Não Se Apega, Não
9. Não confie demais em quem você não conhece
Me viro para o lado. Que voz era essa vindo perturbar o meu tão abençoado sono?
— Isabela, hora de acordar, menina! Já são sete horas. Você vai se atrasar para a primeira aula.
Nossa, como minha cama é gostosinha. Quentinha. Aconchegante. Sinto meu gatinho, Fred, irradiando calor nos meus pés. Delícia. Eu poderia ficar aqui para sempre.
A porta se abre bruscamente e alguém, pisando forte, entra no quarto.
— ISABELA! — diz minha mãe, enfurecida, enquanto puxa as cobertas de cima de mim. — Você precisa ACORDAR! Final de semana acabou! ANDA!
Cadê a sensibilidade do povo desta casa? Eu estava tendo um sonho muito legal, ok?
— ISABELA, EU NÃO VOU FALAR DE NOVO! — minha mãe continua a berrar.
— Tá, tá, calma! Que estresse! Já tô levantando, só estava descansando uns minutinhos.
— Você acha que a vida vai acabar em cama? Eu, hein, menina! Você precisa estudar.
Ok, ok. Vamos lá, estudar. Ser uma pessoa normal, normalzinha. Eu já disse que não gosto da minha faculdade? Pois então, eu não gosto. Direito é muito legal, de verdade. Uma faculdade incrível. Só que acho que é sério demais pro meu gosto e, por exemplo, me identifico mais com Publicidade. Ou Jornalismo. Ou Comunicação. Algo que estimule meu lado criativo e me dê liberdade. Seguir leis e regras nunca foi o meu forte.
Só que é claro que eu só descobri isso depois que já tinha feito burrada. Como sempre. Outra eventualidade no Filme da Isabela.
Meu pai estava à mesa de café, lendo o seu jornal.
— Dia, papai.
— Dia, filha. Como foi o fim de semana? Tá acabada, cheia de olheira.
— Obrigada pelo elogio — digo com um sorriso. — Foi ótimo. Saí com um garoto no sábado. O Tiago, sabe o Tiago? Aquele que é vizinho do Pedro. Filho da Cida.
— Ah, sei. Bom garoto. Ele te respeitou, filha? Ele te tratou como você merece? Igual a uma princesa? Pois olhe, se ele fez algo errado me diz que eu vou lá e acabo com ele.
Sorrio de novo. Dou um beijo no rosto do meu pai e me despeço para mais um dia.
Eu adorava ir à faculdade por um motivo... e não, não era algum garoto — quando somos novas gostamos de ir ao colégio para ver o nosso “paquerinha”, mas acho que eu já havia passado dessa fase há algum tempo. Eu gostava era de encontrar a Amanda.
Eu entendia, entendia mesmo, que o fato de ela namorar não fazia dela a amiga-mais-presente-do-mundo-que-está-comigo-em-todos-os-momentos. Eu também era assim quando namorava, faz parte. Não gosto de quem deixa os amigos de lado para viver um romance, porém sei que fica corrido quando se tem que dividir o tempo entre estudos, amigos, namorado, namorado, namorado e outros afazeres do dia a dia.
A Amanda era uma garota incrível e merecia toda essa felicidade que estava sentindo. Só eu sei quanto ela buscou por isso e, veja que ironia, ela encontrou a felicidade perto de um cara que estudou com ela quando eles eram bem mais novos. A vida deu um jeitinho de reuni-los novamente. O amor gosta de se “esconder” ao nosso lado, né?
— Sua sonsa, tô te chamando há uns cinco minutos e você tá aí com esse olhar vago.
Amanda. Encaro seus olhos puxadinhos e retruco de volta.
— Desculpa, estava pensando alto aqui.
— Como sempre no mundo da lua. E aí, me conta! Como foi o seu fim de semana? Você nem entrou na internet. Fiquei ansiosa.
— Nossa, começou horrível. Eu te falei que ia sair com o Igor, né? Então, eu saí. E bem, ele, hum... Ele e eu... nós... sabe?
— Hã? É isso mesmo que estou pensando? Me diz... Vocês tran-sa-ram?
— Xiii... Grita mais alto, acho que a sala toda ainda não escutou — cochichei. — Sim, rolou. No carro. Em um beco escuro. E eu me odeio por isso.
— Que bobeira, Isabela! Você precisa deixar de ser tão puritana assim. Não tem problema algum se divertir de vez em quando. Desencana, vai.
A Amanda não era a voz da sabedoria à toa. Eu adorava o fato de ela sempre conseguir tirar as paranoias da minha cabeça, e olha, eram muitas.
— Que se dane! Você está certa. E... foi bom, nossa, foi muito bom. Ele era bom.
— Aquela cara dele de safado nunca me enganou. Há-há! Mas depois você me fala os detalhes, porque aquela insuportável da Bruna tá de olho comprido na nossa conversa. E o Tiago? Continua o mesmo canalha de sempre?
— Menina, você acredita que ele foi um fofo comigo? Eu nem entendi. Descobri que ele também é fã de Lifehouse, LIFEHOUSE, AMANDA! De início achei que fosse mentira, sabe? Dessas que os garotos usam para ficar com garotas. Tipo “adoro sua banda favorita também, fica comigo?”. E ele me deu um tapa na cara mostrando fotos do show deles. E eu acho que ele tá mudado, tá mais homem, mais maduro. Gostei do que vi. Gostei mesmo.
— O Pedro é que não gostou muito, né?
— Como assim?
— Ah, ele me ligou ontem e perguntou se eu sabia como tinha sido o encontro de vocês dois. Só que como eu não tinha falado com você ainda, também não sabia dizer ao certo. Daí ele disse algumas coisas sobre “como você deveria abrir os olhos”, mas a ligação tava falhando e acabou caindo. Não entendi muito bem.
— Eu, hein! O Pedro vai pra Austrália e não consegue se desvincular do filme de comédia nada romântica que é a minha vida... Esse filme é bom mesmo, né?
— Num é? Também adoro. E vocês vão sair de novo, digo, você e o Tiago?
— Sim. Combinamos ir ao cinema na quarta-feira. Vamos ver no que isso vai dar.
— Vá bem, gatinha! E vê se passa um corretivo nessas olheiras, tá demais isso aí.
Ok. Segunda crítica às minhas olheiras e não eram nem dez da manhã ainda.
Meu professor balbuciava algo sobre Direito de Família, e eu me forçava para acenar com a cabeça, mesmo sem estar ouvindo nada.
Ah, como eu queria voltar a ser criança. Todo aquele mundinho cor-de-rosa onde tudo que existe são desenhos, super-heróis, princesas, sonecas, guloseimas e alguns paquerinhas. Como é fácil amar quando se é criança. Acho que a gente, quando é criança, ama por coisas tão simples, sabe? Como a vez em que disse que amava um garoto da minha sala só porque ele havia me “salvado” de uma abelha que ia me picar. E eu disse com o coração. Eu realmente o amei por isso. Se a Isabela criança conhecesse a Isabela de hoje, certamente perguntaria: “Quando foi que o amor se tornou algo tão difícil para você, hein?”.
Pois é, querida Isabela. Eu também gostaria de saber.
Está se lembrando do nosso cinema depois de amanhã? Espero que sim. Esses dias
demoraram uma eternidade para passar. Mal posso conter minha ansiedade para te ver.
Beijos, linda.
Mensagem do Tiago. Foi fofa, vai? Respondi que também estava ansiosa para vê-lo. E até que eu estava um pouco.
É inegável que todo esse lance com o Tiago estava me fazendo esquecer a Marina, o Gustavo, o Evandro e o Igor (que já me mandou uma mensagem perguntando quando iríamos repetir a “dose”). O Tiago sempre foi uma pessoa com quem eu mantinha relações não só de ficante, mas também de amigo. Com ele eu me sentia à vontade para desabafar tudo. Ele me escutava atentamente, me aconselhava, e sempre, sempre mesmo, me iluminava com sua racionalidade (um defeito meu de fábrica é agir, em geral, com a emoção). Eu não estava apaixonada, mas certamente o Tiago estava trazendo de volta à minha vida um pouco de segurança. E eu gostava disso. Gostava de ter alguém em quem confiar.
• • •
No cinema foi tudo bem. Fomos assistir ao filme novo da Jennifer Aniston, acho que era ela, sei lá. Não prestei muita atenção, beijei o filme todinho. E, ok, isso é um pouco infantil. E daí? Eu estava exausta e precisava de um alívio para a alma. Esse alívio se chamava Tiago e seus beijos com gostinho de tutti frutti.
Depois do cinema, nos sentamos na praça em frente ao meu prédio e ficamos lá por um tempo. Conversando sobre a vida.
— Não vou negar. Eu sabia que você um dia terminaria com o Gustavo.
— Sério?!
Me espanto. Tudo bem, eu sabia disso. Só que o Tiago ficara tempo demais afastado, como poderia saber?
— Todos sabiam. O Gustavo é um babaca. Ele usa gelzinho no cabelo. Há-há-há!
— Hum... Não vamos estragar esta noite perfeita falando dele. Como tá sendo sua readaptação no Brasil? Já está louco para voltar para os Estados Unidos?
— Que nada. Acho que fazer intercâmbio nos faz valorizar tudo aquilo a que não damos importância quando estamos aqui. Muita gente tem o sonho de morar fora, já eu só quero ter minha vidinha aqui, entende? Conseguir acabar a faculdade de Medicina, passar na residência e achar alguém para compartilhar a vida…
— Fácil pra você, né? Quero dizer, você é superinteligente. Vai tirar de letra.
— Sim, nessa parte eu me garanto. Daí só vai faltar a parte em que eu preciso de alguém para dividir minha felicidade — diz, com um sorriso quase mágico no rosto.
Encaro os olhos verdes dele. Como brilham.
— É... logo, logo, você acha.
Como sempre, dou um jeito de quebrar o clima. Por que eu tinha que nascer com o dom de ser uma eterna estraga prazeres? Por que era tão difícil ser como aquelas mulheres de filmes que sempre sabem o que dizer? Por que eu não podia inclinar a cabeça delicadamente, piscar os olhos, e dizer um “Own”? Por quê, Deus?
— Talvez eu já tenha achado — diz ele.
E me beija. De novo. E de novo. A noite inteira…
• • •
Ok. Eu estava cada dia mais caidinha pelo Tiago e isso não era algo que eu quisesse admitir em voz alta. Mas a minha mãe percebeu. Ah, elas sempre percebem.
— Isabela, você? Lavando a louça?
— Que foi, mãe? Quero te ajudar. Você deve estar cansada, trabalhou o dia inteiro. Qual o problema dessa casa, hein? Não posso nem lavar uma louça que já escuto julgamentos.
— Você está lavando a louça. Lavando a louça. Enquanto cantarola uma música baixinho. Isabela?
— E daí? Para, mãe!
— Isabela?
— Tá bom, mãe. Eu acho que tô começando a gostar de sair com o Tiago. Não te contei antes porque fiquei com medo de quebrar a cara, mais uma vez, só que agora acho que já passamos dessa fase.
— Tem certeza? Eu não sei se aguento uma Isabela pós-decepção de novo. O mau humor já estava contagiando até o seu gatinho. Pobrezinho. Estava tão estressado que arranhou o sofá todinho.
— O Fred é doido, deixa ele. Relaxa, mãe. Acho que, desta vez, não estou errada quanto ao Tiago. Ele está sendo bom para mim. Ponto.
— E...?
— E o quê?
— Não vai dizer que ele é o seu príncipe? Estou esperando.
— Há-há. Como você é engraçada! Já pensou em participar daquele programa da Globo, Zorra total? Acho que seria um sucesso.
— Só estava conferindo. Você finalmente aprendeu a sua lição. Príncipes não existem.
Sorri e dei um abraço demorado nela. Minha mãe se preocupava com minha sanidade mental, afinal, que tipo de filha é essa que não consegue dar certo com ninguém? Que não consegue gostar de ninguém? Isso não é uma filha, é um androide.
Quando eu era mais nova ela se preocupava tanto comigo que me levou a uma psicóloga. “Tem algo errado, filha. Você só vai conversar com ela, ver se está tudo certo. Não vai demorar, prometo.” E eu me sentei à frente de uma desconhecida que insistia em saber detalhes sobre mim. Nome, idade, como foi a infância, quais são seus medos, sonhos, pessoa que admira. Desenhe um círculo. Agora uma árvore. Era aula de desenho? Caso fosse, eu já estava reprovada. Não sabia nem desenhar boneco palito. O que vem à sua cabeça quando pensa em amor verdadeiro? E u . O que a palavra tristeza significa? Algo temporário. Por Deus. Que tipo de perguntas eram essas? Sinceramente. Eu seria uma psicóloga melhor. Ah, seria.
No fim das contas, ela disse à minha mãe que eu não tinha nenhum problema sério. Que era uma garota que se desapegava fácil das coisas quando percebia que me faziam mal, e que isso, por um lado, era bom. Muito bom. Talvez por algum acontecimento da minha infância eu houvesse amadurecido além do habitual.
Minha mãe ficou mais tranquila. Ufa! Sua filha não tinha nenhuma anomalia. E ela poderia voltar a viver normalmente.
Eu estava orgulhosa de mim mesma. Pela primeira vez não estava idealizando um príncipe nos garotos com quem me relacionava. E isso era um passo à frente na minha evolução. Eu precisava deixar essa ideia banal na infância. Príncipes? Isso existe? E, a propósito, eu lá quero depender de homem para ter a minha salvação? Aqui não tem nenhuma princesa indefesa, não. Pode deixar que o dragão derroto eu e me solto das correntes sozinha. Se quiser me fazer companhia nessa fuga, tudo bem, pode vir. Mas sem essa ilusão de que vai ser meu herói salvador. A única pessoa que pode me salvar, bem, sou eu mesma. E eu me sentia satisfeita com isso.
Meu telefone toca. Que diabos de número é esse? Só pode ser o Pedro. Resolvo atender.
— Hello.
— Isa?
— Eu mesma, Pê! Que saudade que eu estava de você!
— Sério? As mensagens não lidas no seu Facebook dizem o contrário.
— Ah, você mandou algo? Eu tô meio sem tempo, sabe como é, faculdade apertada... Não vi mesmo. Desculpa.
— A-hã. Tiago apertando.
— Também. Ei, como você sabe que eu ainda tô com ele? A Amanda, aposto. Fofoqueira.
— Que nada! O Tiago mesmo me contou esses dias. Disse que tá “te curtindo” muito.
— Me curtindo? Mais o quê? O que ele disse de mim? Me conta?
— E desde quando você se importa com o que o Tiago pensa de você? Pensei que vocês eram ficantes esporádicos. Sem compromissos. Sem sentimentos.
— Não, isso mudou. Ele mudou, sabia? Agora ele tá um fo-fo. Supermaduro, supercavalheiro, superprin... Pê, que saudade de você!
— Hum. Mudou, então. Que bom. Fico feliz por vocês. Só te peço para tomar cuidado, o Tiago não é lá flor que se cheire... Sério...
— Ai, Pedro, que mania essa sua, hein? Sempre quando eu tô feliz com alguém você chega pra cortar minha onda, um saco!
— Eu sou um saco? Como seu amigo, achei que devia te alertar, só isso. Da próxima vez eu deixo você se ferrar sem avisos prévios.
— Dessa vez eu não vou me ferrar. Para de falar como se já soubesse o futuro.
— Talvez eu saiba.
— Talvez você seja um idiota.
— Você tá insuportável hoje. Eu vou desligar, amanhã vou à praia com a Savanna e preciso dormir agora, tô exausto. Boa sorte com seu príncipe encantado. Me convide para o casamento. A gente se fala.
— Savanna? Quem? Peraí!
Ah, desligou. Que se dane. Idiota. Por que o Pedro tinha que ser um completo babaca nas horas em que eu mais precisava dele? Poxa, o que custava ter me dito o que o Tiago contou? Achei que amigo servia para isso, sabe, pra te contar as fofocas e coisas do tipo. Não para te colocar para baixo quando você está voando alto. Fiquei irritada, p. da vida mesmo.
Eu nunca interferia nos relacionamentos do Pedro, nem quando ele insistia em sair beijando um monte de garotas por aí. Segunda-feira, Fernandinha da faculdade. Terça-feira era dia da menina que trabalhava na loja da mãe dele. Quarta-feira era dia de videogame, sem mulheres. Quinta-feira, ele buscava alguma garota perdida na agenda do celular. Sexta-feira, ia à caça na balada. E, sábado, que antes era da Renatinha, agora, pelo visto, pertencia à Savanna, que eu imagino ser uma loira, bronzeada, surfista, que assiste ao pôr do sol ao lado dele. Ah, me poupe.
Passo a mão no telefone. Hora de ligar para a Amanda e ver se ainda está de pé nosso encontro duplo hoje à noite.
— Mandy? Sou eu.
— Oi, amiga. Ia te ligar agora. Hoje tá de pé, né? Já avisei o Victor.
— Claro, tá sim.
— Tá tudo bem por aí? Tá com uma voz de choro.
— Tá tudo bem, aliás, não, não. Não tá não. Você acredita que o Pedro acabou de me ligar e foi um idiota comigo no telefone? UM IDIOTA, AMANDA. Eu tô segurando pra não chorar, de raiva, claro.
— Calma, Bela. Me explica direito isso. O Pedro não é assim.
— Ah, tinha a Savanna, sabe, a loira, alta, bronzeada, em quem ele deve estar enfiando a língua no momento. E aí eles iam pra praia ver o pôr do sol. E eu e o Tiago somos o pior casal do mundo, tipo, muito ruim mesmo. E o Tiago vai me decepcionar, vai. E a Savanna não vai decepcionar ele. Não, ela não!
— Bela, respira. Conta até dez e me conta de novo. Eu não entendi na-da. Quem é Savanna? Céus!
Respirei fundo. Contei toda a história da nossa — singela — ligação telefônica. Quando terminei, a Amanda riu. Isso mesmo, RIU. Belos amigos os meus, belíssimos. Eu estava bem acompanhada.
— Tá rindo do quê?
— Não é tão na cara? — Agora ela gargalhava.
— O quê?! — perguntei, irritada.
— A Savanna e o Tiago.
— O que têm eles?
— Eles são legais, né?
— A Savanna é legal??? Traidora! Vou desligar.
Eu devo ter dito pra Jesus desapegar, só pode. Só isso explicava a série de acontecimentos na minha vida. Pelo menos eu ainda tinha o Tiago, meu pequeno riacho de sanidade no meio dessa loucura que vivo.
Combinei com a Amanda que ela e o Victor viriam me buscar e que daqui de casa seguiríamos para o restaurante. O Tiago tinha aula até tarde e chegaria um pouco atrasado ao nosso jantar. Sem problemas. Eu entendia perfeitamente, futuro médico tem dessas, né?
Como completávamos um mês juntos, arrisquei escrever uma cartinha para ele. Nada muito exagerado, apenas algo para ele lembrar que me fazia muito bem e que podia confiar em mim. Eu tenho meu lado romântico, ok, tá certo que escondo isso da maioria das pessoas, mas deixo vir à tona de vez em quando.
Demorei duas horas para conseguir arrumar meu cabelo do jeito que queria. Sabia que é um saco ter o cabelo liso-boi-lambeu? Vocês, que têm cabelo cacheado ou crespo, acham que a gente que tem cabelo liso é feliz? Pois eu digo: não. O que eu não fazia por duas horas de cachos nas pontas, ou até um pouco de frizz para dar um movimento? Ou pra conseguir colocar uma tiara sem que ela ficasse caindo na minha cara de cinco em cinco minutos? Aposto que a Savanna tinha frizz. Vaca.
Chegamos ao restaurante por volta das sete. Estava uma noite incrível, de lua cheia, assim como no dia em que saí com o Tiago daquela outra vez. Achei poético.
Enquanto o papo se desenrolava na mesa, cada vez mais a ausência do meu acompanhante pesava o ambiente. Oito horas. Ele disse que às oito estaria aqui. Apertei a carta que estava dentro da bolsa. Não faça com que me arrependa de ter confiado em você, por favor, desejei baixinho.
Nove horas. O Victor estava claramente preocupado com a situação e não parava de lançar olhares piedosos para mim.
— E aí, ele mandou alguma mensagem? Deve estar agarrado no trânsito. Juiz de Fora tá um caos ultimamente...
— Ele não me respondeu até agora — desabafo.
Mandei duas mensagens. Nenhuma obteve resposta. Sequer foram lidas. Tentei ligar, desligado. O meu estômago já sabia que tinha algo errado; ele não parava de se remexer, como se quisesse pular para fora do corpo. Não suportava mais se decepcionar. Eu sabia que era isso.
— Hum... A bateria pode ter acabado, né? — Amanda tenta ser positiva.
— Acho que não, Mandy. Vamos pedir a comida, sim? A noite não vai acabar por isso — minto.
A noite já estava acabada. Eu estava acabada. Acho que não conseguiria comer nem um grão de arroz quando o jantar chegasse. E sabe o que era pior? Eu conseguia escutar a voz do Pedro, vindo lá da Austrália, me dizendo: “Viu? Eu disse. Eu disse, Isabela. Eu sempre sei de tudo”. Maldito.
Estava com uma raiva maior ainda agora. Tudo estava tão perfeito, tão certinho, que eu nunca imaginei que pudesse me decepcionar tão cedo. Tá, tudo bem. O Tiago pode ter sofrido um acidente (céus, bate na boca), estar em coma em um hospital, e eu aqui pensando essas coisas. Ele pode ter sofrido um AVC enquanto tomava banho para vir me encontrar. Pode ter furado o pneu e ter ficado parado em algum lugar escuro da cidade. Pode também ter sido sequestrado por bandidos que desejavam arrancar seus rins para vender no mercado negro, ou por, sei lá, alienígenas monstruosos atrás de humanos indefesos...
Mas se tem algo que aprendi é que nunca — nunca mesmo — acontece nada dessas coisas. Na maioria das vezes o cara está só te dando um bolo, porque é a maneira mais educada que ele consegue pra dizer “tô caindo fora”. E era isso que estava se passando naquele momento. Eu tinha certeza.