Não Se Apega, Não

Isabela Freitas · Capítulo 12 de 13

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Não Se Apega, Não

11. Onde o “algo mais” se esconde

O dia amanheceu confuso. Primeiro, porque sonhei com o Gustavo. Peraí, Gustavo? Era só o que me faltava. No meu sonho ele estava dando um dos seus famosos ataques de ciúmes. Típico. Por um momento, até achei que fosse real e fiquei me perguntando: “Por que eu namoro esse cara patético mesmo?”. Mas daí abri os olhos, olhei para o teto estrelado do meu quarto (ganhei do Pedro ano passado, são estrelas adesivas que brilham quando apago a luz! Ah, eu já disse que amo estrelas? Bem, eu amo. Amo mesmo) e vi que não passava de um sonho. Ufa! Até nos sonhos o Gustavo era um saco.

Sorri. Lembrei-me do dia em que ele fez o maior auê porque um cara me chamou de “loira gostosa” no meio da rua. Pois é.

— Gu, onde tá aquele CD que a gente gosta, hein? Não tô achando aqui no porta-luvas — pergunto, em uma tentativa inútil de puxar assunto, visto que o bico dele devia estar chegando na China, de tão grande.

Ele não responde.

— Gustavo, e aquele seu amigo, o Nilo? Terminou o namoro mesmo? — tento de novo.

Por que eu era idiota assim? Um mistério, certamente.

— Por quê? Tá a fim de ficar com ele? — responde, entredentes.

— O quê? Hã? Ficar com ele? Tô só querendo conversar, seu mal-humorado — retruco.

Ah, não. Sinceramente. Eu devo ter mandado Jesus Cristo desapegar, porque minha vida não é nada legal. Não mesmo.

— Você que é vadia.

Incrível, não? Ele me chamou da palavra com “v”. Em alto e bom som. V-a-d-i-a. Eu era uma v-a-d-i-a. Sabia que não existe nada pior do que ouvir da pessoa que você gosta uma coisa dessas? É depreciativo, dói na alma. É como ouvir a sua mãe dizer que nunca te quis, ou algo do tipo. Eu já não era loucamente apaixonada pelo Gustavo, só que isso me doeu tanto, que eu tive vontade de morrer. Ali mesmo, no cantinho escuro do carro. Fiquei sem reação, afinal, como se responde a uma ofensa dessas? Vou chamá-lo de idiota? Estúpido? Nada se compara a um “vadia”. E por que diabos ele estava me chamando assim? O que eu tinha feito? Eu estava a fim de conversar, poxa. Então eu pergunto:

— Vadia? Por que vadia?

Eu não consigo pensar em nada melhor para dizer e acabo por perguntar por que sou uma vadia. Ok. Que se dane.

— Não se faz de boba, Isabela... — diz, áspero, com um sorriso sarcástico no rosto.

Eu odeio quando garotos são sarcásticos e debocham da nossa cara. Tudo bem, eu admito, eu sou sarcástica na maior parte do tempo, mas, caramba, é um sarcasmo saudável, só ironia bem-humorada, não faz mal a ninguém. Não era esse sarcasmo que diz não-se-faz-de-boba-sua-ridícula-eu-sei-o-que-você-fez-no-verão-passado. E aí você se pergunta: “O que eu fiz, hein?”. Será que foi naquele dia em que recusei a ligação dele quando estava no cinema com a amiga? Ou no dia em que disse que queria ficar sozinha e fui dormir na casa do Pedro para ver filmes da Disney a noite toda? Ah! Já sei. Ele deve ter descoberto que fui eu que quebrei o vaso de porcelana do banheiro da casa dele no dia em que não conseguia me enfiar num vestido um número menor que insisti em comprar. Mas vadia? Não justificava. Não mesmo.

— Olha, eu não sei do que você está falando. Se quiser conversar como adulto, eu estarei aqui.

(Uma dica: quando estiver discutindo com um garoto e ele começar a ser infantil com você... Não seja infantil de volta. Aja com maturidade, fale algumas palavras difíceis e deixe que ele pareça estúpido sozinho. Sempre funciona.)

— Quer mesmo que eu fale o que você fez? — pergunta um Gustavo esbaforido, vermelho de raiva.

— Quero, uai!

— Você, com esse vestidinho aí, naquela hora em que fomos na sorveteria passou um rapaz do seu lado e disse: “Nossa, que loira gostosa”. Ridículo. Ridículo. Olha seu vestido. Fiquei com nojo quando ele disse isso.

— Nojo dele, você quer dizer, né? — dou uma chance para que ele não seja ridículo.

Gustavo não aproveita, claro.

— Não, nojo de você.

— Para o carro que eu vou descer.

— Para de show. Não precisa disso.

— É sério, Gustavo. Agora. Eu vou descer, você parando o carro ou não. Escolhe.

— Para de drama, Isabela. Tá perdoada.

— GUSTAVO, EU NÃO QUERO O SEU PERDÃO. EU QUERO DESCER DESTE SEU CARRO NOJENTO! A-G-O-R-A!

Em meio aos meus gritos, ele foi forçado a encostar o carro e eu desci sem olhar para trás. Definitivamente, se o copo estava cheio, vazando por todos os lados, agora ele havia transbordado. Não havia nada mais para aguentar o peso daquela relação. Qualquer base que um dia pudéssemos ter construído caíra ali, naquela quarta-feira em que decidimos sair para tomar um sorvete como um casal normal. A diferença era que nós estávamos longe de ser um casal normal.

Fico pensando o que meu pai diria (ou faria) se soubesse de uma coisa dessas. Quero dizer, ele cuidou da sua pequena e frágil princesinha por anos pra chegar um babaca e tratá-la como lixo? Quebrá-la em pedaços? Não, não. E é por isso que eu nunca contei pros meus pais o que o Gustavo fazia, e fez. Eles não mereciam esse desgosto, sabe? Até porque parte disso é um pouco culpa minha. No primeiro sinal de agressividade e ciúmes eu deveria ter caído fora e não ter insistido, perdoado, aceitado. Por mais que a gente queira e deseje que as pessoas mudem, se não quiserem mudar elas simplesmente vão continuar as mesmas. Ou, na maioria dos casos, até piores.

Acontece que, durante um relacionamento, é comum tapar os olhos para não se magoar tão facilmente. As mágoas começam pequenininhas, tímidas, diria que até educadas, como se pedissem: “Ei, posso te magoar um pouquinho? Só um pouquinho, vai. Juro que não vai doer”. E você deixa, sem reação, porque o que você sabe sobre o amor é tão pouco, e tão pequeno, que não é suficiente para afirmar: “Ei, desde quando o amor dói?”. E você se machuca. E você sangra. E a ferida cicatriza. E abre de novo. É um ciclo no qual os dias ruins são como os dias da semana, e os dias bons são uma sexta-feira, seguida de um sábado, até que o domingo vem para te lembrar quão miserável a vida é.

No fim de tudo, a gente se questiona: “Como eu suportei isso por tanto tempo?”. E eu digo: “Porque você é mais forte do que imagina”. Sabe, todos esses anos que você passou insistindo na relação com uma pessoa que não deveria, os anos que passou se machucando, se decepcionando, dando a cara a tapa... eles não foram de modo algum anos perdidos. Foram anos da academia da vida. Veja só, eu, de tanto cair, me tornei profissional em me levantar com um sorriso no rosto e dizer: “Relaxa, gente. Foi só um tropeço de nada. Tá tudo bem, viu?”. E realmente. Foi só um tropeço entre os muitos que vou tomar durante a minha estadia aqui na Terra. Deixa pra lá, né?

Lembrar-se do passado com um sorriso no rosto é a prova de que o passado não te machuca. Não mais.

Hoje eu estava assim.

• • •

Trim-trim-trim.

Oi? Que som era esse?

Trim-trim-trim.

Acho que o mundo real estava me chamando pelo celular.

— Isa! Nossa, será que você pode atender esse telefone ao menos uma vez?

Reconheço a voz do outro lado da linha, é a Amanda.

— Mandy, desculpa. Estava com a cabeça no mundo da lua. O que você manda? — respondo, enquanto observo o Frederico olhar para “o nada” com aqueles olhos verdes esbugalhados.

Às vezes, eu juro que esse gato vê coisas que eu não vejo.

— Vamos fazer uma noite das meninas hoje? Li no Facebook que você alugou um montão de vídeo, o Victor viajou e eu pensei que nós poderíamos comer e chorar juntas vendo filmes. Que tal?

— Claro, mas sem a parte do choro, por favor. Não aguento mais chorar.

Eu havia alugado todos os meus filmes preferidos de todos os tempos. Tá, eu adoro ver de novo filme que já vi. E daí? Isso não faz de mim uma pessoa estranha. Ou faz? É que eu gosto de assistir sabendo como termina, entende? Me dá uma agonia enorme quando vejo um filme pela primeira vez e não sei se o mocinho vai ficar com a mocinha, se eles vão ser felizes para sempre, se todos se casam no final, se o mundo vai ser salvo, sabe? Não que eu ache que sempre tenha de haver finais felizes. Mas dá um conforto no coração se a gente sabe que vai dar tudo certo. Já que na vida tudo é tão incerto, pelo menos na tela o final nunca muda. E os personagens podem ser felizes toda vez que assisto.

Minha listinha de filmes preferidos de todos os tempos:

(500) dias com ela

Keith

Um porto seguro

Um dia

Ironias do amor

As vantagens de ser invisível

Um amor para recordar

Casa comigo

Efeito borboleta

Doce novembro

Quase tudo que eu sei sobre o amor aprendi com meus filmes e livros preferidos. E não me leve a mal, é que eu nunca vivi um amor para saber como é. Então, é justo procurar saber um pouco mais sobre ele no que vejo por aí. Quanto mais conheço sobre o amor, percebo que menos sei. Parece que ele é uma pequena partícula de nada, que muda a cada segundo de forma e de lugar. Quer dizer, o amor existe mesmo? Ou é uma das teorias de conspiração espalhadas pelo mundo? Vai saber...

O problema é que eu sei que o amor existe, sei sim. Sei que o amor existe quando vejo um noivo se emocionando ao olhar sua noiva entrando pela igreja. Sei que o amor existe quando olho para a minha mãe e tenho vontade de arrancar o coração fora de tanto carinho e ternura. Sei que o amor existe quando os olhinhos do meu pai brilham de orgulho ao falar sobre mim. Sei que o amor existe quando dou comida ao Frederico e ele se esfrega em mim como agradecimento. Eu sei. Ele, o amor, existe. Só insiste em fugir de nós.

Um filme que me marcou muito foi (500) dias com ela. Eu me identificava bastante com a Summer e acho que desde o início compreendi o que ela sentia. A gente se preocupa com rótulos, com o futuro, com as coisas certas, e isso cansa. Se vivêssemos mais despreocupados talvez fôssemos — e nos permitíssemos ser — bem mais felizes. A Summer era feliz do seu jeito. Sem se apegar a qualquer um só porque esse um lhe fazia bem, qual é? Achar alguém que nos faça bem é fácil. Difícil é achar alguém que faça o nosso coração bater forte. O que aconteceu com o Tom, personagem do filme. O amor pode ser unilateral, sabia? Eu aprendi isso com (500) dias com ela.

E mesmo que você morra de amor, ainda é possível nascer de novo. Com o amor não tem essa de ter fim após a morte. Morrer de amor é renascer para um novo amor.

Assim que acabamos de ver esse filme, Amanda estava revoltada.

— Não entendo. Como ela não consegue amar um cara como o Tom? Ele é tão… perfeito — diz, enquanto observa a capa do DVD com os olhinhos semicerrados.

— Ah, não é bem assim. Ele não era o cara certo para ela — rebato.

— Ele é o cara certo para qualquer garota, Isabela. Fala sério!

— O certo para você às vezes não é o certo para mim. E o perfeito para uma pessoa pode ser muitas vezes o imperfeito, entende?

— Não. Não entendo. Ainda acho que ela é burra.

— Eu acho que ela é fantástica. Não é fácil resistir ao “perfeito”, sabe? Ela sabia que ele era tudo de melhor que ela poderia ter, um rapaz que, com certeza, faria de tudo para fazê-la feliz. Mas ela queria algo mais. Algo que a emocionasse de verdade.

— Meu Deus, louca. Louquinha. Eu nunca recusaria um homem desses na minha vida.

Sorri. Eu sabia disso. Amanda Akira era o tipo de garota que minha mãe se orgulharia de ter como filha. Gostava das coisas certas, ajeitadas conforme deviam ser. Arrumar um bom “futuro marido”, um rapaz decente, trabalhador, que fizesse bem a ela… isso bastava. Esse papo de que ele devia fazer seu coração bater mais forte e causar a estranha sensação de frio no estômago era balela. Papo pra boi dormir.

Segundo minha mãe, “livros são ilusões de como o amor deveria ser. E não de como ele realmente é”. Discordo, pois como seria criada a ilusão sobre o amor ideal por alguém que nunca viveu nada daquilo? Só consegue descrever o amor puro e límpido alguém que já o viveu de todas as formas. E eu acredito, acredito mesmo, nos poemas e nas histórias que vi por aí. Sei que elas aconteceram e marcaram a vida daqueles que as escreveram.

A Amanda encontrara seu porto seguro. Ele não a fazia morrer de amor, não que ela estivesse disposta a isso. Ele lhe dava segurança, e isso, para ela, era a idealização do que o amor deveria ser. Achei que não deveria discordar, afinal, e se ela estivesse mesmo certa? E se minha mãe estivesse certa? Que eu nunca vou achar alguém que faça o meu coração acelerar como se estivesse a 200km/h em uma infinita highway?

Pensar nisso me fez lembrar o dia em que surgiu a expressão Filme da Isabela, lá no sítio da Amanda. Nesse dia, quando o Pedro e a Amanda foram dormir, eu continuei sentada na varanda esperando que o sol chegasse para me fazer companhia. O céu estava maravilhoso, numa mistura de tons rosados e azuis formando um espetáculo inacreditável. Quis ser capaz de voar e sentir, só por alguns minutos, a sensação que os apaixonados descrevem como “pisar em nuvens”. Enquanto me encontrava absorta em pensamentos sem sentido, senti alguém se acomodar a meu lado no banco de madeira duro e frio.

Era o Pedro. Pedro Miller era um garoto que escondia mais do que mostrava. Apesar de ser meu melhor amigo, eu ainda achava que sabia bem pouco sobre ele. Todo esse lance da separação da sua família, do irmão gêmeo que ele só conhecia por fotos, do ódio pelo pai e por tudo que ele passou o fizeram crescer em um casulo. Como se tivesse de se proteger o tempo todo de um eventual ataque. Mas tinha momentos em que ele se permitia sentir. E eu intuía que esse era um desses momentos.

— Tá fazendo o que acordada ainda, branquela? — diz ele, com um sorriso forçado no rosto.

Sei disso porque os olhos tristes não me enganam.

— Sem sono — retruco, ainda deslumbrada com o céu rosado.

— Hum. Tive um pesadelo e resolvi vir tomar um ar. Só não esperava encontrar um pontinho loiro bêbado sentado aqui fora. Tá com frio?

— Eu tô. — E, assim que digo isso, ele começa a tirar seu casaco de couro para me dar, provavelmente. — Não, não. Não preciso do casaco. Eu quero sentir frio.

— Hã? Tá louca? Põe esse casaco logo, Isa — responde ele, enquanto tenta empurrá-lo para cima de mim.

— Não, é verdade. Eu gosto de sentir frio. Me faz perceber quão vulnerável eu sou. E quem sabe então eu não sinta alguma coisa percorrer o meu corpo.

— Como assim?

O casaco agora jaz perto de nós, nos separando por alguns centímetros.

— Sei lá, sabe, eu não tô bêbada mais. Tô falando sério. Eu não sinto nada, Pedro. Nada mesmo. Eu sempre tento sentir, faço de tudo pra que uma pontinha de sentimento esquente o meu corpo. Ela nunca vem. E eu não sei o porquê ou o que eu fiz para merecer isso. Ou não merecer, no caso. — Sorrio, infeliz. — Entende?

— Nossa, profundo, branquela. Acho que vou experimentar um pouco disso também.

E nós dois passamos exatos vinte minutos em silêncio, olhando o nada, escandalizados com o show que o sol dá ao nascer.

Olho de soslaio para ele. Os olhos azuis iluminados pela luz do sol estavam mais bonitos do que de costume. A cicatriz na bochecha esquerda agora estava mais evidente, e a tristeza que sempre habitava a sua expressão estava ali também, escondida, embora eu ainda não conseguisse ver. Eu não entendia muito bem o Pedro, mas gostava dele. Gostava mesmo. Por mais que ele aparentasse estar feliz com a vida que levava, eu sabia que, assim como eu, ele procurava por seu “algo mais”. E isso me fazia sentir um pouco menos solitária. Todas essas meninas com quem ele ficava não passavam de meras distrações na sua vida. O Pedro parecia não ter sentimento algum na maior parte do tempo, como se ele realmente não se importasse nem um pouco com ninguém. No entanto, ele se importava comigo. E se importava com a Amanda. E isso me dava a esperança de que seu coração, mesmo machucado, ainda fosse capaz de sentir algo. Não suportava olhar para seus olhos tristes.

— Tá pensando no quê? — ele interrompe o silêncio.

— Nos seus olhos — digo, sem pensar.

Merda, merda, merda. Isso de falar a primeira coisa que vem à minha mente qualquer hora vai me fazer entrar em uma encrenca, das piores.

Ele vira e me encara. Sem dizer uma palavra.

— Quero dizer, em como seus olhos são bonitos, entende? Eles são azuis, e azul é uma cor, tipo, muito linda. Queria eu ter olhos azuis como os do meu pai e como os seus, só que os meus são castanhos, e castanho é muito sem graça, né? — tento suavizar.

Eu e minha mania de sair falando igual a uma louca quando fico nervosa.

Ele sorri.

— Ahã. Azul é muito bonito, mesmo. Então você gosta dos meus olhos?

E, nesse momento, eu pude jurar que ele estava flertando comigo. Não, não. Nós éramos melhores amigos e eu estava carente. Não deixe sua mente te pregar peças, Isabela.

— Então é assim que você conquista todas aquelas garotas, né? Juro que pude visualizar a cena de você falando isso pra uma de suas ficantes abestalhadas.

— Não exatamente.

— Hã? — pergunto.

— A diferença é que eu não me importo mesmo se elas gostam ou não — responde ele, dando de ombros, enquanto acende um cigarro.

— Como assim?

— Deixa para lá. Um dia você entende. Que visual maneiro — divaga, mudando de assunto. — Nem dá vontade de dormir.

— Verdade... Pedro, você já sentiu como se estivesse “pisando em nuvens”?

— O quê? De onde surgiu isso? — E ri. — Você tem cada pergunta…

— É que eu li um livro em que a personagem principal fala que “amar é como pisar em nuvens”, e eu queria saber como é essa sensação. Estava pensando nisso um pouco antes de você chegar.

Ele respira fundo, solta a fumaça do cigarro:

— Bom, se é essa a sua pergunta, não, eu nunca amei ninguém.

Me viro para ele, espantada.

— Nunca? Nunquinha? Mas você já ficou com tantas garotas, e poxa, achei que já tivesse pelo menos se apaixonado por uma delas. — Eu realmente pensava isso.

Como se chamava aquela menina mesmo? Helen. Ele até chorara por ela uma vez.

Então ele se vira para mim e me encara, franzindo o cenho.

— Isso é sério, Isabela. Se apaixonar, todo esse lance de amor, sei lá. Acho que não é para mim. Eu nunca aprendi como é isso e duvido que um dia consiga aprender.

— Ah, eu também. — Sorrio, meio que encorajando-o. — Relaxa. Um dia você se apaixona, tenho certeza.

— Você fala como se todo mundo quisesse isso.

— Eu quero isso. Você não?

— Você idealiza muito esse lance de amor, paixão, histórias de filme, livros. Eu, por outro lado, já aceitei que isso não existe e aceitei viver assim. Sozinho.

— Não entendo por que você se fecha tanto no seu mundinho — emendo, resolvendo ser sincera.

Afinal, não era isso que estávamos tendo agora? Uma conversa sincera?

— No meu mundinho? O que você quer dizer com isso? — Ele se espanta.

Poxa, e lá foi outro cigarro do seu maço amassado de Marlboro vermelho.

— É, no seu mundinho. Eu sinto que, por mais que eu te conheça e seja sua melhor amiga há anos, ainda não sei nada sobre você. Como, por exemplo, todo esse lance da sua família, de você ter sido separado do seu irmão gêmeo quando vocês tinham um ano. A briga dos seus pais eu nunca entendi. Sei lá, você não desabafa sobre isso, e poxa, eu desabafo sobre tudo o tempo todo contigo. Eu sinto como se você não confiasse em mim o suficiente para abrir o coração... E eu odeio sentir isso.

— Isa, para com isso. Eu confio em você, mais do que em qualquer outra pessoa do mundo, exatamente por você ser assim, coração aberto. Esse seu jeito de sair contando a vida pra todo mundo, sem ter medo de dizer o que sente, é o que mais admiro. Me desculpa por te fazer pensar assim. Nunca foi minha intenção. Quando se trata de sentimentos, eu sou completamente oco e vazio. E é por isso que nunca falo deles.

— Tá, mas se um dia você sentir alguma coisa aí dentro promete que me conta?

Ele sorri. E dessa vez de verdade.

— Prometo. Se o “algo mais” aparecer, eu te conto.

Sorrio de volta.

Será que o nosso “algo mais” ia demorar?

• • •

— Ei, Amanda, você acha que o Pedro se apaixonou por essa Savanna? — pergunto, aparentemente desinteressada, enquanto escolho o próximo filme a que vamos assistir.

— Ah, sei lá. Ele não me contou muito sobre ela. Só disse que estavam se divertindo bastante — responde, com a boca cheia de pipoca. — Nossa, essas pipocas estão muito boas. Você já olhou as calorias? Tem muita, é?

— Não, tem não, pode comer. — Eu não tinha olhado caloria nenhuma, porém achei que devia tranquilizar minha amiga-com-mania-de-contar-calorias. — Mas, hein, se ele tá apaixonado por ela e não me contou, olha, já vou dizendo, vou ficar chateada. Uma vez ele me prometeu que ia me contar quando sentisse “algo mais”.

— Ah é? Hum. Quando isso? — ela quer saber.

— Ah, naquele dia no sítio dos seus pais. No dia da tequila, você sabe. Aquele dia.

— Eu não me lembro disso. Que horas ele disse isso?

— Ah, é que vocês foram dormir e eu tava sem sono, sabe? Aí fui ver o sol nascer, para tentar melhorar a bebedeira e refletir um pouco sobre a vida, você entende, né? Daí ele chegou e me fez companhia. Disse que tinha tido um pesadelo, ou algo do tipo, e ficamos conversando um tempo. E ele me prometeu que contaria se sentisse o “algo mais” um dia.

— Ahnnnnn, entendi. Vocês dois, hein? — diz, enquanto joga os pés sobre o meu colo e se deita no sofá da minha sala igual a um panda japonês que ama pipocas.

— O quê? — pergunto.

— O quê, o quê?

Olho para ela sem entender nada.

— Vamos ver Casa comigo? — diz a japonesa que dizia ser minha melhor amiga.

E eu deixo para lá o que ela quis dizer com “vocês dois”. Detesto quando a Amanda parece saber mais do que eu. E olha que isso acontece quase 90% do tempo.