Nova Safo: Tragédia Estranha

Visconde de Vila Moura · Capítulo 18 de 18

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Nova Safo: Tragédia Estranha

Elegia da Morte Poema Religioso

ELEGIA DA MORTE

 

POEMA RELIGIOSO

Este Poema é o preludio da Morte, annuncia a Libertação!

Pela primeira vez, depois duma travessia longa, accidentada e rude, venho repousar á sombra do que fui, sonhar alto o mais do que tenho occultado.

O sentimento,—a minha primeira consciencia,—tem-se gasto no mais exhaustivo conflicto—um conflicto dolorosissimo entre o instincto proprio e a mesquinhez alheia.

Houve em mim desequilibrios enormes tendentes a perturbar-me. É que nem sempre a alma se satisfez com os recursos da materia; o corpo foi algumas vezes o involucro imperfeito da grande alma que arrastava.

Quantas vezes ella pretendeu subir, ganhar altura, do mesmo passo que o corpo lhe pautou vôos mesquinhos; e, quando lhe deu amplidão,—lances arriscados, triumphos dolorosissimos! Sempre a materia a entravar tudo, o pêso a embaraçar o vôo.

Eu fui como os zirros que vivem nas fendas dos rochedos. Vivem alto; a raça impõe-lhes vida alta e por isso a natureza lhes deu asas largas e pernas excessivamente reduzidas. Vôam, mas não andam...

Com a seguinte differença contra mim:—o meu ninho fê-lo o Acaso cá em baixo. Ainda subi e desdobrei as asas em linhas de boa desenvoltura. Mas o Destino trouxe-me quasi sempre, misturada com aquelles que teimavam em ser da minha casta; quando a verdade é que meus semelhantes, affins pela alma, encontrei poucos. Atravessei a vida procurando alguem, uma figura rara que o Deus dos bons tivesse sorteado em meu favor. Encontrei figuras talhadas por medida que não era a minha. E ainda hoje não perdôo a Deus que me tenha dado altura excessiva e camaradas infimos.

Permitti-me toda a perversão, se perversão é amar a parte bella da materia, index da Belleza pura, sem o preconceito de sexos, sem preconceito algum...

Quizeram que me lavasse na moral de toda a gente, afinal em agua suja; reagi. Fugi á fraqueza de vencer-me; e, fortalecida pelo instincto, dei-me ao temperamento. Creei uma vida nova, a vida-conflicto entre as aspirações supremas e a bruteza da materia.

Tive de roçar por almas que lembravam a lixa grossa. Excepcionalmente encontrei espiritos brancos em corpos bellos. Os corpos mais brancos e mais bellos guardam quasi sempre almas mulatas, incaracteristicas, pessimas.

Vi-me constrangida a amar simples creações,—as minhas creações. Na impossibilidade de amar as creaturas como ellas eram, dei-me a estimá-las taes como as suppunha. Menti a mim propria, por servir a sensibilidade. Ha mentiras nobilissimas! Mas, em regra, os homens mentem por espirito de trapaça, de torpeza.

Sou um espirito religioso. A primeira razão da minha fé foi a religião de minha mãe, que a tradição me transmittiu. Mas ella era um temperamento puro, suave e bello na accepção simples destes termos.

Eu herdei as taras, as predilecções, os requintes de todos os que me precederam.

Sou uma figura complicada, conseguintemente a minha religião não podia ser a sua.

Evolui com os nervos, a educação, o temperamento. Descubro-me a todos os symbolos, pois que tenho para mim que elles se fundem num Deus de Belleza que começa a surgir, dentre a confusão, aos poetas, aos artistas.

Creio no Deus de todos os cultos, embora aborreça a liturgia que o occulta. A alma deu-me um cerimonial differente. No fundo, um cerimonial de amor, ineffavel...

Alei-me em vicio. Ia comprar quartos de hora daquelle amor ás ruelas onde se vende o Nu, o contacto, onde a intelligencia e o genio da Carne se expandem na belleza fresca da adolescencia.

Sou um firmamento de perversão.

Os meus vicios estrellam fatalidade,—caminhos de luz pela treva azul...

Luz intima, discorrendo fados de amargura e magia. Duros fados! Excedi a Nana, a Manon, a propria Sapho,—todas as mulheres sagradas pela Desgraça!

Fui o genio da Luxuria, parabolando amores...

A sociedade escorraçou-me. Quando o meu talento brilhava, ella, de mãos nos olhos, ia vingando a luz que eu derramava, pregoando as abominações a que me entregava.

Perversos e estupidos, ouvi:

—Tenho a consciencia de que a vida sensual que tenho reflectido é uma derivação fatal e religiosa dum poder occulto que me tem dominado e impellido.

Talvez, por isso, tenha pisado os lupanares com o respeito devido aos templos...

O prostibulo é, tambem, um Templo; a sensualidade uma religião, uma grande e ineffavel religião, o culto immenso do Amor, para além dos ritos, dos mil preconceitos dominantes. Mas, a despeito desta consciencia do Destino, desta razão de talento e de sangue, sinto-me vencida, desilludida.

Cancei a imaginação no encalço de creações precisas á minha razão sensual de existir.

A sensibilidade de que fui dotada não me permitte que espere o fim de toda a gente. Debalde o tentei.

Sinto necessidade de viver em outros mundos. A podridão brilhante que me atormentou a vida vae compensar-me de bens que presinto marcados para além desta valla de torpeza honesta.

Cumpri; não posso demorar-me: basta de conflictos com o semelhante.

Esta lucta é inacreditavel a quem a não viveu. É o conflicto da idéa pura feita Arte, sensibilidade, sentimento, contra a bruteza do temperamento medio.

Quantas vezes afoguei commigo miserias, casos exoticos dum capricho cruel! Embriaguei-me de dor, daquella dor que á volta de mim cachoou desgraça—um mar de fatalidades, para que ali naufragasse.

Afrontei este mar ás braçadas. E nesse Atlantico de verdete, absintho de amarguras, com phosphorescencias tenebrosas me fundi eu toda, alma e corpo, para batalhar e seguir, louca, ora encapellada contra a penedia immensa das praias malditas—as que os homens povoam, ora espraiando-me, numa gaza de mysterio, sobre doirados areaes, suave, ternamente, como um mar vulgar em horas mansas.

As ondas deste mar foram os meus sentidos:—um infinito de sentidos, os que se attingem pelo estado sensual...

Alcancei pelo sonho uma vida vallada e circumvallada de sombras.

Fui a somnambula, soffrendo e amando pesadelos que me eram dolorosamente gratos.

No mar de sensualidade em que me afundei, em que muitas vezes me solvi, tive horas de sêde, duma sêde obsessora, horrivel! Era o desejo inconsumivel, a febre, a chamma eterna duma aspiração de raça condemnada pela grossaria dos outros.

Chamma eterna, de certo, pois que falo por mim e pelos temperamentos que no passado choraram em silencio horas que tenho repetido, e pelos superiores do futuro, figuras talhadas pelo Destino para continuarem a Dor!

Coisa horrivel é roçar o semelhante e proximo!

Entre mim e os desgraçados para quem falo, aquelles que entornam as suas lagrimas no silencio—medeia a minha coragem, um ousio que os passados não tiveram, que talvez os futuros não tivessem sem este exemplo...

Este mundo, que estimei com amizade amorosa, ousando transformá-lo num mundo affectivo, parece-me, á hora deste inventario, obra posthuma, uma ilha de cães vadios, malditos, em saldo de contas com os raros que sahiram a perturbar a sua orchestra de alegrias.

Miseravel exercicio...

A Belleza é una no seu abraço colossal de todo o concebivel e concebido.

E só para ella deve viver-se. Os superiores começam a sentir aquella unidade, na fusão das linhas puras, em toda a obra da materia donde vôe o espirito. Venus e Apollo têem um significado conjuncto; são provas de Belleza que se completam e ajustam numa synthese que o super-sensivel realiza.

Sensualizar a vida, descobrindo fontes novas de prazer e dor, transformá-la num mundo de alma, tal a faina suprema dos apostolos da Belleza.

Myopes e inferiores, ouvi!

—A liturgia em que geralmente resumis o appetite genesico chega para a vossa felicidade, basta aos vossos instinctos, porque a alma vos cabe dentro dos orgãos que vos inculcam o sexo.

Vale uns minutos abjectos o vosso amor...

Nós amamos tudo e sempre. O Amor é para nós a razão unica da Vida.

Por isso Wilde, o condemnado, cantou ternamente o amor dos monstros e das flores; casou os homens com os habitantes imaginarios dos bosques e do mar, e expiou na prisão o delicto de ter gostado tudo, amando e cantando a symphonia das linhas, a intelligencia da Carne, a liberdade da alma!

Quando será a libertação collectiva? Sei lá! Fecho os olhos e perco-me a memorar a fileira interminavel das victimas. Quando se realizará a grande paz no Amor? Talvez nunca... E quem sabe?

Wagner, o mais genial revolucionario do mundo, pretendeu fazer do Universo um canto.

Assombrosa concepção se a completarmos! Exultemos, sobretudo, a Sensualidade, no mais largo significado, no bem infinito que é. Cantar é amar. O Rhythmo das coisas é a expressão sensual do mundo em vibração, a orchestrar, a melodiar o Amor!... Amemos tudo.

Nesta hora de dor agradabilissima, sinto-me inclinada a amar o proprio odio que inspirei—o odio que me votaram e o desalento que o Destino me distribuiu em bem da Morte.

Os philosophos serenos são em regra mentirosos.

Contra Maeterlink affirmo que ha uma fatalidade interna que domina e rege os actos dos homens. A forma suprema da justiça é a Bondade. Mas esta forma, acceite pelo conceito medio dos eleitos, está sujeita aos entraves, ou causas de erro duma força inferior a que imprecisamente chamamos temperamento.

Um dia, na adolescencia, percorria, sózinha, um atalho. Senti barulhar a folhagem num carvalhal murado. Espreitei, e vi, ao abrigo duma lapa, o ultimo acto duma tragedia unica. Uma creança, que podia ter nove anos, acabava de matar outra de cinco! Aproximei-me. A criminosa segurava uma lamina, encarando, attenta, a victima.

—Que fizeste? perguntei.

E ella, serena:

—Não sei, ouvi uma voz que disse:—mata a tua irmã. E eu, que móro além, fui a correr buscar esta faca. Não sei se foi Deus quem mandou... Já está morta?

E sorria, espectrando na lamina o Deus suave das creanças...

A victima era um bocado de marfim e oiro, abandonada no chão, entre a serguilha grossa do vestido, a borbotar do peito alvo cravos de sangue. A outra parecia uma mulhersinha, de olhar quebrado, bandós escuros, face de cobre e sombras, typo de cigana enlouquecida, duma serenidade arrepiante junto ao delicto innocente!

—Não sei se foi Deus quem mandou... dizia.

Seria, penso. Que Elle ás vezes capricha em desnortear os commentadores. Queria as duas creanças; e, por isso, ensandeceu a mais velha que despedaçou a outra como o faria a uma rosa...

Assim alou as duas. Foram quebrar a monotonia do sagrado mundo, pintalgar o Ceu de riso e loucura!

Abracei a innocente que pouco depois vestia de afagos um cordeiro branco que mamava de joelhos, rente á mãe.

Como comprehendo hoje a força duma tal voz, que tutela o genio, o crime, perversões, loucuras...

É a voz da alma a ordenar. Não sei se a voz de Deus!

Quando confronto os actos communs da vida com aquelles que me perturbam, vejo que o meu genio não é uma acuidade da intelligencia—é um mysterio emocional.

Deus reparte-se pelo genio creador dos artistas, e revive o poderio nas suas dores. É por elles que accrescenta o Bem, ampliando a geographia do Ceu com o Mal, ainda contra os da sua Egreja. Mas estas provas produzem as maiores tempestades da alma. E é facil ainda aos mais fortes succumbirem.

Eu elevei-me pela Dor. De mim desfiro melancholia, torturas, suavidades...

A Dor foi a minha Arte e teve um largo apprendizado. Primeiro percorri os museus, dando-me a reconstituir, segundo o meu genio plastico, as bellezas mutiladas,—isto para apprender a ler as linhas, coisa mais difficil do que ler os folios.

Depois apprehendi toda a perfeição, e sensualizei a forma. Fundei em Athenas o Templo de Amor,—um Paço de Luxuria. Havia ali um tracto sagrado, a Sala sensual, que me abrigou loucuras suaves, e tempestades de goso, duma nevrose sacudida e bemdita. Nesta sala, vestida de crystaes, concavos e convexos, duma asymetria e desarranjo de cháos, gosei dezenas de corpos alvos e morenos, que desenvolviam nus as curvas das sereias, em danças desvairantes. Tenho no peito o abraço dessas esculturas enleadas, marmores de innocencia e vicio, corpos sagrados pela pureza ideal da fórma. Se attentava aquella seara de carne, batida pelo temporal duma sensualidade abençoada, eu era o suão morno que beijava e confundia os lindos fructos.

Fui a haste exotica, o joio genial que, afrontando a seara, colhi a sua belleza e fui colhida.

Se alongava a vista ou a quebrava sobre os crystaes, descobria as nossas almas, ricas de imprevisto apocalyptico, desencontros de grotesco, curvas complicadas pelo genio do Feio, atrophias, que eram as sombras dos monstros soberbos que os lindos corpos abrigavam. A minha sensualidade redobrava, e eu, apertada ao corpo moreno ou branco dum principe em Belleza, mergulhava o olhar nos espelhos, que nos espalmavam, engrandeciam, ou afilavam, e vivia aquellas silhuetas e amava nellas o monstro que era, os monstros que eramos!

Fóra, alternavam-se collecções de harpas, violinos, psalterios, e orpheões cantando a Vida.

E os jorros de luz esparsa através dos crystaes de côr, esbatendo-se em manchas de esmeralda, roxo-e-oiro, banhavam de melancholia aquellas notas, deixando suppor que era a Luz que as cantava!

Gosei soffrendo; soffri gosando. Pratiquei actos que foram além de mim; uni-me a corpos de creanças; tive contactos, commercio de sensualidade com os mais bellos adolescentes.

Fui anjo e fera, mas fera de asas que partia ás travessias da Ventura, sem liames, sem programma, viuva de preconceitos. Troquei pela intimidade com poucos as devassidões, os respeitos, a consideração vulgar dos chamados homens moraes, seres aleijados pela grossaria do costume. Mas muita vez o temperamento me chamou a definir-me.

Dahi a predilecção pelos dois adolescentes de Petersfield, e a razão do mais entranhado sentimento de amor por Nuno, essa figura passiva da minha loucura, que admirei em sua lassidão.

Ah! depois das nupcias com o morto de Petersfield e das vigilias com Helen, ninguem me deu ainda a elevação da Dor-prazer em que elle me afogou, nos afogamos...

Mas todas as sensações que me deu eram afinal acasos da sua carne abençoada.

Approximei-me daquella alma que me pareceu transparente como a agua dum ribeiro.

Era geada insoluvel, crystal espelhante, mas denso, que contrafez dolorosamente a minha doce imagem amoral.

Tal qual o que succedeu um dia a um insecto, corpito de esmalte e oiro, que se esforçava por beber os diamantes que trago a calçar os dedos...

Nem eu pude solver á força de amor aquella agua congelada, nem o pobre insecto, sedento, poude mover as duras joias a que se deixassem beber, liquefazendo-se.

É que almas assim são como os diamantes; têem a bruteza dura da Fórma-fixa. Solidificaram as primeiras impressões; cortam, sem se deixarem cortar; são a maldade bella, a estupidez da Plastica!

E é ainda esta sua negação que requinta o culto que lhe voto.

E era a repulsa da sua alma pela minha que lhe quebrava o corpo em hysterias de goso!

E foram as lubricidades que lhe dei, numa prodigalidade de millionaria em exotismos, que o afastaram...

Como a alma é grande em capricho! Que mysterioso é o genio da Dor!

E os semelhantes a pretenderem transformar este Valle de Lagrimas em Valle de Risos, a inventarem palavras, abjecções, religiões de Força, de Alegria, de mil coisas que são a expressão pretenciosa da sua ignorancia magoante!

Que gerações as de hoje! Nem obras, nem instinctos!

Vontades de cera, gibbosas de subserviencia, nem a Morte as eleva!

Infimas creaturas!

Almas assim denunciam esteios molles...

E como odeiam o culto da plastica sensual! Se o não percebem... É o horror dos selvagens pelo Mysterio. Peor do que isso, pois que estes adoram o que não percebem. Ha na natureza ingenua do barbaro instinctos de salvaguarda e cautela para a Belleza desconhecida.

É que a Belleza basta-se, por si se impõe, ponto é encontrar bondade em que se esteie.

O que mal pode é deixar de abrir conflicto com a Biblia burguesa, balizada em dois preceitos: impor ao homem a conquista do pão, á mulher a dos filhos. Uma e outro se juntam, mercê de liturgias que enchem codigos e cartilhas...

Fim primeiro da união, afinal da Vida—a familia, a juncção pelo casamento de gente em que os chefes escravizam corpos e vontades!

Ah! foi o meu erro, rir de taes deveres. Não se foge impunemente da carreira.

Como haviam de ver-me bem as mulheres de ventre cheio,— obesas de divindades, ou fructos de maldição, se eu era o seu avesso?

Ellas deformavam-se pelo goso limitado.

Eu sensualizei toda a Belleza, illustrei a côres novas a Vida, sacrifiquei a dor vulgar de ser mãe á dor suprema de crear pela Arte a segunda alma dos seus fructos.

Podia agitar-me em sofreguidões de prazer, collar o corpo franzino a homens que se alternassem no mister de fecundar, dar á sociedade filhos em vez dos meus tormentos de Arte. Podia. E, se as creaturas com quem commerciasse amores tivessem a marca de maridos,—a sociedade receber-me-ia. A sensibilidade impôs-me uma liturgia propria. Amei a esmo. E destes amores sahiram os livros que por ahi correm,—paginas luxuriantes a reconstituirem horas duma tortura celeste e diabolica.

Livros são filhos. Os meus são-no tambem da Luxuria, duma luxuria extranha...

Assim a Nova Sapho e, sobretudo, a Emparedada.

Estas obras, a que uma élite concedeu foros supremos, fluctuam uma nevrose que a sociedade odeia.

Não fui um pousio. Fecundei á minha maneira. Mas para produzir, crear, exigi uma liturgia complicada, reflectindo-a ousadamente.

Ingenuos! Ha fructos e fructos.

Que horror a tudo o que é extravagante!

Porque foi Christo enorme?—tão grande que projectou a maior sombra divina que um homem tem projectado!

É que o genio universal o derivou de Maria de Nazareth sobrenaturalmente, sem a macula do peccado original.

É filho duma virgem da linhagem de David e de muitas religiões liadas pelo genio indico.

Só assim podia ser o Homem-Deus—encarnar e representar a Divindade.

Quer dizer, o genio universal, innato, postergou as relações vulgares quando quiz filhar alguem que fosse um Principio.

—Sabeis bem quem foi Christo? Foi Aquelle que no mundo soube vestir de grandeza a Humilhação; o mysterio deste poder é ainda da sua Divindade.

Todas as obras de genio, filhas da excepção, têem de ver-se áparte.

Interessae o vosso religiosismo na grande obra de Belleza que annunciei.

Porque as minhas obras são profundamente religiosas. Como todas as obras definitivas. Ultrapassam-me:—fui o pretexto dum poder que simplesmente apercebi.

O genio é a intelligencia tocada do sobrenatural.

Fecunda, pois, além da razão.

Lembro-me do papel da intelligencia quando urdia aquellas obras.

Era a escrava duma força desvairante que a superentendia e obrigava fóra do sentido commum, á mercê dum capricho que era a teia-mestra de tudo...

Assim tambem no desenrolar de intimas paixões.

Não sei se poderia recuar, remeter-me ao vulgar, entregando-me á Moral, como a sociedade a pratica. Creio que não. Mas quando pudesse fazê-lo, não o faria.

E ahi está neste mesmo juizo um traço de tutela extranha, pois que a sensualidade como a Arte que pratiquei só serviram a marcar-me de relapsa, emparedando-me! Sou para toda a gente a desprezivel Sapho, alma e corpo de monturo. E isto porque não acceitei o phalansterio commum, e pratiquei o amor lesbico.

Ora a sociedade não quiz receber-me assim.

Logicamente, o publico condemnou as minhas obras.

Tinha a obrigação de dar talento que não excedesse o estalão perro da sociedade em que vivia!

O meu prejuizo para o grande numero foi mostrar-me toda, dar-me a ler a uma sociedade inferior. Entornei a alma nas paginas que teci dolorosamente, sensualmente.

O publico não sentiu essas paginas, nem sequer as percebeu. Peor para mim como mulher; mas ascendi como Artista.

Este desacordo é a nossa differença em elogio da minha sensibilidade, posta á prova em todos os sentidos.

É grande esta differença?

Quanto maior fôr, maior sou. Quanto mais afastada estiver da minha geração, em geral do meu tempo, mais alta é a minha figura.

Quereis saber ao certo o que vale? Medi o espaço que vae da idéa média á minha Philosophia de Arte.

Esta Philosophia resalta, clara, dos meus versos—moldura propria duma sciencia nova que elegeu principios grandes, como sejam,—a bondade, a sensualidade, a fatalidade do temperamento, a Liberdade da alma dentro de cada homem, salvo o acordo dos espiritos affins.

O Contracto social de Rousseau, que passa por obra de genio, veiu afinal, sacrificar a liberdade individual á alma collectiva.

Quero o inverso, o avesso dessa lei: a limitação do poder social pelo individuo; que os medios e os rudes cedam aos grandes as regalias que lhes são demasiadas, que não cabem na sua inferioridade.

Porque ha de ser millionario o pobre de alma? É bruteza permitti-lo, como tambem o é sanccionar as miserias dos superiores, assentir em que sejam ermos de bens os ricos de Espirito.

Em materia de sensibilidade cada vez me allio mais á minha desventura. Vivo a ultima hora na admiração e amor do que fui.

E é para que os eleitos vivam ao menos uma hora assim que lhes predico:—entregae-vos ao instincto, ao temperamento, ás taras.

Haveis de soffrer? Claro. Mas o soffrimento é das formas mais voluptuosas de goso; ponto é que a abnegação e a acuidade o aproveitem. Não tendes mais do que entregar-vos ao acaso. E o acaso é tão intelligente! Tanto quanto o cuidado é estupido!

Inferiores, a vossa felicidade é uma trapaça.

Superiores, acima! Corações, acima! Dae elasterio á Alma, subi!

Quereis ler um grande livro, o expositor maximo dos grandes preceitos da união livre a derivar á fusão no amor? Está em toda a parte. É a Natureza que interpretaes mal.

Vinde áquella janella. Quero ensinar-vos a ler uma grande pagina.

Além, para lá daquelle renque de arvores mais crescidas, está uma planta brava. Ha de ser enxertada ao morrer do inverno. Nasceu na mata; transportou-a o capricho de um camponio áquelle pomar. Parecia fadada a dar filhos bravos, fruta desprezivel; pois vae ser fecundada pelo garfo nobre duma arvore de linhagem (tambem as arvores têem genealogia e foros fidalgos) e dará em breve tumidos pomos.

Vêde aquella roseira, sustentando rosas de tres côres, resultado de enxertias diversas. Amou e fecundou segundo uma liturgia variada; o Acaso deu-lhe ainda enxertias que falharam, pois que os garfos exoticos morreram depois duma justaposição de dias, porventura mais terna e sensual do que a justaposição fecunda. Bordam o Mondego lindos laranjaes: ide ver como o homem accrescentou Deus, juntando no mesmo tronco raças differentes. Ha, por vezes ali, filhos do mesmo abraço, todos os pomos em que o Divino pôs liga de oiro.

E o vento lá balouça tudo, laranjas, limões e limas, um phalansterio em ramos, num contacto que elles, os lindos fructos, aproveitam, sensualmente.

Ha naquella roseira amores incestuosos. Pois as suas rosas são tão bellas como as das outras roseiras.

Attentae o jardim! Vêde como as flores se collam em beijos de lascivia, quando o vento, animo do tempo, as vaga—como se roçam suave ou tempestuosamente, segundo as marés!

O rosal parece agora, reparae, um mar encapellando-se em ondas sensuaes, num rhythmo religioso, perfumado...

Se vos alcançou a graça do grande sentido da Belleza, attentae bem nas flores:—São a essencia em fórmas,—o perfume em petalas.

Soberbo espectaculo! Lembram assim o amor das freiras nos conventos, enlevo das esposas de Deus,—sonhado, fremido por entre incensos e preces...

Ha naquelle canteiro algumas já fanadas, desfalcadas de petalas, sem viço.

Vêde como procuram o contacto das mais novas, como se activam a explorar a belleza adolescente dos botões gomosos.

Como a fraqueza da edade as pende a fortalecerem-se de vicio, na carnação das mais novas! E ellas lá se lhe entregam, com enleio e graça, generosamente, cumprindo a lei maxima—a Lei da Bondade, que é do instincto. Quem o não entende? A alma grossa dos estupidos, os que arrancam as papoilas da seára, irados de as ver entre os esmaltes dos trigaes.

Que lhes importam os grandes bens da Terra—a Côr, a Fórma, o Perfume?... O ridiculo em que me têem, só porque hei cantado a alma do rochedo, a symphonia da linha, a perversão sensual, fonte da Morte, e, conseguintemente, o melhor elo da Vida, pois que solda o corpo á terra, a alma á planta, fundindo o Universo numa confusão sublime!

Pobre terra que dá videntes cegos, como Milton, e não dá vista áquelles a quem deu olhos. A Vida é a immortalidade pela transformação, religiosa no seu movimento, sempre patente e actual. Mas considerar parcellas de vida é não ver; peor—ver mal.

Nada mais fallivel que o mundo dos aspectos. Acceitemos a Vida como ella é—profundamente metaphysica, religiosa. Eu vergo-me ante o facto positivo do meu genio que o arranjo universal systematizou ao poder, e a toda a fraqueza creada e por crear. Deus resume a Vida. As minhas fraquezas, as fraquezas de todos os superiores, são a sua ampliação infinita... Ninguem póde definir Deus com precisão. Está em tudo, mas só os raros o sentem, dão por si, portanto, por Elle.

Mas, se o vocabulo Deus tem um synonymo, esse synonymo é Amor. Amor universal, entende-se, sem leis, sem peias, segundo o instincto, á discrição e diversificação de cada ser.

É claro que este não cabe nos evangelhos, nas cartilhas. O homem de prazeres restrictos não pode sentir o que de si revela de Universo, de Infinito...

Este Amor lembra o Puzzle, jogo inventado pela nevoenta Inglaterra para tratar o spleen patricio.

Imaginae um xadrez, em que as pedras se destinam a construcções enormes e cujo arranjo leva dias, mêses!

Pois a Vida é um Puzzle de numero colossal de peças, com parte das quaes só Deus joga.

É ainda Elle quem torna o jogo interminavel, infinito, baralhando, accrescentando, substituindo as pedras... Tudo passa ao rhythmo do arranjo universal.

O homem segue, em geral, suave e indifferentemente. Só o Artista desfranze um pouco o cortinado de nevoa que o separa de Deus, para o ver de longe, ajoelhar á sua inconsciente majestade, buscar alentos á sua jornada.

Pois que Deus existe nas paginas ingenuas de Bernardes, e nos livros satanicos e genialmente rebeldes de Annunzio,—curve-nos ante Elle, o Deus clementissimo, que contrasta almas tão apparentemente oppostas.

A ingenuidade luminosa do frade e as paginas luxuriosissimas do italiano, que creou para uso da alma um maravilhoso novo,—tudo é de Deus e para Deus, tudo é Deus!

Que ninguem soffreie o temperamento. Ha um crime maior do que o commetido para com a liberdade do semelhante: é o que commetemos contra a nossa liberdade.

Dêmo-nos ao instincto. Só a continencia é delicto. O instincto é fundamentalmente bom, as leis é que o teem pervertido.

Accusam-me de defender toda a casta de luxuria, de dar nas minhas obras a resultante mental daquelles defeitos—uma philosophia negativa, dissolvente, e muito na logica dos meus desejos inconsumiveis.

Que horror o dos meus juizes! Não veem que é esta sensibilidade a mais a fusão de tantos sentimentos, esta synthese amorosa que a minha alma comprehende, que vem acabar com as distincções inferiores, que geralmente demarcam os actos da creança, do homem e da mulher!

Segundo a Physiologia pondera no homem a razão, na mulher o sentimento, na creança o sentido.

E é isto verdade no que importa á apreciação do typo medio.

Como é um facto, que é a edade de transição—a da vida adolescente—a que põe maior acuidade e interesse no mesmo typo, —o typo medio.

Sou a mulher superior. Por isso mesmo o temperamento me não demarcou fronteiras. Junto na alma os encantos, dores, vida sensual, ingenuidades, fraqueza e forças da creança, da mulher, do homem. Como no apologo das varas, a intelligencia dos dois sexos, considerada em conjuncto, ultrapassa o valor das parcellas em desencontro.

A minha obra tem tambem a ingenuidade da creança, a acuidade da mulher, a razão do homem, sobretudo a uncção, a grandeza, o vago genial da alma collectiva. Sou a synthese. Excedo o super-homem, sou a essencia da propria humanidade, na comprehensão e realização transcendente do Espirito Universal, em Deus.

Sou a super-sensivel!

A minha bondade acceita, em pé de egualdade, o amor idealista de Santa Thereza de Jesus—a mystica, os impulsos bestiaes de Caligula e as ordens alucinadas de Nero, determinando-se em sensualidades, ou incendiando Roma, para mergulhar a alma sublimemente perversa nas labaredas duma civilização a arder.

O instincto é a primeira força. Depois ha a aspiração vaga, que nos faz caminhar para o Desconhecido.

Caminhêmos. Sigamos a mão distante que nos acena. Dêmos por tudo o que formos encontrando.

Chamam-nos visionaria! Que importa? Que tem sido a humanidade, senão visionaria!

E como é grande a creatura quando sonha! E como é bella a alma a viver sentimentos, a visionar!

O que é a Vida nua de chimera?!

São factos o proprio sonho, a chimera...

Creio na vida eterna pelo Amor. O Amor, fundiu em mim—Deus, Perversão, Desgraça...

O Bem e o Mal deram a figura que sou—um bronze de sentimento. Realizo o genio sensual da humanidade nevrosada e a vida suave de toda a Belleza humilde!

Sou Shakespeare e Bandarra:—tenho no peito o cachoar tragico da muita miseria e altanaria heroica, que o inglês referveu em dramas, que são a perpetuidade da Dor-genio; e, ao mesmo tempo, a simpleza ingenua da amargura, delida por uma quasi inconsciencia,—aquelle extranho sentir dos loucos que têem o sestro de viver alegres as suas e as tragedias dum povo, os bellos crimes, como as grandes melancholias duma raça!

Sinto a alma amarrotada, amarfanhada! Mas ha almas e almas. Ha-as que são como a estopa grossa que, quando sujeitas vincam traços grosseiros.

A minha alma, é como a seda e as moires luzentes: amarrotada, maltratada, tem cambiantes e vincos finos, dá traços curvos dum resplendor desmanchado, a esbaterem-se em sombreados duma belleza rara...

Tenho na alma a dor latente. O Acaso, fomenta-a por capricho.

Deitei-me a outra noite, triste, sem saber porque. Estava de mal commigo. Dormi pesadelos. Subito, levantei-me, abri a janella, e vi o roseiral escuro. Nem uma rosa a alumiar-me! Deus cortou relações commigo, pensei, angustiada. Cortou as relações com todos os homens, e por isso escureceu as flores, pintou-as côr do castigo, fê-las côr da fuligem.

Corria o tempo, e eu, muda, quieta, somnambula, a fitar as rosas, todas de seda crepe, e, ainda assim, bellas e cheias de graça no seu desenho fino e desegual!

Depois, a meio da tortura daquella visão sombria, recobrei-me, pensando em Deus. E vi que defraudando-me, se castigava. Elle não podia, sem desfalque da sua divindade, abdicar da Côr:—dar ás rosas o tom da sombra, embora tocado da belleza da noite, podia ser capricho, nunca um proposito eterno!

Chamei Deus a mim, num esforço ingente de Artista que requer o Elemento para trabalhar, produzir, crear...

E, desde logo, o sonho se esbateu em claridades. As flores começaram a colorir—milagre de Deus, da madrugada, do meu olhar!

 

Deus troca a sua alma com a minha. E sua alma cabe em mim.

Convenço-me de que o lisonjeia a troca—pois a minha abnegação e bondade não têem a caucioná-las immunidade alguma.

Vivo pelo Amor todo o amor, os maiores desalentos, o proprio odio, os fados desgraçados...

A intenção da minha ultima jornada foi duma pureza absoluta.

Elevou-me a isenção; por ella desprezei a Moral. Ser moral é servir a conveniencia; raramente é ser bom. Collidem quasi sempre a Bondade e a Moral.

Esta é muitas vezes hypocrisia a reflectir trapaça, iniquidade.

A minha coragem afronta o estabelecido. Moral alguma vale a Bondade! Ainda que sacrificasse a propria vida infinita, eu não recuaria:—outro Ceu havia de encontrar.

Protegi um dia os amores de dois mendigos. O meu olhar illuminava aquellas almas, que se trocavam para além das suas miserias.

Esbatia seus enleios um resplendor de sol, que espectrava riquezas e caprichos de tom:—era a minha bemquerença, a Bondade, eu propria, desfeita em luz a aquecer aquelles amores, banhando-os de goso divino.

Indifferente aos grandes nadas do mundo—os que geralmente enchem as canseiras dos semelhantes, perturbo-me ao menor symptoma dum grande soffrimento.

Deus parece ter-se enganado, extravazando em mim toda a melancholia que devia ter apartada para uma raça.

Extranha figura sou! No meio de tempestades intimas, as mais batidas, a alma raramente me deu lagrimas; suggeriu-me desalentos. Outro dia chorei, convulsa, deante de um numero, que ainda lembro cheia de medos.

Foi sobre a indicação de forçado (C. 3. 3.) com que Oscar Wilde, o predestinado da Perversão, assignou as paginas magoadas do De Profundis, escriptas no descanço do hard labour.

Vi naquelles numeros toda a severidade votada aos degenerados, o conflicto aberto entre uma sociedade inferior e a sensibilidade acuradissima dum louco genial.

Tambem eu sou odiada; e, para o grande numero, a Sapho, a larva immunda que acommete a adolescencia...

Não me defendo. Quantas vezes senti em mim a alma da grande lesbia, que visitava em meus poemas e loucuras a nova Hellada do Ocidente!

E larva tenho sido. Mas larva a evoluir. A chrysallida que sonha asas. Sinto-as no auge da nevrose. Prendem á carcassa de linhas finas em que o Destino veiu pousar uma grande alma. Erguem a minha belleza amoral.

Esta Belleza é pouco e é tudo. Por ella subjuguei forças proprias e extranhas a um só fim:—sentir.

Toda a gente odeia a Morte. Porque?

Ella é o supremo bem. O que o vulgo toma por acabamento é passagem para o Além... Mas esta passagem sómente é consciente para os que na vida sentiram. Só elles podem avistar com os olhos da alma, áquem da passagem, o eterno da Vida que segue... Como se adquire esta acuidade?

Desconheço-o em parte.

Mas a atmosphera propria a que se manifeste está na ignorancia das leis do mundo, no desprezo da Vida.

O estado mais proximo da superioridade—é o estado sensual, porque é elle que superentende, domina a nevrose, dando o maximo de elasterio á sensibilidade:—é, afinal, a Arte latente, a Belleza no estado puro.

Como obtive o estado sensual? Dando-me ao infinito de sentidos que descubro áquem e para além de mim...

Que ninguem tente reprimir a sensibilidade. Entregue-se-lhe. Ha no povo inculto, como entre os superiores, grandes temperamentos deformados pelo Preconceito. São aquelles a quem o Acaso repartiu almas que são preciosissimos instrumentos, que elles desferem mal.

Foi a guerra movida á minha conducta que melhor acurou os meus vicios, suggeriu a defesa integra dos meus actos, e creou, parallelamente ao meu nihilismo de sentido, uma Philosophia que prende a uma Liberdade amoral que vae além da outra,—a que peja os Codigos, as Biblias...

Sempre que intravazava o odio alheio, reconhecia, após horas de tortura, estados novos, de que manavam fontes suaves de riqueza espiritual. Ás vezes, sentia eu propria necessidade de concitar esses odios.

Esta attracção exprimia o braço do Bem e do Mal,—o instincto duma grande missão de Unidade a colligir os recursos do Novo-Mundo da Belleza. A grande elementação desse mundo não dispensa o Mal. Toda a creação é dolorosa.

Gosar o soffrimento é acceitar aquella missão. Mas, porque só os maiores a acceitam, só elles a gosam, exprimindo em Arte o agridoce daquella dor.

O vulgo mal comprehende a tortura dos eleitos, o que reflecte de grandeza sobrenatural. E a Sciencia não alcança mais! Que eram os apostolos quando se deixavam retalhar, a sorrir, de olhos fitos no Além?

Para o povo eram santos, para a sciencia—loucos. Erro grosseiro é ler a Dor atravez das lentes escuras que vestem os olhos de tanto myope! Como falseiam a missão da Belleza!

Loucos os apostolos duma Religião!

Tambem vou ser acoimada de louca! Quantas affinidades com elles hão de encontrar-me... E talvez, inconscientemente, a Sociedade acerte. O que é um louco?

É o espelho de melhor ou peor crystal, biselado ou lizo duma alma sem artificio a viver desvairamentos. É o absoluto em sinceridade— o que ri, e chora, odeia e ama sem trapaça, indifferente á sociedade que o espreita, o que despe a alma na praça publica sem caridade por si, alheio a quem o vê.

Na escala da loucura ha os criminosos-loucos, que dão á sociedade pretexto a que ella os enclausure, para melhor os explorar, e ha os outros, os que ella frecha de infamias, emparedando-os de preconceitos, dando-lhes a liberdade de sonharem alto, para que possam ouvir-lhes o sonho, e impedir-lhes que realizem desvairamentos, por vezes geniaes...

São os criminosos, os santos,—todos os reduzidos de entendimento, como os que o possuem accrescentado duma sensibilidade incomprehensivel. O mundo ri egualmente da treva dum inferior, como dos supremos desvairados.

Os inferiores desconhecem a grande parte da verdade eterna que o sonho contém, que ha, por vezes, na loucura profecias geniaes.

Parece que os loucos sonham, quando adormecidos, actos que a sociedade toma por feitos de juizo.

Depois ao acordarem abysmam-se do desapontoado dos sonhos...

Exactamente o inverso do que succede ao Vulgo. Este delira no somno os grandes feitos e delictos. Uns e outros relegam o que sonharam.

Ora o Artista, ou acorde na Obra uma aspiração do Vulgo, ou desvaire fóra do tempo e do espaço em que trabalha, é sempre a creatura que vive na Arte o sonho e sonha na Arte a Vida!

Do louco tem o desvairamento, que lhe distende a sensibilidade até á abnegação, o alheamento da conveniencia, a fatalidade do temperamento, agindo livre entre clarões e trevas. Sou a Artista-louca, perdida no cosmorama dos Paizes-Altos da Belleza. Não conheceis estes paizes! São aquelles que o meu genio doente aguarella e o Sentimento repinta e vive.

 

Deslumbro o entendimento na Fé sonhada—a nova Attica do Ocidente.

Valho o abraço de dois povos, que se estreitam e vivem as ultimas loucuras confundindo as almas!

Sou o Ocidente a alar-se.

Como a Grecia attingi o estado sensual. Deliro na ante-camara da Morte o sonho hellenico que vejo para além...

Triumpho morrendo.

Morrer é simplesmente erguermo-nos. Vou elevar-me, descansar na Altura.

Attingi pela Dor o planalto que me vae ser ponto de vôo. Fui a creatura que o Destino arrancou da pureza humilde dos montes, e que, ao chegar á civilização, deslumbrou de torpeza. Aguia nata em ferocidades puras, quiz o luxo mundano domesticar-me para que eu sommasse á ferocidade selvagem a hediondez civilizada!

Salvou-me a raça. Vivi o temperamento, as taras, tudo o que era meu, bem meu, em reacção com os outros.

Raras alegrias me assaltaram. Tinha de ser:—a Alegria jámais fecundou.

Vi chover sobre a minha obra, que era mais do que eu propria, pois que era eu tocada do sobrenatural, petalas de oiro e lama.

Prosápia, bens, armas, brasões, tudo revôlto, perdido...

Portugal, Hespanha!

As armas, os brasões, vós proprios os derrubastes, esquecidos de que tambem eram vossos, principalmente vossos!

A Historia ha de gelar no coração das creanças, quando os saxões e os outros, as raças praticas, vierem tentar o Ocidente... Antevejo conflictos entre as futuras searas de adolescentes, sortidas de pequenos demonios dourados, sardentos e gulosos dos meus bens.

Deixae-me beijar-vos, oh adolescentes morenos da minha raça,— corpos de sombra e sonho, pelo vosso triumpho!

Reviverá na vossa belleza o meu genio—nos Estados que tereis de crear o meu sonho!

Eu mesma terçarei armas na vossa lucta.

Voltarei, vestida dos vossos corpos de bronze. Sentir-me-eis em vós, como hoje vos sinto em mim!

Mas só resurge quem morre. Entreguemo-nos ao Deus latente em nós, que nos dá na Morte o summo poder.

Por tudo elle a repartiu, como a signalar que em tudo é latente.

O infinitamente grande leva a sua grandeza divina até vestir o infinitamente pequeno.

O infinitamente pequeno é Deus procedendo, transformando. A Morte é o genio divino, tocado da treva, a simular aniquilamento...

É elle a recolher o material disperso, para modelar e animar novos sonhos. É o esboço de novas formas a apparecer.

Bemdigamos o Deus que somos, o Deus que vive em tudo e é Tudo. Amemos a Morte, pois que ella é, definitivamente, Deus.

É isto loucura? Sei lá! Talvez sonho...

Por meu mal, sonho sempre. Batalho ás noites com phantasmas. A outra noite, foi com phantasmas de Belleza. Assisti a uma refeição nova, a refeição da madrugada, na Villa-Feia.

Jehovah, entendeu-se com os do Olympo e a pedido de Apollo, que me convidára, quietou o tempo numa luz branco-cinza. Jupiter emprestou Ganymedes para servir os nectares, o mel, os fructos; Jehovah mandou seraphins, rosas...

Os convivas eram Nuno, Apollo, Venus, adolescentes morenos de culpa, que fui resgatar ao inferno catholico; Sebastião, o ephebo-martyr; Edgar—muito discreto e lindo no seu nu côr de tocha;—Ruy, abraçado a Nuno, a afogá-lo no mar de luz do seu olhar velludento, verde de vicio;—Helen, feita sereia vegetal, erguendo a cabeça airosa e loira dentre petalas de açucena;—finalmente a Hermaphrodita, a Penedia enorme, que vi espreguiçar-se, mover o peito, as coxas de gran, e levantar-se, suprema, para vir tambem tomar parte na refeição, penetrar-se da essencia, do olor das rosas.

O nectar era servido em flores de magnolia e peonias...

Começou a refeição; pedi mel. Veio Ganymedes servi-lo; mediu cem violetas do oiro-doce para a copa dum lirio que beijou e correu a trazer-me. Bebi dum trago o lirio-calice da loira resina. Pedi os fructos, as flores da figueira—figos tumidos de carne-vermelha, coberta a seda-amethysta; quiz romãns, damascos, peros de Deus... Sorvi tudo. De repente, ao tomar a terceira peonia de nectar, senti-me entontecida, deliciosa e horrivelmente nauseada!

Era o olor das rosas, a essencia do nectar, dos fructos, daquella Carne tocada do genio dos divinos oleiros, o perfume das taças,— tudo a perturbar-me!

Evoquei os Deuses e acordei ao grito da sua voz, que era a voz da minha queixa! E, acordada, volvi a pedir-lhes que de novo me remetessem ao sonho, e me asphyxiassem, de vez, pela Imaginação!

Queria morrer imaginando, abrupta ou suavemente, mas do mal-de-sonhar...

*

* *

O pensamento fixo é partir, morrer.

Jámais alguem sentiu, viveu assim a Morte. Esta é a sua Elegia, o derradeiro e mais soffrido dos meus Poemas. É que sou eu em união hypostatica com o Divino Poeta.

Não obedece ás formas vulgares do verso. Tem as formas espraiadas da massa da agua em movimento. Resume a forma definitiva da Poesia. Nenhuma alma soffre medida. Menos podia soffrê-la a minha, immensa como o genio que a distende.

Eu não poderia contar as sensações intimas da minha tristeza. Quem pode contar as commoções da labareda? Como havia de sujeitar ao metro o infinito de melancholia que sinto agora e dar o espectro da transformação que está a passar-se em mim?

Vou morrer. Nem sinto a dor dos que vão desesperados e sem fé, nem a alegria dos que partem de vez á conquista doutros mundos. Sou a acropole do sentimento. Acceito a Morte como um bem. Vou provocá-la como successão logica duma Vida que só pode continuar-se depois da nova provação.

Esta provação era fatal... Exulto! Matar é transformar. Vou transformar-me. Quando voltar serei outra.

Saudades, levo-as das tristezas que vivi.

A tristeza, a nevoa de melancholia que enchem esta hora de partida, dão-me a nostalgia do mundo que fui, de muitas batalhas de dor, agora decididas.

A Dor tem o sestro dos maus filhos; aferra-se profundamente aos corações que tortura, e domina-os. Mas ha dores e dores!

Nas passadas vivo a Saudade, nas presentes a Morte! Abençôo a Morte que me conduz á nova Vida. E soffro e goso suavemente esta jornada que para tantos é maldita...

Morro no outomno. O Destino quiz que fosse com as ultimas esperanças dos primeiros tuberculosos...

Tisicos, iremos todos! Quero ir cercada das vossas figuras brancas, puras da doença. Os atalhos hão de mandar flores a acompanhar-nos...

Oh! que lindo cortejo. Já as vejo, além, paramentadas! São papoilas-sangue, risos petalados de boas-idas.

Iremos já. Tenho ali a mascara que, embebida em Ether, ha de dar-me passagem para a grande Vida. Começo a viver a suprema Vida.

Não sou já a «Emparedada»; a sombra immensa que projecto rompeu de vez a espessura que me occultava do Deus latente em mim, do Deus que sou.

Que cega estava, que surda fui. Como a Terra, o Mar, tudo é differente!

O Mundo, oh que genial mentira! Como o distingo bem, de longe! Eu propria fui o que elle é—Confusão. O que avisto:—palacios de poderosos, columnados de gelo; choupanas de Luz; corações de tritão em peitos de sereia; fios de aranha alando a Terra; a Humildade a chorar sob doceis de granadas; a Humanidade em arestas á mercê do vento, a mergulhar nos pantanos; monstros a florirem amor; e tudo a morrer para viver, a viver para morrer!

Já converso as sereias, os tritões, as sombras dos Poetas. Phosphorescencias da agua—oh que mysterios de luz!

Quantos espiritos novos! São sátyros estrebuchando amores, na treva; são genios lendo á luz verde dos pyrilampos a vida dos pinheiraes; são levadas chorosas da virtude dos homens e da castidade infame das donzellas; é a onda a trabalhar o granito, a estatuar Belleza; é o vento a ramalhar orações, a petalar a agua, a orchestrar a gargalhadas o Hymno do Desprezo pelas leis da Terra; é a sombra de Wagner, sob o pallio verde-escuro dos laranjaes a apontar as notas altas dos rouxinoes para dar a ultima demão ao Hymno de Amor em que vae cantar o Infinito...

São moinhos a moerem bagos de oiro, de que os homens fazem o pão puro—rodas de moinho a beberem agua e a espadanarem leite, o leite que o ribeiro entorna pelas sementeiras e amamenta o linho, as papoilas, e os trigaes!

Cada tronco de arvore é uma columna de Vida. Folhas são asas batendo Amor. Flores são tulipas, botões de luz... Luz de Carne!

Nem o luar de Granada empresta á noite uma luz como a das flores. É uma luz de opala com cambiantes suaves, luz que reflecte corpos, almas em sonho.

Ah! agora, sim! Já vejo, já palpo e goso as figuras que procurava, —as minhas creações!

Sinto o sussurro, a melodia gemente da transfusão do que fui no que vou ser, no que já sou...

O que ouço é como o murmurio brando de levadas. É Mozart a sonhar... São as Fontes.

Oh! figuras sagradas, esculpturas de nevoa, abraçae-me! Assim... Fundamo-nos!

Chovam sobre mim petalas de borboleta e asas de rosa. Fui na terra irmã das borboletas, parenta das rosas. Subam até mim columnas de incenso, o riso vermelho das creanças, as ondas de sensualidade innocente que encapellam a Terra.

A Artista vae morrer. Distingo o fim da Noite no começo do Dia...

Ahi vem a Madrugada. Abençoada seja a Noite, mãe da Madrugada! Bemdito o eterno Dia!

Aquellas rocadas de algodão, humidas de Ether, são as nuvens que ha pouco vi passar além, que tenho ali e posso apertar na minha mão.

Scenarios e scenarios de pureza! O Mar, o Ceu, a Morte tudo é branco, continuando-se de mim, do meu alvor... Alvor da alma que tudo repassa de Belleza!

Toda a Belleza permeio, toda a Belleza sou:—a Nuvem, o Mar, a Dor...

Sou o Mar que sóbe em cambraias de nevoa, a Nuvem que desce em veu de madrugadas e perolas de granizo...

Bemdito sejas, oh Deus!

Vou ser o Ether que me sóbe á nova Vida!

Sou a Onda, a Nuvem que passa, e se esbate em Nada,—a razão, o inicio de tudo!

Irmãos! vou partir, vou viver! Sou já o Ether, sou a Altura...

FIM

1 Cancioneiro de Resende, Cantigua, partindo-se de João Rodrigues Castello-Branco.

2 F. de Sá. Cancioneiro de Resende.

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