Nova Safo: Tragédia Estranha
Capítulo V
Dias depois do drama de Petersfield, estava Maria Peregrina installada na Praça de Trafalgar, em Londres, no Hotel Metropol.
Acompanhava-a Violet, que sahira do Collegio com ordem da familia, ordenado estabelecido, e auctorização de seguir com ella durante o tempo do contrato—cinco annos.
Ás tres horas, veiu um creado annunciar a chegada duma carruagem.
Violet compôs a toilette de Maria e esta sahiu depois de breves recommendações.
—Manda seguir para a avenida Northumberland, n.º 1013, disse ao trintanario.
Pouco tempo depois parava a carruagem.
Maria Peregrina entrou no vestibulo da casa indicada.
Perguntou se estava Helen Brooke e entregou um bilhete.
—Vou ver, disse o porteiro.
Voltou dahi a pouco, e informou:
—Está, mas não recebe.
—Como assim? inquiriu Maria.
—Foi a ordem que me deram...
—Manda andar para o Hyde Parck, disse ao trintanario, já na rua, voltando as costas ao porteiro.
A carruagem seguiu.
*
* *
Na manhã seguinte, ás nove horas, trabalhava no gabinete de estudo, quando chegou o correio.
Dentre o maço de correspondencia, foi extremando as cartas de letra conhecida. Leu-as com vagar e interesse, sobretudo as que vinham de Petersfield, dos antigos companheiros de collegio.
Passou a abrir as revistas, maços de livros, etc. Dentre as cartas desconhecidas tomou uma, ao acaso. Foi ver a assignatura. Leu com extranheza: John Brooke.
A carta dizia:
«Estava hontem em casa quando V. Ex.ª veiu para visitar minha mulher. Fui eu quem prohibiu que fosse recebida. Helen pôs-me ao facto das antigas relações entre V. Ex.ª e ella. Porque me não convem nesta casa, entendi dever dar-lhe parte da minha resolução».
Maria Peregrina leu com attenção a carta. Releu-a, como se quizesse certificar-se da primeira leitura e escreveu por minutos.
Depois chamou:
—Violet!
A inglesa appareceu quasi logo.
—Lê; e estendeu-lhe a carta de Brooke. Ahi tens a explicação da forma porque fui recebida.
Agora vê a resposta, e deu-lhe a folha recem-escripta.
Violet leu alto:
Meu caro Senhor!
Sei o que Helen lhe disse, porque sei o que ella, incapaz de mentir, podia dizer-lhe—a verdade. Não posso culpá-la. Ella teve a sinceridade duma confissão que V. não merecia, pois a ouviu sem a comprehender. A circumstancia da minha visita e o supplementar da sua carta são para mim coisas minimas.
Não tenciono voltar a procurar Helen. E como será a ultima vez que me dirijo a V., vou aproveitar o ensejo para lhe vaticinar que a sua conducta para commigo pode ter realizado a intenção de magoar-me, mas não o defende.
O temperamento de Helen não se fecha com prohibições e ordens como as que deu. E, se proseguir com ellas, peor lhe será. Helen dar-lhe-á o amor legal com um horror que no fim hade amargar aos dois.
Da inalteravel amiga de Helen:
Maria Peregrina.
—Podes fechar a carta e sobrescritá-la, disse, quando Violet acabou de ler.
E como falando só:
—Que infelicidade a minha e a dos que me rodeiam! Comecei por matar minha mãe, para entrar no mundo! Perdi meu pae aos nove annos.
Tenho no ouvido as suas ultimas palavras:
—Hasde ser, como todos os nossos, infeliz. Não tive tempo de te quebrar o motivo das maiores desgraças—o orgulho. Demais, tens talento.
Peor ainda:—talento e orgulho—o que terás de supportar!
Cêdo o Acaso me accendeu a sensibilidade.
A pobre Louisa Huley foi a primeira a soltar os amores doentios que eu tinha em mim. A fatalidade mandou-me da Inglaterra uma creatura para tentar-me.
Acabo de receber carta della.
Está perdida, vae para a Suissa tratar as ultimas esperanças de tuberculosa, e pede-me uma esmola!...
E fitando Violet:
—Não te esqueças de remeter-lha.
Helen, que foi a suprema alegria da minha vida, porque nós só nos alegramos quando satisfazemos vicios,—ahi está nas mãos dum inglês bruto, incomprehendida, bloqueada de ciumes e grossarias.
Edgar—morto tragicamente junto á Fonte Verde, em Petersfield, e eu a detestá-lo quando o seu lindo corpo se encapellou na minha posse e a ter por elle, a partir da hora em que o vi morto, uma quasi paixão...
Não imaginas como estava lindo, e sem se mexer, ali, á minha ordem. Ah! senti-o bem meu naquella hora que encherá uma parte da minha vida.
Como soube ler-lhe o corpo!
De quando em quando sentia barulho. Eram as folhas a bisbilhotar horrores contra mim!
Eu tinha mêdo que revivesse, que a sua alma regressasse ao amor.
Tu nunca amaste um morto!...
Elle, muito languido, côr de sêda crua, a dar-se-me, passivamente, movendo aos meus delirios o seu corpo de ambar.
Eu, muito collada a elle, falando-lhe, emprestando amor aos seus membros perros, lendo as linhas de sua nobre belleza—um Apollo de morte, a sentí-lo a sós, sem que houvesse ali mais do que eu propria e a sua carne...
Oh! o delirio daquella tarde!
—Nunca me mostraste a ultima carta delle.
—Ah! queres vê-la?
E depois de levantar-se a buscá-la:
—Ahi a tens.
Violet leu:
Minha querida Peregrina!
Morro amando-te. Quiz que soubesses que te comprehendi. Beijo-te ao partir. Olha que não levo resentimentos. Sei que não podias amar-me. Que me concedeste o mais que podias conceder-me. Mas eu não podia ficar. Era doloroso sentir que te afastavas tanto de mim, quanto eu de ti procurava approximar-me.
Creio que morto te não merecerei a repulsa que me tens dado.
Presumo que sejas a primeira a visitar-me. Irei suicidar-me junto á Fonte, na idéa de que sejas a primeira a ver-me!
Se assim fôr, ao menos então hasde pensar em mim. E podes vêr-me outra vez com os olhos de Arte, que já me não magôas. Pelo contrario, onde estiver, heide exultar de orgulho—se o meu corpo te der linhas perfeitas que entretenham por minutos a tua sensibilidade.
Procura bem. Olha que a morte é carinhosa com a adolescencia. Eu heide ser bello, ao menos na hora do teu encontro.
Vê-me bem! Se a minha carne te merecer um carinho, heide soffreá-la onde quer que esteja. Não quero que dês pela sua sensibilidade, encapellando-se de restos de amor, porque heide deixar-lhe ainda amor... Nem poderia levá-lo todo, tão grande elle é!
Adeus, Peregrina. Parto com a alma que foi o teu pesadelo. Perdôa-lhe. O corpo deve estar em breve junto á Fonte. Tu amas a passividade, as linhas que podes submetter e emendar nos teus nervos.
Possue-me, que eu devo ser um exemplar excepcionalmente tratado pela Morte. A Morte é tambem como tu—delicia-se, ceva-se na belleza passiva...
Adeus, Peregrina!
*
* *
Um anno depois da sahida de Petersfield publicava a Artista a Nova Sapho. O poema acordou em Portugal applausos e protestos. Havia a corrente dos moralistas, escandalizados com os desvairamentos da Poetisa; e havia os camaradas serenos e prestes ao movimento idealista, em que o poema se integrava. Aquelles aferravam-se á conjectura historica e explicavam que a Sapho segundo os sabios não era a lesbia vicienta que a tradição tinha fabulado, mas uma viuva honesta, com filhos e netos, erudita e moral. Para os homens de letras mais attentos aos casos de sensibilidade, o poema era uma affirmação de temperamento— padrão de Arte excepcional que, pondo em foco a vida hellenica, devassava o fio conductor dessa vida atravez das civilizações.
Certo foi que o poema, a despeito dos ataques á moral, desafrontada pelos folhetinistas dos diarios portuguêses, foi lido; a critica acceitou-o, e Maria Peregrina foi consagrada entre um cenaculo pequeno, mas escolhido de cultores e admiradores das Letras.
Quando lhe falavam nos ataques dizia:
—Estou como Liszt—Não me custa esperar. Não escrevo para a gente de hoje.
Enviou exemplares a varios escriptores latinos e ainda a alguns da Allemanha e Inglaterra.
Encontrou de tudo:—applausos, repulsa, bemquerença.
De vez em quando, os diarios portuguêses insistiam nas primeiras campanhas, em homenagem ao lyrismo de 1850, e ás letras declamatorias do momento. Datam daquelle tempo as suas relações com alguns escriptores inglêses e designadamente com Oscar Wilde, com quem se correspondia.
Em março de 1895 foi o escriptor prêso por accusações do Marquês de Queensbury. O perseguidor muito aferrado ao Criminal Law Amendment Act—fê-lo prender e julgar.
Os debates deste processo, escandalosos pelas accusações e categoria do R., apaixonaram a opinião.
Foi condemnado á pena de prisão por dois annos, que cumpriu em 1897.
Maria Peregrina, defensora de Wilde, escreveu em inglês artigos e opusculos sobre o escabroso processo, já quando elle tinha cumprido a pena e abandonado a Inglaterra. Conhecida no meio intellectual de Londres, frequentava os salões onde se conversava Arte; ia aos clubs, especialmente aos de gymnastica, praticando este sport, e privando com camaradas em que descobria affinidades de vicio ou belleza.
A edade não lhe contraordenava os propositos da adolescencia. Adulta, crescia em talentos e vicio.
Aos intimos explicava:
—Os meus talentos são os meus vicios, tratados pela imaginação.
Horas tardas, quando Londres deixa os clubs, restaurants e theatros, Maria Peregrina sahia só ou com Violet a frequentar o que ella chamava os Templos da Noite.
—A Noite faz em mim o dia, affirmava. Á hora em que tudo está alegre soffro eu a minha Arte. É nella que emprego os dias, pois que é de todos os soffrimentos o mais voluptuoso.
Horas mortas tornejava a oeste de Trafalgar square, por Haymarket, Picadilly, sob as arcadas de Pall Mall, errante por entre o rancho de bacchantes, perdida na onda de luxuria que é Londres a taes horas.
Frequentava tudo—o Savoy, Empire, S. James, Alhambra, as ruas onde as retardatarias entretêem a fome, sorrindo a quem passa, os logares onde havia luxo, miseria, erotismo, alcool...
Os inglêses, affirma Stendhal, serão os ultimos a acreditar no inferno. E, por isso, elles, sem o entrave religioso que embaraça os outros povos, soltam á vontade o seu desejo animal, num desdobramento que excede tudo.
Eram estes requintes que Maria Peregrina apercebia e queria viver.
Wilde tinha-lhe escripto um dia:
—«Aquelle que se entrega absolutamente a si proprio, não sabe nunca aonde vae parar».
Queria lá saber aonde iria ter?
O que desejava era calar os nervos, a sêde de imprevisto, que a queimava intimamente. Sahia a explorar a noite. Pelas ruas havia renques de mulheres, duma fealdade de arrepiar, ao lado de creaturas mal crestadas do tempo, nas quaes a belleza persistia, apesar do vicio e das doenças.
Não era a belleza graciosa, que contrastava a mulher de alguns paizes, nem a classica, nem a sensual que caracterisa o mundo feminino do Oriente, ou a belleza crepuscular do Ocidente e Sul—a belleza que ella encontrava nas poucas mulheres formosas da Inglaterra.
Era uma belleza especial—a que adstringia á raça, expressiva de falsa innocencia e suavidade.
Tratava de afogar os desgostos em sensações novas, e dahi andar pelas ruas onde excepcionaes figuras erravam como sombras, a commerciar toda a casta de prazeres. Mulheres duma brancura de linho, carnações de lirio e dahlia, de olhos anilados e estrigas de cabello oiro-fulvo, passavam bebadas nas esquinas, dispersando a alma em risos idiotas. Ia no seu encalço, interessada pela historia daquellas marafonas, que pareciam ter descido do Ceu por tentarem santos e que os homens desprezavam...
—Ah! o peccado da terra está em não aproveitar bem as creaturas, dizia. Estas, são as flores da rua, que valem bem mais do que as que se abrigam sob o crystal das melhores casas de Londres.
Colleccionava as mais perfeitas para uma especie de harem, onde passava em serão algumas noites, emmaranhando, tecendo a sua vida com a desgraça dellas.
Conhecia a geographia dos bairros mais mesquinhos da City, percorrendo-os a miudo, bem como os prostibulos onde se vendiam as mulheres de preço.
Ora arrastava toilettes da maior elegancia pelo Savoy, ora ia, modesta, irmã das sombras, conversar as mulheres que viviam os prazeres da noite, mais rasteiros e humildes.
De longe em longe, combinava com Violet e iam as duas pernoitar com moços de acaso.
Percebia que as relações naturaes lhe acalmavam os nervos.
Então, deixava-se abordar pelo mais novo dos presentes ás sucias da noite.
Guardava silencio sobre o nome. Preferia mesmo entregar-se a viajantes, que ao outro dia perdesse na confusão de Londres.
E sahia, enjoada, com odio ao sexo, exasperada daquellas horas batalhadas com extranhos, duma luxuria que lhe era necessidade e tormento.
—Usei hoje o meu amargo, dizia para Violet.
O amargo era o commercio sensual com o homem, que tinha como remedio.
Do mesmo passo que percorria o peor de Londres, partilhando o muito que ali havia de perversão animal e vida exotica, tinha em cuidado não perder uma nota da vida superior do grande centro— instruindo-se, apontando tudo, e adaptando-se ao luxo e requinte aristocratico da terra tradicionalista por excellencia.
Tão depressa era a mulher que se confundia por entre o bosque de gente que se apertava nas ruelas miseraveis de Whitechapel, como a mulher de aspectos nobres, com geitos de duquesa, que passeava a sua prosapia de peninsular para além do Strand.
No meio em que era conhecida fazia-se excepcionalmente admirar pela fidalguia de maneiras e talentos e pelo encanto da sua palavra de superior.
Apesar dos desequilibrios de creatura insexuada, delirando perversões, nunca perdera o geito fidalgo da sua bondade.
—A bondade, dizia sempre, creio que virá a ser a minha jangada de salvação.
E, de facto, no privar com gente miseravel, que recrutava nas ultimas camadas, jámais deixava de ferir a nota da commiseração, estipendiando o infortunio com dadivas que lhe inculcavam fidalguia e a procedencia portuguesa.
Um facto havia a salientar nesta maneira de praticar beneficios:— a predilecção pelos desgraçados mais abjectos.
Para ella não havia criminosos, havia desgraçados. E os que cahiam na alçada da justiça ou no odio da opinião eram sempre os mais sympathicos e dignos de affecto.
Londres é a cidade do apostolado. Planta-se uma Religião a cada esquina. Confundem-se nella cultos, ritos, seitas. É a Babel da Alma. O ceu da alma inglesa é nevoento como o ceu de Londres. Segundo uma estatistica de poucos annos, havia em Inglaterra e Galles 34:467 casas de religião—das quaes 14:077 eram officiaes.
Maria Peregrina ia muitas vezes assistir ás praticas e devoções religiosas.
—Ando a procurar a minha religião, dizia, e não encontro senão farrapos della em credos oppostos!
O ultimo tempo que viveu em Londres foi num torvelinho de misteres desencontrados, á mercê dos nervos.
A sobreexcitacão não lhe dava treguas.
—Se me aquieto, morro do mal-de-viver, acudia ás observações de Violet.
Frequentava cursos de linguas, de Philosophia, de Arte e de Sport; escrevia; passava, invariavelmente, duas ou tres horas— procurando «o aperitivo sensual da noite»—um caso exotico que lhe aquietasse a ancia infinita de viver, de soffrer, e recolhia tarde a dormir pesadelos,—rebates das canseiras do dia.
Adoeceu. Era inevitavel, diziam os medicos. Não sabe quem é, para onde segue. Precisamos de tratar-lhe a sensibilidade.
E receitavam calmantes, repouso—o inverso da vida que levava.
Um mês depois levantou-se. Estava alquebrada, mas o tempo primava em lhe conservar a belleza, em desconto das infelicidades.
Deu-se por esse tempo um acontecimento decisivo para ella.
Paris intellectual, benevolo e esquecido das miserias intimas de Wilde, offereceu-lhe uma festa.
Peregrina encontrou no acontecimento um ponto de sahida da antiga vida de Londres. Associou-se aos camaradas de Paris e partiu a tomar parte na homenagem.
—Adeus, meus amigos, dizia abraçando diversos artistas, despedindo-se. Não voltarei. E, no entanto, presinto que serei tanto mais infeliz quanto mais me desviar da Inglaterra. Aqui deixo o melhor e o peor da mocidade...