O Barão nas Árvores
Capítulo 23
O QUE ACABEI DE NARRAR prova que os penúmbrios, assim como haviam sido pródigos em intrigas sobre a precedente vida galante de meu irmão, agora, perante essa paixão que se desencadeava, literalmente sobre a cabeça deles, mantinham uma respeitosa reserva, como se estivessem perante qualquer coisa maior do que eles. Não que a conduta da marquesa não fosse reprovada: porém, isso acontecia mais por seus aspectos exteriores, como aquele galopar desenfreado (“Quem sabe onde andará, com tanto furor?”, perguntavam, sabendo perfeitamente que ia ao encontro de Cosme) ou aquela mobília que levava para o alto das árvores. Já existia uma tendência de considerar tudo como uma moda dos nobres, uma das tantas extravagâncias (“Agora, todo mundo nas árvores: mulheres, homens. Não tinham mais nada para inventar?”); em suma aproximavam-se tempos talvez mais tolerantes, todavia mais hipócritas.
Se o barão aparecia nas azinheiras da praça com grandes intervalos de tempo, isso era sinal de que ela partira. Porque às vezes Viola ficava ausente durante meses, cuidando de seus bens espalhados por toda a Europa, mas tais partidas correspondiam sempre a momentos em que suas relações haviam sofrido choques e a marquesa se ofendera com Cosme por ele não compreender o que ela desejava fazê-lo compreender do amor. Não que Viola partisse ofendida com ele: conseguiam sempre fazer as pazes antes, mas nele restava a suspeita de que aquela viagem tivesse sido decidida por cansaço em relação a ele, pois não lograva retê-la, talvez estivesse se cansando dele, quem sabe se uma ocasião da viagem ou uma pausa de reflexão a levassem a decidir não voltar. Assim meu irmão vivia angustiado. Por um lado, tratava de retomar sua vida habitual anterior ao reencontro, voltar à caça e à pesca, e seguir os trabalhos agrícolas, os seus estudos, as bravatas em praça pública, como se nunca houvesse feito outra coisa (persistia nele o teimoso orgulho juvenil de quem não quer admitir que sofre influência de outros), e ao mesmo tempo se comprazia com tudo o que aquele amor lhe dava, em alegria, em orgulho; mas por outro lado percebia que muitas coisas já não lhe importavam, que sem Viola a vida não tinha mais sabor, que seus pensamentos corriam sempre para ela. Quanto mais procurava, fora da agitação da presença de Viola, reapropriar-se das paixões e prazeres numa sábia economia do espírito, mais sentia o vazio por ela provocado ou a febre de esperá-la. Em suma, seu enamoramento era exatamente como Viola o queria, não como ele pretendia que fosse; era sempre a mulher que triunfava, mesmo se distante, e Cosme, a contragosto, acabava por apreciar isso.
De repente, a marquesa voltava. Nas árvores recomeçava a estação dos amores, mas também a dos ciúmes. Onde estivera Viola? O que fizera? Cosme ficava ansioso por saber, mas ao mesmo tempo tinha medo do modo como ela respondia às suas indagações, tudo por meio de alusões, a cada alusão encontrava modos de insinuar um motivo de suspeita para Cosme, e ele entendia que o fazia para atormentá-lo, mas tudo bem podia ser verdade, e nesse estado de ânimo incerto ora mascarava seu ciúme ora o deixava irromper violento, e Viola respondia de modo sempre diferente e imprevisível às suas reações, ora ela lhe parecia mais que nunca ligada a ele, ora não mais capaz de se excitar com ele.
Qual fosse de fato a vida da marquesa em suas viagens, nós de Penúmbria não podíamos saber, longe como estávamos das capitais e de suas intrigas. Mas naquele período fiz minha segunda viagem a Paris, por causa de certos contratos (um fornecimento de limões, pois agora muitos nobres punham-se a comerciar, estando eu entre os primeiros).
Uma noite, num dos mais ilustres salões parisienses, encontrei dona Viola. Apresentava-se com um penteado tão suntuoso e uma roupa tão esplêndida que só não tive dificuldades em reconhecê-la, a bem dizer estremeci ao vê-la, foi porque era justamente mulher que não podia ser confundida com nenhuma. Cumprimentou-me com indiferença, mas logo encontrou o modo de afastar-se comigo e me perguntar, sem aguardar resposta entre uma pergunta e outra:
— Tem novidades de seu irmão? Volta logo para Penúmbria? Pegue, entregue-lhe como lembrança minha. — E, tirando do seio um lenço de seda, colocou-o em minha mão.
Em seguida, deixou-se envolver pela corte de admiradores que se arrastava atrás dela.
— Conhece a marquesa? — perguntou-me em voz baixa um amigo parisiense.
— Só de passagem — respondi, e era verdade: em suas estadas em Penúmbria, dona Viola, contagiada pela selvageria de Cosme, não se preocupava em frequentar a nobreza da vizinhança.
— Raramente tanta beleza se faz acompanhar de tanta inquietude — disse meu amigo. — Os mexeriqueiros pretendem que em Paris ela passe de um amante a outro, num carrossel tão contínuo que não permite a ninguém afirmar que ela é sua e dizer-se privilegiado. Mas de vez em quando desaparece durante meses e meses e dizem que se retira para um convento, a fim de mortificar-se em penitências.
Com dificuldades contive o riso, ao ver que a permanência da marquesa nas árvores de Penúmbria era tida pelos parisienses como período de penitência; mas ao mesmo tempo aquelas intrigas me perturbaram, fazendo prever tempos de tristeza para meu irmão.
Para preveni-lo de surpresas desagradáveis, quis avisá-lo, e logo que voltei a Penúmbria fui procurá-lo. Interrogou-me longamente sobre a viagem, as novidades da França, mas não consegui dar-lhe nenhuma notícia sobre política e literatura da qual já não estivesse ao corrente.
Por último, tirei do bolso o lenço de dona Viola.
— Em Paris num salão encontrei uma dama que o conhece, e me deu isso para você, com seus cumprimentos.
Desceu rapidamente o cestinho preso pelo barbante, levantou o lenço de seda e o levou ao rosto como para aspirar-lhe o perfume.
— Ah, você a viu? E como estava? Diga-me: como estava?
— Muito bela e brilhante — respondi lentamente —, mas dizem que este perfume é aspirado por muitos narizes…
Enfiou o lenço no peito como se temesse que lhe fosse arrancado. Voltou-se para mim com o rosto vermelho:
— E você não tinha uma espada para empurrar goela abaixo estas mentiras a quem as difundia?
Tive de confessar que isso nem me passara pela cabeça.
Permaneceu um pouco em silêncio. Depois deu de ombros.
— Tudo mentira. Só eu sei que é apenas minha. — E fugiu para os galhos sem cumprimentar-me.
Reconheci a sua maneira habitual de recusar qualquer coisa que o obrigasse a sair de seu mundo.
Dali em diante passou a ser visto triste e impaciente, saltitando aqui e ali, sem fazer nada. Se às vezes eu o ouvia assobiar, competindo com os melros, o seu trinado era sempre mais nervoso e pesado.
A marquesa chegou. Como sempre, o ciúme dele lhe proporcionou prazer: em parte a incitou, em parte a colocou na berlinda. Assim voltaram os lindos dias de amor e meu irmão estava feliz.
Mas agora a marquesa não perdia oportunidade de acusar Cosme de ter uma ideia estreita do amor.
— O que quer dizer? Que sou ciumento?
— Faz bem em ser ciumento. Mas você pretende submeter o ciúme à razão.
— Claro: assim posso torná-lo mais eficaz.
— Você argumenta demais. Por que o amor deve funcionar com raciocínios?
— Para amá-la ainda mais. Todas as coisas, com o uso da razão, aumentam seu poder.
— Você vive em cima das árvores e tem a mentalidade de um tabelião com gota.
— Os empreendimentos mais audaciosos têm de ser vividos com o ânimo mais simples.
Continuava a ditar regras, até o momento em que ela fugia: então, ele se punha a segui-la, a desesperar-se, a arrancar os cabelos.
Naqueles dias, um navio almirante inglês lançou âncora em nossa enseada. O almirante deu uma festa para os notáveis de Penúmbria e para os oficiais de outras embarcações de passagem; a marquesa compareceu; daquele dia em diante Cosme sofreu as penas do ciúme. Dois oficiais de navios diferentes encantaram-se com dona Viola e passaram a ser vistos sempre na praia, cortejando a dama e tentando superar-se em suas atenções. Um era tenente da Marinha inglesa; o outro também era tenente, mas da frota napolitana. Tendo alugado dois alazões, os tenentes faziam turno sob os terraços da marquesa, e quando se encontravam o napolitano dirigia ao inglês um olhar capaz de fuzilá-lo, ao passo que das pálpebras semicerradas do inglês saía um olhar como a ponta de uma espada.
E dona Viola? Não começa, a coquete, a ficar horas e horas em casa, a passear no terraço em matinée , como se fosse uma viuvinha fresca, recém-saída do luto? Cosme, sem contar com ela nas árvores, sem escutar a aproximação do galope do cavalo branco, ficava louco, e o seu posto de observação acabou sendo (também ele) em frente ao terraço, a controlá-la e aos dois tenentes.
Estava estudando o modo de pregar uma peça nos rivais que os obrigasse a voltar o mais rápido possível aos respectivos navios, mas, ao ver que Viola demonstrava apreciar de igual modo a corte de um e de outro, veio-lhe a esperança de que ela quisesse apenas jogar com ambos, e com ele próprio. Nem por isso diminuiu a vigilância: ao primeiro sinal que ela tivesse dado de preferir um dos dois, estava pronto para intervir.
Eis que, certa manhã, passa o inglês. Viola encontra-se na janela. Sorriem. A marquesa deixa cair um bilhete. O oficial o apanha no ar, lê, inclina-se, ruborizado, e esporeia o cavalo. Um encontro! Era o inglês o felizardo! Cosme jurou que não o deixaria tranquilo até a noite.
Nessa altura passa o napolitano. Viola joga um bilhete também para ele. O oficial o lê, leva-o aos lábios e o beija. Considerava-se, portanto, o eleito? E o outro como ficava? Contra qual dos dois Cosme devia agir? Certamente com um dos dois dona Viola marcara um encontro; e com o outro devia ter feito apenas uma de suas brincadeiras. Ou queria blefar com ambos?
Quanto ao local de encontro, Cosme suspeitava de um dos quiosques do fundo do parque. Pouco tempo antes a marquesa mandara arrumar e decorar o lugar, e Cosme se roía de ciúmes, pois não era mais o tempo em que ela enchia os topos das árvores de cortinas e divãs: agora se preocupava com espaços onde ele jamais entraria. “Vou vigiar o pavilhão”, Cosme disse para si. “Se marcou um encontro com um dos dois tenentes, só pode ser lá.” E empoleirou-se no interior da copa de um castanheiro-da-índia.
Pouco antes do pôr do sol, ouviu-se um galope. Chega o napolitano. “Agora o desafio!”, pensa Cosme e com uma zarabatana atira-lhe no pescoço uma bola de esterco de esquilo. O oficial se sobressalta, olha em torno. Cosme sobressai do galho, e ao mover-se vê além da sebe o tenente inglês que está descendo da sela, e amarra o cavalo num tronco. “Agora é a vez dele; talvez o outro estivesse passando aqui por acaso.” E tome uma zarabatanada de esquilo no nariz.
— Who’s there? — diz o inglês, e faz menção de atravessar a sebe.
Mas se encontra cara a cara com o colega napolitano, que, tendo também descido do cavalo, diz igualmente:
— Quem está aí?
— I beg your pardon, sir — diz o inglês —, mas devo convidá-lo a retirar-se imediatamente deste local.
— Se estou aqui é com todo o direito — diz o napolitano —, convido Vossa Senhoria a retirar-se!
— Nenhum direito pode sobrepor-se ao meu — replica o inglês. — I’m sorry, não lhe permito ficar.
— É uma questão de honra — diz o outro —, e tenha como penhor a minha tradição familiar: Salvatore di San Cataldo di Santa Maria Capua Venere, da Marinha das Duas Sicílias!
— Sir Osbert Castlefight, terceiro desta linhagem! — apresenta-se o inglês. — É minha honra que impõe a sua saída de campo.
— Não sem antes tê-lo expulso com esta espada! — E a retira da bainha.
— Senhor, queira bater-se — diz sir Osbert, pondo-se em guarda. Duelam.
— Era aqui que eu o desejava, colega, e não é de hoje! — E lhe dá uma estocada.
E sir Osbert, aparando:
— Há algum tempo seguia seus movimentos, tenente, e o esperava justamente para isso!
Equilibrando-se em força, os dois tenentes esgotavam-se em assaltos e fintas. Estavam no limite das energias, quando:
— Parem, em nome do céu! — No umbral do pavilhão surgira dona Viola.
— Marquesa, este homem… — disseram os dois militares a uma só voz, baixando a espada e apontando-se reciprocamente.
E dona Viola:
— Meus caros amigos! Guardem as armas, suplico-lhes! É este o modo de assustar uma mulher? Preferia este pavilhão por ser o lugar mais silencioso e secreto do parque, e acontece que mal adormeço me desperta o bater de suas espadas!
— Mas, milady — diz o inglês —, não tinha sido eu convidado aqui pela senhora?
— Estava aqui para me esperar, senhora… — diz o napolitano.
Da garganta de dona Viola elevou-se um riso leve como um bater de asas.
— Ah, sim, sim, tinha convidado o senhor… ou o senhor… Oh, esta minha cabeça tão confusa… Bem, o que esperam? Entrem, acomodem-se, por favor…
— Milady, pensei que se tratasse de um convite só para mim. Enganei-me. Cumprimento-a e peço licença.
— O mesmo queria dizer eu, senhora, e ausentar-me.
A marquesa ria:
— Meus bons amigos… Meus caros amigos… Sou tão aérea… Pensava ter convidado sir Osbert a uma certa hora… e dom Salvatore noutro momento… Não, não, desculpem-me: na mesma hora, mas em lugares diferentes… Oh, não, como pode ser?… Bem, visto que estão os dois aqui, por que não podemos sentar-nos e conversar civilmente?
Os dois tenentes se olharam, depois olharam para ela.
— Devemos entender, marquesa, que demonstrava aceitar nossas atenções só para jogar com os dois?
— Por quê, meus bons amigos? Ao contrário, ao contrário… A assiduidade de vocês não podia me deixar indiferente… São ambos tão simpáticos… Esta é minha tristeza… Se escolhesse a elegância de sir Osbert, eu o perderia, meu apaixonado dom Salvatore… E, optando pelo fogo do tenente de San Cataldo, deveria renunciar a um sir! Oh, por quê… por que não…
— Não o quê? — perguntaram em uníssono os dois oficiais. E dona Viola, baixando a cabeça:
— Por que não poderia pertencer aos dois ao mesmo tempo…?
Do alto do castanheiro-da-índia ouviu-se um estalar de galhos. Era Cosme que já não conseguia manter-se calmo.
Mas os dois tenentes estavam demasiado sobressaltados para ouvi-lo. Retrocederam juntos de um passo.
— Isto nunca, senhora.
A marquesa ergueu o belo rosto com seu sorriso mais radioso:
— Bem, eu serei do primeiro que, como prova de amor, para satisfazer-me em tudo, se declarar pronto a dividir-me também com o rival!
— Senhora…
— Milady…
Os dois tenentes, inclinando-se para Viola numa seca reverência de despedida, viraram-se um de frente para o outro, estenderam-se as mãos, e apertaram-nas.
— I was sure you were a gentleman, signor Cataldo — disse o inglês.
— Nem eu duvidava de sua honra, mister Osberto — respondeu o napolitano.
Deram as costas para a marquesa e dirigiram-se para os cavalos.
— Amigos… Por que tão ofendidos… Tolinhos… — dizia Viola, mas os dois oficiais já tinham o pé no estribo.
Era o momento que Cosme aguardava havia um bom tempo, antecipando o sabor da vingança que preparara: agora os dois teriam uma dolorosa surpresa. Acontece que, perante a atitude viril deles ao se despedirem da pouco modesta marquesa, Cosme se sentiu inesperadamente reconciliado com eles. Tarde demais! Já agora o terrível dispositivo de vingança não podia mais ser travado! No espaço de um segundo, Cosme generosamente decidiu avisá-los:
— Alto lá! — gritou da árvore —, não se sentem na sela! Os dois oficiais levantaram vivamente a cabeça.
— What are you doing up there? O que faz aí em cima? Como se permite? Come down!
Atrás deles ouviu-se o riso de dona Viola, uma de suas risadas em cascata.
Os dois estavam perplexos. Havia um terceiro, que segundo tudo indicava assistira à cena. A situação se complicava.
— In any way — disseram-se —, nós dois permanecemos solidários!
— Por nossa honra!
— Nenhum dos dois consentirá em dividir milady com quem quer que seja!
— Jamais em toda a vida!
— Mas se um dos dois decidisse consentir…
— Neste caso, sempre solidários! Consentiremos juntos!
— De acordo! E agora, a caminho!
Diante desse novo diálogo, Cosme mordeu um dedo de raiva por ter tentado evitar a realização da vingança. “Que se cumpra, sem mais!”, e retraiu-se entre as frondes. Os dois oficiais saltavam em arco. “Agora gritam”, pensou Cosme, e teve vontade de tapar os ouvidos. Ressoou um berro duplo. Os dois tenentes tinham se sentado em cima de dois porcos-espinhos ocultos sob as gualdrapas das selas.
— Traição! — E voaram para o chão, numa explosão de saltos e gritos e rodopios sobre eles mesmos, e parecia que quisessem zangar-se com a marquesa.
Mas dona Viola, mais indignada do que eles, gritou para cima:
— Macaco maligno e monstruoso! — E trepou pelo tronco do castanheiro-da-índia, desaparecendo tão depressa da vista dos oficiais que imaginaram que tivesse sido engolida pela terra.
Entre os ramos Viola encontrou-se diante de Cosme. Olhavam-se com olhos chamejantes, e tal ira lhes dava uma espécie de pureza, como arcanjos. Pareciam a ponto de devorar-se, quan do a mulher:
— Oh, meu querido! — exclamou. — Assim, é assim mesmo que desejo você: ciumento, implacável! — Já lhe atirara os braços no pescoço, e se abraçavam, e Cosme não se lembrava de mais nada.
Ela se desvencilhou, afastou o rosto do dele, como se refletisse, e depois:
— Contudo, também eles dois, como me amam, você viu? Estão prontos a dividir-me entre eles…
Cosme ameaçou lançar-se contra ela, depois ergueu-se entre os ramos, mordeu a folhagem, bateu a cabeça contra o tronco:
— São dois vermeees…!
Viola se afastara dele com seu rosto de estátua.
— Você tem muito a aprender com eles. — Virou-se, desceu rápido da árvore.
Os dois cortejadores, esquecidos das disputas, não haviam encontrado outra solução além de começar com paciência a tirar os espinhos um do outro. Dona Viola interrompeu-os.
— Rápido! Subam na minha carruagem!
Desapareceram atrás do pavilhão. A carruagem partiu. Cosme, no castanheiro-da-índia, escondia o rosto entre as mãos.
Começou uma fase de tormentos para Cosme, mas também para os dois ex-rivais. E para Viola, talvez se pudesse falar de um tempo de alegrias? Creio que a marquesa atormentava os outros só porque desejava atormentar-se. Os dois nobres oficiais estavam sempre por perto, inseparáveis, sob as janelas de Viola, ou convidados ao seu salão, ou em longas paradas solitárias na hospedaria. Ela lisonjeava ambos e pedia-lhes sempre novas provas de amor, para as quais eles se declaravam todas as vezes prontos, e já estavam dispostos a possuí-la pela metade, e não só, mas a dividi-la também com terceiros, e tendo chegado às concessões não podiam mais parar, levados pelo desejo de assim conseguir finalmente comovê-la e obter a manutenção de suas promessas, e ao mesmo tempo, empenhados pelo pacto de solidariedade com o rival, e devorados pelo ciúme e pela esperança de superá-lo, e agora também por um apelo da obscura degradação em que se sentiam afundar.
A cada nova promessa arrancada dos oficiais da Marinha, Viola montava a cavalo e ia dizê-lo a Cosme.
— Sabe que o inglês está disposto a isso e aquilo… E o napolitano também… — gritava-lhe, apenas o via lugubremente empoleirado numa árvore.
Cosme não respondia.
— Isso é amor absoluto — ela insistia.
— Patifarias absolutas, dignas de vocês! — berrava Cosme, e desaparecia.
Era este o modo cruel que agora tinham de amar-se, e não encontravam mais a maneira de escapar disso.
A nau capitânea inglesa ia zarpar.
— O senhor fica, não é? — disse Viola a sir Osbert.
Sir Osbert não se apresentou a bordo; foi declarado desertor. Por solidariedade e emulação, dom Salvatore também desertou.
— Eles desertaram! — anunciou triunfalmente Viola a Cosme. — Por mim! E você…
— E eu??? — urrou Cosme com um olhar tão feroz que Viola não disse nem mais uma palavra.
Sir Osbert e Salvatore di San Cataldo, desertores da Marinha das respectivas Majestades, passavam dias inteiros na hospedaria, jogando dados, pálidos, inquietos, tratando de desbancar-se reciprocamente, enquanto Viola estava no auge do descontentamento consigo e com tudo o que a circundava.
Pegou o cavalo, rumou para o bosque. Cosme estava num carvalho. Ela parou embaixo, num prado.
— Estou cansada.
— Daqueles dois?
— De todos vocês.
— Ah.
— Eles me deram as maiores provas de amor…
Cosme cuspiu.
— …Mas não me bastam.
Cosme ergueu os olhos para ela.
E ela:
— Você não acredita que o amor seja dedicação absoluta, renúncia de si mesmo…
Estava ali no prado, linda como nunca, e a frieza que endurecia de leve os seus traços e o seu porte orgulhoso teria bastado um nada para pacificá-los, e voltar a tê-la nos braços… Podia dizer qualquer coisa, Cosme, uma coisa qualquer para ir ao encontro dela, poderia dizer: “Diga-me o que deseja que eu faça, estou pronto…”, e teria sido outra vez a felicidade para ele, a felicidade juntos e sem sombras. Ao contrário, disse:
— Não pode haver amor se não somos nós mesmos com as nossas próprias forças.
Viola fez um movimento de contrariedade que era também de cansaço. Contudo, ainda teria podido entendê-lo, como de fato o entendia, e mais, tinha nos lábios as palavras para dizer: “Você é como eu gosto…” e logo subir até ele… Mordeu um lábio. Disse:
— Pois então, seja você mesmo sozinho.
“Mas então ser eu mesmo não faz sentido…”, eis o que desejava dizer Cosme. Porém, falou:
— Se prefere aqueles dois vermes…
— Não lhe permito desprezar os meus amigos! — ela gritou, e ainda pensava: “Só você me importa, é só por você que faço tudo o que faço!”.
— Só eu posso ser desprezado…
— O seu modo de pensar!
— Sou uma coisa inteira com ele.
— Então adeus. Parto esta noite. Não me verá mais.
Correu para a vila, fez as malas, partiu sem dizer nada aos tenentes. Manteve a palavra. Não regressou a Penúmbria. Foi para a França, e os acontecimentos históricos sobrepuseram-se à sua vontade, quando ela só desejava voltar. Estourou a revolução, depois a guerra; a marquesa, de início interessada pelo novo curso dos acontecimentos (estava na entourage de La Fayette), emigrou depois para a Bélgica e de lá para a Inglaterra. Na névoa de Londres, durante os longos anos das guerras contra Napoleão, sonhava com as árvores de Penúmbria. Mais tarde, voltou a casar-se com um lorde interessado pela Companhia das Índias e se estabeleceu em Calcutá. Do seu terraço olhava as florestas, as árvores ainda mais estranhas do que aquelas do jardim da sua infância, e a todo momento parecia-lhe ver Cosme abrir caminho entre as folhas. Mas era a sombra de um macaco, ou de um jaguar.
Sir Osbert Castlefight e Salvatore di San Cataldo permaneceram ligados para sempre, e dedicaram-se à carreira de aventureiros. Foram vistos nas casas de jogo de Veneza, em Göttingen, na faculdade de teologia, em São Petersburgo na corte de Catarina II, e depois perderam-se suas pistas.
Cosme ficou vagabundeando pelos bosques durante muito tempo, chorando, maltrapilho, recusando-se a comer. Chorava alto, como os recém-nascidos, e os pássaros que antigamente fugiam em bandos ao se aproximarem daquele infalível caçador, agora ficavam junto dele, nos cumes das árvores ao redor ou voando-lhe sobre a cabeça, e os pássaros gritavam, gorjeavam os pintassilgos, arrulhava a rolinha, cantava o tordo, chilreava o tentilhão e a carriça; e dos altos esconderijos saíam os esquilos, os seretazes, os ratos do campo, e uniam seus chiados ao coro, e assim se movia meu irmão em meio àquela nuvem de lamentos.
Depois veio o tempo da violência destruidora: toda árvore, começava da extremidade e, corta uma folha, corta outra, rapidíssimo tornava-a pelada como no inverno, mesmo que não fosse do tipo desfolhante. Depois subia de novo e quebrava todos os ramos até que só restassem os grandes galhos, voltava a subir, e com um canivete começava a arrancar a casca, e viam-se as plantas despojadas exibirem o branco com arrepiante expressão ferida.
E, em toda essa fúria, não havia mais ressentimento contra Viola, mas apenas o remorso de tê-la perdido, de não ter sabido mantê-la ligada a ele, de tê-la ferido com um orgulho injusto e idiota. Porque, agora o compreendia, ela lhe fora sempre fiel, e se arrastava outros dois homens atrás dela era para dar a entender que considerava apenas Cosme digno de ser o seu único amante, e todas as suas insatisfações e birras não passavam da sede insaciável de fazer sua paixão aumentar sem admitir que tocasse um ponto máximo, e ele, só ele, não entendera nada disso e a provocara até perdê-la.
Durante algumas semanas permaneceu no bosque, sozinho como jamais estivera; não tinha mais nem Ótimo Máximo, pois Viola o levara embora. Quando meu irmão voltou a aparecer em Penúmbria, estava mudado. Nem eu podia mais ter ilusões: desta vez Cosme tinha mesmo ficado louco.