Não Se Apega, Não
3. Mudanças não precisam ser drásticas para significar alguma coisa
É, chega de enrolação. Hora de encarar a vida com a cabeça erguida e aceitar que agora eu estou... sozinha. Sozinha. Solteira. Desquitada. Mal-amada. Qual o problema de ficar sozinha, não é mesmo? Não ligo. Não ligo mesmo. Isso não me incomoda nem um pouco. Sou uma menina-quase-mulher madura, qual é? Tenho 22 anos, finalmente. Vinte e dois anos. Já posso dizer por aí que banco as minhas atitudes e todas as suas consequências (porque elas sempre vêm, ah, vêm).
Sou uma garota normal, normal até demais. Minha pele é alva como uma parede pintada de branco (obrigada pela melanina que vocês não me deram, pais…), os cabelos lisos, escorridos, boi-lambeu, sem graça, que não suportam uma tiara sequer, os olhos castanhos, como eu já disse, são bem normais mesmo, a altura eu ainda tenho esperanças de que aumente, e o meu corpo não é magro, nem gordo, nem malhado. É normal. É, eu até que sou bem normal quando não se trata de relacionamentos.
Fazer 22 anos não me mudou em nada, na verdade, foi um saco. Porque todo ano você pensa que assim que der 0h do dia do seu aniversário tudo vai mudar. De repente, você vai se tornar aquela mulher madura e sedutora que vemos nos filmes, vai impor respeito e olhar pra todo mundo de modo firme e convicto, a aura de mulher moderna se iluminará, todos os garotos vão notar que agora você é decidida, já sabe o que quer… Mas não; 0h01 e você ainda é a mesma garota chorona de quando tinha quinze anos. Ainda é a mesma garota indecisa de horas atrás. Sobre as inseguranças, nem se fala. Você ainda é a mesma.
Uma coisa que me incomoda em mim é a tal da indecisão. Eu nunca sei se estou no caminho certo e, se estou, se quero seguir esse caminho, ou, se não estou, pra onde devo me direcionar e, caso descubra pra onde, se quero mesmo ir. Entende? Eu sei que não. É difícil entender.
Então, sempre que me vejo diante de uma situação ou diante de um provável “romance”, acabo dizendo que ele é o “amor da minha vida”. Porque vai que dizer atrai, né?
Como aquela vez em que cismei que estava apaixonada pelo meu melhor amigo de infância, o Fernando. Pois é, minha vida sempre foi um clichê, do começo ao fim. Não que ela tenha chegado ao fim, bem, você entendeu. É que meu melhor amigo de repente esticou, começou a malhar e — foco — teve os primeiros pelos de barba crescendo por todo o rosto. E o que isso tem a ver com minha paixão repentina? Não é óbvio? O cara já era meu melhor amigo, já tinha me visto de pijama de flanela, acordando de cara amassada, e ainda assim não tinha fugido pra bem longe. Sem contar que eu bem reparava que todas as vezes que saíamos juntos ele me lançava olhares nervosos e tímidos. Como se esperasse encontrar olhares apreensivos em troca. Era ó-b-v-i-o que ele era o amor da minha vida. Eu sabia, sabia. Esse lance de se apaixonar pelo melhor amigo não era coisa de filme, estava acontecendo comigo. Ai, que lindo! Não era lindo? Na próxima festa de quinze anos, ele me tiraria para dançar ao som de “Iris”, do Goo Goo Dolls, dançaríamos coladinhos e, antes do fim da música, ele me beijaria.
Os acontecimentos que viriam em seguida estavam claros em minha mente: namoraríamos, eu seria a melhor amiga da irmã mais velha dele (já estava trabalhando nisso), conquistaria seus dois poodles antipáticos (juro que me esforçaria, talvez levasse uns biscoitinhos caninos de vez em quando), faria com que minha mãe acreditasse que ele, sim, era meu príncipe e ele se tornaria o melhor amigo do meu pai, arrisco dizer que jogariam futebol juntos e assistiriam aos jogos do Flamengo no Maracanã, lado a lado. Mesmo que meu melhor amigo fosse vascaíno doente. Quem ligaria? Ele ainda podia mudar de time. Sim, sim, estava escrito. No Filme da Isabela esse era o desfecho, o momento crucial, o ponto de partida de uma linda história de amor.
Até que, um belo dia, tivemos nosso primeiro beijo (eu disse belo? Foi horrível), que não foi ao som de “Iris” coisa nenhuma, foi na escada de emergência do prédio do Fernando, ao som de pedreiros batendo martelo no edifício ao lado. E não, não foi mágico, eu não vi passarinhos voando e, só para constar na ata, ele beijava mal demais. O safado ainda arriscou passar a mão na minha bunda, onde já se viu isso? Cadê o romantismo? Cadê o respeito? Cadê a magia? E, bem, mais uma vez o Filme da Isabela estava com o roteiro errado. (Eu já expliquei o que significa Filme da Isabela? Não? Ah, é o nome que alguns amigos deram para minha vida. Acredita? Não que minha vida seja parecida com a de um filme, porque não é, NÃO MESMO, mas tenho amigos que zoam assim da minha cara. Nem eu acredito.)
• • •
— E então, Isa, terminou mais um namoro? — Pedro puxa o assunto proibido.
Sempre o Pedro, inconveniente. Estávamos na praça de alimentação do shopping Metrópole e, enquanto ele esperava a senha pra ir buscar seu sanduíche, resolveu matar o tempo me enchendo o saco. Claro, por que não? Nesse dia, estava um sol tão bonito que eu quis dar um passeio, rever alguns amigos e, quem sabe, conhecer uns rostinhos novos. Era pra ser um dia feliz e tranquilo, porém, foi só eu colocar os pés na rua pra alguém começar a me irritar.
E olha que o Pedro Miller é o meu melhor amigo. A gente se conhece há quatro anos. Ele também tem 22, como eu. Os cabelos, cuidadosamente despenteados e rebeldes, fazem um conjunto perfeito com a barba malfeita. Os olhos azuis sempre parecem tristes, e eu nunca sei direito o motivo. Ele é malicioso e descarado, faz um daqueles tipos que você olha de primeira e já sabe que vai ser conquistada com um sorriso branco. Não eu, claro, mas as meninas bobinhas de que o Pedro gosta de dar em cima. Ah, gosta muito.
— Há-há. Muito engraçado — retruco e finjo dar um gole no meu suco de laranja, embora o copo já esteja vazio.
— Fala aí, conta pra gente como é que foi desperdiçar mais dois anos da sua vida tentando transformar um babaca em príncipe encantado...
O Pedro tinha o dom de enfiar o dedo na ferida. Não apenas enfiar, mas só tirar o dedo de lá quando sangrasse bastante. Belo amigo o meu, belíssimo.
— Olha, Pedro, foi muito legal. Avancei muito nesse ponto, se é isso que você quer saber. E ele não é babaca — respondo, revirando os olhos e exalando cinismo.
Por que as pessoas insistem em falar de relacionamentos o tempo todo? Será que não podem superar o vício de focar nesse assunto? É sempre assim. Você começa a sair com uma pessoa e, em pouco tempo, já está farta de perguntas como: “E aí? Como vocês estão? Ele beija bem? Está apaixonada? Quando vão assumir?”. Você termina e tem que aguentar os “você tá bem? Ele te procurou? Tem te mandado mensagens? Será que já está com outra?”. Que saco! Tudo bem que eu também adoro falar sobre isso, eu vivo falando de relacionamentos, no entanto sei respeitar o espaço dos outros. Ou pelo menos acho que sei.
Como se estivesse lendo meus pensamentos, Pedro completa:
— Tô brincando, bobona. Você se irrita muito fácil. Eu sempre te falei desde que você conheceu o Gustavo que ele não era o cara pra você — diz, enquanto olha para os lados, apreensivo.
Ele devia estar com medo de encontrar alguma de suas ficantes loucas por ali.
— Tá, Pedro, eu não preciso que você jogue pela milésima vez na minha cara tudo aquilo que eu já sei de cor e salteado. Não tem necessidade. E, faz um favorzinho, quando você for lá pegar o seu sanduíche, pede mais um suco pra mim porque hoje tá fazendo um calor que vou te contar...
— Vai com calma, princesa. No Filme da Isabela só pode tomar UM suco... não dois — zomba.
Recomeçara o teste de paciência.
— Que dia vocês vão parar com essa bobeira de Filme da Isabela? Sério! Já cansou. Nem tem graça — digo, fazendo força para não parecer afetada demais.
Não faça beicinho, não faça beicinho. Às vezes me esqueço de ser adulta, quer dizer, esqueço de tentar parecer adulta. Porque de adulta, olha, eu não tenho é nada.
— Ah... É engraçado te ver estressadinha com isso — se mete a Amanda.
Amanda Akira é minha melhor amiga. É filha de mãe brasileira e pai japonês. A mais nova da turma, 21 anos, porém a mais inteligente. Era ela a responsável pelas nossas notas altas na Faculdade de Direito (que minha mãe nunca saiba disso!). Tem os cabelos pretos, compridos e lisos. Os olhos repuxados parecem sempre sorrir para você. Adora games, animes, e gosta de se vestir com blusas de bandas que só ela curte. Hoje, em particular, a blusa era do Ratos de Porão.
Nós três, certamente, éramos o grupo mais improvável de todos. Pedro, o superpopular, garanhão, bonito e desleixado, sonho de todas as garotas. Amanda, a japonesa nerd, com seus óculos de fundo de garrafa. E eu, bem, eu era aquela loirinha estranha que estava sempre se dando mal quando o assunto era amor, porém, por algum motivo, ainda acreditava em finais felizes.
— Até você, Amanda? Que saco! Eu nem me lembro do dia em que falei sobre isso com vocês — digo, tentando disfarçar o fato de que, sim, eu me lembro muito bem de tudo que falo aos meus dois melhores amigos.
— Não se lembra do que disse pra gente naquele dia do sítio? Que sua vida era um filme? Eu lembro muito bem. Quer que te conte mais uma vez? — implica Pedro.
Ai, Pedro, por que insisto em ser sua amiga? Juro que se eu não estivesse morrendo de sede, teria desfeito a amizade ali mesmo.
— Não precisa, já lembrei.
— Agora é que eu vou contar mesmo…
E mais uma vez ele passou longos e lentos minutos discorrendo sobre o dia em fiquei podre de bêbada. Eu já disse que não bebo? Então, eu não bebo. Pelo menos não com frequência. Só coloco álcool na boca quando tem um evento muito importante, seja bom ou ruim. Aconteceu que, num certo final de semana, nós três viajamos pro sítio da família da Amanda. Tínhamos acabado de terminar o sétimo período da faculdade, e eu juro que ia ficar louca se visse mais uma apostila de Processo Civil na minha frente. Eu estava há um mês sem conseguir dormir direito de tanta ansiedade; deitava na cama, revirava, sonhava que tinha sido reprovada, que nunca conseguiria passar; depois, que estava desempregada, com quatro filhos pra cuidar, um marido que batia em mim e, claro, sem um diploma universitário.
Depois que fizemos a última prova, a minha rotina era basicamente acordar, entrar no site da universidade, deparar-me com um belo “nada ainda” e voltar a dormir. Eu gosto de dormir para fugir dos problemas, sabe? Já estava ficando insuportável lidar com tanta ansiedade quando, finalmente, saiu a nota, e lá estava eu! Passando exatamente com a nota que eu precisava. Ufa! Obrigada, Deus; obrigada, mãe; obrigada, Amanda, pela cola de cada dia. Eu não sei o que seria de mim se eu fosse reprovada naquela matéria, ela era simplesmente terrível. Porém, todas aquelas noites maldormidas valeram mesmo a pena e eu estava muito satisfeita com o meu sete. Por isso, assim que a Amanda me ligou convidando para passar dois dias relaxantes no sítio dela, não tive dúvidas, topei de cara. Tomei um banho, passei um corretivo para disfarçar as enormes olheiras, joguei o guarda-roupa inteiro na mala e parti em direção a um final de semana que deveria ser de descanso.
Deveria. Já que o Pedro teve a bela ideia de levar algumas garrafas de tequila, tequila esta que me fez confessar, em voz alta, todas as coisas que eu sempre guardei só pra mim. Resumindo? Eu abri o coração para meus dois melhores amigos da forma mais ingênua, boba e embriagada possível. Bêbada de sono, bêbada de ilusão, bêbada de amor. Isso aconteceu uns dias após eu surtar e terminar de vez meu namoro com o Gustavo.
Já era noite e estávamos sentados no gramado. Havia lua cheia e, não sei por que, eu amo noites de lua cheia. O Pedro havia acendido uma fogueira e nós estávamos tentando cozinhar uns marshmallows no fogo, que mal ficava aceso com o vento que insistia em bater. Essa reta final da faculdade estava deixando todo mundo maluco. Um sufoco. Não levou muito tempo e começamos um papo quente sobre quem estava pegando quem e, até aí, nenhuma novidade. O Pedro sempre tinha umas quatro ficantes fixas, isso era meio que o mínimo pra ele. A Amanda tinha o seu namorado perfeito, o Victor. O Fabinho da nossa sala finalmente declarara seu amor pela Juliana, e eles estavam ficando havia umas semanas. E eu, com mais um relacionamento terminado. E tudo ia bem, ia muito bem.
O Pedro não parava de me empurrar shots de tequila — “Pela prova de Processo Civil!”; “Pelo Gustavo, que deve estar chorando neste momento!”; “Pela mensagem da Gabriela que eu nem respondi!...”. E, quando vimos, já haviam sido várias homenagens e nós estávamos na segunda garrafa. Começamos a contar histórias de ex-ficantes, e saía tanta bizarrice que, sinceramente, eu não sabia mais qual era o problema do mundo.
— Gente, por que eu não consigo ser feliz? Pedro, você que é homem, me fala qual é o meu problema?
— Não tem problema nenhum, Isa. Você é uma garota normal, só que fez algumas escolhas erradas. No seu caso, olha, eu diria que você escolheu as pessoas erradas — ele tenta me acalmar, só que sempre dando uma provocadinha.
— Não, Pedro. É sério. Fala a verdade, pode falar. Eu sou uma namorada ruim? Quer dizer, não que você tenha me namorado, mas você acha que eu seria uma namorada, sei lá, chata, insuportável? Eu tenho bafo? Nossa Senhora! Será que eu tenho BAFO?
— Cala a boca, Isabela, pelo amor de Deus... — diz Amanda, em meio a mais uma gargalhada frenética. — Você só arruma idiota. É por isso. Parece que faz de propósito.
— Faço nada.
Ou será que fazia?
— O que explica então você aos quinze anos ter namorado um garoto que parecia o cover do Bob Marley? Por Deus, Isabela, ele tinha DREAD no cabelo. E você nem gosta de reggae. Aquele ali estava longe de ser o cara pra você.
A Amanda sempre estava certa. Como pode isso? Preciso me lembrar de nunca perder a amizade dessa japa, nunca mesmo. Ela sempre me aponta o caminho certo, não que eu seja uma pessoa que goste de escutar conselhos. Porque não gosto. Mas é bom saber que a voz da sabedoria é sua melhor amiga.
— Ele era legal e me fazia rir... Eu gostava dele.
Depois que disse isso em voz alta me achei meio abobalhada. Me fazia rir? Quer dizer que para me namorar o cara precisava me fazer rir? Era só isso? Bem, isso pelo menos justificava o fato de eu só ter me relacionado com palhaços. Há-há-há. Fazer piada com a minha própria vida, um hobby.
— Eu sou legal e te faço rir. Mas isso não faz de mim o cara ideal para você — se mete Pedro.
Não sei por quê, tive a impressão de que ele duvidava do que dizia. Em contrapartida, eu estava tonta demais para perceber o que quer que fosse.
— Verdade. Até porque eu não suportaria essa sua mania de vidente e de sempre dar uma de sabichão sobre o que se passa aqui dentro. Ou, pelo menos, achar que sabe o que tá acontecendo... — digo, com a voz esganiçada, gesticulando muito. — Você não sabe de nada.
Enquanto a Amanda era a voz da sabedoria, o Pedro parecia desvendar sempre o que eu tentava esconder. Mesmo o que eu não admitia em voz alta ele simplesmente sabia. E isso me assustava, não porque o Pedro tivesse alguma influência desenfreada sobre minha intimidade, ou sei lá o quê, e sim por causa da sua estranha capacidade de enxergar o que eu estava pensando; ele sabia, sabe-se lá como, que eu não era tão firme quanto aparentava — e tentava — ser.
— Isa, eu te conheço mais do que você pensa. Quer ouvir algo sobre você que vai te deixar de cara?
— Ih, olha ele! Hum... Você tem uma chance. Vamos lá, manda ver.
— Você só se relaciona com caras “errados” porque tem medo de encontrar o cara certo. Você tem medo de se apaixonar, no nível de se perder completamente, e tem mais medo ainda de gostar disso. Você se entrega de corpo e alma a casinhos que você mesma sabe que são impossíveis, você gosta da sensação de tentar o impossível. E então você fracassa, dá mil motivos para reclamar da vida. Coisa que você também gosta, e muito, de fazer — ele suspira e continua. — Você não é tão forte como gostaria de ser, e eu sei muito bem disso. Todo esse lance de começar e terminar te consome aos poucos. E você só quer um pouco de paz… Mas tem medo, muito medo disso...
— Nossa, cala a boca, Pedro — começo a falar. — Não tem nada a ver... Eu… Medo… de ser feliz? Há-há.
Ele me encara como quem insiste dizendo: “Tem certeza?”. Não sei se é seu olhar de piedade, ou o meu coração pedindo para gritar, mas resolvo falar de uma só vez.
— Ah, quer saber? Você tá certo, Pedro. Eu sou o motivo da minha própria infelicidade, claro que sou. Sou mesmo. Além de tudo isso eu sou uma louca, lunática, daquelas que se autossabota só pelo prazer de sofrer mais um pouquinho. Eu amo sentir dor. Eu amo me decepcionar. E eu morro de medo de encontrar alguém que não me faça sentir assim. Porque com a dor eu já sei lidar, mas e com a felicidade? E quando finalmente eu a encontrar? O que fazer com ela?
— Isa… — ele tenta me interromper.
— A verdade é que não é bem assim, eu quero desesperadamente encontrar alguém que mereça ver todo o lado bom que eu escondo só para mim. Essa casca de mulher forte, que supera rápido, e que não está nem aí para rompimentos? Tudo teatro. Eu sou frágil. Muito frágil. E eu só queria que minha vida fosse um pouquinho como nos filmes, para que eu não precisasse me quebrar em mil pedacinhos e ter um trabalhão para construir tudo de novo.
E caio no choro. Pronto. Sem motivo aparente nem música sentimental de fundo. As lágrimas não escolheram o melhor momento pra cair, afinal, elas nunca escolhem. Abri o maior berreiro em meio aos abraços da Amanda e os olhares assustados — ou melhor, culpados — que o Pedro me lançava. Assim que recuperei o fôlego, danei a tagarelar, discorri por meia hora sobre como gostaria que minha vida fosse linda como um filme. Que eu só queria encontrar um cara que me entendesse, que me tratasse como eu imaginava que merecia ser tratada. Eu disse em voz alta, por Deus, EM VOZ ALTA, que meu sonho era me apaixonar loucamente por alguém. Que eu planejava todo santo dia o instante em que iria encontrar aquele cara que faria meu coração se incendiar até não restar nem mais uma cinza para contar história. Contei sobre meus planos de me casar ao som de “Hallelujah”, na praia, tendo ao fundo o pôr do sol. Eu contei tudo, tudinho. Todas aquelas besteiras que nós, pobres garotas, tentamos esconder do mundo inteiro. Mas, tudo bem, eles eram meus melhores amigos, então que mal poderia sair dessa minha confissão? Se eu soubesse que depois disso se criaria a expressão Filme da Isabela, juro que não teria bebido tequila alguma. A culpa era da tequila, claro que era.
O álcool nos faz delirar, nota mental.
— Tá legal, Pedro. Muito engraçado, quer uma salva de palmas? — pergunto, quando ele termina de contar a história, em meio às gargalhadas da Amanda.
Eu até que achava a história engraçada, porém não daria o braço a torcer.
— Só se estiverem no roteiro do seu filme. Me diz, os aplausos estão no roteiro? — ele ironiza.
— Tão sim, assim como a ligação que eu vou fazer agorinha pra sua “namorada” contando sobre a Renatinha do segundo andar, caso você não pare com essa implicância desnecessária com a minha pessoa neste exato minuto — declaro, enquanto enfatizo as aspas no “namorada”.
É que o Pedro sempre tem aquela garota que é a oficial do momento, aquela que ele apresenta pros amigos e quem sabe até para a família. O que não quer dizer que ele deixe de se encontrar com outras, ah, não, não. Isso nunca.
Espio com o canto dos olhos e Amanda se delicia com o comentário.
— Opa, pegou pesado — ela grita, levantando o copo e brindando sozinha. — Essa eu quero ver!
— Parou, parou, parou... — Pedro resmunga entredentes, tentando em vão tirar o celular das minhas mãos. — Agora é sério, branquela, é normal não saber o que se quer da vida aos vinte e poucos anos. Eu também não sei, mas não tenho pressa nenhuma em descobrir. Você é que tem essa mania de querer tudo rápido demais… Deixa acontecer. Porque um dia acontece. Vai por mim.
É verdade. O Pedro tinha razão, e eu sabia disso. Eu não sei o que quero ou espero da vida. Sinto-me como se estivesse sempre perdida, cega, e sem saber que direção seguir. Qualquer pessoa que me dê a mão e me guie por alguns passos já se torna meu anjo-protetor-obrigada-por-me-salvar. Isso justifica a constante troca de namorados que acontece na minha vida. Também explica o fato de eu idealizar o príncipe encantado até no padeiro da padaria próxima. Eu procuro desesperadamente pelo amor, sem saber que o amor não vem para quem procura. O amor só vem para quem já o encontrou. É. O amor-próprio, ele mesmo. Aquele amor que está em falta nas lojas de todo o país. Do mundo. Talvez até do universo.
Então, qual o problema de terminar mais um namoro? Eu deveria ser uma mulher que sabe encarar as consequências das decisões. Tudo bem que encarar as consequências se tornaria mais fácil se eu tivesse alguém do meu lado me dizendo que sou linda, que tudo vai ficar bem e... não. Para com isso, Isabela. Pelo menos uma vez na vida você precisa parar com essa mania de substituir os vazios do coração com qualquer um que aparece. Coragem, não deve ser tão difícil assim. Por que temos tanto medo de ficar sozinhos? Essa pergunta não saía da minha cabeça.
Voltei pra casa desolada. O que estava acontecendo? Eu tinha que dar um jeito de me sentir melhor nessa nova fase, precisava mudar (o cabelo não, NUNCA), e isso estava me parecendo uma missão mais difícil do que eu imaginava quando começara a amadurecer a ideia de dar um fim no Gustavo. Não acreditava que estava sendo tão cobrada por mim mesma, pelas minhas próprias atitudes.
• • •
Era quarta-feira. Quando acordei, nem olhei pro celular. Checar as mensagens nunca me pareceu tão monótono. Não tinha nada. Nada. Nenhuma mensagem importante, nenhuminha. Só uma amiga perguntando:
QUAL A BOA DE HOJE? :D
Isso é tipo um código dos solteiros? Um cumprimento descolado? Algo que as pessoas solteiras dizem quando o fim de semana começa a aparecer no fim da estrada? Hoje era quarta-feira, como assim a “boa de hoje”? Hoje era dia de estudar, malhar e dormir. Já disse quanto eu amo dormir? Não entendo como os solteiros conseguem ter animação para sair em uma quarta-feira. Bem, por via das dúvidas, respondi: “Não sei, me diga você”. Será que fui descolada o bastante? Des-co-la-da. Até o meu vocabulário parece de uma avó de sessenta anos. Preciso melhorar isso também. Epa, celular tocando. Era a Marina, minha-amiga-que-tá-solteira-há-seis-anos-e-tá-quase-morrendo-de-felicidade-que-agora-eu-estou-solteira-igual-a-ela.
— Oi, amiga! Animada pra hoje? — diz, efusivamente, do outro lado da linha.
Eu já mencionei que ela é sempre muito pra cima? Pois é.
— O que tem hoje? Hã... Eu tava pensando em ficar em casa, dar uma adiantada nas matérias e...
— Tá louca?! Hoje é dia de sertanejo universitário lá naquele galpão perto da faculdade. B-o-m-b-a, menina. Você precisar ir! Pre-ci-sa.
Ela adora falar pausadamente para dar ênfase nas palavras que considera mais importantes. Uma peça rara.
— Hum, eu não gosto de sertanejo universitário. Você sabe.
Eu realmente odiava esse novo estilo musical que tocava em todo lugar.
— E daí? Eu também não gosto. Mas vai estar cheio de gatos! E o Evandro vai estar lá!
Eu deveria saber quem é Evandro. Sinto isso.
— Evandro, quem?! — pergunto.
— Ai, amiga, você vive no mundo da lua. O Evandro, aquele gatíssimo da minha academia que eu disse que estava louco pra te conhecer — esclarece.
— Ah, esse. Verdade — digo, meio decepcionada.
Minha vontade era dizer a ela que eu não queria conhecer Evandro nenhum, quem esse cara pensava que era? Ele queria me conhecer? Quem disse que eu queria conhecê-lo? Assim que uma pessoa fica solteira ela é exposta como se estivesse em uma vitrine. Aproveitem! Aproveitem! Terminou o namoro semana passada! É como se fosse um produto novo no mercado, aquele celular de última geração que ninguém tem ainda. Ficar solteira de uma hora para a outra é como ser a novata em um colégio. Já repararam que as novatas sempre ganham atenção especial? Elas sempre serão mais bonitas, mais interessantes e mais namoráveis que as garotas que sempre estiveram por ali. Claro, isso por um tempo determinado. Até aparecerem outras novatas. É a mesma coisa com as solteiras.
— Amiga? Tá na linha ainda? — escuto a voz da Marina interrompendo meus pensamentos.
— Oi, desculpa. Tô sim. Então… Err… combinado, te encontro lá às nove?
— Yay! Combinado!
Não sei por que aceitei ir a essa festa, eu sabia que não ia gostar. Mas eu precisava mesmo de uma distração, não aguentava mais encarar o olhar de piedade da minha mãe. Acontece que, diferentemente de mim, minha mãe é muito conservadora. É o tipo da mulher que insiste no que acredita ser o certo, e mesmo quando descobre que não é o certo insiste, pois tem medo de grandes mudanças. Deve ser por isso que moramos na mesma casa desde que me entendo por gente. Lembro-me de que convencê-la de que pintar as unhas de vermelho era algo bonito foi um sacrifício. Só pintava as unhas de branco. Brincos grandes e brilhantes? Não, sempre discretos. É, minha mãe é mesmo uma mulher discreta. Daquelas que sorriem com a mão na boca, sempre mantêm a elegância ao discutir com alguém, e nunca, repito, nunca parecem estar com um fio de cabelo fora do lugar. Sua vida é organizada em horários que ela cumpre pontualmente, e ela nunca ousa sair do planejado.
Planejamento, horários, metas. Será que teria como eu ser um pouquinho mais oposta à minha mãe? Sou inconsequente, não sei lidar com hora marcada (exceto em encontros) e adoro me surpreender. Nada como um imprevisto que te tira do rumo, te faz mudar de estrada, pegar o atalho. Foi isso o que aconteceu quando decidi terminar meu namoro. Larguei a estrada que estava percorrendo por quilômetros e peguei um atalho esburacado. Claro que minha mãe não conseguia entender o porquê. Gustavo Ferreira? Filho único de uma das famílias mais tradicionais de Juiz de Fora? O garoto de aparência impecável que parecia ter caído do céu havia poucos minutos? Não, não. Isso estava além da capacidade de controle e do ideal de perfeição dela. E eu preferia deixar dessa forma. Não adiantava, ela nunca entenderia os meus motivos.
— Mãe, estou indo encontrar as meninas da faculdade, ok? Tenho uma festa hoje — aviso e dou uma última conferida no espelho.
Acho que eu já havia emagrecido uns dois quilos. Até que esse lance de ser solteira estava me fazendo algum bem, finalmente. Resolvi tirar a maquiagem da gaveta, afinal, era o meu primeiro dia oficial de solteira-na-balada e isso requeria um make bem especial. Mesmo que eu não gostasse disso, era hora de aparecer e ser vista. Eu tinha certeza de que a notícia do meu término já correra a cidade e precisava estar à altura pra não deixar o bafafá me pôr pra baixo. Passei delineador nos olhos e esfumei uma sombra preta. O rímel bem caprichado, um pouquinho de blush. Agora, sim, uma nova garota. Na boca, um batom vermelho. Dei uma analisada em mim mesma. Vestidinho preto, ok. Cabelos soltos, ok. Maquiagem bem pesada, ok. Eu parecia mesmo estar empolgada com todo esse lance de ser solteira. Parecia.
— Festa? Quarta-feira? Filha... — E ela me olha com aquele olhar de piedade.
Argh.
— É, mãe. Festa na quarta-feira. Bem-vinda ao século XXI.
— Você sabe que eu não gosto nada disso. E precisa dessa maquiagem toda?
— A-hã.
— Não tem uma roupinha mais discreta? Onde tá aquela saia mais compridinha que eu te dei de Natal?
— Ai, mãe, nem sei, eu quero ir assim, por favor! Me deixa.
— Olha, Isabela, vai lá. Não quero me chatear com você, tudo bem, se divirta. Só não se esqueça de...
— Nunca aceitar bebida de estranhos, não dar bola pra caras que eu não conheço e blá-blá-blá. Relaxa, mãe. Não é porque estou solteira que vou sair fazendo feio por aí. Ainda sou a mesma pessoa, eu, hein!
E me despedi rapidamente antes que qualquer outro conselho saísse de sua boca.
Sabe quando você sai de casa com o estômago embrulhado? Eu estava assim. E não era nervoso, ansiedade, nem coisa alguma. É porque eu tinha certeza de que não ia gostar, quer dizer, sertanejo? Verdade que as pessoas gostavam disso? Sem contar que músicas sertanejas são melosas e dramáticas demais, e de dramática já bastava eu. Ainda tinha o fato de que a Amanda não estaria lá, nem o Pedro. Só a Marina. A Marina era o tipo de “amiga” que substituía meus dois melhores amigos quando eles não podiam estar por perto. Não éramos lá muito íntimas. E, ultimamente, ela era minha única companhia, já que o Pedro embarcara havia dois dias para passar um tempo fazendo intercâmbio na Austrália, e a Amanda estava namorando e não poderia me acompanhar nos meus programas de recém-desquitada. De que adianta ter amigos se quando você precisa deles um está do outro lado do oceano e a outra, trocando beijos apaixonados com um cara por aí?
Dei uma conferida no celular, nada. Meu ex estava muito silencioso, será que tinha se conformado com o término? Ou estava fazendo isso só para ver até onde eu ia? Coitado. Eu não ia voltar atrás, não mesmo. O silêncio dele, porém, me incomodava, e eu não sabia por quê. Ou sabia, sei lá. Será que ele já estava com outra? Não é possível. Seria uma tremenda cara de pau da parte dele. Que tipo de amor é esse que se supera rápido assim? Tudo bem, respira. Nada de Gustavo por hoje. Você precisa se divertir. Mesmo que se divertir signifique ir a uma festa sertaneja com sua amiga efusiva que quer te apresentar a um tal de Evandro da academia. Meu Deus, essa vida de solteira não era mesmo pra mim.
Cheguei na porta da festa e lá estava ela, a Marina. Ela é linda, sério. Ela é uma morena cor de jambo, de olhos verdes e lábios carnudos. Hoje ela estava com um top branco, que deixava seu abdômen malhado à mostra, e uma saia vermelha bem curta e justa. Nos pés, os seus inseparáveis saltos plataforma. Por que será que tenho a impressão de que a Marina conhece todos os caras solteiros da cidade? Às vezes me perguntava se o motivo de ela nunca namorar firme era porque já tinha ficado com todos os garotos disponíveis. Será que ela não se cansava, ou sei lá, não se confundia no meio de tantos nomes e rostos? Eu certamente me confundiria. Até hoje não decorei o nome do meu professor de Direito Civil, e olha que ele me dá aula há três longos anos. Memória seletiva, sabe como é.
Tento chamar a atenção dela para que se separe do seu grupinho e venha falar comigo discretamente, mas...
— Isabela! Gente, essa é a Isabela, minha amigaça, a que eu estava falando pra vocês. Ela ficou solteira há pouquíssimo tempo! Não é demais? — anuncia, enquanto joga os cabelos de um lado para o outro supondo um charme que mais se parece com um comercial de xampu. — Isabela, fala oiii para os meninos. Deixa eu te apresentar, Evandro, Fabinho, Lucas e Márcio. Eles malham comigo.
Pronto. Todos os olhos estavam em mim e eu não gostava nem um pouco disso. Sabe aquele lance do cachorro de rua que observa o frango assado no assador? Então. Só que o frango assado era eu, e eles estavam mais para lobos famintos que não comiam há meses. Já estava me arrependendo por ter ido de vestidinho curto. Sabia que deveria ter colocado uma calça jeans ou a saia que minha mãe me deu, mas... Qual é? Minha primeira noite solteira. Eu queria me sentir bem e bonita.
— Ah, oi, gente. Prazer. — Me viro para a Marina: — Vamos entrar?
E puxo a minha amiga para a frente, para ninguém escutar o que eu falaria em seguida.
— O que você acha que está fazendo? Eu não quero que você fique me apresentando como um produto toda vez que eu chego nos lugares. Dá pra parar com isso?
— Ih, amiga, sai dessa noia.
— Noia? Eu? Olha, esquece. Só não faz mais isso, ok?
— Ok, ok. Calma. Bebe um drinque e relaxa que a gente só sai daqui muito bem acompanhada, anota o que eu tô te falando, a noite promete.
O problema era este: prometer e não cumprir.
Entramos na festa e fomos direto ao bar. Não sei por que esses cardápios têm uns nomes tão esquisitos. “Azul dos olhos teus”, isso lá era nome de bebida? Tão mais fácil colocar “bebida azul”, ou então, “aquela-bebida-que-te-deixa-feliz-mesmo-sem-você-estar”. “Me vê duas dessa, por favor.” Às vezes tenho a impressão de que as pessoas só bebem para aguentar a solidão, ou escapar dela. Eu, pelo menos, só bebia nessas ocasiões. Ou quando, de repente, queria confessar que tinha o sonho de que minha vida fosse um filme.
Sempre gostei de ir a festas para observar as pessoas, não que eu precisasse estar em uma festa pra fazer isso. Eu sempre fazia isso. É que em festas, geralmente, as pessoas agem de uma forma peculiar. Fingem sorrisos, felicidade, amizades e, em alguns casos, até amor. Sensacional, tudo que eu precisava. Mais um pouco de falsidade na minha vida. Eu observava um casal discutir a relação no meio da pista e me pegava imaginando se o culpado seria o garoto que vestia calças quase nos joelhos ou a garota que borrava o rímel em meio às lágrimas e, opa, de repente sinto uma presença se materializando ao meu lado. Ah, não, era o tal do Evandro. Lá vamos nós.
— E aí, tá gostando da festa? — começa ele, dando uma sacada geral em mim.
Nossa, ele era bastante atraente. Tudo bem que a Marina era uma chata e ficava me empurrando para todos que apareciam no caminho, mas, nossa, juro que agora eu não reclamaria mais. O Evandro devia estar na casa dos 25 anos; era alto, forte na medida certa, tinha os olhos verdes-oliva e cabelos escuros bagunçados. Como se tivesse acabado de acordar e ainda assim estivesse lindo. Foco, Isabela, foco.
— É que... eu não gosto muito de sertanejo — resolvo ser sincera (como se isso fosse uma opção, já que falar o que penso é algo que eu nunca consigo evitar).
— Percebi. Você é aquele tipo de garota, né?
— Que tipo de garota?! — me assusto.
Será que ele estava querendo dizer que eu estava desesperada? Do tipo que vai a uma balada que não gosta por pura derrota do destino? Era só o que me faltava.
— Ah, você sabe. Aquelas garotas difíceis. Que não gostam de qualquer coisa. — E sorri.
Se ele estava tentando me seduzir com esse sorriso de canto de boca, olha, estava funcionando. E não que eu fosse uma garota que se derrete com qualquer sorriso, mas, poxa vida, era um sorriso maravilhoso. Acho que... bem... eu podia me deixar seduzir por esse sorriso só hoje.
— Hum, talvez. Pelo menos em se tratando de música, sim.
Legal. Por que eu sempre tinha que ficar tímida com garotos? Eu era a garota mais bem-resolvida entre todas as minhas amigas, só que quando se tratava de flertar com alguém eu era realmente um desastre. Nunca sabia o que dizer e sempre, repito, sempre dava um jeito de mudar de assunto quando a coisa toda esquentava. Como agora, por exemplo.
— Você gosta de sertanejo? — tento reatar a conversa já fracassada.
— Eu gosto de tudo um pouco. Mas hoje a balada tá melhor do que costuma estar — avalia ele, olhando para minha boca.
Não, não, não. Isso não podia estar acontecendo.
— É... Tá cheio, né? — falo, tentando desesperadamente fingir que não estava percebendo que o corpo dele se aproximava.
Se meu coração fosse uma melodia, seria uma bateria de escola de samba completa agora.
— Vem cá... — sussurra no pé do meu ouvido, me fazendo arrepiar inteira.
Não sei como foi que aconteceu, mas quando dei por mim estávamos no maior amasso no meio da pista. É isso mesmo. Eu, Isabela, estava ficando com o tal do Evandro da academia. Pleno impulso. Isso só pode ser uma piada, sério, eu não sabia nem o signo dele. E signos são importantes para mim, poxa, e se ele for de Gêmeos? Eu odeio o signo de Gêmeos. E se ele tiver namorada? MEU DEUS, E SE ELE TIVER NAMORADA? Não me lembro de ter perguntado isso a Marina em momento algum, muito menos a ele. (Acho importante ressaltar aqui que eu sempre crucifiquei minhas amigas que ficavam na balada com caras que mal conheciam. Sempre que a Marina vinha me contar dos últimos amassos que tinha dado no fim de semana, eu torcia o nariz.)
— Marina, você sequer lembra o nome dos homens que você beija? Por Deus!
— Ai, Isabela, você é tão careta. É só pegação, uns beijinhos. Faço para me divertir, esquecer, sei lá, é gostoso. Nem todo mundo acha que o fato de beijar outra pessoa deve ser feito com os mais puros sentimentos do planeta Terra, igual a você. Aliás, ninguém pensa assim. Você parece a minha avó — insiste ela.
— Sua avó nada, só acho que você podia pelo menos tentar conhecer os caras antes de dar uns beijos neles. Você sabe, perguntar nome, signo, idade, onde mora, o que estuda, se trabalha, o que pretende fazer no futuro. O básico mesmo.
— Básico? Isso é praticamente uma entrevista de emprego! Você é uma comédia, Isabela.
E caía na gargalhada. O problema é que eu não estava brincando.
Hoje vou esquecer todos os paradigmas que impus a mim mesma por toda a vida. Que se dane o que pensarão de mim, eu vou beijar o Evandro da academia sem saber o seu signo nem ter feito seu mapa astral. E vou me sentir bem com isso, vou sim. Se a Marina se sente bem fazendo isso, por que eu também não posso? Em meio a esses pensamentos, Evandro me interrompe:
— Gatinha, vou ao banheiro, ok? Já volto.
Ele me chamou de gatinha, ga-ti-nha? Acho que em qualquer lugar que meu ex esteja agora ele está rindo da minha cara. Eu simplesmente odiava caras tipo o Evandro.
Resolvi que ia procurar a Marina enquanto o Evandro da academia não voltava. Rodei a festa inteira e nem sinal dela. Onde essa garota havia se metido? Então era assim? Ela me jogava de comida aos lobos e depois sumia? Não mesmo. Ela ia aparecer, nem que eu tivesse que subir no palco e chamá-la pelo microfone.
Sinto alguém me puxando.
— E aíííííííí, amiga?! — É ela.
— Marina, eu fiquei com o Evandro — solto a verdade incômoda logo de uma vez antes que ele reapareça com aquele sorriso torto.
— Ficou?! Ahá! Eu sabia! Ele não é um ga-to? Vocês combinam!
— Marina, ele não tem namorada, tem? E o signo dele, você sabe?
Ok. Eu juro que só queria saber esses dois tópicos.
— Será que você pode ser um pouco menos paranoica? Como vou saber o signo dele? Quem se importa? Ele é gato e te quer. Isso basta.
E o que aconteceu em seguida eu ainda não sei explicar muito bem. No minuto em que a Marina terminou de concluir o seu pensamento, nós duas olhamos para a frente e encaramos a seguinte cena: o Evandro dando um superbeijo em uma garota. Assim mesmo, sem pudor nenhum. Na minha frente. Ainda fez questão de abrir os olhos, olhar fixamente para mim — e voltar a beijar.
• • •
Eu sabia que algo de ruim ia acontecer esta noite, sabia, SABIA. Meu feeling nunca se engana. Não que o fato de o Evandro da academia ter beijado outra na minha frente tenha me incomodado, porque não incomodou. Foi a junção dos fatos que fez com que o sentimento de “vazio” preenchesse o meu peito. Todo esse lance do término do meu último amor destroçado, eu tentando me acostumar com a vida de solteira, a falta de mensagens de “boa noite”, o fato de não ter “alguém especial” e, pra piorar... parecia que esse alguém que eu tanto procuro estava muito longe de surgir.
Pelo visto, festas e boates estavam infestadas de Evandros. Isso era decepcionante e um pouco desanimador. Minha vontade era me enfiar debaixo de um edredom, abrir um pote de sorvete e assistir pela milésima vez a Keith, o meu filme preferido. Mas, antes que eu pudesse pensar em qualquer outra coisa, estava aos prantos, de novo, como naquele dia no sítio. Só que, dessa vez, sem Amanda, a voz da sabedoria, e sem Pedro, o leitor de mentes. Eu só tinha a Marina, e no momento a única coisa que ela conseguia fazer era me abraçar e dizer:
— Vai ficar tudo bem, amiga.
Só que nem amigas nós éramos. Eu estava mesmo muito bem.
Eu não queria que “tudo ficasse bem”. Eu só queria entender o que se passava aqui dentro. Então me afastei e quis ficar sozinha um tempo, pensando num canto. Eu era um emaranhado de sentimentos que nem a pessoa mais paciente do mundo conseguiria desembolar. O que estava acontecendo comigo? Eu não estava feliz em meu relacionamento e não conseguia ficar feliz agora que estava solteira e livre para fazer minhas próprias escolhas. Do que é que eu precisava, afinal? Que lição a vida estava tentando me ensinar?
Nem terminei de elaborar a última pergunta e a resposta já me atingia como um soco no estômago.