O Barão nas Árvores

Italo Calvino · Capítulo 11 de 30

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O Barão nas Árvores

Capítulo 11

 

POR MUITO TEMPO, todo um período de sua adolescência, a caça foi o mundo para Cosme. Também a pesca, pois com uma linha esperava enguias e trutas nos remansos da torrente. Às vezes, chegávamos a pensar que ele tinha adquirido sentidos e instintos diferentes dos nossos, e que aquelas peles que havia costurado para cobrir-se correspondiam a uma mutação total de sua natureza. Certamente o fato de ter muito contato com as cascas de árvores, o olho fixo no movimento das penas, nos pelos, nas escamas, naquela gama de cores que esta aparência do mundo apresenta, e depois a corrente verde que circula como sangue do outro mundo nas veias das folhas: todas estas formas de vida tão distantes da humana como um talo de planta, um bico de tordo, uma guelra de peixe, esses limites da selvageria nos quais tão profundamente penetrara, podiam agora modelar seu ânimo, fazê-lo perder toda aparência de homem. Ao contrário, por mais dotes que ele absorvesse da convivência com as plantas e da luta com animais, ficou sempre claro para mim que seu lugar era deste lado, junto conosco.

 

Contudo, mesmo sem querer, alguns hábitos tornavam-se mais raros e se perdiam. Como acompanhar-nos à missa festiva de Penúmbria. Tentou nos primeiros meses. Todos os domingos, ao sair, a família enfarpelada, ajaezada para cerimônia, o encontrávamos nos galhos, também ele de algum modo com intenções de roupa de festa, por exemplo, recuperada a velha casaca, ou o tricórnio em vez do gorro de pele. Tomávamos nosso rumo, ele nos seguia dos galhos, e assim caminhávamos com majestade para o espaço sacro, observados por todos os penúmbrios (mas logo se acostumaram e diminuiu também o mal-estar de papai), nós compenetrados, ele que pulava pelos ares, estranha visão, especialmente no inverno, com as árvores nuas.

Entrávamos na catedral, sentávamos no banco da família, ele ficava do lado de fora, acomodava-se numa azinheira ao lado da nave, bem na altura de uma grande janela. Do nosso banco víamos através da vidraça a sombra dos ramos e, de permeio, a de Cosme com o chapéu no peito e a cabeça inclinada. Segundo uma combinação de meu pai com um sacristão, aquela vidraça passou a ficar entreaberta aos domingos, assim Cosme podia assistir à missa da sua árvore. Mas com o passar do tempo não tornamos a vê-lo. A vidraça foi fechada porque entrava uma corrente de vento.

 

Tantas coisas que antes teriam sido importantes, para ele não o eram mais. Na primavera, Batista ficou noiva. Quem teria adivinhado, só um ano antes? Vieram aqueles condes d’Estomac com o pequeno conde, organizou-se uma grande festa. Nosso palácio ficou inteirinho iluminado, estava presente toda a nobreza dos arredores, dançava-se. Quem ainda pensava em Cosme? Bem, não é verdade, todos pensávamos nele. De vez em quando eu olhava fora da janela para ver se chegava; e papai estava triste, e naquela festança familiar certamente seu pensamento ia para ele, que se excluíra; e a generala comandava toda a festa como numa praça de armas, queria apenas desafogar sua ansiedade pelo ausente. Quem sabe se até Batista, que fazia piruetas, irreconhecível sem as roupas monacais, com uma peruca que parecia um maçapão, e um grand panier guarnecido de corais que não sei qual costureira tinha feito, também ela aposto que pensava no irmão.

E ele lá estava, invisível — soube depois —, à sombra do cimo de um plátano, no frio, e via as janelas cheias de luz, os cômodos familiares adornados para festa, as pessoas usando perucas, dançando. Que pensamentos lhe atravessariam a mente? Lamentaria pelo menos um pouco a nossa vida? Pensaria em quão breve era a passagem que o separava do retorno ao nosso mundo, quão breve e fácil? Não sei o que pensaria, o que desejaria, ali. Sei apenas que ficou até o final da festa e mais ainda, até que os candelabros, um depois do outro, se apagassem e não restasse sequer uma janela iluminada.

Portanto, as relações de Cosme com a família, bem ou mal, continuavam. Ou melhor, com um de seus membros se estreitaram, e só então se pôde dizer que aprendeu a conhecê-lo: o cavaleiro advogado Eneias Sílvio Carrega. Esse homem meio incorpóreo, fugidio, que não se conseguia saber exatamente onde estava e o que fazia, Cosme descobriu que era o único de toda a família que tinha um grande número de ocupações, e, não bastando isso, nada do que fazia era inútil.

Saía, às vezes, na hora mais quente da tarde, com o fez enterrado na cabeça, os passos arrastados na chimarra que ia até o chão, e desaparecia como se as falhas do terreno o tivessem engolido, ou as sebes, ou as pedras das paredes. Também Cosme, que se divertia em ficar sempre alerta (ou melhor, não que se divertisse, isso se tornara um estado natural seu, como se os olhos abarcassem um horizonte tão amplo que englobasse tudo), a um certo ponto não o via mais. Às vezes, punha-se a correr de galho em galho rumo ao lugar em que desaparecera e jamais conseguia descobrir que caminho seguira. Mas havia um sinal sempre recorrente naquelas paragens: abelhas que voavam. Cosme acabou por convencer-se de que a presença do cavaleiro estava ligada às abelhas e que para localizá-lo era preciso seguir o voo delas. De que modo? Ao redor de qualquer planta florida existia um difuso zunir de abelhas; era preciso não se deixar distrair por percursos isolados e secundários, mas seguir a invisível via aérea em que o vaivém das abelhas se adensava, até lograr ver uma nuvem espessa erguer-se atrás de uma sebe como fumaça. Lá embaixo ficavam as colmeias, uma ou várias, em fila sobre uma mesa, e absorto, em meio ao zum-zum das abelhas, encontrava-se o cavaleiro.

De fato, a apicultura era uma das atividades secretas do nosso tio natural; secreta até certo ponto, pois ele próprio, de vez em quando, levava para a mesa um favo transbordante de mel recém-saído da colmeia; isso acontecia fora do âmbito das propriedades da família, em lugares que ele não queria divulgar de jeito nenhum. Devia ser uma precaução, para subtrair os proventos dessa indústria pessoal à sacola furada da administração familiar; ou então — já que o homem não era avarento e, depois, quanto poderia render-lhe aquele pouco de mel e cera? — para ter algo em que o barão seu irmão não metesse o nariz, não pretendesse conduzi-lo pela mão; ou ainda para não misturar as poucas coisas que amava, como a apicultura, com as muitas que não amava, como a administração.

De qualquer modo, restava o fato de que papai não lhe teria jamais permitido manter abelhas perto de casa, pois o barão tinha um medo irracional de ser picado e, quando por acaso topava com uma abelha ou com uma vespa no jardim, voava feito flecha pelas alamedas, segurando a peruca com toda a força como a proteger-se das bicadas de uma águia. Uma vez, ao fazer isso, soltou-se a peruca, a abelha assustada pelo arranco inesperado voou sobre ele e cravou-lhe o ferrão na careca. Compressas de vinagre lhe amaciaram a cabeça por três dias, pois ele era feito assim, orgulhoso e forte nos casos mais graves, pobre louco perante um arranhão ou um furúnculo.

Portanto, Eneias Sílvio Carrega disseminara sua criação de abelhas ao longo do vale de Penúmbria; os proprietários lhe davam permissão para manter uma ou duas colmeias numa faixa de campo, em troca de um pouco de mel, e ele corria sempre de um lugar para outro, bulindo ao redor das colmeias com movimentos de quem tem patas de abelha em vez de mãos, sobretudo pelo fato de que, às vezes, para não ser picado, usava meias-luvas negras. No rosto trazia, enrolado no fez com um turbante, um véu preto, que a cada respiração grudava na boca e se soltava. E movia um artefato que espalhava fumaça, para afastar os insetos enquanto ele mexia nas colmeias. E tudo, zum-zum de abelhas, véus, nuvens de fumaça, parecia a Cosme um encantamento que aquele homem tentava suscitar para desaparecer dali, ser cancelado, voar, e depois renascer, num outro tempo, ou noutro lugar. Mas era um mágico de poucos recursos, pois reaparecia sempre igual, talvez chupando uma ponta de dedo magoada.

Chegara a primavera. Certa manhã, Cosme sentiu o ar como enlouquecido, vibrando com um som jamais ouvido, um zumbido que atingia níveis de estrondo, e atravessado por um granizo que em vez de cair deslocava-se numa direção horizontal, e redemoinhava lentamente espalhado, mas seguindo uma espécie de coluna mais densa. Era um mar de abelhas: e ao redor brilhavam as flores, o verde e o sol; e Cosme, que não entendia o que estava acontecendo, sentiu-se dominado por uma excitação incontrolável.

— As abelhas estão fugindo! Cavaleiro advogado! As abelhas estão fugindo! — gritava, enquanto corria pelas árvores à procura de Carrega.

— Não estão fugindo: enxameiam — disse a voz do cavaleiro.

E Cosme o localizou ao pé da árvore em que se achava, onde surgiu instantâneo como um cogumelo, a fazer gestos para que ficasse quieto. Logo depois desapareceu. Para onde fora?

Era o período dos enxames. Um bando de abelhas estava seguindo uma delas fora da velha colmeia. Cosme olhou em volta. Eis que o cavaleiro advogado reaparecia na porta da cozinha, tendo nas mãos uma panela e uma frigideira. Agora batia a panela contra a frigideira e saltava um doing! doing! fortíssimo, que reboava nos tímpanos e se apagava numa longa vibração, tão perturbadora que só dava vontade de tapar os ouvidos. Batendo os objetos de cobre a cada três passos, o cavaleiro advogado caminhava atrás do bando de abelhas. Todo ribombo provocava uma espécie de sacudida no enxame, um rápido abaixa-levanta, e o zumbido parecia mais baixo, o voo mais incerto. Cosme não via bem, mas lhe parecia que agora o enxame inteiro convergia para um ponto no verde, e não ia mais naquela direção. E Carrega continuava a dar pancadas na panela.

— O que está acontecendo, cavaleiro advogado? O que faz? — perguntou meu irmão, alcançando-o.

— Rápido — sussurrou ele —, salte para a árvore em que parou o enxame, mas cuidado para não mexer nele até eu voltar!

As abelhas choviam numa romãzeira. Cosme chegou lá e a princípio não viu nada, mas logo depois se apercebeu de uma espécie de grande fruto, em forma de pinha, que pendia de um ramo, e que era feito de abelhas grudadas uma na outra, e sempre surgiam outras para aumentá-lo.

Cosme estava em cima da romãzeira prendendo a respiração. Embaixo pendia o cacho de abelhas, e quanto maior mais leve parecia, como dependurado num fio ou, menos ainda, nas minúsculas patas de uma velha rainha e feito de sutis cartilagens, com todas aquelas asas faiscantes que estendiam sua diáfana cor cinzenta sobre as estrias negras e amarelas dos abdômens.

O cavaleiro advogado chegou saltitando, e trazia na mão uma colmeia. Colocou-a de ponta-cabeça sob o cacho.

— Vai — soprou para Cosme —, uma pancadinha seca.

Cosme mal tocou a romãzeira. O enxame de milhares de insetos destacou-se como uma folha, caiu na colmeia, e o cavaleiro cobriu-a com uma tábua.

— Tudo pronto.

 

Assim nasceu entre Cosme e o cavaleiro advogado um entendimento, uma colaboração que se poderia chamar de uma espécie de amizade, se não fosse um termo excessivo, tratando-se de duas pessoas tão pouco sociáveis.

Inclusive no campo da hidráulica, meu irmão e Eneias Sílvio acabaram por encontrar-se. Isso pode parecer estranho, pois quem está em cima das árvores dificilmente trata de poços e canais; mas já comentei aquele sistema de fonte pênsil que Cosme inventara, com uma casca de álamo que levava água de uma cascata até os galhos de um carvalho. Acontece que, ao cavaleiro advogado, mesmo tão distraído, não escapava nada que se mexesse nos canais de água de toda a região. Sobre a cascata, oculto atrás de um alfeneiro, observou Cosme extrair o conduto dos ramos do carvalho (onde o recolocava quando não lhe servia, por causa daquele costume dos selvagens, do qual logo se apropriou, de esconder tudo), apoiá-lo numa forquilha e pelo outro lado em certas pedras da ribanceira e, finalmente, beber.

Diante de tal visão, quem sabe o que germinou no cérebro do cavaleiro: foi tomado por um de seus raros momentos de euforia. Saiu de trás do alfeneiro, bateu as mãos, fez dois ou três movimentos parecendo pular corda, espalhou água, por pouco não tropeçou na cascata e não voou precipício abaixo. E começou a explicar ao rapaz a ideia que tivera. A ideia era confusa e a explicação mais ainda: o cavaleiro advogado em geral falava dialeto, por modéstia mais do que por ignorância da língua, mas naqueles imprevistos momentos de excitação passava do dialeto diretamente ao turco, sem perceber, e não se entendia mais nada.

Em resumo: viera-lhe a ideia de um aqueduto pênsil, com um conduto sustentado justamente por galhos de árvores, que permitiria alcançar a vertente oposta do vale, seco, e irrigá-lo. E o aperfeiçoamento que Cosme, logo apoiando o projeto dele, sugeriu — usar em certos pontos troncos de canalização furados, para fazer chover nas sementeiras — deixou-o eufórico.

Correu a refugiar-se no gabinete, para preencher folhas e mais folhas de projetos. Também Cosme debruçou-se sobre o problema, porque tudo o que se pudesse fazer nas árvores lhe agradava, e lhe parecia contribuir para dar nova importância e autoridade às suas posições lá no alto; e em Eneias Sílvio Carrega pareceu-lhe ter encontrado um companheiro insuspeito. Marcavam encontros em árvores baixas; o cavaleiro advogado subia com a escada triangular, os braços cheios de rolos de desenho; e discutiam durante horas as modificações cada vez mais complicadas daquele aqueduto.

Porém, jamais se passou à fase prática. Eneias Sílvio cansou-se, rareou os colóquios com Cosme, não completou os desenhos, após uma semana talvez os tivesse esquecido. Cosme não se lamentou: logo se dera conta de que para a sua vida tudo aquilo se tornava uma perturbadora complicação e nada mais.

* * *

Era evidente que no campo da hidráulica nosso tio natural poderia ter feito muito mais. Era um apaixonado por aquilo, o talento específico necessário para aquele ramo de estudo não lhe faltava; contudo, não sabia concretizar: perdia-se, perdia-se, como água mal encanada que depois de correr um pouco fosse absorvida por um terreno poroso. A razão talvez fosse esta: enquanto podia dedicar-se à apicultura por conta própria, quase em segredo, sem precisar tratar com ninguém, realizando-se de vez em quando numa oferta de mel e cera que ninguém lhe pedira, teria de executar essas obras de canalização considerando variados interesses, submetendo-se às opiniões e às ordens do barão ou de qualquer outro que lhe encomendasse o trabalho. Tímido e irresoluto como era, não se opunha jamais à vontade dos outros, mas logo se desinteressava do trabalho e o deixava de lado.

Era possível vê-lo a qualquer hora, no meio de um terreno, com homens armados de pás e enxadas, ele com um metro antigo e um mapa enrolado, dando ordens para escavar um canal e mensurar o terreno com seus passos, que, sendo curtíssimos, era obrigado a alongar de forma exagerada. Dava início às escavações naquele lugar, depois noutro, mandava interromper, e recomeçava a tirar medidas. Chegava a noite e tudo parava. Era difícil que no dia seguinte decidisse retomar o trabalho naquele ponto. Desaparecia por uma semana.

De aspirações, impulsos, desejos era feita sua paixão pela hidráulica. Era uma recordação que tinha no coração, as belíssimas, bem irrigadas terras do sultão, hortas e jardins em que ele deveria ter sido feliz, o único período realmente feliz de sua vida; e àqueles jardins da Barbaria ou da Turquia comparava continuamente os campos de Penúmbria, e era levado a corrigi-los, a tratar de identificá-los com sua lembrança e, sendo a hidráulica a sua arte, nela concentrava esse desejo de mutação, e continuamente chocava-se com uma realidade diferente, e daí sobrevinha a desilusão.

Praticava também a rabdomancia, às ocultas, pois corriam ainda os tempos em que aquelas estranhas artes podiam provocar o preconceito da feitiçaria. Certa vez Cosme o descobriu num prado a fazer piruetas agitando uma vara bifurcada. Também aquilo devia ser uma tentativa de repetir algo que vira outros fazendo e em que não tinha nenhuma prática, pois daí nada resultou.

Compreender o caráter de Eneias Sílvio Carrega foi vantajoso num sentido: Cosme entendeu muita coisa sobre estar sozinho que lhe serviu mais tarde. Diria que conservou sempre a imagem esquiva do cavaleiro advogado, como advertência de um modo como pode se tornar o homem que separa a sua sorte da dos outros, e conseguiu nunca se assemelhar a ele.