O Barão nas Árvores

Italo Calvino · Capítulo 6 de 30

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O Barão nas Árvores

Capítulo 6

 

AQUELAS PRIMEIRAS JORNADAS DE COSME nas árvores não tinham objetivos ou programas, mas eram dominadas apenas pelo desejo de conhecer e apropriar-se do seu reino. Gostaria de tê-lo explorado logo até as fronteiras, estudar todas as possibilidades que ele lhe oferecia, descobri-lo planta por planta e ramo por ramo. Explico: ele gostaria, mas de fato nós o víamos passar continuamente sobre nossas cabeças, com aquela expressão atarefada e apressadíssima dos animais selvagens, que talvez observemos neles mesmo quando agachados, mas sempre como se estivessem prestes a dar um bote.

Por que voltava ao nosso parque? Ao vê-lo pular de um plátano a uma azinheira no raio da luneta de mamãe, éramos tentados a dizer que a força que o movia, a sua paixão dominante era sempre aquela polêmica conosco, provocar-nos pena ou raiva. (Digo nós porque ainda não conseguira descobrir o que ele pensava de mim: quando precisava de algo parecia que a aliança comigo não podia ser posta em dúvida; outras vezes, passava por cima de mim como se não me visse.)

Ao contrário, aqui estava só de passagem. Era o muro da magnólia que o atraía, era lá que o víamos desaparecer sempre, mesmo quando a menina não se levantara ou quando o enxame de governantas e tias a obrigava a recolher-se. No jardim dos Rodamargem, os galhos se lançavam como trombas de extraordinários animais, e no chão abriam-se estrelas de folhas rendilhadas pela verde pele dos répteis, e ondeavam bambus amarelos e leves com barulho de papel. Da árvore mais alta, Cosme, ansioso por aproveitar ao máximo aquele verde diferente e a luz especial que nele transparecia e o silêncio particular, lançava-se com a cabeça para baixo, e o jardim de ponta-cabeça se tornava floresta, uma floresta fora da terra, um mundo novo.

Então surgia Viola. Cosme a descobria de repente já no balanço que tomava impulso, ou então na sela do cavalo anão, ou escutava, vindo do fundo do jardim, o crescendo do berrante.

Os marqueses de Rodamargem jamais se preocuparam com as aventuras da menina. Enquanto andava a pé, tinha todas as tias atrás dela; assim que montava, ficava livre como o ar, pois as tias não andavam a cavalo e não podiam ver para onde ia. E também a intimidade dela com aqueles vagabundos era uma ideia demasiado inconcebível para passar-lhes pela cabeça. Porém, logo se deram conta daquele baronete que se pendurava nos galhos, e estavam alertas, embora com ares de superior desdém.

Ao contrário, papai juntava a amargura pela desobediência de Cosme com sua aversão pelos Rodamargem, como se quisesse culpá-los, atribuindo-lhes responsabilidades pelas incursões no jardim, imaginando que o encobrissem e o encorajassem naquele jogo rebelde. De repente, tomou a decisão de fazer uma excursão para capturar Cosme, não em nossos domínios, mas justamente quando estivesse no jardim dos Rodamargem. Como se pretendesse sublinhar tal intenção agressiva em relação aos vizinhos, não quis ser ele a conduzir a batida, a apresentar-se em pessoa aos Rodamargem pedindo que lhe restituíssem o filho — o que, por mais injustificável que fosse, estaria num nível digno, entre nobres senhores —, mas enviou um grupo de empregados sob as ordens do cavaleiro advogado Eneias Sílvio Carrega.

Chegaram os servidores armados de escadas e cordas aos portões dos Rodamargem. O cavaleiro advogado, vestindo chimarra e fez, gaguejou se lhe permitiam entrar e muitas desculpas. Num primeiro momento, os empregados dos Rodamargem pensaram que tivessem ido podar algumas plantas do nosso lado que entravam no deles; depois, ao ouvir as meias palavras ditas pelo cavaleiro: “Laçam… Laçam…”, olhando entre os ramos com o nariz para cima e dando corridinhas desajeitadas, perguntaram:

— Mas o que deixaram fugir: um papagaio?

— O filho, o primogênito, o rebento — disse o cavaleiro advogado às pressas e, depois de apoiar uma escada num castanheiro-da-índia, começou a subir ele próprio.

Entre os galhos via-se Cosme, que balançava as pernas como se não fosse com ele. Viola, também como se não tivesse nada a ver com aquilo, caminhava pelos canteiros brincando com um aro de metal. Os empregados estendiam ao cavaleiro advogado cordas que não dava para imaginar como prenderiam meu irmão. Mas Cosme, antes que o cavaleiro chegasse ao meio da escada, já estava em cima de outra planta. O cavaleiro deslocou a escada, o que repetiu quatro ou cinco vezes, e em cada movimento estragava um canteiro, enquanto Cosme com dois pulos passava para a árvore vizinha. Viola viu-se de repente cercada por tias e suas ajudantes, levada para dentro a fim de não presenciar aquele alvoroço. Cosme quebrou um galho e, brandindo-o com as duas mãos, deu uma bordoada sibilante no vazio.

— Caros senhores, não poderiam dirigir-se ao vosso espaçoso parque para continuar esta caçada? — disse o marquês de Rodamargem aparecendo solenemente na escadaria da vila, de roupão e barrete, o que o tornava estranhamente parecido com o cavaleiro advogado. — Falo convosco, toda a família Chuvasco de Rondó! — e fez um amplo gesto circular que abrangia o baronete na árvore, o tio natural, os servidores e, além do muro, tudo o que era nosso debaixo do sol.

Nessa altura, Eneias Sílvio Carrega mudou de tom. Trotou para o lado do marquês e, como se não fosse com ele, gaguejando, começou a falar-lhe dos jogos d’água do tanque situado diante deles e de como lhe viera a ideia de um esguicho bem mais alto e de efeito, que também poderia servir, trocando-se uma roseta, para aguar os prados. Essa era uma nova prova de quão imprevisível e não confiável era a índole do nosso tio natural: fora mandado ali pelo barão com uma tarefa precisa e com uma intenção de firme polêmica com os vizinhos; que sentido havia em conversar amigavelmente com o marquês, como se quisesse agradecer-lhe? Ainda mais que tais qualidades de conversador o cavaleiro advogado só as demonstrava quando lhe era conveniente e justamente quando se confiava em seu caráter teimoso. E o melhor foi que o marquês lhe deu corda, fez-lhe perguntas e o levou junto para examinar todos os tanques e repuxos, vestidos iguais, ambos com aqueles longos casacões, imensos, quase da mesma altura, o que daria para confundi-los, e atrás o regimento de criados nossos e deles, alguns com escadas nas costas, que não sabiam mais o que fazer.

Enquanto isso, Cosme saltava impassível pelas árvores vizinhas às janelas da vila, tentando descobrir atrás das cortinas o quarto onde haviam encerrado Viola. Finalmente descobriu-a e lançou uma bolota contra os cortinados.

Abriu-se a janela, surgiu o rosto da menina loura, que disse:

— Por sua culpa estou trancada aqui — fechou de novo, puxou a cortina.

Cosme ficou desesperado.

Quando meu irmão tinha ataques, havia razão para preocupar-se. Nós o víamos correr (se é que a palavra correr tem sentido fora da superfície terrestre e referida a um mundo de sustentáculos irregulares em diversas alturas, tendo o vazio no meio) e parecia que de um momento para o outro lhe faltaria pé e ele cairia, coisa que jamais aconteceu. Saltava, movia passos rapidíssimos sobre um galho oblíquo, pendurava-se e erguia-se de repente num ramo superior, e em quatro ou cinco desses precários zigue-zagues já desaparecera.

Onde andava? Daquela vez correu a bom correr, das azinheiras às oliveiras e às faias, e chegou ao bosque. Parou sem fôlego. Debaixo dele estendia-se um prado. O vento baixo movia uma onda, pelos tufos densos de capim, numa constante alteração de nuances de verde. Esvoaçavam impalpáveis penugens das esferas daquelas flores chamadas dentes-de-leão. No meio erguia-se um pinheiro isolado, inalcançável, com pinhas oblongas. Os pica-paus cinzentos, pássaros rapidíssimos, pousavam nas copas cheias de agulhas, em ponta, em posições enviesadas, alguns revirados com as caudas para cima e o bico para baixo, bicando lagartas e pinhas.

Aquela necessidade de entrar num elemento difícil de ser possuído, que pressionara meu irmão a tornar seus os caminhos das árvores, agora ruminava dentro dele, insatisfeita, e lhe comunicava a ânsia de uma penetração menor, de uma relação que o unisse a todas as folhas e lascas e penas e voos. Tratava-se daquele amor que tem o homem caçador pelo que é vivo e não sabe exprimir a não ser apontando-lhe o fuzil; Cosme ainda não sabia reconhecê-lo e tratava de desabafá-lo insistindo na sua exploração.

O bosque era denso, impraticável. Cosme precisava abrir caminho a golpes de espadim, e pouco a pouco esquecia todas as obsessões, inteiramente preso pelos problemas que devia enfrentar e por um medo (que não queria reconhecer mas existia) de estar afastando-se muito dos locais familiares. Assim, abrindo espaço no intrincado, chegou a um ponto em que viu dois olhos que o fixavam, amarelos, entre as folhas, bem na sua frente. Cosme ergueu o espadim, afastou um ramo, deixou-o voltar de mansinho ao seu lugar. Respirou aliviado, riu do temor que sentira; tinha visto de quem eram aqueles olhos amarelos, eram de um gato.

A imagem do gato, entrevista ao deslocar o ramo, permanecia nítida em sua mente, e após um momento Cosme estava de novo tremendo de medo. Porque aquele gato, em tudo igual a um gato, era um gato terrível, espantoso, de fazer medo só em vê-lo. Não dá para dizer o que tivesse de tão espantoso: era uma espécie de gato-do-mato, maior que todos os gatos-do-mato, mas isso não queria dizer nada, era terrível nos bigodes agudos como dardos de porco-espinho, no bafo que se sentia quase mais com a vista do que com o ouvido sair de uma dupla fila de dentes afiados como ganchos; nas orelhas que eram algo mais do que aguçadas, eram duas chamas de tensão, guarnecidas por uma penugem falsamente tênue; no pelo, todo eriçado, que exibia em volta do pescoço retraído um colar claro, e dali dividiam-se as estrias que fremiam nos flancos como acariciando-se; na cauda firme, numa pose tão artificial que parecia insustentável; a tudo isso que Cosme vira num segundo atrás do ramo logo abandonado para voltar ao próprio lugar acrescentava-se aquilo que não tivera tempo de ver mas imaginava: o tufo exagerado de pelo que em volta das patas ocultava a força lancinante das garras, prontas a jogar-se contra ele; e o que via ainda: íris amarelas que o fixavam entre as folhas rodando em torno da pupila negra; e o que sentia: o rosnar sempre mais pesado e intenso; tudo isso o fez entender que se encontrava diante do mais feroz gato selvagem do bosque.

Silenciavam todos os chilreios e voos. Saltou, o gato-do-mato, mas não contra o rapaz, um salto quase vertical que mais surpreendeu do que assustou Cosme. O susto veio depois, ao ver o felino num ramo exatamente em cima de sua cabeça. Estava lá, encolhido, via sua barriga com o longo pelo quase branco, as patas tesas com as garras na madeira, enquanto arqueava o dorso e fazia fff… e certamente se preparava para lançar-se sobre ele. Cosme, com um movimento perfeito que não foi sequer pensado, passou para um galho mais baixo. Fff… fff… fez o gato selvagem, e a cada fff… dava um pulo, para lá e para cá, e terminou no ramo sobre Cosme. Meu irmão repetiu a manobra, mas acabou montado no ramo mais baixo daquela faia. Embaixo, havia uma certa distância para alcançar o chão, mas não tanto que não fosse preferível saltar em vez de esperar o que ia fazer o animal, assim que terminasse de emitir aquele dilacerante som entre o sopro e o grunhido.

Cosme ergueu uma perna, como se fosse para pular, mas como nele se combatiam dois impulsos — o natural de colocar-se a salvo e o da obstinação de não descer, ainda que com o risco da vida — apertou ao mesmo tempo a coxa e os joelhos no galho; pareceu ao gato que aquele era o momento de lançar-se, enquanto o jovem estava ali oscilante; voou em cima dele numa confusão de pelos, garras eretas e bafo; Cosme não soube fazer nada melhor que fechar os olhos e avançar o espadim, um movimento idiota que o gato evitou e caiu-lhe na cabeça, seguro de arrastá-lo para o chão debaixo das garras. Uma unhada atingiu Cosme na bochecha, mas em vez de cair, colado aos galhos como estava com os joelhos, alongou-se deitando sobre o galho. Exatamente o contrário do que esperava o gato, o qual se viu projetado de lado, caindo ele. Tentou segurar-se, enfiar as garras no tronco, e naquele salto girou sobre si mesmo no ar; um segundo, o quanto bastou a Cosme, num imprevisto impulso de vitória, para dar-lhe uma estocada profunda na barriga e enfiá-lo no espadim.

Estava salvo, imundo de sangue, com a fera metida no espadim como num espeto e um lado do rosto arranhado dos olhos até o queixo por uma tríplice unhada. Urrava de dor e júbilo e não entendia nada, mantendo-se unido ao ramo, à espada, ao cadáver do gato, no momento desesperado de quem venceu a primeira vez e agora sabe que desgraça é vencer, e sabe que doravante será obrigado a continuar no caminho que escolheu e não lhe será dada a salvação de quem falha.

Assim o vi chegar pelas plantas, todo ensanguentado até o cinturão, o chinó desfeito sob o tricórnio deformado, e trazia pelo rabo aquele gato selvagem morto que agora parecia um gato e nada mais.

Corri até a generala no terraço.

— Senhora mãe — gritei —, está ferido!

— Was? Ferido como? — E já apontava a luneta.

— Tão ferido que parece de fato um ferido! — disse eu.

E a generala pareceu julgar pertinente minha definição, porque, seguindo-o com a luneta enquanto saltava mais ágil que nunca, disse:

— Das stimmt.

Imediatamente ocupou-se em preparar gaze, esparadrapo e bálsamos como se tivesse de equipar a ambulância de um batalhão, e me deu tudo, para que entregasse a ele, sem que nem ao menos lhe despertasse a esperança de que ele, devendo medicar-se, decidisse voltar para casa. Com o pacote de curativos, corri para o parque e me coloquei à espera na última amoreira vizinha ao muro dos Rodamargem, pois ele já desaparecera magnólia abaixo.

No jardim dos Rodamargem ele surgiu triunfante com a fera morta nas mãos. E o que viu no largo em frente à vila? Uma carruagem pronta para partir, com os empregados que carregavam as bagagens na imperial e, em meio a um enxame de governantas e tias zangadas e severíssimas, Viola vestida para viagem abraçando o marquês e a marquesa.

— Viola! — gritou e ergueu o gato pela cauda. — Aonde é que você vai?

Todo mundo em volta da carruagem ergueu o olhar para os ramos, e ao vê-lo rasgado, ensanguentado, com cara de louco, a fera morta nas mãos, sentiram um calafrio.

— De nouveau ici! Et arrangé de quelle façon! — E como tomadas de fúria todas as tias empurravam a menina para a carruagem.

Viola virou-se de nariz empinado e com ar de despeito, um despeito aborrecido e provocante contra os parentes mas que também poderia ser contra Cosme, escandiu a frase (certamente em resposta à pergunta dele):

— Mandam-me para o colégio interno! — E virou-se para subir na carruagem. Não se dignara a dirigir-lhe um olhar, nem a ele nem à sua caça.

A portinhola já estava fechada, o cocheiro no assento, e Cosme, que não podia admitir aquela partida, tratou de atrair a atenção dela, demonstrar que lhe dedicava aquela vitória cruel, mas não soube explicar-se a não ser gritando-lhe:

— Derrotei um gato!

O chicote estalou, a carruagem partiu entre o sacudir de lenços das tias, e da portinhola ouviu-se um “Viva, bravo!” de Viola, que tanto podia ser de entusiasmo como de provocação.

Essa foi a despedida deles. E em Cosme, a tensão, a dor dos arranhões, a desilusão de não obter glória em sua empreitada, o desespero por aquela separação imprevista, tudo se engasgou e prorrompeu num pranto feroz, cheio de berros e ramos arrancados.

— Hors d’ici! Hors d’ici! Polisson sauvage! Hors de notre jardin! — berravam as tias, e todos os empregados dos Rodamargem acorriam com longos bastões ou atirando pedras para expulsá-lo.

Cosme jogou o gato morto na cara do que estava mais próximo, soluçando e gritando. Os servos pegaram o bicho pela cauda e o jogaram numa estrumeira.

Quando soube que nossa vizinha havia partido, por algum tempo esperei que Cosme descesse. Não sei por quê, relacionava com ela, ou também com ela, a decisão de meu irmão de ficar nas árvores.

Contudo, nem se tocou no assunto. Subi para levar-lhe bandagens e esparadrapo, e ele tratou sozinho dos arranhões do rosto e dos braços. Depois pediu uma linha de pesca com um anzol. Utilizou-os para recuperar, do alto de uma oliveira que pairava sobre o monturo dos Rodamargem, o gato morto. Arrancou-lhe o couro, ajeitou a pele da melhor maneira e fez um gorro. Foi o primeiro gorro de pele que o vimos usar.