Nova Safo: Tragédia Estranha
Capítulo XIII
—Vae buscar aquella pelle de urso. Cobre o escudo dessa alcatifa. Extranha idéa—brasonar tapetes! Que os outros pisem os nossos brasões vá, mas nós! Deita-te aqui, minha creança.
E desabotoando o vestido côr de hortensia:
—Faze o mesmo que estou fazendo! Despe-te! Já!... Vê como as sedas da pelle do urso se levantam. E olha que são dum urso do pólo!
Nada resiste ao genio sensual!
E, de repente, enlaçou-o pela cintura, fazendo-o tombar, passivo e tremente, sobre a pelle branca.
A physionomia de Peregrina espectrava a alegria selvagem da louca, que, numa ancia de luxuria, se preparasse para devorar o amante, depois de esfarrapá-lo.
A expressão de Nuno era de dor acceite. Lembrava um religioso a deixar-se maltratar, sorrindo aos cilicios, crente num ceu a apparecer!
De subito ergueu-se sobre o corpo de cobra da amante, e, num momento, desmanchou-o uma extranha furia; cahiu em coma, voltou a soffrer, sereno, o martyrio daquella mulher, cilicio de amor, simultaneamente divina e infernal, sagrada pelas fórmas e demoniaca no capricho das perversões! Até que cresceu, de novo, em tempestade; e, sobreexcitado, inconsciente, sacudiu-se em crise hysterica, e impelliu Peregrina, que tombou, exánime, ao longo da alcatifa...
XIII
—Quem é? perguntou a Poetisa, ouvindo a porta do gabinete, e suspendendo a escripta duma folha de papel que levava em meio. Não recebo a esta hora.
—Está lá fóra, informou Jacob, o sr. Miraz que pede para entrar; promette demorar pouco.
—Bem, disse Peregrina, aborrecida, manda subir.
Miraz chegou, muito desmanchado, cumprimentou, abrindo a boca num riso enigmatico e sujo, e sentou-se, cruzando as pernas.
—Que deseja? perguntou ella.
—Venho propor a V. Ex.ª um negocio.
É um negocio que não deve parecer-lhe pesado. Entro nelle sem rodeios, pois que V. Ex.ª conhece o mundo, sabe o que é a vida.
Quando a necessidade entra pela porta, diz o proloquio, sae a virtude pela janella. Eu creio que nunca tive virtude para baldear da janella. O que tenho são miserias.
Mas estou de posse dum manuscripto que vale dinheiro. E digo que vale, pois que fui ver por quanto um editor o pagava. Offereceu-me vinte libras. Para editor é bastante; mas para V. Ex.ª vale mais.
Eu preciso dum conto de réis. A V. Ex.ª não lhe faz differença esta quantia e a mim aproveita-me. É uma somma salvadora. Verá que jámais comprou socego por tal preço...
—Mas de que se trata?
—A publicação vae intitular-se—Sapho em Lisboa. Insere episodios que V. Ex.ª especialmente conhece, documentados com uma carta do ministro inglês.
E desdobrando um rôlo de papeis:
—Leia V. Ex.ª:—confio-lhe os manuscriptos, na minha presença.
Ella tomou o maço, muito serena. Leu a primeira folha:—era a carta de Broock, despedindo-a de casa. Viu algumas paginas com vagar.
—Onde e como obteve esta carta? perguntou depois.
—Permitta-me que não responda já.
É segredo. Posso vendê-lo tambem, mas caro, pois que interessa terceira pessoa.
—Esse segredo escuso de pagar-lho, replicou ella.
E continuou a ler. Passou algumas paginas e de repente disse, fitando-o:
—É uma historia incompleta, pessimamente feita. Não me perturba a idéa de ver praceados os meus delictos. Mas a historia ha de apparecer mais tarde, honestamente documentada e escripta.
Isto, accrescentou, é uma torpeza idiota. Vale, como documento para v., bem mais do que para mim. É um caso simples de chantage a illustrar a vida dum jornalista de terceiras paginas, tambem souteneur e ladrão! Está bem na Folha, enquanto não houver casas de reclusão bastantes...
—Pode V. Ex.ª pensar e dizer o que quizer. O que não quero é demorar-me; preciso de saber se tenho de contratar o manuscripto com o editor...
—Demais, estupido... Então imaginava que eu, de posse desta carta, que é minha, lha daria sob qualquer ameaça ou violencia?
E, destacando-a, atirou-lhe com as tiras sujas do manuscripto, premindo o botão da campainha.
Miraz levantou-se, derrubou um pequeno movel que o separava de Peregrina e cresceu para ella, que amarfanhou a carta, preparando-se para defendê-la, e encarando-o num misto de arrogancia e nojo.
Elle deitou-lhe as mãos aos pulsos e ia a torcer-lhos, quando se abriu a porta e entrou o creado, surpreso.
—Põe lá fóra este velhaco! ordenou Peregrina.
Immediatamente o creado agarrou o chronista pela golla do casaco, arrastando-o ao primeiro patamar e fazendo-o rolar sobre a passadeira até á porta.
—Não o maltrates, avisou Peregrina, do gabinete.
Era ao tempo em que elle, já da porta, confundido com o tapete, bolsava para o alto os peores adjectivos da Folha.
Mas, sentindo o creado, sahiu rapido, tapando com as mãos grossas os rasgões do fato, esfrangalhado.
Peregrina mandou chamar Violet.
Ella entrou, confusa.
—Vejo que déste pela scena. Leio-te na côr o delicto...
E mostrando a carta de Broock:
—Quanto recebias do conto de réis que elle queria por esta carta? Devias ter a melhor parte...
—Perdôa-me. Não lha dei, roubou-ma, num dia que veiu ahi ficar. É um miseravel. Pois que me faltava aqui? Dinheiro?!
Elle sim, era precisado. Imagina que o satisfazia ir ao Tavares commigo, cear. Só tinha comido lá seis vezes, confessou. Que miseravel! E sujo!