O Barão nas Árvores

Italo Calvino · Capítulo 10 de 30

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O Barão nas Árvores

Capítulo 10

 

AS OLIVEIRAS, por caminharem torcidas, são vias cômodas e planas para Cosme, plantas pacientes e amigas, na rude casca, para passar e tornar a passar em cima e também para se estabelecer, embora os galhos grossos sejam poucos por planta e não exista grande variedade de movimentos. Ao contrário, numa figueira, estando atento para não vergar ao peso, não se termina nunca de girar; Cosme acha-se sob o pavilhão das folhas, vê transparecer o sol em meio às nervuras, os frutos verdes que encorpam aos poucos, aspira o látex que rumoreja em torno dos pedúnculos. A figueira domina quem nela sobe, impregna com seu humor borrachento, com o zumbido dos zangões; em pouco tempo Cosme tinha a sensação de estar virando figo ele mesmo e, sem jeito, ia embora. Na dura sorveira ou na amoreira, as pessoas se sentem bem; é pena que sejam raras. Assim acontecia com as nogueiras: para ser franco, ao ver meu irmão perder-se numa nogueira interminável, como num palácio de muitos andares e inumeráveis cômodos, até eu sentia vontade de imitá-lo, ir lá para cima; tamanha é a força e a certeza que aquela árvore dedica para se tornar árvore, a obstinação de ser pesada e dura que afirma inclusive nas folhas.

Cosme sentia-se muito bem entre as onduladas folhas das azinheiras (ou carvalhos ílex, como os chamei enquanto se tratava do parque da nossa casa, talvez por influência da linguagem rebuscada de papai) e amava sua casca gretada, cujos quadradinhos arrancava com os dedos quando estava pensativo, não por instinto de fazer-lhe mal, mas como maneira de ajudar a árvore na sua longa fadiga em refazer-se. Ou então tirava as escamas da alva cortiça dos plátanos, descobrindo estratos de velho ouro mofado. Adorava também os troncos encaroçados que tem o olmo, que em seus nós refaz brotos tenros, tufos de folhas denteadas e sâmaras assemelhando papel; mas é difícil mover-se, pois os ramos estiram-se para o alto, esguios e enfolhados, deixando pouca passagem. Nos bosques, preferia faias e carvalhos: porque no cimo as copas bem próximas, não rígidas e cheias de agulhas não deixam espaço nem pontos de apoio; e o castanheiro, entre folhas espinhosas, invólucros ouriçados, casca, galhos altos, parece feito de propósito para dele se manter distância.

Estas amizades e distinções, Cosme as identificou mais tarde, pouco a pouco, ou seja, admitiu conhecê-las; mas já naqueles primeiros dias começavam a fazer parte dele como instinto natural. Agora era o mundo que lhe parecia diferente, feito de estreitas e curvas pontes no vazio, de nós ou lascas ou rugas que tornam ásperas as cascas, de luzes que variam o seu verde conforme a cobertura de folhas mais espessas ou ralas, tremulantes ao primeiro sopro de vento nos pedúnculos ou levadas como velas na vergadura da árvore. Quanto ao nosso mundinho, achatava-se lá no fundo, e nós tínhamos figuras desproporcionadas e decerto não entendíamos o que ele sabia lá em cima, ele que passava as noites a escutar como a madeira acumula em suas células os círculos que assinalam os anos no interior dos troncos, e o mofo alarga a mancha à tramontana, e num arrepio os pássaros adormecidos dentro do ninho encolhem a cabeça no canto onde é mais suave a pluma da asa, desperta a lagarta, e eclode o ovo da pega. Chega um momento em que o silêncio do campo se compõe no oco da orelha num rumorejar picado, um grasnar, um chiado, um farfalhar velocíssimo entre o capim, um baque na água, um bater de patas entre terra e seixos, e o canto agudo da cigarra dominando tudo. Um ruído puxa o outro, o ouvido consegue sempre individuar outros novos como dedos que desfazem um novelo de lã revelam fios entrelaçados por fios cada vez mais sutis e impalpáveis. Entretanto, as rãs mantêm o coaxar que permanece como fundo e não muda o fluxo dos sons, como a luz não varia pelo contínuo piscar das estrelas. Ao contrário, a cada lufada ou cessar do vento, cada rumor mudava e era novo. Só restava no ponto mais profundo do ouvido a sombra de um bramido ou murmúrio: era o mar.

Chegou o inverno, Cosme fez um casaco de peles. Costurou-o com pedaços de couro de vários animais que caçara: lebres, raposas, martas e furões. Na cabeça, trazia sempre aquele gorro de gato-do-mato. Fez também calças, de pelo de cabra com fundilhos e joelhos de couro. Quanto a calçados, finalmente percebeu que para as árvores a melhor coisa eram pantufas, e fez um par não sei de que pele, talvez de texugo.

Assim se defendia do frio. É preciso dizer que naquele tempo os invernos eram suaves, não com o frio de agora, que dizem ter expulsado Napoleão da Rússia e que o perseguiu até aqui. Mas mesmo então passar as noites de inverno no sereno não era propriamente acolhedor.

Para a noite Cosme descobrira o sistema do odre de peles; nada de tendas ou cabanas: um odre com peles na parte interna, dependurado num galho. Escorregava dentro, desaparecia e dormia encolhido como uma criança. Se um ruído insólito atravessava a noite, da boca do saco saía o gorro de pele, o cano do fuzil e ele com olhos arregalados. (Diziam que seus olhos tinham se tornado luminosos no escuro como os dos gatos e corujas: não cheguei a perceber isso.)

Ao contrário, de manhã, quando cantava o tentilhão, saíam do saco duas mãos cerradas, os punhos se erguiam e dois braços se abriam espreguiçando-se lentamente, e esse movimento mostrava seu rosto bocejando, o peito com o fuzil a tiracolo e o tubinho de pólvora, as pernas arqueadas (começavam a ficar meio tortas, pelo hábito de permanecer e de mover-se sempre de quatro ou de cócoras). As pernas saltavam fora, desenroscavam-se, e assim, depois de sacudir os ombros, coçar-se sob o casaco de peles, desperto e fresco como uma rosa, Cosme iniciava a jornada.

Ia até a fonte, pois tinha uma fonte pênsil, inventada por ele, ou melhor, construída em auxílio à natureza. Havia um riacho que numa ribanceira caía em cascata, e lá perto um carvalho erguia seus altos ramos. Cosme, com um pedaço de casca de álamo, dois metros de largura, fizera uma espécie de bica, que transportava a água de cascata aos galhos do carvalho, e assim podia beber e lavar-se. Posso garantir que se lavava, pois eu o vi muitas vezes; não tanto e nem todos os dias, mas tomava banho; usava até sabão. Com o sabão, quando lhe dava na veneta, chegava a lavar roupa; levara uma bacia de propósito para o carvalho. Depois estendia a roupa para secar em cordas presas aos ramos.

Em resumo, fazia de tudo nas árvores. Encontrara também o modo de assar no espeto o que caçava, sem descer. Procedia assim: punha fogo numa pinha com um acendedor e a atirava no chão, num lugar preparado como fogão (aquilo era trabalho meu, com algumas pedras polidas), depois jogava em cima gravetos e ramos de fácil combustão, regulava a chama com palhetas e tenazes ligadas a longos bastões, de modo que chegasse ao espeto, preso entre dois ramos. Tudo isso exigia atenção, pois é fácil provocar um incêndio nos bosques. Não por acaso este fogão ficava debaixo do carvalho, próximo à cascata da qual se podia tirar, em caso de perigo, toda a água que fosse necessária.

Assim, em parte comendo o que caçava, em parte trocando com os camponeses caça por fruta e verdura, conseguia manter-se, até não precisar que lhe passassem mais nada de casa. Um dia descobrimos que bebia leite fresco todas as manhãs; fizera amizade com uma cabra, que trepava numa forquilha de oliveira, um lugar fácil, a dois palmos do chão, ela nem precisava subir, apoiava-se com as patas de trás, e assim, descendo com uma vasilha, ele a ordenhava do galho. Estabelecera o mesmo acordo com uma galinha, uma vermelha, paduana, das boas. Fizera um ninho secreto, no oco de um tronco, e dia sim dia não encontrava um ovo, que tomava após ter-lhe feito dois furos com um alfinete.

Outro problema: fazer suas necessidades. No começo, aqui ou ali, não fazia diferença, o mundo é grande, fazia onde calhava. Depois percebeu que não estava certo. Encontrou então, na margem da torrente Merdança, um amieiro que lançava no ponto mais propício e afastado uma forquilha na qual se podia sentar comodamente. O Merdança era uma torrente obscura, escondida entre os caniços, de curso rápido, e as aldeias vizinhas jogavam nela as águas servidas. Assim, o jovem Chuvasco de Rondó vivia civilmente, respeitando o decoro do próximo e o seu próprio.

 

Mas lhe faltava um complemento humano necessário em sua vida de caçador: um cão. Às vezes, eu andava por ali, embrenhando-me nos matos, pelas moitas, para procurar o tordo, a narceja, a codorna, caídos ao receber seu disparo em pleno céu, ou também as raposas quando, após uma noite de tocaia, pegava uma com cauda longa deitada à beira dos brejos. Porém, nem sempre eu podia fugir e acompanhá-lo nos bosques: as lições com o abade, o estudo, ajudar na missa, as refeições com os pais me seguravam; os cem deveres da convivência familiar aos quais me submetia, porque no fundo a frase que ouvia repetir sempre: “Numa família, de rebelde basta um”, não deixava de ter razão e me marcou por toda a vida.

Portanto, Cosme ia caçar quase sempre sozinho e, para recuperar os bichos (quando não acontecia o caso favorável do verdilhão que ficava com as asas amarelas espetadas num galho), usava algo parecido com instrumentos de pesca: linhas com barbantes, ganchos ou anzóis, mas nem sempre dava certo, e às vezes uma batuíra acabava preta de formigas no fundo de uma moita.

Até aqui falei das tarefas dos cães recolhedores. Porque então Cosme praticamente só fazia caça em posição fixa, passando manhãs ou noites empoleirado no seu galho, esperando que o tordo pousasse no cume de uma árvore ou a lebre aparecesse numa clareira do prado. Caso contrário, girava ao acaso, seguindo o canto dos pássaros ou adivinhando as pistas mais prováveis dos animais com pelo. E, quando ouvia o ladrar dos sabujos atrás da lebre ou da raposa, sabia que precisava passar ao largo, pois aquele não era bicho seu, dele caçador solitário e casual. Respeitador das normas como era, embora de seus infalíveis postos de observação pudesse identificar e mirar a caça perseguida pelos cães alheios, jamais levantava o fuzil. Aguardava que pelo trilho chegasse o caçador ofegante, ouvidos tensos e olhos perdidos, e lhe indicava para que lado fora o animal.

Um dia, viu correr uma raposa: uma onda vermelha em meio ao capim verde, bufando feroz, bigodes eriçados; atravessou o prado e desapareceu nas moitas. E atrás: Uauauaaa!, a cachorrada.

Chegaram a galope, medindo a terra com os focinhos, duas vezes se viram sem cheiro de raposa nas narinas e voltaram em ângulo reto.

Já estavam longe quando, com um ganido, ui, ui, cortou o capim um que vinha com pulos mais de peixe do que de cão, uma espécie de delfim que nadava deixando aflorar um focinho mais pontudo e orelhas mais pendentes que de um sabujo. Atrás, era peixe; parecia nadar agitando barbatanas ou então patas de palmípede, sem pernas e muito comprido. Saiu em campo aberto: era um bassê.

Certamente, juntara-se ao bando de batedores e ficara para trás, jovem como era, quase um filhote. O barulho dos sabujos era agora um buaf de despeito, pois haviam perdido a pista e a corrida compacta desfazia-se numa rede de ansiedades nasais em volta de uma clareira de juncos, com excessiva impaciência para encontrar o fio do cheiro perdido e seguir atrás dele, enquanto o impulso se perdia, e algum já aproveitava para dar uma mijadinha numa pedra.

Assim, o bassê, ofegante, com seu trote de focinho erguido, injustificavelmente triunfal, alcançou-os. Lançava, sempre de modo infundado, latidos de esperteza: Uai! Uai!

Logo os sabujos, aurrrch!, rosnaram para ele, abandonaram por um momento a busca do cheiro da raposa e voltaram-se contra ele, arreganhando bocas de mordida: Gggrrr! Depois, rápidos, tornaram a desinteressar-se e saíram correndo.

Cosme acompanhava o bassê, que se movia ao acaso, e o cachorro, ondulando com focinho distraído, viu o rapaz na árvore e sacudiu o rabo. Cosme estava convencido de que a raposa ainda se escondia por ali. Os sabujos tinham se dispersado mais adiante, podia-se ouvi-los correr pelas colinas próximas com um latido fora de tom e desmotivado, pressionados pelas vozes sufocadas e incitadoras dos caçadores. Cosme disse ao bassê:

— Vai! Vai! Procura!

O jovem cão começou a fuçar, e de vez em quando se virava para olhar o rapaz no alto.

— Vai! Vai!

Agora já não o via. Percebeu moitas que se amassavam e, a seguir, uma explosão: Auauauaaa! Iai, iai, iai! Surpreendera a raposa!

Cosme viu o bicho correndo pelo prado. Mas era possível atirar numa raposa apanhada por um cachorro que não lhe pertencia? Cosme deixou-a passar e não disparou. O bassê levantou o focinho para ele, com o olhar que assumem os cães quando não entendem algo e não sabem que podem ter razão em não entender, e se lançou outra vez com o focinho no chão, atrás da raposa.

Iai, iai, iai! Obrigou-a a dar uma volta inteira. Pronto, voltava. Podia ou não podia disparar? Não disparou. O bassê olhou para o alto com um olhar de dor. Não latia mais, a língua mais pendente do que as orelhas, exausto, mas continuava a correr.

A sua operação desorientara sabujos e caçadores. Pelo caminho corria um velho com um pesado arcabuz.

— Ei — gritou Cosme —, aquele bassê é de vocês?

— Vá plantar batatas, você e toda a sua família! — berrou o velho, que devia estar irritado. — Parecemos tão idiotas a ponto de caçar com um bassê?

— Então, no que ele apanhar, eu é que atiro — insistiu Cosme, que não queria romper as regras do jogo.

— E atire também no santo que protege você! — respondeu o desaforado, e saiu correndo.

O bassê voltou a trazer-lhe a raposa. Cosme disparou e a atingiu. O bassê tornou-se o seu cão; deu-lhe o nome de Ótimo Máximo.

* * *

Ótimo Máximo era um cachorro sem dono, que se juntara ao bando de sabujos por entusiasmo juvenil. Mas de onde viria? Para descobrir, Cosme deixou-se guiar por ele.

O bassê, rente ao solo, atravessava sebes e fossos; depois virava a cabeça para ver se o rapaz lá de cima podia seguir o caminho. Era tão estranho o itinerário, que Cosme demorou a perceber onde tinham ido parar. Quando se deu conta, agitou-se-lhe o coração no peito: era o jardim dos marqueses de Rodamargem.

A vila estava fechada, as venezianas cerradas; uma apenas, numa água-furtada, batia ao vento. O jardim sem cuidados tinha mais que nunca aquele aspecto de floresta do outro mundo. E pelas alamedas invadidas pelo capim, e pelos canteiros cheios de espinhos, Ótimo Máximo corria feliz e perseguia borboletas.

Desapareceu numa moita. Voltou com uma fita na boca. Bateu mais forte o coração de Cosme.

— O que é, Ótimo Máximo? Hein? De quem é? Diz para mim!

Ótimo Máximo balançava o rabo.

— Traz aqui, traz, Ótimo Máximo!

Cosme, tendo alcançado um ramo mais baixo, pegou da boca do cachorro aquele farrapo desbotado que algum dia certamente enfeitara os cabelos de Viola, bem como aquele cão certamente pertencera a ela, ali esquecido na última mudança da família. E mais, agora Cosme o recuperava na memória, no verão passado, ainda filhote, que saía de um cesto no braço da menina loura e com o qual talvez acabasse de ter sido presenteada.

— Procura, Ótimo Máximo!

E o bassê se lançava entre os bambus; e retornava com outras lembranças dela, a corda de pular, um pedaço de pipa, um leque.

No tronco da árvore mais alta do jardim, meu irmão inscreveu com a ponta do espadim os nomes Viola e Cosme, e depois, mais embaixo, certo de que ela ficaria contente embora o chamasse de outro nome, talhou na madeira: Cão bassê Ótimo Máximo.

Daí em diante, quando se via o menino nas árvores, era certo que, olhando-se mais à frente, ou junto dele, via-se o bassê Ótimo Máximo trotando com a barriga pelo chão. Ensinara-lhe a busca, o apresamento, a entrega: as tarefas de todos os cães de caça, e não havia animal do bosque que não caçassem juntos. Para entregar-lhe a caça, Ótimo Máximo subia com duas patas nos troncos até onde alcançava; Cosme descia para pegar a lebre ou alguma ave em sua boca e fazia-lhe um carinho. Resumiam-se a isso suas intimidades, suas festas. Porém, continuamente, entre a terra e os galhos estabelecia-se um diálogo, uma compreensão, feitos de latidos, monossílabos e estalidos de língua e dedos. Aquela presença necessária que para o cão é o homem e para este é o cão não os traía jamais, nem a um nem ao outro; e, por mais diferentes que fossem de todos os homens e cães do mundo, poderiam declarar-se, como homem e cão, felizes.