Nova Safo: Tragédia Estranha
Advertencia
O mar toava a mesma musica extranha...
Enquanto, do outro lado, rente ao Fortim, e eminente á escarpa, um moço marinheiro cantava. Era um maritimo trigueiro, de olhos de velludo e noite, guardados por pestanas longas, que desciam, mysteriosas, como gelosias, voz de levada, corpo flexuoso de ephebo da beira-mar, a reflectir nas linhas a belleza inconsciente dum Povo...
Pleno dia.
E a sua alma dolente, côr dos olhos, a desgarrar, em voz de levada, a Cantiga triste do vate-fidalgo:
Commigo me desavim:
Vejo-me em grande perigo!
Não posso viver commigo,
Nem posso fugir de mim!
Antes que este mal tivesse
Da outra gente fugia:
Agora já fugiria
De mim, se de mim podesse!
Que cabo espero, ou que fim
Deste cuidado, que sigo
Pois trago a mim commigo,
Tamanho imigo de mim.2
ADVERTENCIA
O rôlo de pergaminho, meio desdobrado sobre o bufete, em Mira-Mar, continha, em letra muito bordada, semelhante á dalguns manuscriptos do seculo XVI, o ultimo canto de Maria Peregrina— Elegia da Morte.