O Barão nas Árvores

Italo Calvino · Capítulo 17 de 30

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O Barão nas Árvores

Capítulo 17

 

OLIVABAIXA ERA UMA ALDEIA DO INTERIOR. Cosme chegou lá depois de dois dias de caminhada, superando perigosamente os trechos de vegetação mais escassa. No percurso, próximo aos lugares habitados, as pessoas que nunca o tinham visto gritavam maravilhadas, e alguns lhe atiravam pedras, razão pela qual tratou de passar despercebido o mais possível. Mas, à medida que se aproximava de Olivabaixa, deu-se conta de que, se algum lenhador ou lavrador ou colhedor de azeitonas o via, não demonstrava nenhum estupor, ao contrário, os homens o cumprimentavam tirando o chapéu, como se o conhecessem, e diziam palavras certamente não pertencentes ao dialeto local, que na boca deles soavam estranhas, como:

— Señor! Buenos días, señor!

Era inverno, parte das árvores estava nua. Em Olivabaixa o casario era atravessado por uma dupla fila de plátanos e de olmos. E meu irmão, aproximando-se, viu que entre os ramos nus havia pessoas, uma ou duas ou até três por árvore, sentadas ou em pé, em atitude grave. Em poucos saltos alcançou-as.

Eram homens com vestimentas nobres, tricórnios emplumados, grandes mantos, e mulheres com expressão igualmente nobre, com véus na cabeça, que estavam sentadas nos galhos em grupos de duas ou três, algumas bordando, e olhando de vez em quando para a estrada com um breve movimento lateral do busto e um apoiar do braço ao longo do ramo, como num parapeito.

Os homens dirigiam-lhe cumprimentos como cheios de amarga compreensão:

— Buenos días, señor! — E Cosme se inclinava e tirava o chapéu.

Um que parecia o mais autorizado dentre eles, um obeso, encastrado na forquilha de um plátano do qual parecia não poder mais levantar-se, uma pele de doente do fígado, sob a qual a sombra dos bigodes e da barba raspados transparecia negra apesar da idade avançada, pareceu perguntar a um vizinho seu, macilento, magro, vestido de preto e também ele com as bochechas escuras de barba feita, quem seria aquele desconhecido que se movimentava pela fileira de árvores.

Cosme pensou que era chegado o momento de apresentar-se.

Foi até o plátano do senhor obeso, inclinou-se e disse:

— Barão Cosme Chuvasco de Rondó, para servi-lo.

— Rondos? Rondos? — inquiriu o obeso. — Aragonés? Gallego?

— Não, senhor.

— Catalán?

— Não, senhor. Sou desta região.

— Desterrado también?

O gentil-homem magro sentiu-se na obrigação de intervir e servir de intérprete, muito pomposamente.

— Diz Sua Alteza Frederico Alonso Sanchez de Guatamurra y Tobasco se Vossa Senhoria é também um exilado, uma vez que o vemos deambular por estas ramagens.

— Não, senhor. Ou, pelo menos, não exilado por decreto alheio.

— Viaja usted sobre los árboles por gusto?

E o intérprete:

— Sua Alteza Frederico Alonso se compraz em indagar-lhe se é por gosto pessoal que Vossa Senhoria percorre este itinerário.

Cosme pensou um pouco, e respondeu:

— Porque penso que seja adequado a mim, embora ninguém me imponha tal trajeto.

— Feliz usted! — exclamou Frederico Alonso Sanchez, suspirando. — Ay de mí, ay de mí!

E a personagem de negro, a explicar, cada vez mais pomposa:

— Sua Alteza considera que Vossa Senhoria deve ser considerada feliz por desfrutar de tamanha liberdade, a qual não podemos deixar de comparar ao nosso constrangimento, que suportamos resignados à vontade de Deus — e persignou-se.

Assim, entre uma lacônica exclamação do príncipe Sanchez e uma circunstanciada versão do senhor vestido de negro, Cosme conseguiu reconstruir a história da colônia que se hospedava nos plátanos. Eram nobres espanhóis, rebelados contra o rei Carlos III por questões de privilégios feudais negados, e por isso mandados para o exílio com as famílias. Tendo chegado a Olivabaixa foram proibidos de continuar a viagem: de fato, aqueles territórios, com base num antigo tratado com Sua Majestade Católica, não podiam dar abrigo a pessoas exiladas da Espanha e nem mesmo ser atravessados por elas. A situação daquelas famílias nobres era bem difícil de ser resolvida, porém os magistrados de Olivabaixa, que não queriam ter problemas com as chancelarias estrangeiras mas que tampouco tinham razões de aversão por aqueles ricos viajantes, chegaram a uma conciliação: a letra do tratado prescrevia que os exilados não deveriam “tocar o solo” daquele território, portanto bastava que ficassem nas árvores e tudo estaria em ordem. Assim, os exilados haviam subido nos plátamos e olmos, com escadas cedidas pela prefeitura que depois foram retiradas. Estavam empoleirados lá em cima havia alguns meses, confiando no clima ameno, num próximo decreto de anistia de Carlos III e na providência divina. Possuíam uma reserva de dobrões espanhóis e compravam mantimentos, incrementando o comércio da cidade. Para levar os pratos para cima, tinham instalado alguns cestos sobe e desce. Noutras árvores havia baldaquinos sob os quais dormiam. Em resumo, aprenderam a adaptar-se, ou seja, tinham sido os moradores de Olivabaixa a equipá-los tão bem, pois conseguiam um bom retorno. Os exilados, por sua vez, não mexiam um dedo durante o dia inteiro.

Era a primeira vez que Cosme encontrava outros seres humanos vivendo sobre as árvores, e começou a fazer perguntas práticas.

— E quando chove, como é que vocês fazem?

— Sacramos todo el tiempo, señor!

E o intérprete, que era o padre Sulpício de Guadalete, da Companhia de Jesus, exilado desde que sua ordem fora prescrita da Espanha:

— Protegidos por nossos baldaquinos, dirigimos o pensamento ao Senhor, agradecendo-lhe pelo pouco que nos basta!…

— Não caçam nunca?

— Señor, algunas veces con el visco.

— Às vezes um de nós unta de visgo um galho, para distrair-se.

Cosme não se cansava de verificar como haviam resolvido alguns problemas que se tinham apresentado também a ele.

— E para lavar-se, para lavar-se, como fazem?

— Para lavar? Hay lavanderas! — disse dom Frederico, com um levantar de ombros.

— Entregamos nossas roupas às lavadeiras da aldeia — traduziu dom Sulpício. — Todas as segundas-feiras, para ser preciso, baixamos o cesto da roupa suja.

— Não, eu estava falando de lavar o rosto e o corpo.

Dom Frederico grunhiu e deu de ombros, como se este problema nunca tivesse se apresentado a ele.

Dom Sulpício sentiu-se no dever de interpretar:

— Segundo a opinião de Sua Alteza, estas são questões particulares de cada um.

— E, data venia, onde fazem as necessidades?

— Ollas, señor.

E dom Sulpício, sempre com seu tom modesto:

— Usam-se alguns urinóis, na verdade.

Despedindo-se de dom Frederico, Cosme foi conduzido pelo padre Sulpício para visitar os vários membros da colônia, em suas respectivas árvores residenciais. Todos aqueles fidalgos e aquelas damas mantinham, mesmo com os inevitáveis incômodos da permanência, atitudes habituais e comedidas. Certos homens, para ficar acavalados nos galhos, usavam selas de montar, e isso agradou muito a Cosme, que em tantos anos nunca pensara nisso (muito útil por causa dos estribos — notou logo — que eliminam o inconveniente de se dever manter os pés pendurados, coisa que após algum tempo provoca cãibras). Alguns apontavam binóculos de marinheiro (um deles possuía o grau de almirante) que talvez só servissem para se olharem entre si de uma árvore para outra, dar largas à curiosidade e fazer fofocas. As senhoras e senhoritas sentavam-se todas em almofadas bordadas por elas próprias, trançando agulhas (eram as únicas pessoas de algum modo ocupadas) ou então acariciando grandes gatos. Gatos não faltavam naquelas árvores, bem como pássaros, estes em gaiolas (quem sabe eram as vítimas do visgo), excetuando algumas pombas livres que vinham pousar nas mãos das donzelas, e eram tristemente acariciadas.

Nessas espécies de salões arbóreos Cosme era recebido com hospitaleira austeridade. Ofereciam-lhe café, em seguida punham-se a falar dos palácios que haviam abandonado em Sevilha, em Granada, e das suas propriedades e celeiros e escuderias, e convidavam-no para o dia em que fossem reintegrados em suas honras. Do rei que os havia banido falavam com um tom que era ao mesmo tempo de fanática aversão e de devota reverência, às vezes conseguindo separar perfeitamente a pessoa contra a qual suas famílias estavam em luta e o título real de cuja autoridade emanava também a deles. Às vezes, ao contrário, excitados pelo tema, misturavam os dois modos de consideração opostos num só impulso: e Cosme, toda vez que o discurso caía sobre o soberano, já não sabia mais que expressão adotar.

Pairava sobre todos os gestos e conversas dos exilados uma aura de tristeza e luto, que em parte correspondia à natureza deles, em parte a uma determinação voluntária, como acontece com quem combate por uma causa da qual não está bem convencido e trata de compensar com a importância da contenda.

Nas moças — que numa primeira olhada pareceram a Cosme todas um tanto peludas e de peles opacas — ondulava uma pontinha de vibração, sempre contida a tempo. Duas delas jogavam peteca, de um plátano a outro. Tique e taque, tique e taque, depois um gritinho: a peteca caíra no chão. Era recuperada por um menino de Olivabaixa que para devolvê-la exigia duas pesetas.

Na última árvore, um olmo, estava um velho, chamado de El Conde, sem peruca, mal trajado. O padre Sulpício, aproximando-se, baixou a voz, e Cosme foi induzido a imitá-lo. El Conde de vez em quando afastava um galho com um braço e observava o declive da colina e uma planície ora verde ora amarelada que se perdia na distância.

Sulpício murmurou aos ouvidos de Cosme uma história de um filho detido nos cárceres do rei Carlos e torturado. Cosme entendeu que ao passo que todos aqueles fidalgos posavam de exilados, mas deviam a cada instante relembrar e repetir por que e como se encontravam ali, só aquele velho sofria de verdade. Aquele gesto de afastar o ramo como esperando ver surgir uma outra terra, aquele inserir pouco a pouco o olhar na distância ondulada como esperando jamais encontrar o horizonte, conseguir identificar uma aldeia tão longínqua, era o primeiro sinal verídico de exílio que Cosme via. E compreendeu o quanto contava para os demais fidalgos a presença do conde, como se fosse ela que os mantinha unidos, que lhes dava um sentido. Era ele, talvez o mais pobre, certamente entre eles o que tinha menos autoridade na pátria, quem dizia o que deviam sofrer e esperar.

Retornando das visitas, Cosme distinguiu num amieiro uma menina que não notara antes. Com dois pulos chegou lá.

Era uma jovem com olhos de belíssima cor de pervinca e pele perfumada. Segurava um balde.

— Como é que quando fui apresentado a todos não a vi?

— Andava em busca de água no poço. — E sorriu.

Do balde, meio inclinado, caiu água. Ele a ajudou a segurá-lo.

— Então vocês descem das árvores?

— Não; há uma cerejeira torta que faz sombra para o poço. Dali baixamos os baldes. Venha.

Caminharam por um ramo, ultrapassando o muro de um pátio. Ela o conduziu até a passagem acima da cerejeira. Embaixo ficava o poço.

— Viu, barão?

— Como sabe que sou um barão?

— Sei de tudo. — Sorriu. — Minhas irmãs logo me informaram de sua visita.

— São aquelas da peteca?

— Irene e Raimunda, exatamente.

— As filhas de dom Frederico?

— Sim…

— E o seu nome?

— Úrsula.

— Você anda nas árvores melhor do que qualquer outro aqui.

— Já andava quando era criança: em Granada tínhamos grandes árvores no patio.

— Seria capaz de colher aquela rosa? — Em cima de uma árvore florescera uma rosa trepadeira.

— Que pena: não.

— Bem, vou colhê-la eu para você. — Movimentou-se, voltou com a flor.

Úrsula sorriu e estendeu as mãos.

— Quero colocá-la eu mesmo. Diga-me onde.

— Na cabeça, obrigada. — E acompanhou a mão dele.

— Agora diga-me: seria capaz — Cosme perguntou — de alcançar aquela amendoeira?

— Como se faz? — Riu. — Não sei voar.

— Espere. — E Cosme preparou um laço. — Se você se deixar amarrar por esta corda, puxo do outro lado, como numa roldana.

— Não… Tenho medo. — Mas ria.

— É o meu sistema. Viajo assim há anos, fazendo tudo sozinho.

— Virgem Maria!

Transportou-a para o outro lado. Depois seguiu atrás. Era uma amendoeira jovem e não muito grande. Estavam perto um do outro. Úrsula ainda estava ofegante e vermelha por causa daquele voo.

— Assustada?

— Não. — Mas seu coração acelerava.

— A rosa não caiu — disse ele e a tocou para arrumá-la.

Assim, rentes à árvore, a cada gesto se abraçavam.

— Uh! — disse ela, e, iniciativa dele, se beijaram.

Desse modo começou o amor, o rapaz feliz e aturdido, ela feliz e nem um pouco surpresa (para as moças nada acontece por acaso). Era o amor tão esperado por Cosme e agora inesperadamente surgido, e tão belo que não entendia como não pudera imaginá-lo tão belo antes. E da sua beleza a coisa mais nova era o fato de ser tão simples, e ao jovem naquele momento pareceu que deveria ser sempre assim.