O Barão nas Árvores

Italo Calvino · Capítulo 5 de 30

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O Barão nas Árvores

Capítulo 5

 

A SINFOROSA: POUCO A POUCO, dos discursos dos pequenos ladrões Cosme apreendeu muitas coisas a propósito dessa personagem. Com aquele nome chamavam uma menina das vilas, que passeava num cavalinho branco e se tornara amiga dos esfarrapados, e durante algum tempo os protegera, e também, prepotente como era, comandara. No cavalinho branco, galopava pelas estradas e atalhos, e, quando via fruta madura em pomares não vigiados, avisava-os, acompanhando os assaltos deles a cavalo como um oficial. Carregava preso ao pescoço um chifre de caça; enquanto eles saqueavam amendoeiras ou pereiras, corria no cavalinho para cima e para baixo pelas encostas, de onde se dominava o campo, e, assim que via movimentos suspeitos de patrões ou camponeses que podiam descobrir os ladrões e cair-lhes em cima, soprava o berrante. Ao escutar o alerta, os moleques pulavam das árvores e corriam; deste modo jamais foram apanhados, enquanto a menina ficara junto deles.

O que acontecera depois era mais difícil de entender: aquela “traição” que Sinforosa praticara em detrimento deles parecia ter sido atraí-los à sua vila para comer fruta e depois fazê-los apanhar dos empregados; outro problema parecia ter sido haver privilegiado um deles, um tal de Bonitão, que por isso era ainda alvo de provocações, e ao mesmo tempo um outro, um certo Hugão, e tê-los jogado um contra o outro; e que justamente aquela surra dos empregados não tivesse acontecido por ocasião de um roubo de fruta mas de uma expedição dos dois favoritos ciumentos, que finalmente haviam se aliado contra ela; e se falava também de certos bolos que ela prometera várias vezes e afinal lhes dera mas preparados com óleo de rícino, razão pela qual tiveram cólicas durante uma semana. Qualquer desses episódios ou no gênero destes ou todos eles juntos haviam provocado uma ruptura entre Sinforosa e o bando, e agora falavam dela com rancor, mas ao mesmo tempo lamentavam a perda.

Cosme ouvia tudo isso muito atento, concordando como se cada detalhe se recompusesse numa imagem que lhe fosse familiar, e no final decidiu-se a perguntar:

— Mas em que vila mora, esta Sinforosa?

— Como, quer dizer que não a conhece? Se vocês são vizinhos! A Sinforosa da vila de Rodamargem!

Certamente Cosme não precisava daquela confirmação para ter certeza de que a amiga dos vagabundos era Viola, a menina do balanço. Era — creio eu — exatamente pelo fato de ela ter-lhe dito que conhecia todos os ladrões de fruta dos arredores que ele saíra logo à procura do bando. Contudo, a partir daquele momento, a inquietação que dele se apoderara, embora indeterminada, tornou-se mais forte. Gostaria de chefiar o bando para saquear as plantações da vila de Rodamargem, ou então colocar-se a serviço dela contra o grupo, talvez incitando-os antes a chateá-la para depois poder defendê-la, ou ainda praticar bravatas que chegassem aos ouvidos dela; e no meio dessas proposições seguia cada vez com menor interesse o bando e, quando eles desciam das árvores, ficava sozinho e um véu de melancolia cobria seu rosto, como as nuvens cobrem o sol.

Depois saltava de improviso e, ágil feito um gato, pendurava-se nos galhos e passeava pelos pomares e jardins, cantarolando qualquer coisa entre os dentes, um cantarolar nervoso, quase mudo, os olhos fixos adiante parecendo não ver nada, e se mantendo em equilíbrio por instinto próprio como os gatos.

Assim enlevado pudemos vê-lo passar várias vezes nos ramos do nosso jardim. “Está ali! Está lá!”, começávamos a gritar, porque então, o que quer que fizéssemos, era sempre ele a nossa preocupação, e contávamos as horas, os dias em que estava nas árvores, e papai dizia: “Está louco! Possuído pelo demônio!”, e brigava com o abade Fauchelafleur: “O único jeito é exorcizá- -lo! O que está esperando, o senhor, estou falando com o senhor, l’abbé, por que continua aí parado?! Tem o diabo no corpo, meu filho, entendeu, sacré nom de Dieu!”.

O abade parecia despertar de repente, a palavra diabo parecia provocar-lhe na mente uma precisa concatenação de pensamentos, e começava um discurso teológico muito complicado sobre como devia ser entendida corretamente a presença do demônio, e não conseguíamos entender se queria contradizer papai ou falar de forma genérica: em resumo, não se pronunciava sobre o fato de que uma relação entre o diabo e meu irmão tivesse de ser considerada possível ou estava excluída a priori.

O barão perdia a paciência, o abade perdia o fio, eu já estava chateado. Ao contrário, em mamãe, o estado de ansiedade materna, de sentimento fluido que domina tudo, se consolidara, como nela costumava ocorrer com qualquer sentimento, em decisões práticas e busca de instrumentos adequados, como, aliás, devem ser resolvidas as preocupações de um general. Retirara do baú uma luneta de campanha, comprida, com tripé; ajustava o olho e assim passava as horas no terraço da vila, regulando continuamente as lentes para manter em foco o jovem em meio às folhagens, mesmo quando teríamos jurado que estava fora de alcance.

“Dá para vê-lo ainda?”, perguntava papai do jardim, indo para a frente e para trás sob as árvores, e não conseguia distinguir Cosme, a não ser quando passava em cima da cabeça dele. A generala fazia sinais afirmativos e ao mesmo tempo para ficarmos calados, que não a perturbássemos, como se acompanhasse movimentos de tropa numa determinada altura. Era evidente que não o via de jeito nenhum, mas se convencera, quem sabe por quê, de que deveria reaparecer naquele ponto e em nenhum outro, e mantinha a luneta apontada. De vez em quando devia admitir para si própria que havia se enganado, e então tirava o olho da lente e começava a examinar um mapa cadastral que conservava aberto sobre os joelhos, com uma das mãos na boca em atitude pensativa e a outra que acompanhava os hieroglifos do mapa, até definir o ponto que o filho deveria ter atingido, e, calculada a angulação, apontava a luneta para qualquer topo de árvore naquele mar de folhas, punha lentamente em foco as lentes, e quando lhe aparecia nos lábios um trêmulo sorriso compreendíamos que o vira, que ele estava realmente ali!

Então, pegava certas bandeirinhas coloridas que tinha ao lado do banquinho e sacudia uma depois da outra com movimentos decididos, ritmados, como mensagens de uma linguagem convencional. (Senti um certo despeito, pois não sabia que mamãe possuía aquelas bandeirinhas e soubesse manejá-las, e certamente teria sido bom que nos tivesse ensinado a brincar de bandeirinhas com ela, sobretudo antes, quando éramos menores os dois; mas mamãe nunca fazia as coisas de brincadeira, e agora era tarde.)

Devo dizer que, apesar de todo o seu equipamento de batalha, continuava a ser mãe do mesmo modo, com o coração aflito e o lenço amassado na mão, porém poder-se-ia dizer que fazer o papel de generala a descansasse, ou que viver essa apreensão nos trajes de generala em vez dos de uma simples mãe a impedisse de desmoronar, justamente por ser uma mulher delicada, que como única defesa tinha aquele estilo militar herdado dos Von Kurtewitz.

Estava ali agitando uma das suas bandeirinhas, observando com a luneta, e eis que se lhe ilumina todo o rosto e ri. Entendemos que Cosme lhe respondera. Como, não sei, talvez sacudindo o chapéu ou podando um ramo. O certo é que a partir daí mamãe mudou, não ficou mais apreensiva como antes e mesmo que seu destino de mãe fosse tão diferente do de qualquer outra, com um filho tão estranho e perdido para a vida afetuosa normal, acabou sendo a primeira a aceitar a excentricidade de Cosme, como se estivesse gratificada por aquelas saudações que desde então, de vez em quando e de forma imprevisível, lhe mandava, por meio daquelas silenciosas mensagens que trocavam.

O curioso foi que mamãe não teve ilusões de que Cosme, havendo lhe enviado uma saudação, se dispusesse a pôr fim à sua fuga e voltasse ao nosso convívio. Pelo contrário, papai vivia perpetuamente nesse estado de ânimo e toda novidade que dissesse respeito a Cosme, por menor que fosse, o fazia cismar: “Ah, sim? Vocês o viram? Voltará?”. Mas mamãe, talvez a mais distante dele, parecia a única que conseguia aceitá-lo como era, exatamente porque não buscava uma explicação.

Mas voltemos àquele dia. Por trás de mamãe assomou por um momento Batista, que não aparecia nunca, e com expressão suave estendia um prato com alguma papa e levantava uma colherzinha: “Cosme… Quer?”. Levou uma bofetada do pai e voltou para casa. Quem sabe que monstruosa gororoba havia preparado. Nosso irmão desaparecera.

Eu estava louco para segui-lo, sobretudo agora, sabendo que ele participava das ações daquele bando de pequenos mendigos e parecia ter me aberto as portas de um novo reino, a ser olhado não mais com medrosa desconfiança mas com solidário entusiasmo. Eu me movia entre o terraço e uma água-furtada alta de onde conseguia pairar sobre as copas das árvores e de lá, mais com o ouvido do que com a vista, acompanhava as explosões de algazarra do bando pelos pomares, via agitarem-se as extremidades das cerejeiras, de vez em quando aflorar certa mão que testava e arrancava, uma cabeça despenteada ou encapuzada com um saco, e entre as vozes distinguia também a de Cosme e me perguntava: Mas como é que ele consegue ficar lá em cima? Agora mesmo estava aqui no parque! Move-se mais rápido que um esquilo?

Estavam sobre as rubras ameixeiras acima do Reservatório Grande, lembro, quando se ouviu o berrante. Também eu o escutei, mas, não sabendo do que se tratava, não liguei. Eles, não! Meu irmão contou que ficaram mudos, e perante a surpresa de tornar a ouvir o chifre parecia que não se recordavam que era um sinal de alarme, mas se perguntavam apenas se haviam escutado bem, se era de novo Sinforosa que circulava pelas estradas no cavalo anão para avisá-los do perigo. Num piscar de olhos sumiram do pomar, mas não fugiam por fugir, escapavam para procurá-la, para alcançá-la.

Somente Cosme ficou ali, o rosto vermelho como uma chama. Mal viu correr os moleques e entendeu que iam ao encontro dela, começou a dar saltos pelos ramos arriscando o pescoço a cada passo.

Viola estava na curva de uma ladeira, parada, uma das mãos com as rédeas pousadas na crina do cavalinho, a outra que brandia o chicote. Olhava a garotada de cima a baixo e levava a ponta do chicote à boca, dando pequenas mordidas. O vestido era azul, o chifre era dourado, preso ao pescoço por uma corrente. Os garotos tinham parado todos juntos e também eles mordiscavam, ameixas ou dedos, ou cicatrizes que tinham nas mãos ou nos braços, ou pontas dos sacos. E pouco a pouco, de suas bocas que mordiscavam, quase constrangidos a vencer um mal-estar e não movidos por um verdadeiro sentimento, quem sabe desejosos de ser contrariados, começaram a emitir frases quase sem voz, que soavam em cadência como se procurassem cantar:

— O que você… veio fazer… Sinforosa… agora volta… não é mais… nossa companheira… ah, ah, ah… ah, tratante…

Um farfalhar nos ramos e eis: numa alta figueira aparece a cabeça de Cosme, entre folha e folha, ofegante. Ela, de baixo para alto, com aquele chicote na mão, olhava para ele e para o grupo, achatando todos num mesmo olhar. Cosme não resistiu; ainda com a língua de fora, desabafou:

— Sabe que ainda não desci das árvores desde aquele dia?

As tarefas que se baseiam numa tenacidade interior devem permanecer mudas e obscuras; por pouco que alguém as anuncie ou delas se vanglorie, tudo parece supérfluo, sem sentido ou até mesquinho. Assim, tão logo meu irmão pronunciou aquelas palavras, arrependeu-se de tê-las dito, e não lhe importava mais nada, e teve até vontade de descer e acabar com aquilo. Ainda mais quando Viola afastou lentamente o chicote da boca e disse, em tom gentil:

— É mesmo?… Que tonto!

Das bocas daqueles piolhentos saiu uma risada em forma de mugido, antes mesmo que se abrissem e explodissem em berros animalescos, e Cosme lá na figueira teve um tal sobressalto de raiva que o pé de figo, sendo de madeira traiçoeira, não aguentou, um galho quebrou sob os pés dele. Cosme caiu como uma pedra.

Tombou de braços abertos, não se sustentou. Foi aquela a única vez, para dizer a verdade, durante a sua permanência nas árvores, que não teve força e instinto para manter-se agarrado. Acontece que uma aba do fraque enrolou-se num ramo baixo: a poucos palmos do chão, Cosme encontrou-se pendurado no ar com a cabeça para baixo.

O sangue na cabeça lhe parecia pressionado pela mesma força do vermelho da vergonha. E seu primeiro pensamento ao abrir os olhos ao contrário e vendo de ponta-cabeça os moleques que urravam, agora atingidos por uma febre geral de cambalhotas em que reapareciam um por um na posição normal como se estivessem pendurados numa terra à beira do abismo, e a menina loura esvoaçante no cavalinho empinado, só pensou que aquela fora a primeira e última vez em que havia falado de sua permanência em cima das árvores.

Com um salto dos seus agarrou-se ao galho e voltou a se empoleirar. Viola, mantendo o cavalo outra vez sob controle, agora parecia não ter notado nada do que acontecera. Cosme esqueceu por um momento seu desconcerto. A menina levou o berrante aos lábios e emitiu a densa nota de alarme. Com aquele som os moleques (a quem — comentou mais tarde Cosme — a presença de Viola provocava uma estranha excitação como de lebres à luz do luar) saíram em disparada. Deixaram-se levar assim, como por instinto; mesmo sabendo que ela estava brincando, eles aceitaram o jogo, e corriam ladeira abaixo imitando o som do chifre, atrás dela, que galopava no cavalinho de pernas curtas.

E desciam correndo às cegas, de modo que às vezes perdiam-na de vista. Afastara-se, saíra da estrada, deixando-os espalhados. Por onde seguir? Galopava morro abaixo pelos olivais que desciam rumo ao vale num suave degradar de prados e procurava a oliveira na qual naquele momento se agitava Cosme, dava um galope ao redor, e tornava a fugir. Depois reaparecia no pé de outra oliveira, enquanto entre as copas se agarrava meu irmão. E assim, seguindo linhas tortas como os ramos das oliveiras, desciam juntos para o vale.

Os pequenos ladrões, quando se deram conta, e perceberam o namorico daqueles dois do galho à sela, começaram a assobiar todos juntos, um silvar maligno de troça. E, aumentando o volume do assobio, afastavam-se em direção à Porta das Alcaparras.

A menina e meu irmão ficaram sozinhos perseguindo-se no olival, mas com pesar Cosme notou que, sumindo o bando, a alegria de Viola com aquele jogo tendia a diminuir, como se já estivesse para ceder ao tédio. E lhe veio a suspeita de que ela fizesse tudo só para provocá-los, mas ao mesmo tempo também a esperança de que agora fizesse de propósito para enfurecê-lo: o que é certo é que precisava sempre provocar alguém para fazer-se mais preciosa. ( Todos estes sentimentos foram entendidos por Cosme mais tarde: na realidade, trepava por aquelas ásperas cascas sem perceber nada, como um tonto, imagino.)

Ao contornar um morro, eis que se levanta uma pequena mas violenta rajada de bolotas. A menina protege a cabeça atrás do pescoço do cavalinho e foge; meu irmão, num cotovelo de galho bem à vista, permanece sob a mira. Mas os seixos chegam lá demasiado oblíquos para fazer mal, excetuando-se alguns na testa ou nas orelhas. Assobiam e riem, aqueles endiabrados, gritam: “Sin-fo-ro-sa é hor-ro-ro-sa…”, e fogem.

Agora os moleques atingiram a Porta das Alcaparras, coberta de cascatas verdes de alcaparras ao longo dos muros. Dos casebres em torno vem uma gritaria de mães. Mas esses são meninos cujas mães, à noite, não gritam para fazê-los retornar a casa, e sim por terem voltado, porque vêm comer em casa em vez de ir procurar comida em outros cantos. Ao redor da Porta das Alcaparras, em casinhas e barracas com estacas, carroções cambaleantes, tendas, amontoava-se a gente mais pobre de Penúmbria, tão pobre que era mantida fora das portas da cidade e afastada dos campos, gente expulsa em bandos de terras e aldeias distantes, oprimida pela carestia e pela miséria que se expandia em todos os lugares. Era hora do pôr do sol, e mulheres despenteadas com crianças no colo abanavam pequenos fornos fumacentos, e mendigos espalhavam-se exibindo as feridas, outros jogando dados com berros ensurdecedores. Os companheiros do bando da fruta agora se misturavam àquela fumaça de fritura e àquelas brigas, levavam tabefes das mães, lutavam entre si rolando pela poeira. E seus trapos já tinham assumido a cor de todos os outros trapos, e sua alegria de pás saros misturada naquele amontoado humano se desfazia numa densa insipidez. Tanto que, ante a aparição da menina loura a galope e de Cosme nas árvores em torno, só ergueram os olhos intimidados, retiraram-se, trataram de perder-se entre a poeira e a fumaça dos fogareiros, como se entre eles de repente se tivesse erguido uma muralha.

 

Tudo isso para os dois foi um momento, um piscar de olhos. Agora Viola deixara para trás a fumaça das barracas que se misturava com as sombras da noite e os gritos de mulheres e crianças, e corria entre os pinheiros da praia.

Lá estava o mar. Ouvia-se rolar nas pedras. Tudo escuro. Um escorregar mais metálico: era o cavalinho que corria lançando faíscas contra as pedrinhas. De um baixo pinheiro retorcido, meu irmão observava a sombra clara da menina loura atravessar a praia. Uma onda recém-formada elevou-se do mar negro, ergueu-se dobrando-se sobre si mesma, caminhava para a frente toda branca, rompia-se, e a sombra do cavalo com a menina a tocara em grande velocidade e, no pinheiro, um espirro branco de água salgada molhou o rosto de Cosme.