O Barão nas Árvores

Italo Calvino · Capítulo 18 de 30

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O Barão nas Árvores

Capítulo 18

 

FLORESCERAM OS PESSEGUEIROS, as amendoeiras, as cerejeiras. Cosme e Úrsula passavam juntos os dias nas árvores em flor. A primavera coloria de alegrias até a fúnebre vizinhança dos parentes.

Na colônia dos exilados meu irmão logo soube tornar-se útil, ensinando os vários modos de passar de uma árvore para outra e encorajando aquelas famílias nobres a sair da habitual compostura para exercitar-se um pouco. Lançou até alguns pontos de corda que permitiam aos exilados mais velhos visitar-se. E assim, em quase um ano de permanência entre os espanhóis, dotou a colônia de muitos equipamentos por ele inventados: reservatórios de água, pequenos fornos, sacos forrados com peles para dormir. O desejo de fazer novas invenções conduzia-o a reforçar os costumes daqueles fidalgos mesmo quando não coincidiam com as ideias de seus autores favoritos: assim, verificando o desejo daquelas piedosas pessoas de confessar-se regularmente, escavou dentro de um tronco um confessionário, no qual podia entrar o magro dom Sulpício e de uma janelinha com cortina e grade ouvir os pecados deles.

A simples paixão pelas inovações técnicas, afinal de contas, não bastava para livrá-lo da sujeição às normas vigentes; eram necessárias ideias. Cosme escreveu ao livreiro Orbeque pedindo a ele que de Penúmbria lhe enviasse pelo correio os volumes que tivessem chegado naquele período. Assim pôde emprestar a Úrsula Paulo e Virgínia e A nova Heloísa.

Os exilados faziam frequentes reuniões num grande carvalho, assembleias em que redigiam cartas ao soberano. Essas cartas em princípio deviam ser sempre de protesto indignado e de ameaça, quase ultimatos; mas, a um certo ponto, por algum deles eram propostas fórmulas mais brandas, mais respeitosas, e assim terminava-se numa súplica em que se prosternavam humildemente aos pés das Graciosas Majestades implorando-lhes o perdão.

Então levantava-se El Conde. Todos emudeciam. El Conde, olhando para o alto, começava a falar, em voz baixa e vibrante, e dizia tudo aquilo que trazia no coração. Quando se sentava outra vez, os outros permaneciam sérios e mudos. Ninguém se referia mais à súplica.

Cosme já fazia parte da comunidade e participava das sessões. E nelas, com ingênuo fervor juvenil, explicava as ideias dos filósofos, e os erros dos soberanos, e como os estados podiam ser dirigidos com razão e justiça. Mas, dentre todos, os únicos que podiam acompanhá-lo eram El Conde, que, apesar de velho, empenhava-se sempre na busca de um modo de compreender e reagir, Úrsula, que lera alguns livros, e uma dupla de moças um pouco mais espertas do que as outras. O restante da colônia não passava de um bando de cabeças ocas.

Em suma, esse conde, vira e mexe, em vez de estar sempre a contemplar a paisagem começou a ter vontade de ler alguns livros. Rousseau pareceu-lhe meio desagradável; de Montesquieu, ao contrário, ele gostava: já era um passo. Os demais fidalgos, nada, embora alguns às escondidas de padre Sulpício pedissem emprestada a Pulzella para ler as páginas mais picantes. Assim, com o conde que maquinava novas ideias, as reuniões no carvalho adquiriram um outro viés: agora se falava em ir para a Espanha fazer a revolução.

A princípio, padre Sulpício não percebeu o perigo. Ele não era particularmente esperto e, alheio a toda a hierarquia dos superiores, não estava mais em dia quanto aos venenos das consciências. Mas assim que pôde reordenar as ideias (ou então, dizem outros, recebeu certas cartas com lacres episcopais) começou a dizer que o demônio penetrara naquela comunidade e que era de esperar uma chuva de raios que incendiaria as árvores com todos eles em cima.

Uma noite Cosme acordou com um lamento. Acorreu com uma lanterna e no olmo do conde viu o velho já amarrado na árvore e o jesuíta que apertava os nós.

— Alto lá, padre! O que é isto?

— O braço da Santa Inquisição, filho! Agora toca este velho desgraçado, para que confesse a heresia e cuspa o demônio. Depois será a sua vez!

Cosme puxou da espada e cortou as cordas.

— Em guarda, padre! Existem também outros braços, que servem à razão e à justiça!

O jesuíta retirou do manto uma espada desembainhada.

— Barão de Rondó, sua família desde algum tempo tem uma conta em suspenso com minha ordem!

— Tinha razão meu pai, que Deus o tenha! — exclamou Cosme cruzando o ferro. — A companhia não perdoa!

Bateram-se equilibrando-se nos galhos. Dom Sulpício era um excelente esgrimista, e várias vezes meu irmão se viu em apuros. Estavam no terceiro assalto quando El Conde, voltando a si, começou a gritar. Os outros exilados despertaram, acorreram, interpuseram-se entre os dois duelistas. Sulpício logo fez desaparecer sua espada e como se nada houvesse acontecido tratou de recomendar calma.

Fazer silêncio sobre um fato tão grave seria impensável em qualquer outra comunidade, menos naquela, com a preocupação de reduzir ao mínimo todos os pensamentos que afloravam em suas cabeças. Assim dom Frederico ofereceu seus bons préstimos e chegou-se a uma espécie de conciliação entre dom Sulpício e El Conde, que deixaram tudo como antes.

Cosme, certamente, devia se manter alerta, e quando andava pelas árvores com Úrsula temia sempre ser espionado pelo jesuíta. Sabia que ele andava pondo pulgas atrás da orelha de dom Frederico para que não deixasse mais a moça sair com ele. Aquelas famílias nobres, na verdade, eram educadas segundo costumes muito fechados; mas ali estavam em cima das árvores, no exílio, não ligavam mais para muitas coisas. Cosme parecia-lhes um bom rapaz, titulado, e sabia tornar-se útil, ficava lá com eles sem que ninguém lhe tivesse imposto isso; e, mesmo se percebiam que entre ele e Úrsula devia haver algo de terno e os viam afastar-se frequentemente para procurar flores e frutas, fechavam um olho para não ter o que criticar.

Porém, agora que dom Sulpício disseminava veneno, dom Frederico não podia mais fingir que não sabia de nada. Chamou Cosme para conversar no seu plátano. Ao lado estava Sulpício, comprido e negro.

— Baron, tu és visto com frequência com minha niña, me dizem.

— Ensina-me a hablar vuestro idioma, Alteza.

— Quantos anos tens?

— Vou pelos diez y nueve.

— Joven! Demasiado jovem! Minha filha é uma moça em idade de casar. Por qué fazes companhia a ela?

— Úrsula tem dezessete anos…

— Já pensas em casarte?

— Em quê?

— Minha filha te ensina mal el castellano, hombre. Pergunto se pensas em escolher uma novia, em construir uma casa.

Sulpício e Cosme, juntos, fizeram um gesto como se pusessem as mãos para a frente. A conversa tomava um certo rumo que não era aquele pretendido pelo jesuíta e muito menos por meu irmão.

— Minha casa… — disse Cosme e apontou ao redor, em direção aos ramos mais altos, as nuvens —, minha casa está por toda a parte, onde quer que seja possível subir, andando para o alto…

— No es esto. — E o príncipe Frederico Alonso sacudiu a cabeça. — Baron, se queres vir para Granada quando voltarmos, verás o mais rico feudo da Sierra. Mejor que aquí.

Dom Sulpício já não conseguia ficar calado:

— Mas, Alteza, este jovem é um voltairiano… Não deve mais frequentar sua filha…

— Oh, es joven, es joven, as ideias vão e vem, que se case, casando isso passa, vem para Granada, vem.

— Muchas gracias a usted… Pensarei nisso… — E Cosme revirando nas mãos o boné de pele de gato retirou-se com muitas reverências.

Quando reviu Úrsula estava preocupado.

— Sabe, Úrsula, seu pai conversou comigo… Veio com umas histórias…

Úrsula se assustou.

— Não quer que a gente se veja mais?

— Não é isso… Gostaria que eu, quando termine o exílio, vá com vocês para Granada…

— Ah, sim! Que bom!

— Bem, veja, eu gosto de você, mas vivi sempre em cima das árvores, e pretendo continuar…

— Oh, Cosme, temos belas árvores também lá em nossa terra…

— Sim, mas para fazer a viagem com vocês teria de descer, e uma vez tendo descido…

— Não se preocupe, Cosme. De qualquer modo, hoje somos exilados e talvez continuemos assim por toda a vida.

E meu irmão não se preocupou mais.

Mas Úrsula não calculara bem. Depois de pouco tempo chegou a dom Frederico uma carta com os lacres reais espanhóis. O exílio, por gracioso indulto de Sua Majestade Católica, fora revogado. Os nobres degredados podiam retornar às próprias casas e aos próprios bens. Imediatamente houve uma grande agitação nos plátanos.

— Vamos voltar! Vamos voltar! Madri! Cádiz! Sevilha!

A notícia correu pela cidade. Os habitantes de Olivabaixa chegaram com escadas. Entre os exilados, alguns desciam, festejados pelo povo, outros juntavam as bagagens.

— Mas não acabou! — exclamava El Conde. — As Cortes vão ouvir-nos! E a Coroa! — E como seus companheiros de exílio naquele momento não queriam lhe dar atenção, e as damas já se preocupavam com os vestidos fora de moda, com o guarda-roupa a ser renovado, ele começou a fazer grandes discursos para a população de Olivabaixa: — Agora vamos para a Espanha e vocês verão! Lá ajustaremos as contas! Eu e este jovem faremos justiça! — E apontava para Cosme. E Cosme, confuso, fazia sinais negativos.

Dom Frederico, carregado, descera para o chão.

— Baja, joven bizarro! — gritou para Cosme. — Jovem valoroso, desce! Vem conosco para Granada!

Cosme, encolhido num galho, se defendia.

E o príncipe:

— Como no? Serás como um filho meu!

— O exílio acabou! — dizia El Conde. — Finalmente podemos pôr em prática aquilo que discutimos por tanto tempo! O que vai ficar fazendo em cima das árvores, barão? Não há mais motivo!

Cosme abriu os braços.

— Subi aqui antes dos senhores, e aqui hei de continuar!

— Queira descer! — gritou El Conde.

— Não: resistirei — respondeu o barão.

Úrsula, que fora das primeiras a descer e com as irmãs se ocupava em arrumar as bagagens numa charrete, precipitou-se na direção da árvore.

— Então fico com você! Fico com você! — E correu para a escada.

Quatro ou cinco a detiveram, arrancaram-na de lá, tiraram a escada das árvores.

— Adiós, Úrsula, seja feliz! — disse Cosme, enquanto transportavam-na à força para a charrete que partia.

Explodiu um latido festivo. O bassê Ótimo Máximo, que durante todo tempo em que seu patrão permanecera em Olivabaixa, demonstrara um descontentamento litigioso, talvez exasperado pelas contínuas brigas com os gatos dos espanhóis, agora parecia voltar a ser feliz. Começou a perseguir, de brincadeira, os poucos gatos remanescentes, esquecidos nas árvores, que eriçavam o pelo e bufavam para ele.

Alguns a cavalo, outros de charrete, outros de berlinda, os exilados partiram. A estrada esvaziou-se. Nas árvores de Olivabaixa restou meu irmão, sozinho. Presas aos ramos havia ainda algumas plumas, alguma fita ou renda que se agitava ao vento, e uma luva, uma sombrinha com espiguilha, um leque, uma bota com espora.