O Barão nas Árvores

Italo Calvino · Capítulo 8 de 30

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O Barão nas Árvores

Capítulo 8

 

NAQUELES DIAS, COSME MUITAS VEZES desafiava quem estava no chão, desafios de pontaria, de destreza, inclusive para testar suas possibilidades, até onde conseguia chegar estando lá em cima. Desafiou os moleques para o jogo de malha. Encontravam-se naqueles lugares próximos da Porta das Alcaparras, entre os barracões dos pobres e dos vagabundos. De uma azinheira meio seca e despojada, Cosme estava jogando malha, quando viu aproximar-se um homem a cavalo, alto, um tanto curvado, envolto num manto negro. Reconheceu seu pai. O bando se dispersou; das entradas das barracas as mulheres ficaram observando.

O barão Armínio cavalgou até debaixo da árvore. Pôr do sol avermelhando. Cosme estava nos galhos pelados. Encararam- -se. Era a primeira vez, depois do almoço dos escargots, que se encontravam assim, frente a frente. Muitos dias tinham se passado, as coisas haviam mudado, um e outro sabiam que já não importavam mais nem os escargots nem a obediência dos filhos ou a autoridade paterna; que tantas coisas lógicas e sensatas que podiam ser ditas, todas seriam um despropósito; mesmo assim alguma coisa deviam dizer.

— Que belo espetáculo ofereceis! — começou o pai, amargamente. — É de fato digno de um gentil-homem! (Tratara-o por vós, como fazia nas críticas mais graves, mas então aquele uso teve um sentido de distância, de afastamento.)

— Um gentil-homem, senhor pai, merece esta condição tanto na terra como em cima das árvores — respondeu Cosme. E logo acrescentou: — Se se comporta corretamente.

— Uma sentença justa — admitiu gravemente o barão —, contudo, agora mesmo, estáveis a roubar ameixas a um arrendatário.

Era verdade. Meu irmão fora apanhado em flagrante. O que deveria responder? Esboçou um sorriso, nem orgulhoso nem cínico: um sorriso de timidez, e enrubesceu.

Também o pai sorriu, um sorriso triste, e quem sabe por que enrubesceu junto com o filho.

— Agora, fazeis companhia aos piores bastardos e mendigos — acrescentou.

— Não, senhor pai, eu estou por minha conta e cada um por si — disse Cosme, decidido.

— Convido-vos a descer — disse o barão, com voz pacata, quase apagada — e a retomar os deveres de vossa condição.

— Não pretendo obedecer, senhor pai — afirmou Cosme —, e isso me dói.

Ambos estavam sem jeito, aborrecidos. Cada um sabia o que o outro diria.

— E vossos estudos? E as devoções de cristão? — interrogou o pai. — Pretendeis crescer como um selvagem das Américas?

Cosme calou-se. Eram pensamentos sobre os quais não refletira e não tinha vontade de fazê-lo. A seguir, acrescentou:

— Por estar alguns metros acima do chão, acredita que ficarei alheio aos bons ensinamentos?

Também esta era uma resposta hábil, mas constituía quase uma redução da amplitude do seu gesto: portanto, sinal de fraqueza.

O pai percebeu isso e se fez mais duro:

— A rebeldia não se mede em metros — disse. — Mesmo quando aparenta ter poucos palmos, uma viagem pode não ter retorno.

Nessa altura meu irmão poderia ter dado alguma nobre resposta, talvez uma citação latina, que agora não me vem à mente, mas então sabíamos muitas de cor. Ao contrário, já estava enjoado de ficar bancando o solene; pôs a língua para fora e gritou:

— Mas de cima das árvores mijo mais longe! — frase sem muito sentido, mas que encerrava a questão.

Como se tivessem ouvido aquela frase, elevou-se uma gritaria de moleques ao redor da Porta das Alcaparras. O cavalo do barão de Rondó agitou-se, o barão puxou as rédeas e envolveu-se no manto, como prestes a ir embora. Mas virou-se, pôs um braço para fora do manto e, indicando o céu que rapidamente se carregara de nuvens negras, exclamou:

— Cuidado, filho, há Quem possa mijar sobre todos nós! — E arrancou.

A chuva, havia muito esperada nos campos, começou a cair em grossas e esparsas gotas. Por trás das barracas armou-se um corre-corre de moleques encapuzados com sacos que cantavam: “Ciêuve! Ciêuve! L’aiga va pe êuve!”. Cosme desapareceu pendurando-se nas folhas já gotejantes que despejavam água na cabeça de quem as tocasse.

 

Eu, logo que percebi a chuva, fiquei com pena dele. Imaginava-o ensopado, enquanto se espremia contra um tronco sem conseguir escapar do aguaceiro oblíquo. E já estava convencido de que não bastaria um temporal para fazê-lo voltar. Corri para junto de mamãe:

— Chove! Que fará Cosme, senhora mãe?

A generala afastou a cortina e olhou a água cair. Estava calma.

— O maior inconveniente das chuvas é o terreno lamacento. Estando lá em cima, fica protegido.

— As plantas serão suficientes para resguardá-lo?

— Recuará para seu acampamento.

— Qual, senhora mãe?

— Terá tratado disso com antecedência.

— Mas não acha que seria bom procurá-lo para dar-lhe um guarda-chuva?

Como se a palavra guarda-chuva de repente a tivesse arrancado de seu posto de observação campal e a lançasse em sua síndrome de mãe, a generala se apressou em dizer:

— Ja, ganz gewiss! E um frasco de xarope de maçã, bem quente, embrulhado em meia de lã! E um encerado, para estender na madeira, que não deixe passar umidade… Mas onde estará agora, pobrezinho… Tomara que você consiga encontrá-lo…

Saí na chuva carregado de pacotes, sob um enorme guarda-chuva verde, e um outro que mantinha fechado embaixo do braço para entregar a Cosme.

Repetia o nosso assobio, mas só me respondia o estalido sem fim da chuva nas plantas. Estava escuro; fora do jardim eu não sabia aonde ir, movia-me ao acaso pelas pedras escorregadias, prados amolecidos, poças, e assobiava. A fim de mandar o som para cima inclinava o guarda-chuva e a água me golpeava o rosto e me lavava o assobio dos lábios. Queria caminhar em direção a certas partes da propriedade repletas de árvores altas, onde imaginava que ele pudesse ter construído seu refúgio, porém me perdi naquele escuro, e continuava ali apertando entre os braços guarda-chuvas e pacotes, e apenas o frasco de xarope enrolado na meia de lã me dava um pouco de calor.

Eis que, no alto, vi um clarão no escuro das árvores que não podia ser nem de lua nem de estrelas. Tive a impressão de ouvir o assobio dele que respondia ao meu.

— Cooosme!

— Biááágio! — uma voz na chuva, bem lá em cima.

— Onde está você?

— Aqui…! Vou ao seu encontro, mas vem logo que estou me molhando!

Encontramo-nos. Ele, todo enrolado num cobertor, desceu até a forquilha mais baixa de um salgueiro para mostrar como se subia, através de uma complicada rede de ramificações, até a faia de tronco alto, de onde provinha aquela luz. Dei-lhe logo o guarda-chuva e alguns pacotes, e tentamos subir com os guarda-chuvas abertos, mas era impossível, e nos molhávamos do mesmo jeito. Finalmente cheguei aonde ele me guiava; não vi nada, exceto um clarão como entre os panos de uma tenda.

Cosme levantou um dos panos e me fez entrar. À luz de uma lanterna, encontrei-me numa espécie de quartinho, coberto por todos os lados de cortinas e tapetes, atravessado no tronco da faia, tendo galhos como eixo, tudo apoiado em grandes ramos. Ao primeiro olhar, pareceu-me uma suíte real, mas logo me convenci de quanto era instável, pois estar ali dentro em dois talvez já lhe rompesse o equilíbrio, e Cosme teve de fazer consertos imediatamente. Coloquei do lado de fora até os dois guarda-chuvas que trazia, abertos, para tapar duas goteiras; mas a água escorria de outros pontos e já estávamos os dois molhados. Quanto à temperatura, era como estar do lado de fora. Porém, havia uma tal quantidade de cobertores amontoados que se podia sumir embaixo, deixando só a cabeça de fora. A lanterna emitia uma luz incerta, saltitante, e no teto e paredes daquela estranha construção os ramos e folhas projetavam sombras intrincadas. Cosme engolia xarope de maçã em grandes goles, fazendo: “Puah! Puah!”

— É uma linda casa — disse eu.

— Oh, ainda é provisória — apressou-se Cosme a responder. — Devo estudá-la melhor.

— Você a construiu sozinho?

— E com quem mais? É secreta.

— Posso vir aqui?

— Não, você revelaria o caminho a outras pessoas.

— Papai disse que não mandará mais ninguém atrás de você.

— De qualquer modo deve continuar secreta.

— Por causa daqueles meninos que roubam? Mas não são seus amigos?

— Às vezes sim e às vezes não.

— E a menina com o cavalinho?

— O que você tem com isso?

— Queria saber se é sua amiga, se brincam juntos.

— Às vezes sim e às vezes não.

— Por que às vezes não?

— Porque às vezes eu não quero ou ela não quer. — Cosme, com o rosto obscurecido, tentava ajeitar uma esteira acavalada num galho. — …Se aparecesse, eu a deixaria subir — disse gravemente.

— Ela não quer?

Cosme deitou-se.

— Viajou.

— Diz pra mim — sussurrei —, estão namorando?

— Não — respondeu meu irmão e se fechou num longo silêncio.

No dia seguinte fazia bom tempo e foi decidido que Cosme recomeçaria as aulas com o abade Fauchelafleur. Ninguém disse como. Simplesmente e de forma meio brusca, o barão convidou o abade (“Em vez de ficar aqui olhando as moscas, l’abbé…”) a ir procurar meu irmão onde estivesse e fazê-lo traduzir um pouco do seu Virgílio. Em seguida, receando ter metido o abade em apuros, tratou de facilitar-lhe a tarefa; disse para mim: “Vai dizer a seu irmão que esteja no jardim dentro de meia hora para a lição de latim”. Falou isso com o tom mais natural que encontrou, o tom que gostaria de manter doravante: com Cosme pelas árvores tudo devia continuar como antes.

Assim, houve aula. Meu irmão montado num galho de olmo, pernas pendentes, e o abade embaixo, na grama, sentado num banquinho, repetindo hexâmetros em coro. Eu brincava por ali e os perdi de vista durante um tempo; quando voltei, também o abade estava em cima da árvore; com suas longas e esguias pernas nas meias negras tentava içar-se numa forquilha, e Cosme o ajudava, segurando-o por um cotovelo. Encontraram uma posição cômoda para o velho, e juntos enfrentaram uma passagem difícil, inclinados sobre o livro. Parece que meu irmão demonstrava grande empenho.

Depois não sei o que aconteceu, como o aluno fugiu, talvez porque o abade tenha se distraído lá em cima e ficado a olhar o vazio como de costume, o resultado é que acomodado entre os galhos só restou o velho padre negro, com o livro nos joelhos, e olhava uma borboleta branca voando e a acompanhava de boca aberta. Quando a borboleta desapareceu, o abade deu-se conta de estar lá em cima, e ficou com medo. Agarrou-se ao tronco, começou a gritar: “Au secours! Au secours!”, até que veio gente com uma escada e devagar ele se acalmou e desceu.