Não Se Apega, Não

Isabela Freitas · Capítulo 11 de 13

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Não Se Apega, Não

10. Que garota nunca se sentiu totalmente perdida?

T em dias que dá vontade de sumir do mundo, evaporar, virar uma partícula de poeira e me esconder quieta em algum cantinho escuro do meu quarto. Sozinha. Hoje eu estava assim, exatamente assim.

Quando o coração aperta, eu tenho essa mania estranha de querer me fechar no meu mundinho. Não gosto que as pessoas enxerguem esse meu lado, o lado sensível. Sei lá. Não por medo de parecer fraca. É receio de que alguém perceba que sou superfrágil e que me quebro com facilidade. É só encostar e lá estou. Toda rachada, precisando de reparos urgentes. Chame isso do que quiser. Covardia? Talvez. Eu sou mesmo covarde quando se trata de assumir o sofrimento em voz alta.

Por que as pessoas não cansam de se decepcionar? O que nos motiva a acreditar outra vez? Por que não podemos simplesmente ser racionais e deixar a emoção um pouco de lado? Eu tento, juro que tento. Meu cérebro se cansa de mandar mensagens ao meu coração pedindo que tenha calma. Me diz: e ele escuta? É surdo. Surdinho. Ele não escuta nada. Já sai atropelando, passando por cima, querendo nova dose de sentimento. Só mais uma. Sempre mais uma. E tá, admito, eu sempre assino embaixo. Fazer o quê? Eu adoro embarcar em novas aventuras, poxa, como eu gosto. Coisa de sagitariana, acho. A gente tá sempre procurando por algo que dê um frio na barriga. Nem que precise andar em uma montanha-russa, subir, subir, com a certeza de que daí a alguns segundos a queda será fatal.

Racionalidade não tem mesmo nada a ver comigo. Pensar antes de se entregar? Também não. Analisar os riscos antes de se jogar do abismo? Muito menos.

Eu sou apaixonada por pessoas. Por sentimentos. Por emoções. Sou apaixonada por tudo aquilo que faça o meu coração vibrar. E nisso se inclui o sofrimento. Sofrer é poesia. Inspira. Quem sofre pode se renovar. É como a transformação da lagarta em borboleta. Tudo começa com um ovo de borboleta que é posto em uma folha de árvore. Desse pequeno ovo sai uma lagarta que, pouco a pouco, vai tecendo seu casulo com os fios de seda que produz. Ela precisa se esconder de tudo e de todos. Precisa de um tempo. A lagarta permanece dentro desse casulo, frio e seco. Preparada para cair. Demora semanas, às vezes até meses, mas esse casulo se rompe. E de lá sai uma linda borboleta, pronta para impressionar quem quer que a veja com seu brilho e suas cores vivas.

É mais ou menos assim que acontece com a gente. Precisamos nos permitir sofrer. Não adianta vestir um sorriso no rosto e dizer às pessoas que está “tudo bem”, porque não está. Você sabe que não está. Fugir do sofrimento é adiar o inadiável. É fugir do próprio reflexo no espelho. Quem foge do sofrimento não o supera. Retém. E o nosso coração é pequeno para abrigar mágoas. O meu, por exemplo, tem três quartinhos. Três quartinhos que eu espero alugar para o amor e mais alguns sentimentos gostosos. Hóspedes tranquilos que me tragam paz.

Eu já fui o tipo de pessoa que sorri enquanto o coração dói. Tentava mostrar ao mundo que nada me abalava e que minha armadura era impenetrável. E o que isso me trouxe? Exatamente, não trouxe nada. Sabe por quê? Porque não precisamos provar nada a ninguém. Provar para o outro que somos fortes? Que não temos emoções? Que tomamos porrada atrás de porrada sem reclamar? Fala sério!

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Sabe o que é fantástico? Perceber que ainda existe gente no planeta que se importa. No dia em que o Tiago me abandonou no restaurante, pedimos o jantar e, quando os pratos foram colocados na mesa, não consegui conter as lágrimas. Corri para o banheiro, seguida de uma Amanda que não sabia se me consolava ou se falava pela milésima vez que o Tiago era um idiota, que eu o deixasse para lá. Lembro que fiquei um bom tempo no banheiro, sentada em um daqueles sofás que um dia, tenho certeza, já acomodaram outra garota com o coração partido. Enquanto me permitia sofrer por uns minutos, fui surpreendida pela moça que era responsável por limpar o local. Ela disse:

— Menina, seja o que for que estiver sentindo, sinta. Se permita sentir. Lágrimas são sentimentos que saem do corpo. Ruins, bons. Nós somos pequenos demais, sabe? E às vezes não cabe tanta coisa aqui. Então despejamos um pouco em forma de lágrimas. Chore.

E me deu um abraço. Um abraço que durou mais de vinte segundos. Sabe o que isso significa? Li em algum lugar que a duração média de um abraço entre duas pessoas é de três segundos. Nós nos abraçamos uns aos outros rapidamente e logo damos um jeito de soltar os braços, sem graça por essa demonstração de afeto tão grandiosa. Entretanto, alguns pesquisadores descobriram algo fantástico. Quando um abraço dura vinte segundos, ou mais, há um efeito terapêutico sobre o corpo e a mente. A razão é que esse abraço sincero produz um hormônio chamado oxitocina, também conhecido como hormônio do amor. Essa substância traz muitos benefícios para a nossa saúde física e mental; nos ajuda a relaxar, nos faz sentir seguros e acalma nossos medos e ansiedades.

Esse maravilhoso calmante é oferecido de forma gratuita cada vez que temos uma pessoa em nossos braços, uma criança, ou nossos bichos de estimação, ou ainda quando estamos dançando com o nosso parceiro ou fazendo papel de ombro amigo nas horas difíceis. Como essa moça fez comigo. O abraço sincero dela mudou a minha noite e eu, mais uma vez, tive esperanças de que existam pessoas que se importam por aí. Elas só estão escondidas.

Algo muito curioso que eu aprendi sobre a decepção é que não adianta culpar o outro. Enquanto a Amanda balbuciava quão canalha o Tiago era, eu só conseguia pensar: “E eu? Não fui uma tola? Ingênua?”. Por Deus, eu escrevi uma cartinha para ele e nós nem namorados éramos. A culpa dessa frustração era completamente minha, ah, era. Por acreditar demais. De novo.

O pior disso tudo era estar distante do Pedro, sabe? Ainda me lembro do dia em que o conheci. Aquela fatídica noite em que eu estava enfrentando uma das maiores decepções da minha vida.

Aquele garoto de olhos cor de céu e cabelos negros me fez feliz naquele dia. Assim como a moça do banheiro. A diferença é que, assim que bati os olhos nele, eu o odiei. Ele fumava, usava um casaco de couro da década de oitenta, tinha sorriso de conquistador, as calças largas e rasgadas. Ele falava com uma confiança excessiva e isso me irritava um pouco. Quer dizer, muito. Ninguém é assim tão confiante 24 horas por dia. Todos temos nossas fraquezas, e a minha, bem, a minha era chorar em locais públicos. Como todos já devem ter percebido.

Quem diria que aquele garoto antipático ia se importar em saber o motivo da minha tristeza e entrar na minha vida de forma permanente? O destino é mesmo um engraçadinho.

Passo a mão no celular. Hora de deixar o orgulho de lado.

Atende. Atende. Por favor, me atende.

— Alô? Pedro?

— What? — responde uma voz feminina do outro lado da linha.

Em inglês. Legal.

— Ah, oi. Eu queria falar com o Pedro, ele está?

Eu não faço a mínima ideia sobre por que eu estou falando português com uma australiana. Logo, dou um jeito de ressuscitar meu inglês adormecido e peço que ela chame o Pedro. Claro que ela diz que ele não está. Não é uma maravilha? Já estou quase desistindo quando escuto uma voz dizendo, ao fundo, que ela passe o telefone para ele. Meu coração para. É o Pedro!

— Oi? Desculpa. Eu estava no banho, aqui tá um calor de matar. Isa?

— Como você sabe que sou eu?

Sério. Como ele sabe?

— Eu sei de tudo. Esqueceu?

Pela voz dele, nós não estamos mais brigados. Isso é um alívio.

— Ah...

As palavras começam a escapar. Eu tenho tanto para falar... Sinto como se minha mente fosse ressetada de repente. Culpa da maldita gringa que atendeu o telefone. Eu esperava que o Pedro atendesse de imediato e não que estivesse no banho, enquanto sua Savanna estava deitada na cama dele, aguardando-o para outra rodada. Essa cena me desconcertou. Não sei por quê.

— Isa? O que aconteceu? — pergunta o Pedro, preocupado.

Tomo fôlego e desato a falar.

— Aconteceu que tudo aconteceu. A Savanna aconteceu, apareceu, e fez você brigar comigo. Te levou pra praia, vocês estenderam uma canguinha brega com uma estampa da bandeira do Brasil e tiraram fotos pra guardar para a posteridade. Depois eu fiquei me sentindo uma idiota porque quem era a Savanna perto do babaca do Tiago, né? A Savanna comparecia aos jantares de vocês, e ela sorria e acenava, enquanto vocês passavam a imagem de um casal perfeito. O Tiago sequer respondeu às minhas mensagens, e tá, eu escrevi uma cartinha idiota para ele, foi idiota mesmo. Mas eu gosto de escrever, você sabe. E eu gosto de me apaixonar, não que eu tenha me apaixonado, eu só estava gostandinho um pouco, entende? Eu achei que ia me apaixonar. DE NOVO. Eu caí na minha maldição do Filme da Isabela de novo e, pra piorar, como sempre, você me avisou muito antes de acontecer. E eu te odiei, ah, odiei mesmo. Eu desejei baixinho que a Savanna tivesse chulé ou algo do tipo. Que ela roncasse, sei lá, algum defeito que fizesse dela uma humana, ou que fosse tão ridícula como os caras que eu arrumo. Porque só assim pra eu parar de me sentir a pior pessoa do mundo, que só se relaciona com as outras piores pessoas do mundo. E eu fiquei com saudade de você, só que não podia te ligar antes, porque, né?, você foi um estúpido. Um estúpido que só disse a verdade. É que ouvir a verdade dói, não acha? Agora eu tô aqui. Deixei o orgulho de lado, resolvi te ligar e o que me aparece? A Savanna nua, na sua cama, atendendo telefonemas. Enquanto você toma um banho refrescante. Ah, por favor.

E ele ri descontroladamente. Demasiadamente. Fica uns dois minutos gargalhando alto, sem brincadeira. Enquanto eu encaro, estática, o telefone, à espera de uma resposta, o Pedro ri. E ri. E ri ainda um pouco. E eu não entendo qual é a graça. Será que minha vida está tão patética assim?

— Pedro? Sério. Se você continuar rindo eu vou desligar e não ligo de novo tão cedo.

— Ai, ai. Espera, espera. — E ri mais um pouquinho. — Então, é que eu não te aguento.

— Não me aguenta? Hein?

Minha voz está alterada, que se dane.

— É que você é muito bonitinha.

E aí quem não entende nada sou eu. Bonitinha? Bonitinha? Eu estou aqui abrindo meu coração, desabafando tudo de ruim que vem acontecendo na minha vida e ele diz que isso é bonitinho? Bonitinho seria se eu estivesse com um gostosão australiano. Isso, sim. O que está acontecendo na minha vida é horrível. Uma catástrofe mesmo.

— Bonitinha? Você só pode estar de brincadeira comigo. Eu tô aqui sofrendo, será que podemos focar nisso?

— Tá, tá. Primeiro: eu não estendi uma canguinha brega com a bandeira do Brasil na praia com a Savanna. Nem tiramos fotos para a posteridade.

— Mas enfiou a língua na boca da Savanna!

— Isabela.

— Pedro, pode me falar. Você não tem culpa de ter uma vida amorosa melhor do que a minha, sabe? Eu já estou acostumada. A Amanda tá lá superfeliz, e eu fico feliz por ela. E se você estiver feliz, eu vou tentar ficar também. Apesar de achar essa Savanna uma metida, acredita que ela nem me respondeu direito no telefone? Ela se fez de desentendida. Pff.

— Isa, esquece isso de Savanna. Ok? Deixa eu te dizer uma coisa... Eu sei que você deve estar se sentindo sozinha aí, sem seu melhor amigo por perto pra te alegrar e tudo o mais.

Ele faz uma pausa dramática para enfatizar que me alegra. Tá.

— Eu só te peço para aguentar até eu voltar. Será que você consegue? Ficar um tempo sem se meter em roubada nem catar caras canalhas abandonados na rua?

— Sinto dizer, acho que não consigo. Eu sou um ímã pra esse tipo de coisa.

E era verdade. Até quando eu não queria me meter em roubada, eu me metia. E isso era, tipo, quase sempre. Começava o dia pensando: “Hoje vai ser tudo normal, tudo numa boa, na paz de Jah”. Mas sempre acontecia algo, como sair de casa sem guarda-chuva em um dia de chuva, e de vestido branco. Acho que defini legal.

— Isa, para de ser dramática. Você faz drama com tudo! Olha, escuta só, pega esse mês em que você vai entrar de férias, aluga uns filmes, assiste às séries que você tanto gosta. Ou então lê aqueles livros que ficam guardados no seu caixote de “Para ler quando tiver tempo”. Que tal? Se afunde em histórias que não existem, saia um pouco da realidade. Você tá precisando de um tempo pra você, tempo que eu sei que você está tentando ter desde que terminou com o Gustavo e não conseguiu.

Pronto, agora me impressionou.

— Verdade. Nossa... verdade. Como você sempre sabe tudo, hein? Poxa vida, eu poderia ter pensado isso sozinha.

— Só que não pensou. É por isso que você precisa de mim, branquela.

— Branquela, pff. Só porque a Savanna é bronzeada. Fique você sabendo que esses dias eu fui tomar sol no clube e estou supermorena.

Quando é que o Pedro ia perder essa mania de me provocar? Tudo bem que eu adorava provocar os outros, mas, ei, só eu podia fazer isso.

— Eu imagino, deve estar da cor do pecado.

— E estou mesmo.

— A-hã — ele diz, debochando, é claro.

— Tá. Então tá tudo bem entre a gente, né? Porque, sabe, o que eu menos precisava é ficar brigada com você.

— Sempre esteve tudo bem entre a gente, não?

— Acho que sim. Ok, vou desligar, senão a minha mãe vai me matar quando chegar a conta do telefone. Vou passar um mês dando um tempo para mim. E volta logo, por favor. Eu não aguento mais me sentir sozinha nesta merda de cidade.

— Logo mais eu volto, branquela. Se cuida aí. Qualquer coisa sabe que pode me ligar, né? Prometo que a Savanna não vai atender da próxima vez.

— Acho bom. Se cuida também e boa sorte com a Savanna.

Por que eu estava desejando boa sorte com a Savanna? Certamente um anjo da paz estava ao meu lado agora, porque só isso poderia explicar a minha bondade repentina.

— Obrigado. Vou precisar.

E desligou.

O Pedro tinha realmente o dom de acalmar o meu coração, mesmo a quilômetros de distância. Coisa de melhor amigo, né? Eu juro que depois dessa ligação estava até simpatizando com a Savanna. Tá bom, confesso, eu ainda desejava que ela tivesse chulé. Só um chulezinho, coisa boba.