O Barão nas Árvores
Capítulo 15
FOI NAQUELE PERÍODO QUE, frequentando o cavaleiro advogado, Cosme apercebeu-se de algo de estranho no comportamento dele, ou melhor, diferente do habitual, mais ou menos estranho que fosse. Como se seu ar absorto não derivasse mais de distração, mas de um pensamento fixo que o dominava. Os momentos em que se mostrava conversador eram agora mais frequentes, e se antigamente, antissociável como era, jamais punha os pés na cidade, agora ao contrário estava sempre no porto, nas rodas de conversa ou sentado nos espaldões com os velhos patrões e marinheiros, comentando as chegadas e as partidas dos barcos ou as malvadezas dos piratas.
Ao largo das nossas costas chegavam ainda as falucas dos piratas da Barbaria, perturbando os nossos tráficos. Hoje era uma pirataria de pouca monta, não mais como nos tempos em que ao encontrar piratas acabava-se escravo em Túnis ou Argel ou se perdiam nariz e orelhas. Agora, quando os maometanos conseguiam alcançar uma tartana de Penúmbria, roubavam a carga: barris de bacalhau, fôrmas de queijo holandês, rolos de algodão etc. Às vezes os nossos eram mais ágeis, escapavam, davam um tiro de espingarda contra as velas da faluca; e os bárbaros respondiam cuspindo, fazendo gestos feios e berrando.
Em suma, era uma pirataria moderada, que continuava por causa de certos créditos que os paxás daqueles países pretendiam exigir dos nossos comerciantes e armadores, não tendo sido — segundo eles — bem atendidos em algum fornecimento, ou até lesados. E assim tratavam de saldar a conta aos poucos, por meio de roubos, mas ao mesmo tempo continuavam as negociações comerciais, com contínuas contestações e pactos. Portanto, não havia interesse nem de uma parte nem de outra em provocar grandes más-criações; e a navegação estava cheia de incertezas e riscos, os quais, todavia, nunca degeneravam em tragédias.
A história que agora contarei foi narrada por Cosme em muitas versões diferentes: vou me ater à mais rica em detalhes e menos ilógica. Mesmo sendo verdade que meu irmão ao contar suas aventuras acrescentava muito de sua lavra, eu, na falta de outras fontes, trato sempre de seguir literalmente o que ele dizia.
Certa vez Cosme, que por montar guarda contra os incêndios adquirira o hábito de acordar à noite, viu uma luz que descia pelo vale. Seguiu-a entre os ramos, silencioso com seu passo de gato, e viu Eneias Sílvio Carrega, que caminhava rapidinho, com o fez e a chimarra, segurando uma lanterna.
O que estaria tramando àquela hora o cavaleiro advogado, que costumava deitar-se com as galinhas? Cosme saiu atrás dele. Estava atento para não fazer barulho, mesmo sabendo que o tio, quando caminhava tão compenetrado, era igual a um surdo e só enxergava um palmo diante dos pés.
Através de atalhos e veredas o cavaleiro advogado chegou à beira-mar, num trecho de praia pedregosa, e começou a agitar a lanterna. Não havia lua, no mar não se conseguia ver nada, exceto um movimento de espuma das ondas mais próximas. Cosme estava num pinheiro, meio distante da margem porque ali rareava a vegetação e já não era fácil aproximar-se pelos galhos. Contudo, distinguia bem o velhote com o alto fez na costa deserta, que agitava a lanterna voltado para a escuridão do mar, e daquela escuridão lhe respondia uma outra luz de lanterna, de repente, bem próxima, como se tivessem acabado de acendê-la, e emergiu velocíssima uma pequena embarcação com uma vela quadrada escura e remos, diferente dos barcos locais, e aportou.
À ondulante luz das lanternas Cosme viu homens de turbante na cabeça: alguns permaneceram no barco mantendo-o na margem com pequenas pancadas de remos; outros desceram, e tinham amplos calções vermelhos bufantes, e também brilhantes cimitarras na cintura. O tio e aqueles bárbaros falavam entre si, numa língua que não se entendia, ainda que frequentemente se pudesse achar o contrário, e certamente era a famosa língua franca. De vez em quando Cosme entendia uma palavra em nossa língua, sobre a qual Eneias Sílvio insistia, misturando-a com outras palavras incompreensíveis, e as nossas palavras eram nomes de navios, conhecidos nomes de tartanas ou brigues que pertenciam aos armadores de Penúmbria ou que faziam a ligação entre o nosso porto e outros.
Era fácil entender o que estava dizendo o cavaleiro! Informava os piratas sobre os dias de chegada e de partida dos navios de Penúmbria, e sobre a carga, a rota, as armas que levavam a bordo. Agora o velho devia ter contado tudo o que sabia, pois virou-se e foi embora rapidamente, enquanto os piratas subiam na lancha e desapareciam no mar de breu. Pelo modo rápido como se deu a conversa entendia-se que devia ser coisa habitual. Quem sabe há quanto tempo os atentados bárbaros ocorriam seguindo as informações de nosso tio!
Cosme permanecera no pinheiro, incapaz de afastar-se dali, da praia deserta. Ventava, a onda roía as pedras, a árvore gemia em todas as suas juntas e meu irmão batia os dentes, não pelo frio do ar mas pelo frio da triste revelação.
Eis que aquele velhote tímido e misterioso que nós, quando crianças, sempre consideramos não confiável e que Cosme pensava ter aprendido a apreciar e desculpar, revelava-se um traidor imperdoável, um homem ingrato que desejava o mal da terra que o recolhera como um despojo após uma vida de erros… Por quê? A tal ponto o empurrava a nostalgia daquelas regiões e daquela gente entre a qual deveria ter se sentido, uma vez na vida, feliz? Ou então incubava um rancor irrefreável contra esta aldeia em que cada bocado devia saber-lhe à humilhação? Cosme estava dividido entre o impulso de correr a denunciar as tramoias do espião e salvar as cargas de nossos comerciantes, e o pensamento da dor que isso provocaria em papai, por causa daquele afeto que inexplicavelmente o ligava àquele irmão natural. Cosme já imaginava a cena: o cavaleiro manietado no meio dos policiais, entre duas alas de penúmbrios que o injuriavam, e assim era conduzido até a praça, punham-lhe a corda no pescoço, enforcavam-no… Depois do velório de João do Mato, Cosme havia jurado a si mesmo que nunca mais assistiria a uma execução capital; e agora acontecia de caber a ele ser o árbitro da condenação à morte de um parente!
Atormentou-se com aquele pensamento a noite inteira, e assim continuou por todo o dia seguinte, passando furiosamente de um galho para outro, dando pontapés, erguendo os braços, escorregando pelos troncos, como sempre fazia quando era dominado por um pensamento. Finalmente, tomou uma decisão: escolheria um meio-termo, assustar os piratas e o tio, a fim de que interrompessem suas escusas relações sem necessidade da intervenção da justiça. Iria postar-se naquele pinheiro à noite, com três ou quatro fuzis carregados (conseguira montar um arsenal, para as várias necessidades da caça): quando o cavaleiro se encontrasse com os piratas, começaria a disparar uma arma atrás da outra, fazendo zunir as balas por cima da cabeça deles. Ao ouvir uma tal fuzilaria, piratas e tio fugiriam, cada um para o seu lado. E o cavaleiro, que não era decerto um homem audaz, na dúvida de ter sido reconhecido e na certeza de que agora vigiavam aqueles encontros na praia, evitaria repetir suas aproximações com os tripulantes maometanos.
De fato, Cosme, com os fuzis apontados, esperou no pinheiro duas noites. E não aconteceu nada. Na terceira noite, eis o velhote de fez a saltitar tropeçando nos seixos da praia, a fazer sinais com a lanterna, e o barco que chega, com os marinheiros de turbante.
Cosme estava pronto com o dedo no gatilho, mas não disparou. Porque dessa vez era tudo diferente. Após uma breve conversa, dois dos piratas que haviam descido fizeram sinais para a embarcação, e os outros começaram a descarregar coisas: barris, caixas, sacos, garrafões, padiolas cheias de queijos. Não havia um barco só, eram muitos, todos cheios, e uma fila de carregadores de turbante espalhou-se pela praia, precedida por nosso tio natural que os conduzia com sua corridinha hesitante até uma gruta entre os escolhos. Lá os mouros deixaram todas aquelas mercadorias, certamente o fruto das últimas piratarias.
Por que descarregavam nessa margem? Em seguida foi fácil reconstruir o caso: devendo a faluca bárbara lançar âncora num dos nossos portos (para algum negócio legítimo, como sempre ocorriam entre eles e nós em meio às ações de rapina), e tendo, portanto, de sujeitar-se aos controles alfandegários, era preciso que escondessem as mercadorias roubadas em lugar seguro, para recuperá-las no retorno. Assim a embarcação comprovaria seu não envolvimento nos últimos assaltos e reforçaria as relações comerciais normais com a região.
Tudo isso ficou evidente depois. De momento Cosme não parou para fazer perguntas. Havia um tesouro de piratas escondido numa gruta, os piratas voltavam para o navio e o deixavam ali: era preciso apoderar-se dele o mais rápido possível. Por um momento meu irmão pensou em ir acordar os comerciantes de Penúmbria, que deviam ser os legítimos proprietários das mercadorias. Mas, de repente, lembrou-se de seus amigos carvoeiros, que passavam fome no bosque com a família. Não hesitou: correu pelos galhos direto até os lugares em que, ao redor das cinzentas clareiras de terra batida, os bergamascos dormiam em simples cabanas.
— Rápido! Venham todos! Descobri o tesouro dos piratas!
Sob as tendas e as ramagens das cabanas houve uma agitação só, gente escarrando, xingando, e por fim exclamações maravilhadas, perguntas:
— Ouro? Prata?
— Não vi bem… — disse Cosme. — Pelo cheiro, diria que há uma quantidade de bacalhau e de queijo pecorino!
Diante dessas palavras, levantaram-se todos os homens do bosque. Quem tinha espingardas apanhava espingardas, os outros machadinhas, espetos, escavadeiras ou pás, mas sobretudo pegaram recipientes para colocar coisas, mesmo as cestas estragadas de carvão e os sacos negros. Organizou-se uma grande procissão — Hurra! Hota! —, também as mulheres desciam com as cestas vazias na cabeça, e os meninos encapuzados com os sacos, segurando as tochas. Cosme os precedia do pinheiro do bosque à oliveira, da oliveira ao pinheiro do mar.
Já estavam para virar na ponta do escolho, quando, no alto de uma figueira torta, apareceu a branca sombra de um pirata, levantou a cimitarra e deu o alarme. Com poucos saltos Cosme chegou a um ramo sobre ele e enfiou-lhe a espada nos rins, até que se jogasse ribanceira abaixo.
Na gruta, havia uma reunião de chefes piratas. (Antes, Cosme não percebera que tinham ficado lá, naquele vaivém do desembarque.) Ouvem o grito da sentinela, saem e se veem rodeados por aquela horda de homens e mulheres sujos de fuligem no rosto, encapuzados com sacos e armados de pás. Erguem as cimitarras e se lançam à frente para abrir espaço. “Hurra! Hota!” “Inxalá!” Começou a batalha.
Os carvoeiros eram mais numerosos, mas os piratas eram superiores em armas. E assim foi: para lutar contra cimitarras, como se sabe, não existe nada melhor do que pás. Deng! Deng!, e aquelas lâminas de Marrocos retiravam-se todas denteadas. As espingardas, ao contrário, produziam barulho e fumaça e depois mais nada. Também alguns dos piratas (oficiais, dava para notar) tinham fuzis muito bonitos de se ver, adamascados; mas na gruta as pedras de centelha haviam umedecido e negavam fogo. Os mais espertos dos carvoeiros insistiam em confundir os oficiais piratas com golpes de pá na cabeça para arrancar-lhe os fuzis. Mas, com aqueles turbantes, cada golpe chegava amaciado como numa almofada; era melhor dar joelhadas no estômago, pois tinham o umbigo de fora.
Visto que a única coisa que não faltava eram pedras, os carvoeiros começaram a dar pedradas. Os mouros, então, pedradas também eles. Com as pedras, finalmente, a batalha ganhou um aspecto mais ordenado, porém como os carvoeiros tendiam a entrar na gruta, cada vez mais atraídos pelo odor de bacalhau que dali saía, e os bárbaros tendiam a fugir rumo à chalupa que permanecera na margem, entre as duas partes faltavam razões significativas de contraste.
Num certo ponto, houve um assalto dos bergamascos que lhes deu acesso à gruta. Os maometanos ainda resistiam sob uma chuva de pedras, quando perceberam que o caminho do mar estava livre. Por que continuavam a resistir? Melhor içar velas e sumir.
Alcançada a pequena barca, três piratas, todos nobres oficiais, desenrolaram a vela. Com um salto de um pinheiro próximo da margem, Cosme lançou-se sobre o mastro, agarrou-se à travessa da verga e, lá de cima, firmando-se com os joelhos desembainhou a espada. Os três piratas ergueram as cimitarras. Com golpes à direita e à esquerda, meu irmão mantinha em xeque todos os três. O barco ainda parado inclinava-se ora para um lado ora para outro. Apareceu a lua naquele momento e relampejaram a espada dada pelo barão ao filho e as lâminas maometanas. Meu irmão escorregou mastro abaixo e enterrou a espada no peito de um pirata, que caiu n’água. Ágil como uma lagartixa, voltou a subir defendendo-se com duas estocadas dos golpes dos outros, a seguir desceu de novo e perfurou o segundo, subiu outra vez, esgrimiu rápido com o terceiro e com outra de suas escorregadelas atravessou-lhe o metal.
Os três oficiais maometanos estavam em parte dentro d’água e em parte fora, com a barba cheia de algas. Os outros piratas na entrada da gruta viam-se tontos com as pedradas e os golpes de pá. Cosme ainda pendurado no mastro do barco olhava triunfante em torno, quando pulou fora da gruta, desgovernado como um gato com fogo no rabo, o cavaleiro advogado, que lá estivera escondido até então. Correu pela praia de cabeça baixa, deu um empurrão no barco afastando-o da margem, pulou em cima e firmes os remos começou a mover-se com toda a força, navegando em direção ao mar alto.
— Cavaleiro! O que está fazendo? Ficou louco? — dizia Cosme agarrando na verga. — Volte para a praia! Aonde vamos?
Em vão. Era evidente que Eneias Sílvio Carrega queria atingir a nave dos piratas para pôr-se a salvo. Sua vilania estava irremediavelmente descoberta e se permanecesse na praia acabaria no patíbulo. Por isso, remava, remava, e Cosme, embora ainda se achasse com a espada desembainhada na mão e o velho estivesse desarmado e fraco, não sabia o que fazer. No fundo, ser violento contra um tio não lhe agradava, e para alcançá-lo teria de descer da árvore, e a questão se descer a um barco equivalia a descer à terra ou se já não havia derrogado suas leis interiores saltando de uma árvore com raízes para um mastro de embarcação era demasiado complicada para ser colocada naquele momento. Assim, não fazia nada, acomodara-se na verga, uma perna de um lado e a outra do outro lado do mastro, e acompanhava a onda, enquanto um leve vento inflava a vela, e o velho não parava de remar.
Ouviu um latido. Sentiu um arrepio de alegria. O cão Ótimo Máximo, que perdera de vista durante a batalha, reaparecia agachado no fundo do barco, e sacudia o rabo como se não houvesse nada. Afinal de contas, refletiu Cosme, não era o caso de ficar tão preocupado: estava em família, com seu tio, com seu cachorro, andava de barco, o que após tantos anos de vida nas árvores era um agradável divertimento.
A lua caminhava pelo mar. O velho já estava cansado. Remava com esforço, e chorava, e começou a dizer:
— Ah, Zaira… Ah, Alá, Alá, Zaira… Ah, Zaira, inxalá… — E assim, inexplicavelmente, falava em turco, e repetia sem parar, entre lágrimas, este nome de mulher que Cosme jamais ouvira.
— O que está dizendo, cavaleiro? O que se passa? Aonde vamos? — perguntava.
— Zaira… Ah, Zaira… Alá, Alá… — repetia o velho.
— Quem é Zaira, cavaleiro? Pensa que chegará até Zaira, por este caminho?
E Eneias Sílvio Carrega respondia que sim com a cabeça, e falava turco entre lágrimas, e gritava para a lua aquele nome.
Sobre Zaira, a cabeça de Cosme começou logo a moer suposições. Talvez estivesse a ponto de revelar-se o segredo mais profundo daquele homem esquivo e misterioso. Se o cavaleiro, indo rumo à nave pirata, pretendia alcançar essa Zaira, deveria tratar-se de uma mulher que estava lá, naqueles países otomanos. Talvez toda a sua vida tivesse sido dominada pela nostalgia daquela mulher, quem sabe era ela a imagem de felicidade perdida que ele perseguia criando abelhas ou traçando canais. Talvez fosse uma amante, uma esposa que tivesse em terras distantes, nos jardins daqueles países de além-mar, ou quem sabe mais provavelmente uma filha, uma filha sua que não via desde criança. Para procurá-la devia ter tentado durante anos estabelecer contatos com algumas das embarcações turcas ou mouriscas que chegavam a nossos portos, e finalmente deviam ter lhe dado notícias dela. Quem sabe descobrira que se tornara escrava, e para resgatá-la haviam proposto a ele informá-los sobre as viagens das tartanas de Penúmbria? Ou então era um resgate que ele devia pagar para ser readmitido no grupo e embarcar para a terra de Zaira.
Agora, desmascarada a operação, era obrigado a fugir de Penúmbria, e aqueles bárbaros já não podiam recusar-se a levá-lo junto e conduzi-lo até ela. Em suas frases ofegantes e fragmentárias misturavam-se tons de esperança, de súplica, e também de medo: medo de que ainda não fosse o momento certo, de que alguma desventura ainda haveria de separá-lo da criatura desejada.
Já não aguentava mais remar, quando se aproximou uma sombra, uma outra lancha bárbara. Talvez do barco tivessem escutado o barulho da batalha na praia, e agora mandavam batedores.
Cosme desceu até o meio do mastro, para ficar escondido pela vela. O velho, ao contrário, começou a gritar em língua franca que o apanhassem, que o levassem à embarcação, e estendia os braços. De fato, foi ouvido: dois janízaros de turbante, assim que o tiveram ao alcance da mão, agarraram-no pelos ombros, ergueram-no leve como era, e o atiraram na barca deles. Aquela em que estava Cosme, devido ao contragolpe foi empurrada, a vela pegou o vento, e meu irmão, que já se via morto, escapou de ser descoberto.
Afastando-se com o vento, chegavam a Cosme, da lancha pirata, vozes como uma discussão. Uma palavra, dita pelos mouros, que soou semelhante a: “Porco!”, e a voz do velho, que se ouvia repetir como um idiota: “Ah, Zaira!”, não deixavam dúvidas sobre o acolhimento que fora dispensado ao cavaleiro. Certamente consideravam-no responsável pela emboscada na gruta, pela perda do butim, pela morte dos seus, acusavam-no de tê-los traído… Ouviu-se um berro, um baque, depois silêncio; a Cosme voltou a lembrança, nítida como se a ouvisse, da voz do pai quando gritava: “Eneias Sílvio! Eneias Sílvio!”, correndo atrás do irmão natural pelo campo; e escondeu o rosto na vela.
Tornou a subir na verga para ver onde estava indo o barco. Alguma coisa boiava em meio ao mar como transportada por uma corrente, um objeto, uma espécie de boia, mas uma boia com rabo… Um raio de lua bateu em cima, e viu que não era um objeto mas uma cabeça, uma cabeça com fez e laço, e reconheceu o rosto revirado do cavaleiro advogado que mantinha o habitual olhar esgazeado, de boca aberta, e da barba para baixo tudo o mais estava na água e não se via, e Cosme gritou:
— Cavaleiro! Cavaleiro! O que está fazendo? Por que não sobe? Segure no barco! Já o ajudo a subir! Cavaleiro!
Mas o tio não respondia: boiava, boiava, olhando para o alto com aquele olhar esgazeado que parecia não ver nada. E Cosme disse:
— Vai, Ótimo Máximo! Pula na água! Pega o cavaleiro pelo cangote! Salva-o! Salva-o!
O cão obediente mergulhou, tentou agarrar com os dentes a nuca do velho, não conseguiu, pegou-a pela barba.
— Pelo cangote, Ótimo Máximo, já disse! — insistiu Cosme, mas o cão levantou a cabeça pela barba e a empurrou para o bordo do barco, e se viu que nuca não havia mais, nem corpo nem nada, era só uma cabeça, a cabeça de Eneias Sílvio Carrega decepada por um golpe de cimitarra.