Nova Safo: Tragédia Estranha

Visconde de Vila Moura · Capítulo 3 de 18

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Nova Safo: Tragédia Estranha

Capítulo III

«D. Maria Peregrina Alvares de Lorena e Villa-Verde, filha de D. Maria de Lorena Eannes de Castro e Villa-Verde e de D. Antonio Alvares Muito Nobre Leite Moniz de Sá, nasceu em 31 de outubro de 1880.

O brasão da muito illustre Casa de Lares explica alguns daquelles appellidos. Consta dum escudo esquartelado, tendo no primeiro quartel as armas reaes de Portugal, pelo appellido Alvares, e, no opposto, as reaes de Castella, pelos appellidos de Lorena e Villa-Verde, lavradas em mantelado de prata e circuitadas de negro. Destacam neste leões de purpura batalhantes, bordados de oiro e veiros de côr, á volta.

Por timbre usa a Familia de Lares um cysne, armado de oiro, segurando no bico uma aspa vermelha, com escudos alternados de Portugal e Castella.»

Assim o escreveu D. Antonio nas Memorias genealogicas e Nota Privativa da Casa.

Os escudos lavrados na cantaria do edificio attestavam a historia do velho solar de Lares, confirmando os archivos.

Maria Peregrina sentia-se extranha ao mais da sua linhagem. E se a devassava era para averiguar amores pouco fidalgos. Comprazia-se em ler, para além dos escudos, romances de ligações humildes.

A sua alma, exquisitamente vincada e polychroma, sobrepunha-se aos esquartelados dos brasões.

Talento, physionomia, fraquezas—tudo reflectia a sua figura de contrastes, que o Destino urdira de nevrose e sombras.

Amava instinctivamente as fraquezas como os talentos. Sentia que umas e outros lhe espiritualizavam a figura, tocada de Desgraça, e dahi o perdoar ás duas avós judias que tinham vindo enlear-se na velha arvore dos seus, frondosa de santos, doidos e poderosos.

Por entre a rêde azulada de linhas que lhe prendiam os appellidos, destacava as malhas vermelhas dos erros de amor.

Respeitava estes erros pelo que a explicavam. Entre as linhas de bom sangue que a submettiam e o systema de linhas que lhe dava a figura, sentia o conflicto de duas raças. Era pela desenvoltura do seu corpo de garça, talhado em ambar macio e tostado,—expressão de um povo que vive na penumbra um eterno outomno de genio triste...

Que lhe importava que o sangue semita viesse gafar a sua origem fidalga, se ella vivia, sobretudo, essas gotas de sangue, que em revolta com os globulos de raça, a reflectiam numa casuistica tão diversa da que inculcava a outra gente?

No seu perfil moreno, tocado de sonho e de tristeza, parece que o Destino tinha escripto uma parte da sua historia.

Perdera cedo o pae, aos nove annos. Da mãe, victima do nascimento della, ficaram-lhe memorias, casos de bondade que toda a gente repetia. Manoel de Sousa Campello e Pamplona, senhor do vinculo e Casa de Soutello, fôra seu tutor por disposição testamentaria de D. Antonio. Mandou vir uma professora inglesa para a instruir em linguas, lição de coisas e principios de Arte.

Duma grande precocidade, Maria Peregrina seguia, com excepcional aproveitamento, as lições de Louisa Huley.

A inglesa era uma aventureira intelligente, prendada, que, tendo approximadamente trinta annos, tirocinára o ensino pela Allemanha, Austria e França. Tinha de seu uma grande mala com seis vestidos de passeio, o talento das linguas e o ar de quem ensina prendas e vicios para gastar nervos.

Maria Peregrina e Louisa afeiçoaram-se profundamente, excessivamente.

Lamentava a ama de Peregrina, a velha Clara, a indiscreta afeição da extrangeira, que viera roubar-lhe os carinhos da menina...

E, da mesma forma, a Salomé, a filha dos morgados, mais nova cinco annos do que Peregrina, se sentia desfalcada nas attenções da prima, muito carinhosa e prodiga de entretenimentos antes da vinda da Huley.

Os de Soutello exultavam.

—Que felicidade darem-se bem, dizia D. Maria Helena para o marido; com o genio voluntarioso de Peregrina o que seria se assim não fosse...

Manoel Pamplona concordava.

A alumna estudava com vantagem. Quando acabou o contrato com a Huley (cinco annos) falava e lia correctamente o inglês, francês e allemão, entrando com uma acuidade que mal se comportava na sua edade nas obras que marcam o genio das linguas. E, da mesma forma, comprehendia e executava musica, surprehendendo a inglesa, muito pratica no seu ensino.

—É um talento precoce, uma sensibilidade! dizia o Tio Manoel, admirado dos progressos de Peregrina, sobretudo da forma porque ella commentava trechos de poesia, esparsos nas selectas, extremando por si a belleza, como os pontos fracos ou extravagantes dalgumas passagens.

Era elle quem a leccionava em português. E ninguem poderia fazê-lo com mais competencia.

Dizia-se modestamente um philologo amador, apesar de ser um estudioso e discorrer Philologia na Revista Luzitana, Instituto, Portugalia e em algumas publicações extrangeiras.

Era muito acreditado pelas diversões eruditas e conhecimentos miudos dos segredos das linguas antigas.

—Os classicos, explicava ao abbade e ao visinho Thomé, parceiros certos do bridge nas longas noites de Soutello, são os meus antepassados em Letras.

E o abbade, concordando, dizia que o morgado era o representante legitimo dos velhos cultores do Humanismo; que não era comprehensivel o talento sem a grammatica, que lêra ultimamente A Idéa de Deus de Arimathéa Coelho—e concluira que Deus torcêra a Idéa do auctor obrigando-o a dá-la em prosa de saca-rolhas; que lia, ás vezes, por desopilar, a chronica dum gazeteiro de Lisboa, pae dum livro—Horas tôrpes,—coisas pelintras, que estavam abaixo dos alumnos do seu tempo, quando iam a meio da Arte; que as Letras iam dizendo bem com o resto...

O Thomé interferia a favor do chronista—que não era tanto como dizia o abbade, que auctor das Tôrpes exteriorizava em parte as suas idéas, que elle, Thomé, escrevêra antes para um semanario de Pindamonhangaba, quando era ainda moço de loja no Tijuco. Manoel Pamplona intervinha sempre, ordeiro, temendo perder os parceiros; sorria intelligentemente para o abbade como a pedir-lhe clemencia para as idiotices do chronista, em que Thomé era commanditario, e depois dalguns rodeios cahia a fundo, muito socio em idéas com o abbade, na ignorancia do grande numero dos plumitivos, e ainda na obra daquelles que não eram idiotas como o exemplar preferido pelo Thomé.

Maria Peregrina, que precisava encher as noites de Soutello, lia quasi sempre, mau grado as observações da Tia e as reprimendas carinhosas de Manoel Pamplona.

Preferia ler traducções de poesia latina ou grega. De vez em quando, levantava-se a inquirir o Tio sobre casos complicados. Queria apprehender a Poesia no mais largo significado. E irritava-se porque, apercebendo-a no rhythmo, na idéa simplista da imagem, no trocadilho das passagens extravagantes, não podia desde logo penetrar a rêde do maravilhoso que envolve a tessitura classica e jogar com o conflicto dos deuses, e todo o genero de sobrenaturalismo. O Morgado entremeava os robers de explicações, pigarreando quando tinha de fugir a qualquer ponto escabroso, posto em discussão pela sobrinha.

Quando a educanda completou quinze annos reuniu o conselho de familia para deliberar sobre o complemento da educação. O curador dos orphãos, homem novo, sabedor da precocidade de Maria Peregrina e vendo o montante da sua fortuna, entendeu que devia promover o fim da educação della no extrangeiro, longe dos preconceitos nacionaes, e dahi ter requerido ao conselho que fosse internada num collegio inglês, segundo o costume das educandas no seu nascimento. Os Morgados protestaram, e Manuel Pamplona pôs á prova toda a importancia e empenho, a ver se impedia o que elle chamava «as modernices impertinentes do bacharel-curador».

Não obteve coisa alguma. Em outubro de 1895 partia com Maria Peregrina para Inglaterra a cumprir as ordens do Conselho.