Não Se Apega, Não
12. Dois corações partidos às vezes se encaixam
Aconteceu quando eu tinha oito anos de idade e ainda era um pontinho pequeno e frágil na imensidão deste mundo. Baixinha, de bundinha arrebitada e perninhas grossas, como dizia meu avô. A cabeleira loira terminava em cachinhos que pareciam feitos a mão, apesar de serem apenas resquícios da infância que a cada corte de cabelo davam adeus. Os olhos, sempre brilhantes, sonhadores e de um castanho profundo. Essa era eu; ou eu era essa.
Sei que tudo começou em um domingo de sol. Três de janeiro de 1999. Fazia uns 27 graus aqui em Juiz de Fora, ou seja, estava calor pra caramba. Me lembro que havia contado nos dedos os dias para que chegasse 3 de janeiro. Dezesseis longos dias. Mal consegui pregar os olhos durante a noite da véspera, já que o tique-taque do relógio me lembrava, com urgência, que a manhã estava chegando. Que ela estava chegando.
Me levantei e fui checar minha bolsa de suprimentos. Bonecas, um pacote de biscoitos Passatempo, um saco de suspiros feitos pela minha avó e um livro de história que ela nunca havia escutado. Tudo certo.
Corri até o quarto dos meus pais e entrei sem nem bater na porta.
— Pai! Pai! Acorda. Hoje é dia de ir pro clube! — eu disse, enquanto puxava a coberta de seu corpo e pulava em cima da sua barriga macia (pelo menos, eu achava macia).
— Isabela, já tá acordada, menina? Por que isso, hein? Tá cedo demais — resmungou meu pai, afagando os meus cabelos e me despenteando toda.
Minha mãe o encarou com um olhar sério, como se não acreditasse que ele tivesse esquecido.
— André... é hoje que ela volta — explicou.
— Ah! Nossa, como me esqueci... Claro, claro. Já está pronta? Vou colocar uma roupa e te levar pro clube, sim?
Retribuí com um sorriso. Eu amava meu pai. E não era só porque os pais são nossos heróis ou coisas do tipo. Eu amava a paciência dele comigo e a sua dedicação. Eu sabia que era um saco me levar ao Clube Cachoeirinha todo domingo para que eu pudesse me encontrar com ela. Mas eu achava que isso fazia parte do que é “ser pai”, não é? Ficar feliz com a felicidade do filho. Bem, eu gostava de pensar assim.
Nós sempre viajávamos juntas para Cabo Frio nas férias. Alugar uma van, arrumar as malas, preparar as roupas de banho, acordar cedo e cair na estrada. E lá se passavam dias e dias de muito sol, areia e protetor solar. Eu amava os nossos verões juntas. Naquele ano, no entanto, o meu pai disse que estávamos com o orçamento apertado e perguntou se eu entendia o porquê de não acompanharmos os Ferrari na viagem pra Cabo Frio. Tudo bem, eu entendia. Seriam só alguns dias mesmo. Fiz com que ela prometesse que traria algumas conchinhas da praia para mim e, em troca, eu levaria alguns suspiros feitos pela minha avó para ela. Trato feito.
A Sara era minha melhor amiga. Sabe aquela amiga de infância que está presente em todas as suas lembranças? Era o que ela representava pra mim. Sara era, decerto, uma das criaturas mais diferentes que eu já tive o prazer de conhecer. Os cabelos eram negros demais, sempre presos em um rabo de cavalo com uma fita vermelha. A pele era alva e os olhos eram ora verdes, ora azuis. Eu nunca consegui distinguir direito a cor. Sara tinha sardas por todo o rosto e lábios vermelhos como os da Branca de Neve. Ela era a minha Branca de Neve.
No primeiro dia em que a vi lá no Clube Cachoeirinha, junto com um menino no que eu pensei que fosse uma espécie de brincadeira idiota — vencia quem ficava mais tempo debaixo d’água —, fui logo puxando assunto. Desde pequena eu adorava puxar assunto com desconhecidos.
— Sabia que você parece a Branca de Neve?
— Branca de quê? — disse ela, me encarando com seus olhos enormes.
Foi nesse momento que reparei nas sardas.
— Branca de Neve dos anões, sabe? Aquela do desenho!
Em que mundo as crianças não conhecem as princesas de contos de fadas? Essa garota era no mínimo… estranha.
— Não, não conheço. Ei, Gabriel, você conhece a Branca de Neve? — ela perguntou àquele que parecia ser seu irmão, apesar de ter cabelos loiros como os meus e ser completamente diferente dela.
— Claro que conheço, Sara, é aquela dos anões, da banana envenenada...
— Maçã — corrigi, indignada.
— Isso, isso, maçã, sei lá — disse ele, dando de ombros.
— Ah, deixa pra lá — desisti de explicar.
Eles pareciam mesmo entender mais de brincadeiras na piscina do que de contos de fadas.
Quando me virei para ir embora, ouvi a voz da menina me chamando.
— Ei, peraí, loirinha. Onde você pensa que vai? — perguntou, apontando o dedo indicador na minha cara.
Onde eu pensava que ia? Voltar para onde tinha sombra e ler um livro, talvez?
— Uai, eu ia...
— A lugar nenhum. Agora você é minha amiga. Fica aqui pra contar o tempo que eu consigo ficar debaixo d’água? Acho que o Gabriel tá roubando! Se você contar certinho, eu até deixo você virar minha melhor amiga.
E por algum motivo eu não consegui dizer não àquela menininha de olhos claros e cabelos negros. Na verdade, eu nunca consegui dizer não a ela.
— Meu nome é Isabela, mas pode me chamar de Bela.
— Meu nome é Sara, mas pode me chamar de Sara.
E nós duas rimos. Gargalhamos. Demos barrigadas de tanto rir. E esse foi o início de uma verdadeira amizade.
• • •
Nós éramos complemente opostas. Eu gostava de ler livros, ver filmes e inventar histórias. Ela, de nadar, apostar corrida e ouvir as minhas histórias. Foi a Sara quem me ensinou a nadar. Crawl, borboleta, costas e peito. Anda, sua lesma! Você tem que aprender a nadar! Vai que um dia você precisa fugir de um tubarão? Dizia. E eu, bem, eu fiz com que ela gostasse de ler. Ok, de ler, não. Fiz com que aprendesse a gostar de me ouvir lendo. E disso ela gostava muito, quero dizer, das minhas histórias. Às vezes Sara tinha até dúvidas e me bombardeava com suas perguntas sem respostas.
— Ei, Bela, para onde é que vão os vilões quando eles morrem, hein?
— Ah, sei lá, Sara. Deve ser para o céu dos vilões — respondi, prevendo que isso não a deixaria satisfeita.
Que tipo de pergunta era essa? Eu lá sabia para onde iam os vilões?
— Céu dos vilões? Os vilões vão para o céu? Mas eles não são maus? — insistiu ela.
— São. Só que eles sempre se arrependem no final, então acho que eles merecem ir para um céu piorzinho, sabe?
— Hum... entendi. E as princesas? Pra onde elas vão quando morrem?
— Durr. Princesas não morrem, Sara. Que pergunta boba!
— Onde é que tá escrito isso? Passa esse livro pra cá! — respondeu, arrancando das minhas mãos meu exemplar novinho de Rumpelstiltskin e quase fazendo um rasgo na capa.
— SARA! Você quase rasgou o meu livro!
— Bububu. Você quase rasgou o meu livro, oh, céus, o que vou fazer da vida agora? — debochou ela, fazendo uma imitação irritante da minha voz. — Calma. Já te devolvo. — E começou a folheá-lo devagar.
Revirei os olhos. Como a Sara podia ser teimosa às vezes...
— Viu? Não tem nada escrito aí que as princesas não morrem. Elas vivem felizes pra sempre, só isso — disse ela, triunfante.
— Então! Se vivem felizes para sempre quer dizer que não morrem.
Ahá! Dessa vez eu tinha pegado a Sara.
— Claro que não. Elas podem morrer e ainda assim viverem felizes para sempre. Lá no céu das princesas.
Dei um sorriso. Eu gostava de quando a Sara, sem nem perceber, começava a inventar histórias, assim como eu. Pra quem achava que livros eram revistas sem figuras, ela já estava até que muitíssimo bem.
— É. Você tá certa.
— Eu sei, eu sempre estou.
Nossos domingos eram assim, sentadas na sombra de um antigo pinheiro do Clube Cachoeirinha. Eu lia alguma história, enquanto Sara permanecia deitada de bruços, apoiando a cabeça nas mãos e me encarando com aqueles olhos azul-esverdeados. Eu falava, falava, falava. E ela escutava atentamente para, no final, claro, me encher de perguntas sem pé nem cabeça.
Mas não nesse domingo. Não em 3 de janeiro de 1999. Porque a Sara tinha se esquecido de mim.
Nesse domingo eu tive que comer todo o pacote de Passatempo sozinha (só o recheio) e embrulhar os suspiros para levar de volta pra casa. Nesse domingo eu não ganhei as conchinhas que haviam sido prometidas nem escutei histórias de como ela havia (provavelmente) se machucado na praia. Nesse domingo não teve brincadeiras de quem segurava mais o ar debaixo d’água nem passeios de bicicleta pela ciclovia. Nesse domingo era só eu, nosso pinheiro e um lugar vazio a meu lado.
Me lembro que meu pai ainda tentou ajudar:
— Ei, filha. Ela deve ter se atrasado, sabe como é, viagem nesta época do ano pode ter muito trânsito…
— Não, pai! Ela disse que estaria aqui hoje. Ela prometeu.
— Bela, imprevistos acontecem...
— Não! Não! Ela se esqueceu de mim, pai. Esqueceu. Deixa pra lá. Vamos pra casa.
E eu caí no choro. Esse seria o primeiro de muitos outros prantos que chegariam aos meus olhos antes mesmo que meu cérebro pudesse ter algum controle sobre a situação.
• • •
Até hoje me lembro da cara de minha mãe quando chegamos em casa. Pálida, com lágrimas nos olhos, como se tivesse envelhecido uns dez anos. Disse que precisava conversar a sós com meu pai e olhou de relance pro meu irmão, como se eles já tivessem combinado algo previamente. O Bernardo me levou para o seu quarto e perguntou se eu não queria mexer no computador dele. Peraí, por que meu irmão de repente estava sendo legal comigo e decidiu parar de fingir que eu não existia? Será que ele ficou sabendo que chorei lá no clube e se sentia na obrigação de me agradar? Devia ser isso, tinha que ser isso, mas não era. Eu disse que estava tudo bem e que não queria mexer no computador dele. Porém, alguma coisa no meu estômago, e no olhar que minha mãe lançou ao meu pai, me dizia que tinha algo errado.
— Vai ficar tudo bem — murmurou meu irmão, forçando um sorriso que mal repuxava a pele de seu rosto.
E foi aí que eu soube que nada ficaria bem.
Corri pro meu quarto, me deitei e fiquei encarando o teto pálido, duro e frio. O que estava acontecendo? Por que é que minha mãe estava com aquela expressão no rosto como se tivesse visto uma assombração? Se tem uma coisa que aprendi é que quando estamos muito tristes, muito doentes, ou muito “vazios”, dormir é o melhor remédio. Porque dormir nos leva ao mundo dos sonhos. E lá podemos ser felizes de novo.
E aí eu caí no sono.
Sonhei com a Sara. Nós estávamos debaixo do antigo pinheiro lá do clube e comíamos um pacote de Passatempo recheado.
— Ei, por que você só come o recheio? — ela perguntou.
— Porque é a única parte boa do biscoito, uai... — respondi, como se não acreditasse no que estava ouvindo.
— E que graça tem só comer a parte boa?
A Sara sempre com essas perguntas que mais pareciam um teste da escola com pegadinha.
— Porque... é a única parte boa...? — tentei.
Não era essa a resposta que ela queria, claro.
— Bela, que graça teria se a vida fosse só de coisas boas? Todo dia eu como chuchu, alface e tomate no almoço. É ruim, ruim demais mesmo. Mas é que eu gosto de saber que na sobremesa tem chocolate. E isso me faz gostar mais de chocolate.
— Você é estranha. Sério.
A Sara sempre falava umas coisas sem sentido, mas que eu sabia que um dia fariam sentido para mim.
— É, acho que eu sou — ela deu uma gargalhada gostosa e comeu os restos de biscoito que eu tinha separado do recheio.
— Você é chata, mas eu gosto de você — confessei, rindo também.
— Eu também gosto de você… um pouquinho.
Abri os olhos e a imagem de Sara foi gradativamente se transformando em um vulto sentado na beira da minha cama. Era o meu pai.
— Oi, princesa. Finalmente acordou — disse, sereno.
— Eu estava sonhando com a Sara. Você já falou com o tio Jorge? Diz que eu tô com raiva porque ela não foi no clube me ver hoje.
— Filha. Senta aqui no meu colo, a gente precisa conversar.
E aí ele despejou um iceberg na minha cabeça.
Era 3 de janeiro de 1999. O dia em que minha melhor amiga morreu.
Assim, assim mesmo. Desse jeito. Sem nem dizer tchau, até logo, ou eu te amo. Ela se foi e eu nunca mais a vi.
Naquela manhã em que eu a esperei em vão no clube, já tinha acontecido... Mal sabia que, quando estendia a nossa toalha de piquenique, ela não estava mais neste mundo. Mal sabia que as últimas palavras que eu trocaria com ela seriam apenas em sonho. Poxa vida, por que as pessoas boas morrem? Por quê?
Sara estava certa. Princesas também morrem. A minha Branca de Neve... Eu não quis saber detalhes do acidente. Um caminhão. Uma fatalidade. O carro deles virou uma lata de sardinha. Os pais de Sara estavam gravemente feridos no hospital. O Gabriel estava em choque, sem pronunciar uma palavra. Sara morrera dormindo. Assim como a Branca de Neve. E eu, morri em vida. Ali, naquele dia.
Três de janeiro de 1999.
Por que o trem de algumas pessoas chega antes do horário marcado para o embarque? Por que não podemos segurar as mãos de quem amamos e impedir que se vão? Por que não temos a chance de dizer adeus? Por que somos acometidos de tristezas que não se curam nem com o tempo?
Eu não tive a chance de dizer adeus a Sara. Na verdade, eu nunca vou poder dizer mais nada a ela. Nem contar mais uma história. Nem responder às suas perguntas sem sentido. Nem dizer que ela é uma chata. Nada, nadinha. A Sara agora estava no céu das princesas, e eu estava destinada a me agarrar às memórias e lembranças dela, em uma tentativa inútil de impedir que ela se fosse pra sempre.
• • •
Por dois anos me recusei a conhecer novas pessoas. Eu não queria conhecer novas pessoas. Toda vez que começava a sentir um pouquinho que fosse de afeição por alguém, me afastava. Ninguém poderia tomar o lugar que antes era ocupado pela Sara. Esse posto não estava vago. Com isso acabei me tornando uma garota solitária, que vivia com a cabeça enfurnada em livros e se escondia em bibliotecas. Era a “esquisita” da rua, do colégio e de onde mais eu fosse. Lá vem aquela menina estranha com seus livros debaixo do braço. Dizem que ela perdeu uma irmã. Acho que era a melhor amiga. Já viu que às vezes ela conversa sozinha? Acho que ela acha que vê espíritos. E se a amiga morta dela vier nos assombrar à noite? Credo.
Não era fácil seguir em frente quando nem eu mesma sabia como seguir em frente. Simplesmente o passado fazia mais parte do meu presente do que o próprio presente. O futuro parecia nunca chegar. Era como se dias, meses, anos se passassem e eu, simplesmente, continuasse vivendo o mesmo dia.
Três de janeiro de 1999.
A minha salvação veio de um livro empoeirado que achei na estante da casa da minha avó, em 2001. A capa não era nada atraente: marrom, dura, comida pelas traças e com o título apagado pelo tempo. Comecei a ler porque já tinha lido todos os meus livros três vezes cada um e estava me cansando das mesmas histórias.
• • •
O livro começava narrando um conto zen sobre um mestre e seu discípulo. Dizia mais ou menos o seguinte:
Os dois estavam a caminho da aldeia vizinha quando chegaram a um rio caudaloso e
viram, na margem, uma bela moça tentando atravessá-lo. O mestre zen ofereceu-lhe
ajuda e, erguendo-a nos braços, levou-a até a outra margem. E depois cada qual seguiu
seu caminho. Mas o discípulo ficou bastante perturbado, pois o mestre sempre lhe
ensinara que um monge nunca deve se aproximar de uma mulher, nunca deve tocar
uma mulher. O discípulo pensou e repensou o assunto; por fim, ao voltarem para o
templo, não conseguiu mais se conter e disse ao mestre:
— Mestre, o senhor me ensina dia após dia a nunca tocar uma mulher e, apesar disso, o
senhor pegou aquela bela moça nos braços e atravessou o rio com ela.
— Tolo — respondeu o mestre. — Eu deixei a moça na outra margem do rio. Você ainda
a está carregando.
E aí entendi a lição. Eu estava carregando a Sara por todos os lugares que ia. Ela era pesada e estava se despedaçando a cada passo que eu dava. Eu precisava deixar que ela se fosse.
O desapego não é indiferença, covardia ou desinteresse. O desapego é se libertar de tudo aquilo que faz mal e causa sofrimento. Desapegar é sinônimo de se libertar. Soltar as algemas. Colocar asas. Se permitir voar novamente. O desapego é a aceitação, é o desprendimento.
As pessoas são, por natureza, apegadas. Nós nos apegamos a objetos, memórias e pessoas. Nos apegamos a coisas que sabemos que terão fim... Veja só, me apego até a filmes, que sei que duram apenas duas horas. E o que faço quando eles acabam? Assisto de novo. E de novo. E de novo. Assisto tanto que decoro todas as falas. Até repetir tantas e tantas vezes as mesmas coisas, que elas começam a não fazer sentido algum. E é isso que fazemos todos os dias. Nos torturamos com memórias que já foram, repetimos cenas, apertamos o replay e não pensamos na consequência que isso pode nos trazer.
O passado que tanto parecia fazer sentido passa a não fazer sentido algum. As memórias se distorcem, aos poucos desaparecem e você já não sabe mais o que é real e o que é fruto da sua imaginação desvairada. E sabe o que é pior? A vida não para. Enquanto você segura o passado até que suas mãos sangrem e não suportem mais o peso da corda, o presente continua e você nem percebe que poderia estar construindo novas lembranças, ao invés de se agarrar às antigas.
Não adianta tentar manter algo em sua vida que já não faz parte dela. E, eu sei, é difícil aceitar o fato de que não podemos controlar o destino nem todo mundo ao nosso redor. Deveria ser proibido que pessoas queridas fossem para o céu tão cedo, ou que aquele nosso namorado tão legal nos deixasse para ficar com a vizinha. Devia, sim. Mas não é. E sabe por que não é?
Porque nós precisamos aprender, precisamos nos machucar. O coração precisa se partir para aprender a se reconstruir. Se não existissem quedas, não existiriam triunfos. Você vai cair, se ralar, sangrar, chorar e até mesmo pensar em desistir. Vai se prender a lembranças e segurar o passado junto do coração. Depois vai perceber que todo o seu esforço é inútil e que precisa seguir em frente. Vai procurar forças em livros de autoajuda e até mesmo nos conselhos de sua manicure. Vai se olhar no espelho e se sentir a pior pessoa do mundo. Por que tem de ser assim? Para você aprender a se reerguer.
Aquele que consegue colocar o desapego em prática atinge um estado de paz interior e tem a consciência limpa de que deixou o passado onde ele deveria estar: no passado. E que o presente é sempre um presente. E que o futuro vai vir recheado de novidades e sensações novas.
Não se apegar não é ser indiferente à vida. É ter o conhecimento de que o sofrimento chega, mas um dia deve partir. Não podemos dar abrigo ao sofrimento nem permitir que ele faça de nosso coração sua casa permanente. Não é certo. Superar é preciso. Levantar-se mais forte é essencial.
A vida é uma eterna roda gigante. Ora estamos em cima, ora estamos embaixo. Tudo na vida é mutável, tudo mesmo, inclusive nós. Por isso precisamos aprender a “deixar ir”. Nada é para sempre, por mais que queiramos que seja. Veja bem, nem as princesas são para sempre.
Por isso precisamos viver todos os dias como se fossem os últimos. Com intensidade, sinceridade e amor no coração. Precisamos desfrutar cada sorriso, cada olhar, cada instante, porque nunca se sabe quando precisaremos deixá-los ir, para que novas coisas possam vir.
Eu entendi que o passado não existia mais e que ele só existia dentro de mim com uma única finalidade: me destruir aos pouquinhos. Quanto mais eu insistisse em segurá-lo, uma parte de mim morreria. E eu deixei que ele se fosse. E que o presente chegasse. Respirei fundo, não foi fácil. Contudo, eu precisava soltar as mãos daquilo que estava me retendo.
O desapego é saber a hora de se despedir de coisas que não têm mais espaço na sua vida. Pode ser aquele sofá velho que habita sua sala de estar há anos, mas do qual você não se desfaz porque lembra a sua avó. Pode ser aquelas roupas que você nunca usou, mas guardou porque é egoísta demais para doá-las. Pode ser aquela panela sem alça que você ganhou de presente no seu primeiro casamento, mas não teve coragem de jogar no lixo. Pode ser aquele vidrinho de perfume que você guarda no fundo do guarda-roupa só porque lembra o cheiro. Pode ser aqueles vidros de esmalte vazios que você coleciona. Pode ser memórias de pessoas que já se foram, mas que ainda prendem você ao passado. O desapego pode ser aprender a se despedir na marra, já que muitas vezes não temos escolha. O desapego é saber a hora de ir e deixar partir, e isso é essencial na vida de qualquer ser humano.
Quem dera todos soubessem a hora de levantar bandeira branca, reconhecer que acabou e transformar a reticência em ponto-final.
E eu me libertei da Sara. Deixei que ela partisse para o céu das princesas e assim fosse feliz para sempre. Eu ainda precisava continuar a minha história. Eu a carregaria em meu coração como uma lembrança boa e não como um sofrimento.
Essa seria a primeira das muitas vezes em que o desapego seria necessário na minha vida.
• • •
Hoje faço um ano de solteira. É isso mesmo que você leu aí, um a-n-o. Consegui, podem passar o troféu pra cá. E, tá, confesso que até estou começando a gostar da ideia de ser sozinha numa boa. Gostando bastante. É reconfortante acordar pela manhã e não ter que dar satisfação a ninguém. Nem sentir a necessidade de checar o celular à procura de novas mensagens, como eu insistia em fazer (e caso elas não estivessem lá, pensar: “O que foi que eu fiz de errado?”). Nem me preocupar em dizer e fazer as coisas certas o tempo todo. Cansa. Cansa mesmo. Todo esse lance de ter de ser sempre perfeita em tudo... estou longe de ser. Coisa que nós já sabemos.
Pode perguntar por aí. Eu sou a pior amiga do ano, tenho certeza. Enchi tanto a cabeça do Pedro com meus problemas e minhas paranoias que o coitado do garoto nem quis me contar sobre a tal Savanna. Eu sou a pior ex-namorada do ano também. Toda vez que encontro o Gustavo em algum lugar, me embanano toda, não sei se o cumprimento com um sorrisinho, se aceno de longe ou se lanço um daqueles olhares que dizem “morra”. O prêmio de pior solteira do ano também vai para mim. Que tipo de solteira chora loucamente no meio da madrugada, não curte pegar caras aleatórios na pista de dança nem matar a carência com um primo? Eu sou mesmo péssima em tudo que faço. E, ah, que se dane!
Não é tão ruim ser toda errada assim. É divertido. Eu erro tentando acertar, erro tentando errar e acerto quando não me importo se vou errar. Acho que esse é o real segredo: não se importar muito com as coisas da vida. Não adianta se preocupar, planejar, traçar metas, planos, fazer listas de realizações e tudo o mais. As coisas acontecem quando devem acontecer e, meu amigo, você precisa ser paciente nesse meio-tempo. Só que, ok, eu sou ansiosa. Ansiosa demais.
Às vezes penso que, por mim, eu já tinha tudo planejado desde o meu primeiro dia de vida. Quem seriam os meus amigos de verdade, qual seria a minha profissão, onde iria morar, quantos quartos minha casa teria, qual seria a música do meu casamento, e claro, quem seria o meu “príncipe encantado”. Ah, tem também o nome dos filhos e as viagens que faríamos nas férias. Imagine só, que sonho… Que sonho? Saber tudo o que vai acontecer? Não! O legal da vida é não saber exatamente nada. Eu não sei nem quem eu vou ser no mês que vem. Que dirá com quem eu vou querer passar o resto dos meus dias...
Já me apaixonei e quis que fosse “pra sempre” tantas vezes, que eu duvido mesmo que isso exista. Aliás, até existe. Por um tempo.
Pra sempre é tudo aquilo que você vive por um período, pode ser por apenas alguns segundos, mas que se eterniza na sua mente. Você pode ser “pra sempre” com alguém — mesmo que de modo passageiro.
As únicas coisas que não passam, adivinhe só, são você e o seu reflexo no espelho. É o amor-próprio que você traz no peito como um general carrega, cheio de orgulho, as suas insígnias. É tudo aquilo que você realizou e aprendeu com suas cicatrizes.
É fantástico poder relembrar o passado com um sorriso no rosto e dizer: Ei, eu era mesmo uma tola! Se você hoje enxerga isso quer dizer que de tola não tem mais nada.
Hoje posso afirmar que estou curada da síndrome do “preciso-de-amor-pra-viver”. Posso até precisar de amor pra viver (mas, olha, tenho minha mãe e meu pai pra isso! E o Fred, meu felino!), só que não posso fazer da minha vida uma busca incansável. Porque vai que eu não seja a princesa do conto de fadas e acabe tendo o mesmo destino da vilã?
Isso é possível, bem possível, aliás. Agora que parei pra pensar, meu Deus! Devo ser mesmo a vilã do meu próprio conto de fadas. Só isso para explicar o Igor Tullon ter passado de príncipe a sapo fedorento e nojento. Eu me joguei e me exibi pra um cara que eu pensava conhecer bem só porque era da minha “família”. Isso é quase autossabotagem. Com as princesas era o contrário, não era? Elas ficavam na delas, no alto da torre, e o príncipe era quem tomava a iniciativa de salvá-las. Fosse quem fosse... Hum... Estranho. E eu também não acordo bonita como as princesas. Quero dizer, eu tenho espinhas de vez em quando e o meu cabelo se embola só de bater um vento. Esse lance de princesa não é pra mim mesmo, não. Deixo isso pra Disney. Sou apenas uma mulher de carne, osso e imperfeição. É isso. E se alguém quiser gostar de mim, que goste assim. Desse jeito que sou, sem tirar nem pôr (talvez eliminando a mania de falar enquanto durmo, isso realmente é meio chato).
Se alguém conseguir aceitar o fato de que eu sou irônica 100% do tempo, ando na pontinha dos pés, abraço animais de rua mesmo que estejam sujos (e daí? Eles são lindos!), falo demais quando fico nervosa (e quando não fico nervosa também), escrevo tudo aquilo que tenho medo de dizer em voz alta em cartas que nunca envio (é sério, tenho uma caixa delas), tenho medo de palhaços, tenho pesadelos à noite e por isso tremo enquanto durmo, sou extremamente autoritária e estou sempre certa (alguém tem dúvidas de que eu estou sempre certa? É meio óbvio), odeio flores (só gosto daquelas flores rosa que dão em árvores japonesas, acho que se chamam sakura) e fujo incansavelmente do amor ao mesmo tempo que procuro por ele, bem, se eu achar esse alguém, provavelmente a primeira coisa que vou dizer é: “Parabéns. Você é louco”. Depois vou dar um beijo na boca dele. É claro, mais uma vez, aqui estou eu imaginando coisas que nunca aconteceram nem vão acontecer.
A partir de hoje não tem mais esse negócio de “estou esperando a pessoa certa”. Pff. Como se “a pessoa certa” existisse. Aliás, até existe. Mas aprendi uma coisa muito legal. Aprendi que todas as pessoas são certas. Isso mesmo. Todas as pessoas que passam na nossa vida são, de alguma forma, certas e necessárias. Ali, naquele momento. Você precisa passar por elas para aprender alguma coisa.
Nem que seja aprender a não tentar consertar as pessoas (Gustavo), a não ir a baladas sertanejas (Evandro), a não confiar em qualquer garota com um sorriso bonito e um cabelo brilhante (oi, Marina), nem a frequentar becos, mesmo que seja gostosinho (priminho querido), e que quando um garoto some, ele realmente não te quer mais (Tiago).
A propósito, o Pedro chega hoje do intercâmbio na Austrália e eu estou muito ansiosa. Porque vai ter uma festa de recepção no apartamento dele e deve estar todo mundo lá. Tipo, todo mundo. Tipo Tiago. Que era tipo o vizinho do Pedro. Que tipo tinha me dado um fora.
• • •
Pensei em ligar pro Pedro e implorar que ele se “esquecesse” de chamar o Tiago, só que achei que ele ia me achar uma idiota. E, vá lá, não estou com muito crédito, mas eu não quero que ninguém mais saiba quão idiota sou. Se teve outra lição que aprendi recentemente foi a de me preservar ao máximo, ainda mais em momentos de fragilidade.
Por que eu nunca sei lidar com uma pessoa depois de terminar com ela? Ou, no caso, depois de a pessoa se-afastar-sem-qualquer-motivo-e-não-colocar-um-ponto-final? Cumprimento o Tiago com dois beijinhos ou três “pra casar”? Aceno de longe? Sorrio? EU SORRIO? Tá rindo do quê, palhaça? Ah! Que se dane! Pelo visto, e me conhecendo bem, vou improvisar, o que significa fazer tudo da forma mais errada e estabanada possível. Porém, não estou me importando muito com isso. Não mais.
Checo meu visual no espelho duas vezes. Até que estou bonitinha, sabe. Se eu fosse o homem que tivesse me dispensado (Tiago, alôôôôô?), me arrependeria na hora. Aquele shake de morango que estou tomando para perder uns quilinhos finalmente está fazendo efeito. Consigo me enfiar em um vestidinho preto que comprei há séculos em uma liquidação e ainda não tinha usado porque não me servia (era um tamanho menor, mas e daí? Estava na promoção, né?!). Ele é coladinho no corpo, com um decote enorme nas costas. Prendo os cabelos num rabo de cavalo meio soltinho e coloco minhas sapatilhas preferidas (não basta deixar de chorar por homens, eu não preciso chorar também pelos meus pés machucados por saltos altos). Passo o clássico batom vermelho, que, em contraste com a minha pele cor de parede desbotada e meu cabelo loiro-quase-branco, fica até legalzinho.
E vou. Em direção a meu calvário sentimental.
Chego em frente à portaria do prédio do Pedro e, por uns segundos, não consigo me movimentar. Fico estática, como a estátua que ornamenta o corredor do condomínio. Ainda dá tempo de desistir, quero dizer, não que eu seja uma covarde ou coisa do tipo. Eu sou suuupercorajosa. Corajosa mesmo. Assistia a filmes de terror à noite. Andava por cemitérios sem me arrepiar. Caminhava com destemor em ruas desertas sem me importar com assaltos. Tá, quem eu queria enganar? Eu, medrosa pra caramba... E eu quero fugir dessa festinha infestada de lembranças do passado. Poxa, eu não estou a fim. É só dizer pro Pedro que estou com intoxicação alimentar de uma salsicha estragada que comi no almoço. Eu nem como salsicha. Ah, já sei! Posso dizer que minha pedra no rim resolveu se manifestar novamente. Isso. É o que vou dizer. Ele sabe que tenho problema renal, não vai duvidar de uma coisa tão séria como essa...
Resolvo que vou em frente. Cruzo a portaria, cumprimento o Seu Jairo, porteiro, e aguardo ansiosa em frente ao elevador. 3, 2… Não. Eu não vou conseguir. Decido dar meia-volta e retornar para a segurança da minha casa. Isso, eu vou embora dali sem ninguém me ver e… dou de cara com o Tiago cruzando a porta de entrada do prédio. Vestido com uma camisa xadrez, calças jeans surradas, sapatênis brancos e seus incríveis olhos verdes. E, ah, com o cabelo raspado. Tremo. Será que ainda dá tempo de me esconder atrás da porta da saída de emergência?
— Isabela! Oi! Como você está? Poxa, como você está linda, hein? — diz ele, levantando as sobrancelhas assim que me vê.
Obrigada, Deus. Obrigada, mil vezes obrigada. O Tiago está fingindo que nada aconteceu, e assim vai ser. Amém.
— Hã, oi. Tô ótima. — É claro, sem você, seu babaca. — E você? Gostei da camisa. Xadrez. Ficou legal.
Ficou legal. Ficou legal. Poxa, como você sabe elogiar as pessoas, Isabela! Agora, sim, o garoto saberia que você ainda nutria um ódio por ele no coração. Tá, ódio, não. Um odiozinho.
— Valeu. É impressão minha ou você tava indo embora? — pergunta o Tiago, me dando o braço pra seguirmos em direção ao elevador.
Que gentil! Enlaço o braço no dele, que mal tem? Amigos também enrolam o braço no braço do outro.
— Não, é que, hum, eu ouvi um barulho aqui na escada de emergência. Isso. Um barulho. Aí eu vim, é… checar. Entende? Ver se era alguém precisando de ajuda. Sei lá, né? Nos dias de hoje…
O que eu estava falando? Nos dias de hoje o quê? Péssima. Você é péssima, Isabela.
— Você é doida, Isa.
Isso também.
Entramos juntos na festa e logo me surpreendi com a quantidade de gente! A mãe do Pedro realmente se empenhara. Digo a mãe dele porque sei que essa ideia só pode ter partido dela, a Tia Suzie. Ela vive tentando fazer com que o Pedro seja socialmente mais aberto. Quero dizer, por ele eu tenho certeza de que não teria festa alguma. Por mais que o Pedro seja um dos caras mais populares da cidade (sobretudo entre as mulheres), ele não faz muita questão disso. É como se toda aquela gente falando dele ou querendo tirar foto com ele não tivesse a menor importância.
Mas a Tia Suzie convidara umas quarenta pessoas, sem brincadeira. O apartamento de dois andares estava entulhado de gente. Havia convidados por todos os lados (eu não conhecia a metade e tinha medo de ver a outra metade). E ainda não tinha reconhecido sequer um rosto amigo.
— Ora, ora, quem chegou, e chegou muito bem-acompanhada.
Espio pelos ombros e vejo a Amanda, vindo em minha direção com dois copos na mão. Ela me oferece um.
— Não, valeu. Não quero beber. E você sabe cometer uma gafe...
— Olha, eu, se fosse você, bebia, viu? Porque tá todo mundo aqui.
— Todo mundo, todo mundo quem, Amanda???
— Ah, Gustavo, Tiago, que a senhorita já viu, e viu muito bem, seu primo…
— MEU PRIMO? — Percebo que minha voz sai um pouco alta demais e cochicho: — Meu primo??? Tá louca, Amanda? Ele nem conhece o Pedro.
— Pois é! Mas ele tá aí. Não entendi também…
— Ai, me ajuda. Eu tô bonita, Amanda? Olha pra mim, eu tô bonita?
— Relaxa, tá linda! Despista que seu primo está vindo. Bebe isso, rápido.
Olho para o copo na mão dela e decido beber aquele negócio vermelho, sem nem saber o que é. Meu primo está vindo falar comigo. Meu primo, aquele que eu vi sem calça, sem cueca e sem pudor. Ai!
— Prima? — Ouço uma voz chamar atrás de mim.
Ah, não. Não. Não. Não. Giro nos calcanhares e me viro pra ele. Acho que meu rosto não está dos melhores, porque nesse momento um Igor Tullon imaculado pela beleza divina me abraça pelos ombros, me olha sério e pergunta:
— Tá tudo bem? Você tá com uma cara estranha...
— É que eu virei uma bebida estranha assim que cheguei na festa. He-he… Poxa, que surpresa. Não sabia que você conhecia o Pedro!
— Pois é… Na verdade… eu não conheço. Um amigo meu disse que estava vindo e me disse que você talvez estivesse aqui… Então eu quis vir…
Que tipo de pessoa faz isso? Ele era um psicopata stalker? Era isso? Enquanto ele falava coisas que eu não ouvia, eu não conseguia parar de olhar pros lados à procura do Pedro. Onde estava esse idiota? Quanto tempo sem vê-lo. Quase o ano todo! E agora que ele podia me ajudar, aqui nesse momento crítico, ele estava ONDE? De conversinha com alguma garota, eu podia apostar.
— Tá a fim de ir ali na varanda? A gente pode conversar… Só conversar… — diz meu primo cara de pau com um sorriso que conquistaria qualquer uma.
Não, não, não. Para com isso, Igor. Não adianta tentar me seduzir de novo, eu não entro no seu “Camaro amarelo” nunca mais! Nunquinha. Eu juro.
— Eu, eu… eu preciso achar o Pedro. Ainda não me encontrei com ele. Depois a gente, é, hum, conversa, tá?
— Ah, prima, qual é?… Vem cá.
E me puxa pelas costas pra perto dele. Sinto o seu corpo malhado rente ao meu. Os seus músculos saltando pela camisa branca. O cheiro do 212 Vip à flor da pele vem com tudo. Eu já sentia meus hormônios agindo e amolecendo meu corpo...
— ISA!!!!!
Me viro, espantada. É o Pedro! Minha Nossa Senhora dos Necessitados! Obrigada por mais esta bênção divina. Eu não sabia se era tão merecedora assim.
— Pedro Miller, seu babaca! Bem-vindo de volta!
E deixo que ele me envolva em um abraço que estava fazendo falta. Ô, se tava. O Pedro parecia ter crescido ainda mais nesse tempo que eu fiquei sem vê-lo, ou seria eu que estava diminuindo? Mais?! O casaco de couro, como de costume, por cima de uma blusa branca em gola “v” que deixava um pouco dos pelos do peito à mostra. As calças jeans rasgadas, o sapatênis preto. Ele não mudara nada, nadinha. Estava exatamente igual a quando o conheci. Talvez um pouco mais bronzeado, e os olhos mais azuis. Mas ainda assim é o meu melhor amigo.
— Você é... A gente se conhece? — Pedro se dirige ao Igor, dando aquela alfinetada.
— Não, na real... Eu sou amigo do... — Igor responde, um pouco gago.
— É, né? Olha, vou roubar ela um pouquinho de você, viu, campeão? E já aviso que não devolvo — manda ele, dando o sorriso mais debochado possível, enquanto me puxa para a varanda do apartamento.
— Nossa, valeu! Aquele lá era o meu primo. Sabe, aquele que eu… Hum. Você sabe.
— Sei. — E dá uma gargalhada. — Aquele do beco...
— É, esse mesmo. Acredita que ele estava querendo me levar pro beco de novo? Quero dizer, não pro beco, o beco… Mas pra um beco. Outro beco.
E ele sorri novamente sem me responder nada. Ainda me encara com aqueles olhos como se estivesse me vendo pela primeira vez.
— Que foi? Parece que nunca me viu, eu, hein! — digo, revirando os olhos.
Eu odeio quando as pessoas ficam me encarando. Sei lá, me fazem sentir muito vulnerável.
— É que eu tô com muita saudade.
— Muita? Sei. Pedro? Sentimentos? Saudade? Oi? Isso é uma pegadinha?
— Eu tenho sentimentos. Mas é que gosto de guardar para poucas pessoas.
— Ahá, então você tem um carinhozinho por mim. Eu sabia, Pedro. Esse seu jeito de durão não me engana nem um pouco, viu?
— Você está de rabo de cavalo — muda de assunto.
Eu nunca usava rabo de cavalo. Verdade.
— É, tô... ficou feio?
— Ficou meio feio, sim. Não vou mentir.
— Bom que esses despachos de macumba que sua mãe convidou não pensam duas vezes antes de desviar de mim.
— Tô brincando, branquela. Tá muito bonitinha.
— Odeio quando você me chama de bonitinha.
— Por quê?
— Porque eu não quero ser bonitinha. Quero ser tipo, LINDA. MARAVILHOSA. Entendeu? — explico, em meio a uma gargalhada.
— Desculpa te decepcionar assim, mas você só é bonitinha mesmo. Foi mal.
— Chato.
— Chata. Vai me explicar qual é a desse rabo, ou vai me dizer que em um ano você abandonou os cabelos soltos de vez?
— Eu tô tentando dar uma mudada, sabe? Toda mulher quando quer mudar de vida muda de cabelo. É tipo uma lei. Só que como eu sou covarde demais pra mudar de cabelo, faço um rabo. Porque o rabo é como se eu estivesse mudando, e eu quero mudar. Quero mesmo.
— Você já mudou. Nem precisa de rabo de cavalo. Dá pra notar só de olhar pra você.
— Ah, é? Você está não faz nem cinco minutos comigo, como percebeu isso? Não precisa tentar me agradar, é sério. Por favor.
É verdade. Ele não precisava tentar me fazer sentir melhor, por mais que amigos sirvam para isso.
— Não, é sério. Eu estava te observando enquanto você conversava com o seu primo. Você está mais confiante, mais segura de si. Com certeza não é mais a menininha que eu deixei aqui no Brasil. Eu tô muito orgulhoso.
— Obrigada, obrigada. Não vou dizer que foi fácil, porque, olha, não foi. Eu chorei, tipo, muito. Muito mesmo. Ah, você já sabe. Aliás, você não sabe da missa a metade. Acredita que o Tiago hoje fingiu que nada aconteceu? Simplesmente me tratou como se nunca tivéssemos tido nada. Canalha da pior espécie. Me deu o braço e eu dei o meu de volta, né? Por que... o que eu ia fazer? Dizer que não queria dar o braço e parecer afetada? Poxa, eu não estava afetada. Tá, talvez um pouco. Porque aqueles olhos dele realmente me deixam nervosa. Porém, fui firme, acho.
— Há-há-há! Como eu senti saudade disso. Você não bate bem, Isa — resume ele e me olha com um olhar quase curioso. — Ele não explicou nada do “término” de vocês, não? Ficou no ar?
— Ficou, né? Ele nem se deu o trabalho. Só se afastou, afastou super. Me mandou uma mensagem apenas. Como que era mesmo?, acho que dizia “Não podemos ficar juntos. Desculpa”. Preferia o velho e bom “O problema não é você, sou eu”. Sinceramente.
— Ele foi fofo, vai? Dá um crédito pro cara.
— Fofo?! Fofo? Onde você viu fofo? Não vi fofo em lugar algum. Nem uma carinha feliz. Nem um “bj” no final. Nada. Seco, mais seco que tudo.
— Eu nem mando mensagens pra terminar com ninguém, não, branquela.
— Ah, mas você não conta.
— Ué? Por que eu não conto? — pergunta, interessado.
— Porque você é assim, todo mundo sabe. Impossível entrar nessa redoma que te cerca, e as garotas que conseguem esse feito, nem que seja por alguns dias, se orgulham disso. Se quer mesmo a minha opinião, um bando de bobinhas… Eeeeee, por falar em bobinhas, e a Savanna?
Ele me encara sério. Acho que ainda não é permitido fazer piadinhas sobre a Savanna.
— Tô brincando, Pedro. E a Savanna? Aquela linda sarada que você estava namorando?
Ok. É hora de saber do assunto proibido. Estou preparada.
— Já estou louco de saudades. Passei um ano grudado naquela menina… Agora vai ser difícil esquecer. Diria impossível.
— Wow! Isso que é paixão avassaladora.
— Acho que tá mais pra amor mesmo — confessa, enquanto observa o céu estrelado acima de nós.
Eu amo estrelas. Amo, amo. Amo muito. Queria que minha vida fosse um conto de fadas estrelado! Brincadeirinha. Podia ser só estrelada mesmo…
— Me conta logo! Para de suspensinho! Como que foi o primeiro beijo, o primeiro encontro, o segundo encontro, se quiser contar o terceiro também… Conta! Anda! Tô ansiosa!!!
— Não teve encontro. — E Pedro desvia o olhar. — Por que você acha que teve um encontro?
— Porque não é isso que casais fazem? Se encontram, se beijam, se amam? Ai, Pedro. Faça-me o favor, né? Até parece que você não sabe.
— Isabela.
— Pedro, tudo bem. Tudo bem. Eu sei que você é fechado quando se trata de falar de intimidades, que você odeia falar sobre as inúmeras garotas nas quais dá o fora todos os dias e tudo o mais. Eu sei, sei mesmo. E eu nunca te pedi que fosse boca aberta como eu, quero dizer, eu te conto as coisas porque gosto de contar, gosto muito. E não consigo parar de falar quando tenho uma novidade, tem isso também. Mas poxa, POXA VIDA! Eu amo histórias de amor, e você estava na Austrália. Na Austrália! E conheceu uma garota chamada Savanna, nossa, esse sempre foi o nome das minhas Barbies surfistas, sério, eu sempre quis ser uma Savanna, não sei por quê… Vai me negar saber uma história de amor? Você vai me negar isso mesmo? Sério?
— Isabela. Para — ele diz, colocando o dedo indicador na minha boca. — Respira fundo.
Respiro. Estou p. da vida. Eu nunca quis saber nada da vida amorosa dele e quando quero saber ele fica fazendo miserinha? Ah, para.
— Branquela… Savanna é o nome da garotinha que eu tomava conta lá na Austrália. Eu trabalhava de “bábá” dela. Tomava conta enquanto os pais dela não podiam estar por perto, o que era quase o dia todo. Tadinha. Se apegou muito a mim e eu a ela. Ela tem apenas seis anos, um amor. Acho que você iria amá-la. Sério.
Eu estava embasbacada. Esse tempo todo, ESSE TEMPO TODO, eu querendo saber da tal Savanna e ela era apenas uma garotinha? Uma garotinha de seis anos? E por que o Pedro escondeu isso de mim? Por que não disse simplesmente: Ei, eu não estou vivendo um romance enquanto você está aí se ferrando. Eu tô cuidando de uma garotinha de seis anos de idade chamada Savanna. Não precisa odiá-la. Por Deus! Eu estava odiando a tal da menininha e ela devia ser linda, loirinha, de olhos azuis. Desculpa, Savanna. Desculpa. Desculpa.
Além de tudo estou me sentindo uma idiota. Uma idiota completa. Que tipo de amigo o Pedro é? Fala sério. Eu abro meu coração pra ele e ele nem me conta o que estava fazendo lá na Austrália. Babá. Pff. Desde quando ele tem jeito com crianças? Ei, ele tem jeito com crianças?
— Isa? — sussurra ele, enquanto tenta colocar a mão nos meus ombros.
— Sai pra lá. Vou atrás da Amanda. Não quero papo — ameaço sair da varanda e ele me puxa pelo braço.
Ele estava malhando lá na Austrália? Porque doeu.
— Ah, Isabela… Para, né? Vai ficar com raivinha por isso? Achei que você odiasse a Savanna versão minha namorada.
— E eu odiava mesmo. Só que agora eu odeio você, só isso. Te odeio por não me contar o que estava fazendo na Austrália, a Amanda sabia disso? Ou você enganou nós duas? Onde você queria chegar com isso? Você queria me fazer sentir miserável? Me fazer sentir a única no mundo que não consegue achar alguém legal? Parabéns. Você conseguiu. Só que eu não me importo de ficar sozinha, não mais. Mas na época eu estava superchateada, chateada mesmo, e você nem pra aliviar o peso que estava sobre os meus ombros… Como você pôde… Como…
E eu ameaço cair no choro. Não, não. Se segura, Isabela.
— Isa, Isa! Não! Não chora. Por favor, desculpa. Eu achei engraçado, só isso, e que você fosse rir. Para, para… — se desculpa e me abraça forte, muito forte.
— Tô cansada de ser enganada por todo mundo. Poxa, Pedro. Logo você. Você. Eu aqui achando que a Savanna era uma surfista bronzeada, loira, alta, gostosa, dos olhos claros e pele perfeita. Eu aqui com raiva dela deitada na sua cama, eu com raiva dela se fazendo de desentendida no telefone. Argh, que vergonha!
— Ela bem que podia ser essa aí que você disse mesmo. Mas não. Era uma garotinha muito levada que gostava de andar nas minhas costas pra parecer mais alta.
— Te odeio — choramingo e dou um soquinho no braço dele. — Te odeio, odeio. Mas eu não consigo te odiar. Aí, te odeio mais.
— Eu sei bem o que é isso. É que sou irresistível demais para ser odiado — responde e sorri.
E pela primeira vez consigo superar a vontade de chorar.
— É, deve ser. Idiota. — Sorrio de volta. — Agora eu quero saber tudo que rolou por lá enquanto eu estava aqui vivendo o Filme da Isabela nada romântico.
Ele finge que não me escuta. Está olhando as estrelas de novo.
— A gente é tão pequeno, né?
— Hã?
Do que ele estava falando? Da minha altura? Porque olha, se for, eu juro que não saio mais de sapatilha por aí.
— Me diz, por que você se encanta tanto por estrelas mesmo?
— Ah, porque estrelas me lembram mágica. Me fazem pensar que existem sempre outras histórias, outras vidas, outros amores, outras coisas. Estrelas são como milhares de olhos brilhando de volta para você, no céu. E isso me inunda com um sentimento que não sei explicar muito bem. Acho que é isso. Por que a pergunta?
— Porque lá da Austrália eu me pegava observando as estrelas quase toda noite. E elas me faziam sentir menos…
— Vazio — completo.
— É! Isso, vazio. Como sabia que eu ia dizer isso?
— É que toda vez que eu me sinto vazia demais olho para o céu e imagino que outra pessoa está sentindo a mesma coisa, de algum lugar do universo. E aí tenho certeza de que dois vazios às vezes transbordam.
— Eu não teria tanta certeza assim.
— Hã? Por quê?
— Acho que nem as estrelas me transbordam.
— Você diz isso porque não sabe o que é amor.
— Eu sei o que é amor. Eu só não sei amar — responde ele, em meio a um sorriso de canto de boca.
— Dá no mesmo. Relaxa, eu também não sei amar. E olha que eu amo amar, quero dizer, eu queria amar, porém, como nunca amei, então não sei se sei mesmo amar. Ah, você entendeu.
Ele sorri de novo. Dessa vez de verdade, com sinceridade.
— O amor é uma fila de espera infinita em uma sala de estar fria e escura.
— Oi? — O que ele está dizendo?
— Quero dizer que você está na fila de espera, mas que sua vez vai chegar. Alguém vai chegar para te salvar dessa espera.
— Não vejo a hora, é sério. Mas, Pedro, e a sua vez? Não quer que chegue?
Por que ele sempre se esquivava de tudo que se relacionava a sentimentos?
— Não. Esse lance de amor não é pra mim. Me viro melhor sozinho. Isso não mudou muito — afirma, convicto, e dá de ombros. — Vou voltar pra festa, você vai ficar bem sem mim?
— Eu sei me virar sozinha. Agora eu sei — declaro e dou uma piscadinha, que ele retribui antes de se virar de costas.
Aí ele se vira novamente, como alguém que pensa três vezes antes de falar, e grita:
— Se precisar, já sabe… Estou sempre aqui para te salvar.
E sai, me deixando com meus pensamentos.
• • •
É estranho pra mim conhecer alguém que não se importa com o amor. Sei lá, o que leva uma pessoa a desacreditar do amor? Muitas decepções? Inúmeros relacionamentos fracassados? Feridas que não cicatrizam? Mágoas passadas?
Eu tenho isso tudo e mais um pouco. Porém, ainda acredito no amor. Acredito porque acreditar no amor é gostosinho. Acredito porque acreditar no amor é o mais perto que posso chegar dele. Acredito porque acreditar no amor é a única coisa que o mantém real na minha mente.
Mesmo que demore anos, mesmo que se atrase, pegue o caminho errado, vire em uma rua sem saída, se perca e talvez nunca chegue, eu ainda vou admirá-lo.
Acho que o amor existe, sim, e é muito bonito. É lindo mesmo. Para quem sabe ver, para quem sabe sentir. Alguns se machucam pelo exagero, outros pela falta. Uns erram porque não conseguem sentir, outros porque sentem demais. O ideal é não se preocupar e não sonhar demais. O amor vem para os distraídos. Chega sem avisar. Não gosta que o esperem. E eu não espero. Não mais.
A partir de agora, vou viver um dia após o outro. Vou viver como se todos os dias fossem o meu último dia. Vou desapegar de tudo o que me faz mal e me retém ao sofrimento. Vou desapegar das ideias idiotas e infantis. Vou viver a minha vida do jeito que quero. Que mal tem?
Estou muito feliz assim. Amor-próprio, coração tranquilo e alma leve. Sem medo de me decepcionar. Porque as decepções vão vir de qualquer jeito, então que eu as aguarde com um sorriso no rosto. Podem vir. Eu vou superar. Eu sempre supero.
Olho para o céu e sorrio. Eu sei que em algum lugar deste universo todo alguém sorri de volta pra mim.
Final feliz é não ter fim. E é claro que, diferente de qualquer clichê, minha história não termina por aqui.
Você terminou Não Se Apega, Não
Isabela Freitas
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