Nova Safo: Tragédia Estranha

Visconde de Vila Moura · Capítulo 12 de 18

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Nova Safo: Tragédia Estranha

Capítulo XII

—Tu lembras a antiga alumna de Petersfield, dizia Violet.

E vendo-a cuidadosa com as toilettes:

—Já percebi, vaes noivar...

—Talvez, disse Maria Peregrina, rindo; não sei. Os programmas nunca antecipam muito os meus desvarios. Geralmente vicío sem elles. A surpresa é, afinal, o melhor da vida. Irei ver como as arvores da Villa-Feia me recebem. Corre que o antigo Paço tem a fortuna de afeiar o que é bello e engrandecer o que é humilde...

*

* *

Passados dias partiram os dois, Nuno e Peregrina, os creados do Palacio-Fóz e Jacob.

Nuno esteve inquieto até á hora da partida; esperava Ruy.

Esperou debalde: minutos antes da sahida, recebeu carta delle, explicando a falta com o motivo de ter de seguir nesse dia á tarde para Villa Alva. Era-lhe impossivel ir a Villa-Feia, informava. Esperaria Nuno em Lisboa.

Nevogilde, contrariado, entrou para a carruagem.

Ficaram em Lisboa Violet, Salomé, e José de Andrada.

 

XII

Decorreu um mês sem que ao palacete da rua do Alecrim chegasse qualquer noticia de Villa-Feia.

Salomé partiu para o Mosteiro, a pretexto de visitar as propriedades e passar ali algum tempo.

José de Andrada recolheu á cama myelitico, dias depois da sahida da Artista.

Violet, á vontade, senhora da casa, deu-se a receber aos sabbados a velha collecção de hospedes, e mais assiduamente Manuel Brito de Miraz, da Folha da Noite, continuador do publicista das Horas Tôrpes. Em breve tempo se entenderam intimamente, o chronista e a inglesa. A fatalidade fez amante de Violet o mais crapuloso do bando que passeava os salões de Maria Peregrina. Horas tardas, se o chronista não apparecia, sahia ella a visitar os bairros suspeitos, trocando-o por fadistas.

Um dia chegou Peregrina, sem prevenir.

Violet correu a abraçá-la, e a saber da villegiatura em Villa-Feia. Achava Peregrina cansada, mas alegre.

—Então, muito conciliada com o sexo feio? perguntou. Era certo que Nuno podia excluir-se da designação do seu sexo—pois que não era feio; e ria para a Artista, que a ouvia serena.

—É verdade, disse por fim, estive bem.

Nuno resume hoje para mim tudo! E eu a correr mundo á procura de alguem. Achei, sabes? A minha selvajaria amedronta-o, perturba-o; é um animalsinho, lindo de formas e docilidades, a submeter-se-me, a gostar dolorosamente os meus maus tratos, porque o maltrato, e a entregar-me, assustado, o corpo de raça, que veste naquellas horas uma alma de mulher e de lacaio. Ah! sei, afinal, o que é o amor...

Mas não sei porque lembro-me de que não pode durar a nossa felicidade... E por cá?

—O peor, informou a inglesa. Salomé foi quasi logo depois da tua partida para o Minho a tratar de negocios que me pareceram pretexto para sahir.

O monsenhor está no quarto, impossibilitado de andar, inutilizado por toda a vida, segundo o medico.

—Uma noticia triste—a do padre, disse Peregrina. A de Salomé nem vale discuti-la; chegou-lhe a nostalgia do Minho. Foi folgar as cirandas do Mosteiro, contar a differença que vae desta á sua aldeia.

Mas o padre, coitado! Vamos vê-lo.

E subiram as duas até aos aposentos do doente.

—Então que tem, monsenhor? perguntou Peregrina da porta.

E, depois, correndo para elle a abraçá-lo, enxugando-lhe, commovida, as lagrimas:

—Não se excite, ha de melhorar...

—Não melhoro, minha senhora. Os milagres nunca desmentem a razão. O que fazem é escondê-la, ás vezes. Ora a razão contribuiu-me irremissivelmente com uma doença incuravel. Eu devia adivinhá-la. Tê-la como fatal derivação da minha vida.

Tenho o mal dos que passaram a vida a vibratilizar os nervos.

Ainda na oração e no culto vivi uma tolerancia que escandalizou os meus superiores. Como não havia de ser tolerante para os peccados alheios, se sabia, por experiencia, o que era o inferno e a penitencia de soffreá-los.

Emfim, aqui tem V. Ex.ª o mais acabado exemplar de miseria que podia recorrer á generosidade da sua nobre estirpe, a pedir a esmola dum quarto e dum talher.

Sou o index de faltas e excessos. Se algum dia escrever o romance da sua vida,—e creio que terá assumpto,—peço-lhe que se não esqueça de associar á sua peregrinação de mulher nobre, tão nobre que tem nos escudos symbolos de duas nacionalidades, a tragedia simples dum padre que batalhou deveres e nervos para vir acabar, miseravel, entre grandezas—as que V. Ex.ª quiz repartir com elle. Pois que está em moda o romance social, não deixaria de representar bem o clero de duas Potencias historicas a desfazerem-se...

Maria Peregrina e Violet commoveram-se. A confissão daquelle homem, precocemente velho, a trasbordar amarguras, veiu aguar o enthusiasmo da Artista, que pensava encontrar nos amores de Nuno uma nova epocha. Quem é feliz ou imagina sê-lo quer ver em tudo felicidades. E magôa-se se os fados lhas desmentem. Mal encontrava palavras a consolar Andrada.

E vingava-se, prodigalizando-lhe cuidados, andando em volta delle a adivinhar-lhe os desejos.

—Quero tornar-lhe superfluos os movimentos, dizia.

Ha de ver:—quando pudér mover-se dispensar-se-á de fazê-lo. Terá a vontade confortada de preguiça, com pouca vocação para ordenar lidas.

E abraçava-o, carinhosamente, enquanto Andrada lhe beijava as mãos a chorar.

*

* *

—Vou a casa de Nuno, disse ella a Violet, no segundo dia depois da chegada.

Estou surprehendida com o socego delle. É de admirar que não tenha vindo. Está a abeberar os excessos de amor que trouxe da Villa-Feia.

Nuno recebia aquellas caricias duma sensualidade selvagem, medroso, de olhos baixos, humilde.

—É um exame de consciencia que naturalmente está a fazer. Tem medo de que não saiba dar-lhe impressões novas. Como é creança em amores. Mas vou educá-lo. Hei de pagar com usura os seus encantos de noviço. Vá, Violet, manda preparar o carro.

Um quarto de hora depois chegava ao palacete-Foz.

Nuno estava no quarto que communicava com o gabinete. Á hora do correio entrou o mordomo, segundo o costume; e, depois de entregar a correspondencia, informou que havia meia hora que Maria Peregrina esperava no salão.

—Ah! disse Nuno, admirado, porque não mandaste entrar?

E depois:

—Mas, não; como te não tinha prevenido... Olha, quando vier manda logo subir.

Mas não, depois falaremos ácerca das visitas. Convida-a a entrar. Já!...

E, confuso, levantou-se quando lhe presentiu os passos.

Peregrina entrou, encarou-o a distancia, e, depois de curto exame, foi beijá-lo nas palpebras. Começou a cofiar-lhe o cabello, duma negrura luzente; ora o abraçava, ora o repellia...

—Então não recebes antes desta hora? Nem a mim que sou senhora dos teus nervos e posso subjugar-te num momento! Anda cá, deixa morder a tua boca! É um fructo de desejo...

E mordia-a suavemente.

Depois, afastando-se: