Nova Safo: Tragédia Estranha
Capítulo VIII
Um dos escriptores de mais talento era então um rapaz de vinte e nove annos, que se isolava propositadamente das confrarias literarias para viver e reflectir pelo livro impressões que eram o sentir intimo duma figura áparte. Esse escriptor era D. Nuno Alvaro de Sousa e Villar, III.º Conde de Nevogilde.
Oriundo duma familia nobre de Traz-os-Montes, com um bom patrimonio em terras, repartidas por três provincias, vivia, habitualmente, em Lisboa, reservando dois mêses para passar numa quinta em Entre-os-Rios, e viajando outro tanto tempo, approximadamente, todos os annos, pelo extrangeiro.
Os livros de Nuno de Villar, como elle os assignava, revelando um temperamento, eram provas do movimento idealista contemporaneo em Portugal, provas raras entre uma flora arrepiada de pessimas letras, reflexo de auctores dessorados, perdidos em liturgias de Arte, ingenuas e pelintras.
Era alto, de cabellos escuros, parco em rir, olhos negros, serenos e profundos, nariz de feitio judaico, em bico de aguia, pallido, expressão triste, um pouco desmanchado de maneiras, que lhe inculcavam lassidão de animo, sem prejuizo da gentileza de linhas que lhe contrastavam a raça.
Escrevendo, exprimia aquella lassidão numa prosa sua, duma suavidade e rythmica novas, muito senhor de todos os processos, que coava, conscientemente, pelo seu criterio, numa ou outra notula erudita, para se librar, logo, segundo o temperamento, ás creações e pontos de vista proprios.
Processos seus, idéas extravagantes, fórmas singulares—taes as qualidades e defeitos que o extremavam.
Os ultimos livros—O Genio do Acaso, Symbolos, Os Sensuaes (romance), e a Vida plastica, eram documentos claros do seu talento e distincção de escriptor.
Profundamente individualista, esmaltava os escriptos de dizeres pessoaes, que lhe inculcavam o orgulho, que era o fundo do seu caracter de homem de raça. Em todos os livros marcava o traço do seu declivar de decadente; era, fundamentalmente, um negativista. Cria na Arte. Era ella a sua religião, o seu refugio e tormento.
Áquem della, via a burguesia, que appellidava de utilitaria e estupida, a moral, a ficção. Para além... nada.
Typo esquisito de superior, era difficil nas relações.
Horrorizava-o a descoberta duma grossaria nova. E tinha para si que conhecimento novo era cabaz aberto a novas grossarias que tinha de supportar.
Ignorava-se em Lisboa a sua vida. Os mais alviçareiros sabiam vagamente que uma ou outra vez era visitado por mulheres de reputação suspeita, que variavam nas dependencias do Palacio-Foz, na Avenida, onde vivia.
Andava quasi sempre só. E nos theatros e livrarias em que apparecia, era difficil abordá-lo, pois se mantinha numa reserva educada, que afastava os mais ousados em relações.
Entre o publico e elle estava o editor.
—Os editores, affirmava, são vulgarmente calumniados de pessimas creaturas. Eu prefiro-os ao resto da gente. Não quero saber do publico, nem dos reclamos das folhas, nem dos criticos das redacções, nem do que podem pensar as academias que por ahi praceiam bacharelices.
Basta-me o editor para me relacionar com algum espirito que me entenda, ou qualquer geração por vir que lave a Idiotia que por ahi corre.
E, de facto, não mandava livros ás redacções, nem ás academias, nem ás bibliothecas, nem a pessoa alguma.
—Escrevo para mim e para alguem que não conheço.
Os conhecidos não valem uma linha, informava, no Preludio da Vida Plastica.
Em volta da sua figura, duma gentileza doentia, de aspecto simples, mas mysteriosa, dum retrahimento religioso, mal disfarçado na distracção que affectava, cresciam lendas mais ou menos exoticas a que vivia alheio.
Ainda em casa, era pouco communicativo.
Unicamente conversava com o mordomo, um velho de confiança, egualmente discreto, fechado a qualquer esclarecimento que lhe pedissem acerca da casa.
Para o mordomo, o silencio era um ponto de honra, em tal assumpto. O seu programma era obedecer sem discutir, e calar comsigo qualquer ordem que lhe fosse dada; assim servira o II.º Conde de Nevogilde, um excentrico, e assim servia o filho, D. Nuno de Villar.
Era, de resto, bem simples o seu trato, pois que afora coisas minimas, era de natural indulgente e carinhoso para os inferiores. Esquisitamente methodico, tinha horas proprias para tudo.
Quando fechado no gabinete não permittia que fossem interrompê-lo.
—Se á hora em que leio ou estudo, houver fogo em casa, deixa-me morrer assado—recommendava ao mordomo.
Não havia ordem, nem visita, nem telegramma ou acontecimento que absolvesse um creado que lhe alterasse as ordens.
—Que tudo lá fóra mude, dizia, nesta casa só a minha vontade póde variar, e depois a dos outros segundo ella.
*
* *
Ás onze horas tomava o primeiro almoço.
A seguir, via a correspondencia.
Num dia em que folheava os jornaes, á hora do costume, leu uma noticia de segunda pagina, ácerca dos trabalhos de Ruy Augusto, em exposição nas dependencias de S. Carlos. A folha reproduzia alguns trabalhos e o retrato mal zincographado do auctor.
Tratava-se de um pintor precoce, tambem estatuario, rapaz de dezenove annos, que merecia as benevolencias da gazeta em artigo banal, salvo uma ou outra nota biographica.
—Ha de ser um prodigio como os do costume, pensou Nuno. Artista de merito desde os 15 annos!
Emfim, tenho curiosidade em ver as obras do rapaz.
Chamou:
—José!
Appareceu o mordomo.
—Vae mandar preparar a carruagem para ir a S. Carlos.
O creado sahiu a cumprir as ordens, e meia hora depois Nuno entrava no Theatro.
A exposição abria por um grupo de intenção inferior e execução horrivel. Denunciava um motivo pagão que o auctor não havia comprehendido.
Seguiam-se outras obras detestaveis.
De subito, foi Nuno surprehendido por duas figuras, que diziam no suppedaneo—Ganymedes servindo Jupiter.
Curiosas figuras! Jupiter era uma creação impossivel, desproporcionado, numa atitude artificialissima. Pelo contrario, Ganymedes era um marmore a resumar candura. A sua atitude, offerecendo a taça do nectar, as curvas delicadas do corpo, as minucias, como o desenvolvimento geral do busto e membros, confusos numa indecisão de sexo—tudo era de molde a devassar o artista que tinha concebido e executado tão extremada obra.
Mas poderia aquelle trabalho ser do mesmo auctor do Jupiter, e do destacamento de estatuetas que tinha visto? Foi andando. Por entre a collecção de obras inferiores deparou, a breve trecho, com dois trabalhos que não desmentiam o Ganymedes,—o Vagabundo e a Figura errada.
O Vagabundo, notavel de formas e expressão de alheamento, era um pequeno bronze de meio metro, harmonico, e que ajustava, absolutamente, ao dizer da peanha.
A Figura errada era o mais notavel dos trabalhos apresentados. Jehovah, pensativo, encostando a cabeça á mão esquerda e tendo na direita uns restos de barro, contemplava, indeciso e descontente, a figura que acabára de fazer. Esta figura era a expressão suprema duma alma que conseguira emprestar ao bronze todo o valor, realizando uma alta intenção.
Reproduzia um adolescente das mais bellas formas, corpo idealmente flexuoso, talhado em linhas suaves, duma musculatura branda, dum boleio irreprehensivelmente plastico.
Mas na sua physionomia, como talhada em sombra, havia uma tal expressão de dor que o bronze parecia ter fixado ali a alma do artista que lha vazara.
Lembrava a estatua de Hermes, de Praxiteles, numa atitude nova de horror e desespero. Era uma figura de expiação!
*
* *
Nuno passou aturdido pelas suggestões daquella estatueta á segunda sala—a da pintura.
Os demais objectos de estatuaria eram inferiorissimos:—bustos mal acabados, atitudes mal surprehendidas, assumptos quasi idiotas.
Na sala de pintura esperava-o nova surpresa.
Havia a considerar as figuras que eram pessimas e as paisagens, bellas, sem discrepancia.
—Que extraordinario artista! dizia Nuno comsigo: tão desegual!
E passando mentalmente as figuras que tinha extremado:
—É curioso que dão o mesmo typo em differentes edades.
São reproducções duma unica figura! E quasi que só as reproducções dessa figura são notaveis.
O resto é intoleravel!
E, vendo as paisagens, ia recolhendo impressões.
—É, em pintura, dizia comsigo, um raro apostolo do movimento contemporaneo. A sua paisagem não se filia em escolas passadas. É a belleza nova através dum grande temperamento.
*
* *
Tinha passado hora e meia depois da entrada de Nuno.
Este viu o relogio e chamou o empregado, mandando apartar as estatuetas escolhidas e três paisagens.
A seguir perguntou:
—O artista não está?
—Está além, vou chamá-lo, informou o empregado, dirigindo-se a um compartimento da extrema.
Pouco depois appareceram os dois:—Ruy Augusto, seguido do empregado.
Nuno de Villar teve um movimento de surpresa.
O apparecimento do esculptor foi uma revelação. As figuras apartadas eram variantes dum modelo, que era o proprio Artista.
Elle dirigiu-se a Nuno com passo hesitante, flectindo-se, desordenadamente, num enleio de creança. Nuno attentou-o com curiosidade.
Era uma figura pequena, duma gentileza effeminada, moreno, olhos verdes; abria os labios grossos num sorriso triste, e tinha o cabello em ondas negras e compridas.
Quando Nuno de Villar deu a razão de o ter procurado, elle, confuso, numa grande perturbação, declarou-se muito honrado com a visita de tão grande artista á sua obra, e pelas acquisições feitas; pediu-lhe para que deixasse estar no salão os trabalhos comprados, durante alguns dias, e recusou-se a receber logo o preço.
Nuno, cada vez mais interessado, ficou a conversar.
Ruy, parco de palavras, flectia-se em gestos de attenção, sorrindo aos elogios do interlocutor.
Quando, porém, Nuno lhe observou as desegualdades, a expressão branda dos seus olhos de esmeralda transformou-se.
O olhar, até ahi fixo em Nevogilde em expressões suaves duma galantaria senhoril, volveu-se rapido numa espectração selvatica, vazando em tonalidades extranhas sentimentos de tal melancholia e dor que mal se comportavam nos seus olhos de verdete, normalmente de esmeralda desbotada.
E Nuno, educado e tolerante:
—Afinal as desegualdades são naturaes nos artistas. A Arte tem os seus caprichos, as suas horas.
—Não é isso, replicou Ruy, em voz sumida. Perdôe-me V. Ex.ª a confissão que vou fazer-lhe e que só a um grande artista póde fazer-se.
A razão de taes desegualdades prende á minha maneira de ser. Vejo-me na Arte como num espelho. Melhor do que num espelho, pois me vejo intimamente.
Eu pertenço a uma raça que vive odiada e odiando.
Exprimo o povo,—o bastardo duma fidalguia heroica e devassa, que nem talentos, nem sangue pode medir. Sou o acaso, a torrente vermelha do Destino, com uns laivos anilados de sangue nobre...
Degenerei em Arte, a feição bella do Odio.
Veja que nem tenho appellidos. O meu nome é Ruy Augusto.
Sou rude convivendo.
Como vejo com horror ou indifferença as creaturas, não tenho modelos que me impressionem. Toda a obra tem um fundo de photographia. Mas a minha objectiva recebe mal as imagens. A sua qualidade deforma, sobretudo, as que geralmente passam por preciosas. E se algumas affinidades mostra é pelas mais humildes: aproximação de raça.
Depois, a alma soffre com os esforços da vontade. Não sente quem quer. Eu desço de olhos fechados a escada que vae dar ao incerto. Isto na vida, assim tambem na Arte. Sigo o temperamento. A paisagem, não me apparece turvada com a figura humana. É a belleza que não magôa. Amo, quero dizer, sinto a paisagem. V. Ex.ª, provavelmente, não sabe, pois que me não conhece, como sou indicado nos meios que frequento?
Chamam-me o Vagabundo. Creio justissima a etiqueta.
Fechado em Lisboa, onde trabalho ao acaso, quasi sem recursos, realizo, de facto, essa figura extranha, que cansada de caminhar por entre paredes, desvaira na paisagem reminiscencias e nostalgias dos descampados da sua terra, que é a terra da sua raça.
Ahi tem V. Ex.ª, concluiu, a razão porque entre uma feira de estatuas encontrou três boas e porque na pintura o meu processo é mais harmonico e o reputo supremo como documento dos meus talentos.
—Muito curiosa a informação, disse Nuno.
E, de repente, fixando Ruy, a sorrir:
—Sabe que conheço o seu modelo preferido?
Ruy ruborizou-se, commentando, enleado:
—Veja V. Ex.ª que, a despeito do cuidado que ponho em disfarçá-lo, o talento de sentir-me tutela-me absolutamente; não tenho meio de o esconder, de me esconder.
E Nuno, muito curioso de mais notas, ácerca do artista:
—Diga-me, é certo o que affirmam os jornaes quanto á sua precocidade?
—Absolutamente certo. Um dos quadros que V. Ex.ª escolheu é dos meus quinze annos.
Mas isso não tem valor, accrescentou,—cada um amadurece quando tem necessidade de amadurecer. Sou fructa outonada. Meu pae era um velho, um morgado de vinculos perdidos, que me engendrou aos sessenta annos numa lavadeira da sua casa, uma rapariga forte como as armas, segundo lá dizem em Villa Alva, donde sou natural.
Não conheci pae, nem mãe. Melhor assim! A miseria é a independencia quando bate á porta de um só, quando não temos de reparti-la...
E confuso:
—Mas estou a incommodá-lo.
—Não está, contrariou Nevogilde. Adeus! Tenho de sahir, mas quero pedir-lhe a fineza de jantar hoje commigo.
—Muito obrigado, concordou Ruy.
*
* *
Dias depois estava Nuno tomando o pequeno almoço no gabinete de trabalho, sumido numa cadeira larga, conversando com Ruy.
O mordomo pediu licença.
—Entra! mandou Nuno.
—Vieram trazer esta carta e um volume.
E Nuno, depois de abrir tudo:
—Quando veiu isto?
—Antes de hontem, informou o mordomo, mas V. Ex.ª entrou depois do correio, hontem sahiu antes da hora do correio...
—Sim, disse Nuno, podes sahir.
E para Ruy:
—É que sou escrupuloso nas horas de receber. Abri excepção para o Ruy.
E apontando a carta:
—Sabe que é escripta por sua causa?
É de Maria Peregrina, que tambem me offerece a Nova Sapho, a pedir para lhe ceder um dos trabalhos que lhe comprei. Quer o Vagabundo.
Fica o Ruy encarregado de lhe pôr o pertence em favor da cobiçosa. Escusado seria dizer-lhe que saldarei a importancia.
Ella lamenta-se por não ter apparecido primeiro em S. Carlos, gaba o seu talento, e pede-me a cedencia, desculpando-se por se me dirigir sem apresentação. Mera formula. Lisonjeia-me ser-lhe agradavel.
—É uma mulher notavel, affirmou Ruy. A Emparedada é um bello livro.
—Sim, esclareceu Nuno. A sua obra ficará. Não leu este volume —Nova Sapho? E dando pela negativa: pois offereço-lhe um exemplar que ali tenho. Ficarei com este que tem a dedicatoria. Leia-o!
E sorrindo:
—É o Vicio illuminando a Arte—Sodoma e Lesbos resurgindo a arder...
—É parallelo em belleza á Emparedada, inquiriu Ruy?
—Não, disse Nuno. Os dois trabalhos completam a artista. Mas esta obra accusa tranquilidade. Parece equivaler a uma quadra feliz da escriptora. Presente-se ali um fio, embora tenue, de amor a dirigir o poema.
É a belleza harmonica, com apoio numa razão intima da vida.
A Emparedada é um poema superior. É talvez a sombra daquella paixão, projectada pelo talento. A auctora viveu nelle desesperos e melancholias. E, como nada disto soffre razões, o poema attingiu o Genio, que, fundamentalmente, é o talento transpondo a primeira zona da loucura.
—Será verdadeiro, Conde, perguntou Ruy, o romance que por ahi corre a respeito da auctora?!...
—Julgo que não, disse Nevogilde; corre um romance inferior ao seu talento. Mas creio, absolutamente, que tenha raiz na moral nova que apostoliza.
—É que só a noticia da chegada della surprehendeu a curiosidade de Lisboa. E, a partir dahi, não ha dia em que não corra um episodio novo a seu respeito.
—Pouco sei della, concluiu Nuno de Villar. No entanto, interessa-me bastante tudo que lhe respeita pois que mulher e auctora parecem fundir-se nas obras.
Tenciono ir agradecer-lhe o livro. Veremos se tratada irá desmentir-me impressões.
—Tenho pena de não estar em S. Carlos quando lá foi. Soube que appareceu hontem, disse o pintor.