Nova Safo: Tragédia Estranha

Visconde de Vila Moura · Capítulo 11 de 18

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Nova Safo: Tragédia Estranha

Capítulo XI

A Villa-Feia, sobranceira a Entre-os-Rios, assenta na encosta que domina a juncção do Douro com o Paiva.

Este ribeiro desce obliquamente, como um fio de platina a fundir-se nas aguas de oiro do Rio, que segue, como um grilhão mysterioso, a perder-se no mar.

O antigo paço senhorial da Villa-Feia é um systema de torres e torreões extravagantes, casas afiladas de frestas altas e seguidas, que dão de longe a impressão de linhas pontoadas; e quadrados enormes, atarracados, beirados de ameias grotescas, e frestas em losango, que põem na cantaria verde-negra um recorte de retinas extranhas, attentas ao mechanismo liquido das correntes e á paisagem roxa dos montados.

Tanto o paço torreado como o plantio da maior parte do arvoredo da Villa-Feia, foram obra dum velho templario que, segundo a Lenda, veio esquecer ali as canseiras da guerra.

Aquella architectura, informam os do povoado, foi idéa do templario. A deformação das arvores e outros signaes da Villa maldita, foram castigo de Deus, irritado com o porte de D. Alvaro de Castro Leite de Villar, um dos maioraes da Ordem que, em 1312, Clemente V aboliu.

Corre a fama de que o grande cavalleiro fôra um dos que mais justificaram a liquidação da Ordem militar e religiosa dos Templarios, pois que escureceu o brilho dos feitos mais ousados com actos de desenfreada sodomia.

O seu temperamento, fóra do natural, delineara um castello desproporcionado, alheio á architectura do seculo.

A natureza requintou em lhe deformar as arvores, dando á Villa-Feia uma flora monstruosa, invertendo o tempo das flores e dos fructos e afeiando as plantas de melhor raça. Mas não é sómente nas velhas arvores, que os do povo inculcam como plantadas pelo Templario, que as deformações se notam. É em todas as arvores que ahi se disponham. Quanto mais formosas são fóra, mais afeiam lá dentro. Ha-as chloroticas, abraçando-se numa adherencia de enxerto; outras, communicando serpentes de ramaria e abraços a muitos metros dos troncos; raças humildes, attingindo desenvolvimentos notaveis; eucalyptos, geralmente desenvolvidos e que ali figuram de anões, enfezados, exiguos.

Desenvolvimento, florescencia e fructos, parecem obedecer a leis especiaes. A Villa-Feia é um capricho da Natureza; uma pagina de Pathologia vegetal.

Os fructos são acres; as flores, em meios tons, e dum recorte esquisito, não têem aroma, o que faz que os camponios supponham que a sua approximação lhes veda o olfacto.

Tudo ali é extranho. Cada arvore toma um aspecto diverso das mais da sua raça em outras terras. O choupo-chorão abre em traços rectos; o ulmus pendula, de braços geralmente curvos no sentido do tronco, revira os ramos em hastes de novilho; cactos prodigiosos, vestem o sopé da encosta, formando cordões farpados; pinheiros bravos abrem-se em umbellas rôtas, de agulharia verde-escura; os cedros parecem arvoresitas de Natal, ramos de presepio; cyprestes bastos, tragicos e colossaes, põem pontos de admiração na paisagem; chorões, flexiveis como vimes, descem em tufos emmaranhados as suas lagrimas verdes, longas até aos pés; medronheiros de grandes troncos, herpeticos de musgueira, de folha sêca, mal vestidos, ostentam, simultaneamente, floritas brancas e fructos exiguos de coralina.

Os sobreiros jámais deixam o tom acastanhado que usam noutras terras ao abandonarem a cortiça:—põem na Villa-Feia uma nuance de sangue velho, erguendo-se, rachiticos, como adolescentes morenos alcançados pela tisica.

Nos recantos mais sombrios o chão é hirsuto de tojeira, cerdoso de espinhos bravos, bastos como pellagem de javali, salvo nas ruelas, abertas em lacetes, tortuosos, duma colleação mysteriosa de labyrintho.

Domina a Villa um penedo enorme, simulando uma figura-gigante, deitada na tojeira, que se desdobra em volta como uma pelle.

É uma figura nua, guarnecida de musgos, ostentando signaes nitidos dos dois sexos; lembra a figura de Hermaphrodita que um artista ensandecido tivesse trabalhado ha muitos seculos, e postado ali como um amuleto maldito do mundo sensual.

Corre entre os lavradores que o Penedo fôra cinzelado por D. Alvaro em noites brancas de janeiro, de collaboração com o Demonio, que, em baixo, no Ribeiro de Cobre, referve coleras.

E rapazes gastos e velhos sensuaes, crentes na sua virtude, vão horas mortas, pedir-lhe forças desbaratadas.

O Encommendado não se cansa de predicar o peccado em que incorrem os que veneram o mysterioso granito.

E velhos menos confiados contam casos de creaturas tolhidas, quando foram de romaria ao Penedo, depois de encontrarem a alma-penada do Templario, em companhia do Demonio, revendo a obra.

O Ribeiro de Cobre ganha a primeira altura da encosta dum salto, borbulhando tufos de agua escura, que rasam em madría pela açude. Dali partem levadas que cortam em leque os campos baixos.

Vogam na madría aves de agua, pequenos cysnes e enormes gansos, de pescoços de cobra e bicos de fava, remando de vagar os corpos gondolosos, vestidos de pennas, tufadas como ramos de chrysantos negros.

Tracto singular de paisagem, onde esparsos olivedos põem nodoas de saudade em cinza!

Parece haver o maior parentesco entre o Ribeiro de Cobre, assim chamado em razão da côr e o arvoredo, em que predomina o acastanhado dos sobreiros.

O povo guarda-se cautelosamente de pescar no Ribeiro, se bem que seja abundante em peixe e, sobretudo, em trutas, que lembram desenhos fugidos dalgum jarro precioso do Japão, a refulgirem escamas de prata e oiro por entre o cobre liquido do humilde corrego.

É que desde muito se conta na aldeia que D. Briolanja, a ultima morgada da Villa, fôra victima de peixes ahi pescados:—que ceara as endemoninhadas trutas numa vespera de Anno-Bom e amanhecera sem fala, muito branca, fazendo esgares, até que morreu, depois duma agonia mysteriosa, ao cabo de poucas horas.

Para além da madría, ha um velho moinho redondo, de grande circumferencia e pedra tosca, de juntas tomadas a verdura, com janellas oblongas e uma roda de dentes podres.

Semelha um carão horrivel, de olhos azeitonados, comidos de ophthalmias, sobrancelhas rentes de musgueira verde-limo e boca enorme, a que a roda de dentes cariada dá a expressão confrangida dum riso diabolico de dor.

A agua que a boca do moinho espúma, em camarinhas escuras, través da roda gasta, vae sumir-se a distancia, no lagedo amarello das alluviadas, que escondem o Ribeiro num tracto de dez passos. E é, sob o lagedo, que a agua espadanada contra a penedia baixa referve coleras de inferno, resoando naquella abobada de acaso as presumidas falas do diabo, segundo a voz corrente na aldeia.

Sobranceira ao moinho, na outra margem, fica a Eira de Vidro, uma escama natural de mica luzente, que, ao meio dia, quando o sol a veste, refulge, a meio da Penedia-amuleto, cordas de luz branca.

Circuita o exotico miradouro uma escarpa de granito rendilhado, que lembra o espaldar e braços de uma cadeira gothica de Cathedral.

Finalmente, é deste poiso extranho que os valles proximos escutam e repetem os dizeres dos que ahi falam.

Condições de acustica desconhecidas põem no espaço trios de arremêdo!

 

Tal a descripção da Villa-Feia, conforme um inedito de Nuno de Villar, III.º conde de Nevogilde e ultimo representante do Templario.

Era ahi que o escriptor villegiava quando a Cidade o aborrecia, ou sentia necessidade de dar asas á sua erudição e Arte. Ahi escreveu Os Sensuaes, o melhor dos seus livros, e varios capitulos da Vida Plastica, opusculos criticos, afora artigos. Dava-se bem com a paisagem que o cercava, e, sorria, benevolo, sempre que perguntava e ouvia a historia do Templario. Os camponeses interrogados é que o não indulgenciavam pela transigencia com o execrado cavalleiro. E, á puridade, aventavam suspeitas:

—Que o representante de D. Alvaro parecia seguir-lhe as pisadas; que não era facil fugir ás leis do sangue; que na Villa-Feia tudo se deformava, os homens como as arvores...

E discutiam as figuras que pernoitavam no velho casarão senhorial.

Maria Peregrina tinha dito a Nuno que ia ser hospeda delle, quando este falou em ir para Entre-os-Rios.

Nuno, cortês, agradeceu a visita e acceitou-a. Intimamente aborreceu-a.

Convidára o Vagabundo para o acompanhar. Queria mostrar-lhe aquellas sombras. Não sabia porque impressionava-o bem a convivencia daquelle desequilibrado, que alternava com elle grossarias e carinhos, que ora o abordava com humildades de rafeiro, ora o perseguia, desdenhando da sua Arte e nobreza, dos seus privilegios de singular.

Maria Peregrina era a mulher absorvente que, apesar de tudo, receava, com quem não queria intimidades.

Era preciso attendê-la. Era uma creatura excepcional. Mas, por isso mesmo, horrorizava-o o excessivo carinho que lhe notava. Admirava-a como mulher, mas temia-a. Era uma sensual que tinha percorrido a gamma do mais extravagante teclado da vida. Quereria porventura matar um novo capricho? E elle que só usava creaturas inferiores, que percorria altas horas os becos mais suspeitos a recrutar mulheres de acaso, como se haveria deante da mulher invulgar?!

Ah, se encontrasse pelos prostibulos mulheres daquellas formas!

Mas ter relações sensuaes com ella, uma intellectual, que havia de estar a ver, a frio, as suas atitudes de animal enfraquecido, cahindo, segundo o costume, na hysteria, que é a carne entregue a si propria, a velocidade adquirida do prazer a derivar na loucura!

Isto, se a commoção lhe deixasse ver nella a mulher!

E, muito triste com a ida da Artista, ia contando os dias, num horror de frade que treme da primeira tensão da carne.

Ah! elle era bem culpado, pensava. Podia ser como toda a gente. Se se deixasse de requintes não temeria mulher alguma. Mas degenerára-se.

Exigia sempre nas relações uma certa liturgia; dahi o seu pessimismo litterario, o pessimismo em tudo.

E, involuntariamente, lembrava as palavras de Lichtenberger:

«O pessimista é um degenerado, um doente que deve curar-se ou partir, mas que não tem o direito de empeçonhar a existencia dos sãos, de desmoralizar os potentes, de calumniar a vida».

Como sentia aquellas verdades!

Era assim... Claro que tambem Peregrina era uma doente; mas por isso mesmo lhe não perdoaria. Demais, o seu horror por ella ferir-lhe-ia o amor proprio.

—A doença odeia a doença. O que nós procuramos nos outros são as qualidades que não temos, pensava Nuno.

Por isso elle era um forte, entre uma seara de mulheres, castanholando modas e vendendo alegrias.

Mas, na Villa-Feia, com Maria Peregrina a trocar beijos e impressões de Arte—que horror!

E era fatal a sua ida. Equivoca situação! Já tinha percebido que ella o desejava.

 

Por sua vez Peregrina, enthusiasmada, nem parecia a mesma.