O Barão nas Árvores

Italo Calvino · Capítulo 14 de 30

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O Barão nas Árvores

Capítulo 14

 

SE O NÚMERO DOS AMIGOS DE COSME CRESCIA, ele também fizera inimigos. Os vagabundos do bosque, de fato, após a conversão de João do Mato às boas leituras, e sua queda posterior, viram-se em má situação. Uma noite, meu irmão dormia em seu odre pendurado num freixo, no bosque, quando foi despertado por um latido do bassê. Abriu os olhos e viu luz; vinha de baixo, havia fogo justamente ao pé da árvore e as chamas já atingiam o tronco.

Um incêndio no bosque! Quem o provocara? Cosme tinha certeza de não ter tocado no acendedor, naquela noite. Portanto, era um golpe dos malfeitores! Pretendiam queimar o bosque para juntar lenha e ao mesmo tempo jogar a culpa em Cosme; e, de quebra, assá-lo vivo.

De imediato Cosme não pensou no perigo que o ameaçava tão de perto: imaginou que aquele interminável reino de caminhos e refúgios só seus podia ser destruído, e este era todo o seu terror. Ótimo Máximo já fugia para não queimar-se, virando-se de vez em quando para lançar um latido desesperado: o fogo estava se propagando pela vegetação rasteira.

Cosme não desanimou. No freixo que então constituía seu refúgio, armazenara, como sempre fazia, muitas coisas; dentre elas, uma garrafa com orchata para aplacar a sede no verão. Alcançou a garrafa. Pelos galhos do freixo fugiam os esquilos e as corujas assustadas e dos ninhos voavam os pássaros. Pegou a garrafa e estava a ponto de tirar a tampa e molhar o tronco do freixo para salvá-lo das chamas, quando pensou que o incêndio já estava se propagando pelo capim, pelas folhas secas, pelos arbustos e atingiria todas as árvores ao redor. Decidiu arriscar: “Que se perca o freixo! Se com esta bebida consigo molhar o chão em torno, onde as chamas ainda não chegaram, interrompo o incêndio!”. E, abrindo a garrafa, com impulsos ondulantes e circulares dirigiu o jato sobre o terreno, sobre as línguas de fogo mais externas, apagando-as. Assim, o fogo na vegetação rasteira encontrou-se rodeado de capim e folhas molhadas e não pôde mais expandir-se.

Do alto do freixo, Cosme pulou para uma faia próxima. Escapara por um fio: o tronco, ardendo na base, transformou-se de estalo numa fogueira, em meio aos inúteis chiados dos esquilos.

O incêndio teria ficado restrito àquele ponto? Já uma nuvem de centelhas e chamas se propagava ao redor; certamente a leve barreira de folhas molhadas não o impediria de propagar-se.

— Fogo! Fogo! — começou a gritar Cosme com todas as forças. — Fogooo!

— O quêêê? Quem gritaaa? — ecoavam vozes.

Não longe daquele ponto ficava uma carvoaria, e uma turma de bergamascos amigos dele dormia lá numa barraca.

— Fogooo! Socorrooo!

Logo toda a montanha era uma gritaria só. Os carvoeiros dispersos pelo bosque espalhavam a notícia, em seu dialeto incompreensível. Começaram a chegar pessoas de todos os lados. O incêndio foi domado.

Essa primeira tentativa de incêndio doloso e de atentado contra sua vida deveria ter alertado Cosme para manter-se longe do bosque. Mas não: começou a preocupar-se em como controlar os incêndios. Era o verão de um ano seco e escaldante. Nos bosques da costa, nos lados da Provença, ardia havia uma semana um incêndio imenso. Durante a noite, observavam-se os clarões altos na montanha como um resto de pôr do sol. O ar estava seco, plantas e espinhos representavam um grande combustível naquela aridez. Parecia que os ventos propagavam as chamas em nossa direção, caso não viesse a explodir por aqui algum incêndio casual ou doloso, que se juntaria com aquele numa única fogueira ao longo de toda a costa. O céu parecia não ficar imune a esta carga de fogo: todas as noites, estrelas cadentes moviam-se em quantidade pelo firmamento e esperávamos vê-las cair em nossas cabeças.

Naqueles dias de estupor geral, Cosme fez estoque de pequenos barris e içou-os cheios d’água até o cume das plantas mais altas e situadas em lugares dominantes. “Quase nada, mas para alguma coisa hão de servir.” Não satisfeito, estudava o regime das torrentes que atravessavam o bosque, meio secas como estavam, e o das nascentes que soltavam apenas um fio d’água. Foi consultar o cavaleiro advogado.

— Ah, sim! — exclamou Eneias Sílvio Carrega, batendo a mão na testa. — Bacias! Diques! É preciso fazer projetos! — E explodia em pequenos gritos e saltos de entusiasmo enquanto uma miríade de ideias inundava sua mente.

Cosme obrigou-o a fazer cálculos e desenhos; nesse meio-tempo convocou os proprietários dos bosques particulares, os arrendatários dos bosques públicos, os lenhadores, os carvoeiros. Todos juntos, sob a direção do cavaleiro advogado (ou seja, o cavaleiro advogado submetido a eles, forçado a dirigi-los e a não se distrair) e tendo Cosme para supervisionar os trabalhos do alto, construíram reservas d’água de modo que em todo ponto no qual surgisse um incêndio fosse possível sincronizar a ação das bombas.

Mas não bastava, era preciso organizar um grupo de vigilantes, equipes que em caso de alarme soubessem logo dispor-se em cadeia para passar baldes d’água de mão em mão e bloquear o incêndio antes que se propagasse. O resultado foi uma espécie de milícia que fazia turnos de guarda e inspeção noturna. Os homens eram recrutados por Cosme entre os camponeses e os artesãos de Penúmbria. De repente, como acontece em qualquer associação, nasceu um espírito corporativo, uma emulação entre as equipes, e sentiam-se prontos para fazer grandes coisas. Também Cosme sentiu uma nova força e contentamento: descobrira uma aptidão para associar pessoas e dirigi-las; capacidade da qual, para sorte sua, jamais foi levado a abusar, e só a exercitou muito poucas vezes em sua vida, apenas em função de importantes resultados a serem conseguidos, e obtendo sempre êxito.

Compreendeu isto: que as associações tornam o homem mais forte e põem em destaque os melhores dotes dos indivíduos, e produzem a alegria que raramente se obtém ficando isolado, ao ver quanta gente honesta e séria e capaz existe e pelas quais vale a pena desejar coisas boas (ao passo que vivendo por conta própria é mais frequente o contrário, acabamos por ver o outro lado das pessoas, aquele que exige manter sempre a mão na espada).

Portanto, a onda de incêndios trouxe um bom verão: havia um problema comum que todos se empenhavam em resolver, e cada um o colocava na frente de seus interesses pessoais, gratificando-se com a satisfação de ficar em paz e harmonia com tantas outras ótimas pessoas.

Mais tarde, Cosme deverá entender que, quando o problema comum não existe mais, as associações não funcionam bem como antes, e vale mais ser um homem só do que um chefe. Mas por enquanto, sendo um chefe, passava as noites completamente sozinho de sentinela no bosque, em cima de uma árvore, como sempre vivera.

Se por acaso via brilhar um foco de incêndio, instalara no alto de uma árvore uma campainha, que podia ser ouvida de longe e dar o alarme. Com esse sistema, nas três ou quatro vezes em que houve incêndios, conseguiram dominá-los em tempo e salvar os bosques. E, já que existia dolo, descobriram os culpados naqueles dois bandidos, Hugão e Bonitão, e os expulsaram da região. No final de agosto começaram os aguaceiros; o perigo dos incêndios havia passado.

 

Naquele tempo, em Penúmbria, só se ouvia falar bem de meu irmão. Até à nossa casa chegavam essas opiniões favoráveis, aqueles: “Mas é tão esperto”, “Mas certas coisas ele faz muito bem”, com o tom de quem deseja fazer avaliações objetivas sobre pessoas de diferentes religiões, ou de partidos contrários, e quer demonstrar-se de mente tão aberta que compreende até as ideias mais distantes das suas.

As reações da generala a tais notícias eram bruscas e sumárias.

— Possuem armas? — perguntava, quando lhe falavam da vigilância contra os incêndios organizada por Cosme. — Fazem exercícios? — Pois ela já pensava na constituição de uma milícia armada que pudesse, no caso de uma guerra, tomar parte em operações militares.

Papai, ao contrário, ouvia em silêncio, sacudindo a cabeça de forma que não se entendia se cada notícia sobre aquele filho lhe era dolorosa ou se, em vez disso, estava de acordo, tocado por um fundo de lisonja, não esperando outra coisa a não ser voltar a ter esperanças nele. Devia ser assim, desta última maneira, porque passados alguns dias montou a cavalo e foi procurá-lo.

Encontraram-se num lugar aberto, com uma fila de árvores em volta. O barão conduziu o cavalo para cima e para baixo duas ou três vezes, sem olhar para o filho, mas já o avistara. Partindo da última planta, de salto em salto, o rapaz veio para plantas cada vez mais próximas. Quando chegou na frente do pai, tirou o chapéu de palha (que no verão substituía o boné de gato selvagem) e disse:

— Bom dia, senhor pai.

— Bom dia, filho.

— O senhor vai bem?

— Proporcionalmente aos anos e aos desprazeres.

— Fico feliz de vê-lo animado.

— O mesmo quero dizer de você, Cosme. Ouvi contar que você trabalha pelo bem comum.

— Sou responsável pela proteção das florestas onde vivo, senhor pai.

— Você sabe que uma parte do bosque é propriedade nossa, herança de sua pobre avó Elisabete, boa alma?

— Sim, senhor pai. Na localidade de Belrio. Ali crescem trinta castanheiros, vinte e duas faias, oito pinheiros e um ácer. Tenho cópia de todos os mapas cadastrais. É justamente como membro de família proprietária de bosques que pretendi associar todos os interessados em conservá-los.

— Certo — disse o barão, acolhendo favoravelmente a resposta. Mas acrescentou: — Dizem-me que se trata de uma associação de padeiros, hortelões e cavalariços.

— Também, senhor pai. De todas as profissões, desde que honestas.

— Você sabe que poderia comandar a nobreza vassala com o título de duque?

— Sei que, quando tenho mais ideias do que os outros, entrego aos outros tais ideias, se as aceitam; e isto é comandar.

“E para comandar, hoje, é costume ficar em cima das árvores?”, coçava a língua do barão. Mas de que valia trazer à baila aquela história? Suspirou, absorto em seus pensamentos. Depois desatou o cinturão em que estava pendurada sua espada.

— Você tem dezoito anos… É hora de considerar-se um adulto… Eu já não tenho muito tempo de vida… — E segurava a espada achatada com as duas mãos. — Você se lembra de que é barão de Rondó?

— Sim, senhor pai, lembro meu nome.

— Pretende ser digno do nome e do título que carrega?

— Tratarei de ser o mais digno que possa do nome de homem, e igualmente de todo atributo seu.

— Receba esta espada, a minha espada. — Ergueu-se sobre os estribos, Cosme abaixou-se no galho e o barão conseguiu cingi-la.

— Obrigado, senhor pai… Prometo que farei bom uso dela.

— Adeus, meu filho. — O barão virou o cavalo, deu um breve puxão de rédeas, afastou-se cavalgando lentamente.

Cosme ficou um momento a pensar se não devia cumprimentá-lo com a espada, depois refletiu que o pai lhe dera a arma para defender-se e não para fazer gestos de parada, e a manteve na bainha.