
Às quatro? Que horas eram? Deus, eu estava por tanto tempo na cama que até esqueci que tinha uma vida social apitando no celular, ou, pelo menos, o que me restou de vida social. 15h49. Ótimo. Agora, além de encontrar meu ex-namorado, o que por si só já é uma decadência, eu ia encontrar o meu ex-namorado com o meu cabelo sujo, o rosto amassado e sem nem um corretivozinho pra tirar as olheiras. Que se dane também. O Gustavo não merecia minhas maquiagens caras que suei tanto pra comprar. Aliás, o Gustavo não merecia nem que eu colocasse uma roupa pra recebê-lo. É isso. Resolvi receber o meu ex-namorado de pijama, cabelo pra cima e cara de ontem. Talvez assim ele se tocasse de que não era bem-vindo. Seria engraçado se não fosse trágico.
Isso me fez lembrar a Talita, uma garota peculiar que estudou comigo no cursinho de inglês. A Talita era do tipo namoradeira, todo fim de semana tinha um encontro com alguém diferente. O que a diferenciava da maioria das meninas é que ela costumava marcar encontros pela internet, assim mesmo, sem nem conhecer os caras. Bastava alguns dias trocando mensagens e lá estava ela dizendo sobre seu novo “achado” na rede.
— Muito melhor conhecer pessoas pela internet — afirmava.
— Mas, Talita, e se o cara for um psicopata? Diz minha mãe que tá cheio deles por aí — eu tentava argumentar.
— Que nada, isso é coisa de reportagem do Fantástico. Hello! O máximo que pode acontecer é ele ser muito chato, ou muito feio, ou ter bafo. E nesses casos eu tenho uma técnica especial.
— E qual é?
— Arrote na frente dele. Simples. Se ele não desistir, peide. Fale alto, de boca cheia, com os dentes sujos. Sempre funciona.
Me pergunto onde a Talita foi parar, será que ainda estava viva? Bom, não sei, só sei que hoje talvez eu precisasse usar suas habilidades.
O som da campainha. Poxa vida, por que meu estômago estava doendo como se algo muito ruim fosse acontecer? Era só um ex-namorado inofensivo, só isso. Se acalme. Respire fundo. Enfrente a fera.
Abro a porta, e lá está o Gustavo me esperando. O topete até brilha de tanto gel de cabelo.
— Er... oi. Me atrasei um pouco, né?
Olho o relógio: 16h05. Quem se importa? Vendo minha cara de indiferença, continua:
— Posso entrar?
— Fazer o quê... — digo, enquanto me afasto da porta para que ele entre.
Eu não sabia se deveria reparar, mas o Gustavo havia ganhado uns quilinhos desde a última vez em que estivemos juntos. Obrigada, Deus, por mais essa graça. Nada melhor do que ver o ex-namorado engordando.
— Então, desembucha. O que você quer?
— Você não muda nunca, né? Sempre mal-humoradinha...
Será que ele estava achando que nós éramos alguma espécie de amigos? Isso era um sorriso no rosto dele? Olha, não sabia que caras de pau conseguiam sorrir.
— Gustavo, corta essa, ok? Vai direto ao ponto.
— Tudo bem, tudo bem. Não estamos de bem com o mundo hoje, hein? — responde, analisando o meu estado.
Pijamas velhos, ok. Rasgados, ok. Cabelo desgrenhado, ok. Rosto amassado, ok. Só me faltava arrotar.
— Que nada, eu estou superbem hoje. Do contrário nem concordaria em te receber.
— Hum, é. Eu vim aqui para explicar aquele lance que rolou ontem lá na festa.
Espera aí, era isso então? Ele havia gasto gasolina, tempo, saliva, tudo isso para explicar o que tinha acontecido? Eu sabia muito bem o que tinha acontecido, ora, tenho dois olhos. Não sou cega.
— Explicar o quê?
Resolvi me fazer de boba. Vai que funciona e ele acaba desistindo dessa besteira que é se explicar pra ex?
— Sobre a Marina . Não adianta fingir que não viu, eu sei que você viu. Me falaram até que te viram chorando e...
— Espera, espera. Me viram chorando? E você supôs que fosse por causa de você? Há-há. Faça-me rir, Gustavo. Sabia que o mundo não gira ao seu redor? Não? Pois fique sabendo.
— Isabela, você não precisa fingir pra mim. Pode falar a verdade.
Por que os homens tinham essa mania de achar que eram importantes e únicos na vida de todas as garotas com as quais já tinham tido um caso? Queria ter essa autoestima, viu?
— Olha, você ficou com a Marina, tudo bem. Achei ridículo? Achei. Achei desnecessário? Também achei. Achei que você estava fazendo isso só pra me atingir? Tive certeza. Mas chorar por isso é algo que eu jamais faria, aliás, chorar por você, Gustavo? Pensa bem...
Pela expressão no rosto dele, pude perceber que em momento algum a ideia de que ele não merecesse o meu choro havia passado por sua cabeça, e agora ele já se arrependia de ter ido ali na minha casa fazer papel de otário. Eu estava começando a gostar disso.
— Eu achei... eu achei que... você... arrependeu e... — ele gagueja.
— Se enganou. Eu não me arrependi. Inclusive, vai fundo. A Marina é uma garota e tanto.
— Não precisa debochar.
— Que mania é essa de achar que tudo que eu falo é deboche? Eu, hein! Tô falando sério!
— Ela não faz o meu tipo.
— Eu percebi ontem, não faz mesmo. Imagina só, Marina-aquela-morena-gostosa-dos-olhos-verdes? Nunca.
Tudo bem, talvez eu estivesse tendo um ataque de ciúmes, mas quem ligaria? Ele era meu ex-namorado, e eu não queria que nenhuma amiga minha ficasse com ele. Pelo menos que esperassem o corpo do defunto esfriar.
— Eu tinha bebido demais, ela me puxou... quando eu vi...
— Já era tarde. Típico. Tá tudo bem, de verdade. Eu sabia que mais cedo ou mais tarde teria que ver você com outras pessoas, só não imaginava que seria com a Marina, já que você sempre fez questão de ressaltar que ela era uma má influência pra mim.
Tive que cutucar. Isso estava entalado na minha garganta. O Gustavo odiava a Marina, tipo, odiava mesmo. Dizia que de todas as minhas amigas ela era a pior. Marina? Aquela sua amiga piriguete que dá em cima de todos os caras? Credo. Você devia cortar relações com ela. Estou vendo, Gustavo. Eu corto e você começa. Combinamos direitinho.
— E ela é. Você não deveria andar com ela por aí, vai ficar malfalada — ameaça, encarando os próprios pés.
Ele podia ao menos ser homem, olhar nos meus olhos.
— Mas, pra ficar com ela, todo esse lance de ser malfalada não importa, né? Bom saber como vocês, homens, pensam. No meu próximo namoro estarei alerta, se o cara criticar muito uma amiga minha é porque quer ficar com ela. Selado.
Eu devia estar gritando mais que o normal. Tomara que meus vizinhos tivessem fones de ouvido.
— Não é isso, Isa.
— Isabela — corrijo.
— Isabela. Não é isso. Acho que, na verdade, eu estava tentando te atingir mesmo, e ela era o modo mais fácil, digamos assim. Você não percebe? Eu estou sem rumo. Você acha que é fácil pra mim a nossa separação?
— Eu acho. Tá sendo fácil pra mim. Siga o exemplo.
— Como você pode ser tão fria assim? Nem parece você — diz ele, com os olhos cheios de lágrimas.
Não, não, não. Sem chorar, Gustavo. Você consegue.
— Não é questão de ser fria, Gustavo. É questão de saber o que é melhor pra mim. E o melhor pra mim não é a seu lado. Simples.
Eu estava sendo sincera. Por dois anos carreguei um namoro nas costas e, olha, não era fácil sorrir quando minha vontade era gritar. O Gustavo me sufocava, sugava minha energia. Sem ele é como se eu tivesse nascido novamente. Uma fênix renascendo das cinzas. Era assim que me sentia nessa minha nova fase.
— Olha — continuo. — Você precisa aceitar. Só assim vai dar pra seguir em frente.
Eu estava vendo isso mesmo? Isabela consolando seu ex? É. Hoje eu estava mesmo bem-humorada.
— Eu não quero seguir em frente. Eu queria poder resolver nossos problemas, eu juro, Isabela, juro que vou mudar. Vou ser o tipo do cara que você sonha ter ao lado. Vou deixar de ser tão ciumento, eu prometo. Juro por tudo que é mais sagrado.
Eu sorrio. É engraçado como as pessoas só resolvem ser o melhor que podem ser quando perdem seus pares. Por que ele não foi esse cara desde o início da nossa relação? Por que guardar o seu melhor apenas para os momentos de desespero? Por que o melhor acaba ficando sempre em promessas que não são cumpridas? Por que não se esforçar para conquistar todos os dias a pessoa de quem você gosta e não só quando ela se vai? Por quê? Poderia ter dito isso a ele. Em vez disso, optei pelo caminho mais simples.
— Gustavo, não dá. Ok? Eu...
Quando tentava me desvencilhar dele, fui interrompida pelo som do meu celular. Hoje eu estava mesmo muito importante. Mensagem nova. E adivinhem só? Marina.
Amiga, preciso conversar com vc! Não lembro na-da do que fiz ontem!! Onde vc foi
parar? Nem vi vc indo embora. Passei seu celular pro Evandro da academia, viu? Me
responde, perua. Beijinhos.
Então, era isso? Um achou que eu estava chorando por causa dele, a outra se fez de boba. Eu estava cercada por idiotas, definitivamente.
— Quem era? — pergunta o Gustavo.
Alguém avisa a este garoto que nós não namoramos mais? Grata.
— Sua namoradinha — implico. — Olha, eu tô atrasada pra minha aula de francês. Estamos conversados, né?
Ele tinha que ir embora da minha casa em algum momento, não era possível isso.
— Isabela, eu ainda tenho um monte de coisas pra te falar, será que não dá pra você matar essa aula só por hoje? — pede, com aquele olhar de cachorro de rua.
Querido, não vai funcionar.
— Não, Gustavo. A questão é que já te dei chances demais. Durante dois anos acreditei em “dessa vez vai ser melhor”, “agora eu vou mudar”, “daqui pra frente não vai ser mais assim”, “foi só dessa vez”, “eu nunca mais vou errar assim com você”. Perdoei mais erros que santinha de paróquia de cidade do interior. Eu cansei, C-A-N-S-E-I. Aceita que dói menos. Agora vem, vamos. Hora de ir embora. Minha mãe daqui a pouco vai chegar do trabalho e me perguntar por que coloquei o lixo pra dentro de casa — ele me encara sem acreditar no que eu acabara de dizer. — Gustavo, é uma brincadeira. Você está sentimental hoje, hein?
E, ignorando por completo o que digo, ele tenta mais uma vez.
— Você tem certeza do que está fazendo? — pergunta, enquanto segura a porta com uma das mãos, numa tentativa inútil de me convencer ali, nos seus últimos instantes.
— Tenho, como nunca tive antes. Passar bem, Gustavo. — E fecho a porta.
Ok, talvez eu tenha sido dura demais, mas é que eu não acredito que exista amizade entre ex-namorados em algum mundo, seja lá qual for. Se não foi bom como namorado, por que seria bom como amigo? Qual é, aquele cara não era capaz de perceber nem quando eu estava triste. E, poxa vida, nós, mulheres, gostamos que as pessoas ao nosso redor notem quando estamos precisando delas.
Foi assim no nosso último (literalmente) aniversário de namoro. Naquela época, meu avô, pai da minha mãe, estava há uma semana no hospital se submetendo a uma bateria de exames para saber se o seu tumor na próstata era maligno. Minha mãe estava um caco, chorava o dia inteiro pelos cantos da casa, e quando ninguém observava, abraçava a santinha que guardava na cômoda do lado da cama e pedia a ela que olhasse pelo meu avô. Era de cortar o coração, o clima na minha casa estava pesado demais. Eu sentia como se tivesse que fazer alguma coisa, ao mesmo tempo que sabia que nada que eu fizesse ajudaria. E eu odeio me sentir assim, impotente.
Então não me culpava por estar tão desanimada no dia do nosso aniversário de dois anos de namoro. Minha vontade era ficar debaixo das cobertas, no escuro do meu quarto. Mas fiz um esforço, porque sabia que o Gustavo havia reservado uma mesa no meu restaurante preferido. O problema é que ele estava agindo como se tudo estivesse bem, e isso me irritava um pouco. Tá, isso me irritava muito.
Ele sabia tudo o que estava rolando com o meu avô, porém parecia que, aos olhos dele, isso pouco importava. Em momento algum perguntou como eu estava lidando com toda aquela situação, se eu estava precisando de apoio, de um ombro para chorar. Em momento algum mostrou preocupação com o que eu estava vivendo, e isso me fez perceber que os dois anos anteriores haviam sido exatamente assim. Eu, cega, nunca notei. Foi preciso que meu avô adoecesse para eu perceber que o Gustavo ignorava o que eu sentia. Desde que eu estivesse ali ao lado dele, sorrindo, e sendo sua namorada perfeita, tudo estava perfeitamente bem. Que se danem os sentimentos, não é mesmo? Sentimentos são complicados demais. Melhor ignorá-los.
— Quer que peça um champanhe, amor? — ele pergunta.
— Não tô no clima, Gustavo. Vamos só pedir algo para comer e ir para casa ver um filme, tá? — tento desviar.
— Poxa! Mas é nosso aniversário de dois anos. Pede uma comemoração em alto estilo! Por favor, só uma taça para brindar? — insiste.
— Para mim já estamos em alto estilo.
Será que era preciso que eu escrevesse na testa “estou triste, porra” para que ele percebesse? Acho que sim.
— Nossa, você tá muito chata hoje. Foi algo que eu fiz? Por que você está assim? — Ele não pode ser mais estúpido; sempre se superando.
— Claro, claro, foi algo que você fez. Porque o mundo gira ao seu redor, né?
— Eu não consigo imaginar nenhum motivo que possa estar te incomodando num dia lindo como este. A não ser que eu tenha feito besteira. Mas tudo bem, deixa para lá. Vamos pedir nossa comida — conclui, enquanto pega o cardápio da minha mão.
Foi nesse momento que me levantei e parti em direção à porta do restaurante decidida a pegar um táxi de volta pra casa. Chega de me sacrificar em prol da felicidade dos outros, eu estava cansando disso. Seria impossível aguentar uma noite inteira ao lado de um Gustavo que achava que era minha obrigação estar feliz, sorrir e acenar, embora minha vontade fosse desabar nos braços de alguém, qualquer um que fosse, um desconhecido, contanto que me escutasse e enxugasse minhas lágrimas, por favor. Espiei por cima dos ombros e notei que ele não se movera da mesa. Continuava a ler o cardápio como se fosse um livro interessantíssimo. Olha, eu não duvidaria nada que o Gustavo sequer tivesse reparado que eu havia me levantado da mesa. Pra falar a verdade, tinha quase certeza de que ele não tinha mesmo se dado conta disso.
E, nesse instante, como se ouvisse minhas preces, dou de cara com ninguém menos que o Pedro, acompanhado de uma das suas mulheres (acho que se chamava Fabiana). Muito bonita por sinal, eu precisava me lembrar de dizer isso a ele depois. Eles estavam esperando que vagasse uma mesa.
— Ora, ora, quem eu encontro por aqui — ele fala, me puxando para um abraço caloroso que eu não tenho vontade alguma de soltar.
— Oi, Pedro, oi, Fabiana. Desculpa ser deselegante, mas já estou indo embora. A gente se fala depois.
Eu não desabaria na frente dessa “namoradinha” do Pedro. Aliás, o nome dessa era Fabiana mesmo? Eu sempre me confundia.
— Espera aí, mocinha. Tem alguma coisa errada, não?
Até o Pedro sabia que eu não estava bem em, o quê?, dois segundos? Qual era o problema do idiota do meu namorado? Ah, sim. Ele era um idiota.
— Não, eu estou ótima. De verdade, estou bem mesmo. Só tive uma discussão boba com o Gustavo, nada demais. Preciso ir para casa. Tchau, gente — digo rapidamente antes que o Pedro tenha a chance de me arrastar pelo braço.
Coisa que ele, claro, faz.
— Branquela, me diz o que tá acontecendo? — insiste.
E eu não sei o que foi, se foi o timbre suave daquela voz tão conhecida, ou se foram os olhares piedosos da Fabiana pra mim, eu desmontei. Como sempre, publicamente, sem vergonha alguma de parecer ridícula.
— Ah, Pedro. Eu não aguento mais. Simplesmente não aguento. Eu queria que o Gustavo fosse um cara legal, e eu acreditei que ele seria capaz de se tornar esse cara. Mas ele não consegue ver nada além do próprio umbigo. Hoje eu tô aqui supermal pelo meu avô, que está doente, e ele está mais preocupado com o champanhe que vai pedir! Não dá! Eu devo ter feito alguma coisa muito errada na minha outra vida pra merecer isso. Será que é tão difícil se importar com as outras pessoas? Não é possível!
Nesse momento a tal Fabiana já tinha encontrado uma amiga e não ouvia nada do que eu dizia. Ufa! Porque, como de costume, eu já estava chorando.
— Ai, Pedro… qual o meu problema? Por que tudo tem que ser sempre tão complicado?
— Não tem que ser. Você é que gosta de complicar.
— Claro que não.
— Claro que sim. Você já sabe o que deve fazer e fica aí adiando… — afirma ele, me encarando com aqueles olhos azuis.
— Eu… eu… é. Preciso ir, Pê. Não vou ficar chorando aqui no meio de todo mundo.
— Quer que eu te leve? Vem, vou te levar.
— Não precisa. Eu vou andando, é bom que eu penso um pouco. A Fabiana tá te esperando.
— Eu insisto. Vem, teimosa. Vamos pra casa. Hoje eu vou ser seu escudeiro. A Fabiana nem vai se importar, né? — ela faz que não com a cabeça, e eu deixo que os braços dele me envolvam.
Esqueci de dizer, eu não havia contado pro Pedro sobre o meu avô. É que, sei lá, eu sabia que ele ficaria preocupado e largaria tudo o que estava fazendo só para me ajudar. Como ele fez. E eu não queria isso. O Pedro tem a vida dele, eu tenho a minha. E eu precisava tentar superar meus problemas sozinha, sem envolver ninguém. Acho que nesses momentos caberia ao Gustavo todo esse lance de apoiar. Qual é, não é tão difícil assim. Mas foi o Pedro que notou quão miserável eu estava. E isso acabou comigo.
• • •
Incrível como o Gustavo não sabia que quando eu ficava muito quieta é porque estava triste. Nem que se eu tinha vontade de ir embora de algum lugar é porque estava com vontade de chorar. Nem que eu tinha tremores durante a noite por causa dos meus pesadelos. Nem mesmo que eu tinha uma cicatriz na mão direita, fato que ele percebeu apenas depois de um ano de namoro, e só porque contei. O Gustavo simplesmente não se importava. Descobrir que a pessoa que está contigo não se importa com você a ponto de nem conhecer as suas reações e sentimentos é frustrante. Eu demorei a me dar conta, verdade.
Mas nunca é tarde demais para tirar da sua vida pessoas que só fazem figuração. Pessoas que nunca participam das cenas principais, nunca participam dos seus melhores sorrisos, das lágrimas mais sinceras, dos gritos que libertam. Tenha a seu lado somente aqueles que tornarão o seu filme inesquecível e único. Não insista em dar oportunidade àqueles que já tiveram inúmeras chances e as desperdiçaram todas as vezes. Chances não devem ser jogadas no lixo como se fossem descartáveis. Para os capazes, apenas uma chance basta.
E é por isso que o Gustavo não tinha qualquer chance comigo. Não mais.