Nova Safo: Tragédia Estranha
Capítulo VII
O romancista, depois duma larga tragedia, seguida de peregrinações varias por Napoles, Corsega, Sicilia e Roma, foi fixar-se num modesto Hotel da rua das Bellas-Artes (Hotel d'Alsace), e ahi foi atacado da meningite que pôs ponto nas suas desventuras.
Apenas recebeu o telegramma, Maria Peregrina partiu com Violet. E chegou a Paris quando Wilde entrava na agonia.
Não o abandonou até 3 de dezembro, em que foi com raros amigos acompanhá-lo a Bagneux.
Era uma triste manhã de dezembro.
Á porta do cemiterio desceram a urna os amigos do Artista, conduzindo-o até á modesta sepultura, por entre fileiras de cruzes e arvores nuas de folha. Assim fez aquella travessia boa, decerto para elle a melhor. O tempo calára o vento e a chuva, como por gratidão ao amigo que tanta vez lhe emprestára alma.
Maria Peregrina seguia o grupo, num passo senhoril, mas hesitante, pallida, arrastando sobre a greda um vestido negro cahido em tulipa.
Era ao longe uma figura extranha! Dir-se-ia representar ali a vida do Poeta—misto de genio, perversão, orgulho.
VII
Decorreram dez annos.
Maria Peregrina passou á Scandinavia e depois aos pontos mais extranhos, errando pela Asia e pela America, e vindo a fixar-se em Roma, onde viveu os ultimos dois annos. Não voltou á Grecia nem a Inglaterra.
Em qualquer dos dois paizes espalhára vicios e mocidade, que lhe seria grato reviver, se o reverso das provações lhe não aguasse a saudade. Não era a desgraça da sua vida que ella culpava; era o rebate della nos meios que tentára, e tivera a ingenuidade de suppor benevolos.
Ainda ultimamente lhe tinham sido devolvidos volumes da Nova Sapho, que mandára para as Academias de Londres e Athenas.
Esta devolução desgostou-a. Suppunha ter ali admiradores, amigos, que, afinal, a abandonavam, a vexavam.
A dor é nos superiores dum effeito extravagante:—não os convulsiona, magôa-os ou transmuda-os. Ha casos, na apparencia pequenos, que lhes decidem o aspecto, que não mais os deixam rir sinceramente.
Não era o caso: Maria Peregrina tirocinára desgraças desde muito nova, para succumbir inteiramente. No entretanto, sentiu-se devéras.
Não a incommodava o debate que a publicação do seu livro havia levantado em Portugal. Considerava medianamente as letras da sua terra. Mas o significado daquella devolução nos meios de élite que frequentára abateu-a extranhamente, profundamente. Queria reagir. Mas por mais que considerasse a justiça que lhe fora feita como Artista, sentia-se desfalcada, vexada, pelo desprezo que lhe votavam como mulher. Ella propria sentia em si duas entidades diversas—a que produzia, creava, e a outra, a que não conseguia libertar-se das offensas e intrigas das Academias. Um dos contrastes da creatura de genio é uma nota inferior—a crença na fatalidade.
Muitas das infelicidades lançam-nas á conta do destino:— acceitam-nas serenos. Não assim as que batalham o seu amor proprio.
A superioridade, é, como observa Nietzsche, o que está para além do homem. Mas isto que este pensa ao definir o valor alheio não o sente quando se contempla.
Dahi o conflicto. O que produz, o que cria é o que está para além delle. O que discute competencias, e barulha vaidades é elle proprio,—o homem.
Acceitar os talentos e discutir o caracter duma creatura superior é levantar competencias com ella propria:—desdobrá-la em duas figuras que o mais das vezes se desentendem.
A superioridade é uma força áparte. O homem é que intenta dispor a seu talante daquelle valor; e, pois que reflecte a elevação duma intelligencia poderosa, pretende chamá-la a derimir os conflictos da sua sensibilidade de semi-Deus com a que inculca a sua qualidade humana.
Afinal, por si se liberta. A sensibilidade do Artista é um excesso de vida emotiva, uma doença que lhe dá altas e baixas bruscas, e o quiéta quasi sempre num fundo de melancholia, que é a dor reflectindo a aspiração intangivel da fusão perfeita do homem e do Deus que elle apercebe para além de si.
A valvula aberta a este estado unico de dor reside para o Artista na propria exteriorização da Arte. É então o semi-Deus, o creador librando-se para além da miseria humana...
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Maria Peregrina, ao receber os livros devolvidos, cahiu num torpor de doente.
Demais sabia ella que no meio literario conhecido, por entre os applausos dos que a cercavam, havia más vontades, denunciadas em insinuações, e palavras equivocas.
Dava por todos, pelos que lhe não perdoavam o talento e faziam da moral uma arma contra ella, e pelos outros, os que sinceramente a repulsavam pelo seu caracter de degenerada. No meio que frequentára em Londres, sentira dia a dia o reflexo dessa má vontade. Ultimamente, para não ser vexada, deixára de todo os salões particulares, onde perdera relações sem motivo, e donde se afastou para que a não afastassem.
Na Grecia era tambem conhecida no meio academico pelo titulo do seu livro—Nova Sapho.
Em Portugal continuavam as mais exasperadas campanhas.
Impossibilitados de discutirem a obra no ponto de vista artistico, os jornalistas, a quem a critica estava affecta, davam-na como documento de autopsychologia, fundibulando grossarias sobre a mulher que tivera o ousio de escrever um livro, indice do mais torturado temperamento.
Ah! ella perdoava que lhe não sentissem a obra. Mas o que lhe doia era o odio que lhe votavam pelos vicios, que amava além de tudo.
—E nós a tentarmos obrigar o mundo a ver-nos com olhos differentes daquelles porque se vê a si proprio, commentava! Como se elle interpretasse a differença que fazemos em nosso favor! Emfim, heide ver se, ao menos, posso salvar o orgulho...
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Estes e outros factos, denunciativos da fórma por que era tida nos meios conhecidos, fizeram que nos ultimos tempos em que viveu em Roma se esquivasse aos homens de letras e demais candidatos ás generosidades dos seus talentos, e de sua fortuna. Não queria relações; cansavam-na os empresarios de festas particulares ou publicas.
—Conheço, dizia a Violet, o bastante em cada cidade para me torturar sem prejuizo do amor-proprio.
Sei de cór a geographia do vicio e da moral de todas as terras onde tenho demorado quarenta e oito horas. Dispenso informadores. Que necessidade tenho de acotovelar-me com as más vontades dos paladinos das convenções, uns tôrpes a occultas que nem têem a grandeza do bem, nem a coragem do mal?
E, fiel ao programma, firmava-se no orgulho das fraquezas, tratando de alto os que se lhe abeiravam e fugindo a conviver.
Foi neste tempo, nos ultimos três mêses que viveu em Italia, que urdiu o livro—A Emparedada, entre quedas bruscas do temperamento, dias de doença e horas de rememoração do drama de Petersfield e Londres.
Este livro era a expressão maxima dos seus talentos, pois que era a dor dum temperamento doente, consumindo-se numa ancia de Arte. E, como tal, realizou o maximo de sinceridade.
Era a Dor, traduzindo-se em melancholia e expressões imprevistas a beirarem a loucura, no encalço de soluções que derivava da tyrannia dos nervos, incendidos de desejo. O Poema foi escripto, composto e impresso rapidamente.
—Não quero que a razão me estrague a obra, dizia.
O seu valor, se algum tiver, deve ser o defeito que sou eu propria. Se me désse a scismar ácerca destes versos, emendava-os. Então o Poema não era eu, era toda a gente, a obra-synthese da Moral, da Arte, da Intelligencia que por ahi corre nas livrarias, academias, nos parlamentos, por toda a parte.
Ah! não, A Emparedada heide ser eu em conflicto com isso tudo.
A Nova Sapho ha de vingar-se da estupidez com que a tratam, librando-se acima da torpeza moral dos que a reputam abjecta...
E nervosamente, sempre que os maiores abatimentos lhe davam tregua, escrevia, desdobrando-se no drama das suas melancholias.
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Em abril de 1910 estava a obra impressa e distribuida.
Dois mêses depois entrava Peregrina em Lisboa, seguindo immediatamente para o Minho, acompanhada de Violet e de Jacob, o anão resgatado á companhia dos zingaros.
Foi em junho que nos encontramos em viagem e depois em Lares.
Pouco tempo demorou ali.
Dias depois de termos estado em Lares, morreu D. Maria Helena duma lesão cardiaca. Havia muito que a medicina de Guimarães tinha endossado aos santos esta cliente, excepcionalmente piedosa.
E ella, muito de mal com a medicina, e sempre affecta ao Ceu, conseguiu viver seis ou sete annos mais do que a sciencia annunciava.
O acaso, complacente com a devota, fez que a doença a victimasse a uma sexta-feira, depois dos exercicios do Coração de Jesus, confortada pelos sacramentos, indulgencias e rezas da Congregação de que era presidenta e benemerita.
Entretanto, foi annunciada ordem de suspensão de missa a monsenhor Andrada.
Chegára ao Paço archiepiscopal de Braga a noticia das suas homilias. Escandalizou-se o Arcebispo Primaz das doutrinas com que elle enchia as predicas; e, cuidando ser victima de informações erradas, officiou ao accusado para que as explicasse.
Sinceramente respondeu Andrada, enviando resenha de algumas predicas, e o commentario dos pontos em que se desencaminhava dos sermonarios que tinham o beneplacito do Paço de Braga.
E, insistindo nas suas maneiras de apostolar, declarava não se submeter a emendas em questões doutrinarias, pois que, accrescentava, tinha para si que os erros emendados ficavam mais compridos, e era peorar os seus humildes discursos—contradizê-los, aspando-lhes o unico merecimento que tinham,—a sinceridade que os urdira e expressavam.
Não se fez esperar a suspensão. Foi para Lares, onde Maria Peregrina o tratava como pessoa de familia. Pouco tempo ali demoraram. Passados mêses partiam para Lisboa:—Maria Peregrina, Salomé, Violet, o padre e Jacob.