Nova Safo: Tragédia Estranha
Capítulo X
—Espere um pouco! disse ella, fixando-o.
Coitado! Depois das sabbatinas nas aulas, dos successos na Granja, triumphos em theses, do capello amarello, retrato entre o papá e o avô, dos cumprimentos dos rapazes, num meio pêco e idiotamente romantico, que queria V. que o homem fosse?
—O que eu me perguntava, no decurso daquelle desapontoado de coisas, era no que redundaria a geração que tem educadores de tal jaez?
Que viveiro!
X
Dias depois, escrevia Peregrina, quando foi interrompida por Jacob, que lhe trazia um bilhete.
Leu: Helen Broock.
—Está no vestibulo esta senhora? perguntou.
—Está, informou o anão.
—Acompanha-a aqui.
Momentos depois entrava Helen, e abraçava Peregrina num transporte de alegria.
—Ha que tempos nos não vemos!
E beijava a antiga companheira na boca e nos olhos, incendida de côr.
Maria Peregrina recebeu-a com moderado enthusiasmo. Quando ella se distanciou, mirou-a curiosamente.
Helen não era já a esbelta rapariga de Petersfield. Era uma figura quasi vulgar. Debalde Maria Peregrina procurava nella a linda pelle de seda que a tinha arrebatado tanta vez, as fórmas excepcionaes, a flexuosidade e candura do movimento.
—Estou mudada, não é assim? Tu não estás resentida commigo?! Sabes que tive um grande desgosto com a carta do John. Coitado, agora é um cordeiro. Tenho vingado a grossaria que praticou comtigo.
Então, minha Sapho! dize alguma coisa á tua velha amiga, abraça-me!
E beijava-a com ternura.
—Que queres que diga? Que és junto de mim o passado! O acaso, veiu juntar-nos, quando estamos tão longe do que fomos.
Não imaginas o estado de indecisão de espirito em que ando. Depois que te deixei, a nostalgia de Petersfield pautou-me toda a sorte de extravagancias. Queria encontrar alguem que te substituisse; e, entretanto, ia enchendo o tempo, pervertendo-me, para não pensar no perdido.
Não encontrei quem procurava. Nem tu, segundo acabo de verificar, podes substituir-te.
Não sei se sabes que vive commigo Violet. É uma pobre creatura que me é docil como a minha carne. Talvez por isso a vejo com amargura. Está ahi outra rapariga, minha parenta.
Já percebi que amo nella a simples frescura da mocidade, talvez a ingenuidade dos seus enleios de provinciana.
Mas o vago duma aspiração suprema, persiste em mim. Eu queria, sabes?—o goso tranquillo, pôr um fim onde só encontro o indeterminado...
Um horror!
Não tento uma aventura que me pague a imaginação de urdí-la...
—Pois calculei que eras feliz. Tinham-me dito que recebias a melhor gente de Lisboa; que davas festas...
—A melhor gente de Lisboa é pessima. Excepcionalmente encontrei uma figura rara, o Conde de Nevogilde, um excentrico, escriptor de merecimento, por quem sinto a melhor devoção. Vale-me nalguns serões.
Vou por estes dias passar algum tempo á sua casa de Entre-os-Rios, a Villa-Feia.
—Extranho logar, disse Helen, se o titulo não mente.
—Não mente, creio. Aquella Villa é um capricho da natureza em favor do proprietario.
É um scenario novo, com uma flora especial, cheia de imprevisto. Tudo ahi é curioso. E não imaginas o enthusiasmo de Nuno Nevogilde pela sua Villa, como sabe estimar o encanto do Feio.
É um rapaz adoravel. O seu interesse vale mais do que o seu talento.
Ser interessante é ser tudo para os outros. O interesse é bem mais raro do que o talento.
Este pode ser monotono, impertinente; o interesse é o imprevisto, o encanto derramado naturalmente, filho duma razão que escapa, adstricto a um genio cujo enredo nos move sem que possamos defender-nos das suas más consequencias.
Não é o que elle diz, é a forma porque diz. É insinuante, muito crestado de viver, apagando-se junto dos humildes, pasmando perto dos tolos, soffrendo o que vê, o que adivinha...
—Vaes então passar uma optima temporada? disse Helen triste e morna aos enthusiasmos de Peregrina.
O que te não lembra é Petersfield! Outros tempos, novos amores...
Pois eu, minha querida, vivo ainda na recordação dos velhos tempos. Não te enganavas quando respondias ao John, annunciando-lhe que eu permaneceria fiel aos teus ensinamentos. Cada vez tenho mais horror ao homem, sobretudo ao que me deram por companheiro. Ainda bem que a diabétes promette liquidá-lo breve... É a sua nota sympathica—a doença.
—Olha que nos meus ensinamentos não cabe tal ferocidade. Ha coisas que podemos pensar, mas devemos envergonhar-nos de dizer. O pensamento nem sempre joga com a vontade.
Eu sou feroz commigo: tenho-me desejado a morte. Gosei a morte de Edgar, como nunca esperei gosar coisa alguma no mundo. Mas não lha desejei. Ter-lha-ia evitado, se a adivinhasse. Ante o facto consummado o meu espirito exultou. Espirito e corpo, num abraço como jámais se deram, possuiram aquelle lindo morto ou antes a Belleza-morte, no maior elasterio de sensualidade... Mas, vigiar dia a dia o que vae dar-nos a felicidade de morrer, perscrutar-lhe os passos da doença, porventura promover-lha, isso não é digno de ti.
—Ah! minha Peregrina, tu não sabes o que é sentir o amor do homem que detestamos. Olha que é peor do que o contrario, amar a pessoa que nos detesta!
—Mas afasta-te delle. Deixas de ser ministra de Inglaterra, mas és a mulher digna, ainda que vivas como uma rameira, de amores com outras rameiras. Sê a mulher livre; nada ha peor do que a honestidade forçada.
Só a hypocrisia é crime!
Os olhos de turquesa da extrangeira nublaram-se de lagrimas; cahiu a soluçar sobre o peito forte de Peregrina, que a afagava friamente. Bateram á porta.
Era Violet e Salomé.
—Esperae um pouco! disse a Artista.
E, dentro de breve tempo, sahiam as duas a encontrar-se com a antiga condiscipula e Salomé.