O Cobrador
Almoço na serra no domingo de carnaval
Na subida da serra um a m ulher pequena, de chapéu de abas largas, fez sinal pedindo carona. Usava m inissaia de cetim , bustiê de lantej oulas verm elhas, luvas brancas longas quase até o cotovelo.
Parei o carro.
Vai subir? Voz de falsete. Dentes ruins. Batom verm elho brilhante. Tinha qualquer coisa num a das vistas, ligeiram ente fechada e rem elenta. Pestanas pintadas de rím el.
Não. Desculpe, eu disse acelerando o carro.
Se fosse um a m ulher eu a teria levado com igo. Vergonha de dar carona para um travesti? Medo do travesti? Ele era tão frágil m as eu tinha m edo dele? Era isso? Ou eu m e aborrecera por ele não ser um a m ulher e eu queria que o destino pusesse na m inha frente um a m ulher que m e levasse para outro lugar que não aquele para onde eu estava indo?
Ao ver o m uro de cerca viva senti um aperto no coração. Quando atravessei o portão de pedra com ecei a chorar. Dei m archa a ré e segui pela estrada. A últim a vez que eu havia chorado fora há tanto tem po que eu até tinha esquecido com o era.
Voltei, agora podia olhar a casa sem sobressaltos. Aquelas árvores estavam ali desde o início do m undo, e tam bém os pássaros, os sapos, os esquilos e o lagarto preto de m anchas am arelas que habitava a beira do rio.
A senhorita Sônia está na piscina, vou conduzi-lo até lá, disse o copeiro que m e recebeu na varanda da casa.
Não é preciso, sei o cam inho.
Carros nas alam edas. O gram ado e o j ardim estavam bem -cuidados. Havia caram anchões novos, cobertos de trepadeiras.
Parei a certa distância da piscina cercada de m esas cobertas por enorm es guarda-sóis coloridos. As pessoas em traj es de banho deitavam -se em espreguiçadeiras, nadavam , conversavam , bebiam e com iam salgadinhos servidos por garçons de preto. “Apenas um grupo de am igos m ais chegados”, dissera Sônia. Eram um as cem pessoas.
Você que é o Zeca?, perguntou um a garota vestida com um a pequena tanga.
Eu sou Suely, irm ã da Sônia, ela está na piscina. Por que você não veste a sua roupa de banho?
Eu não trouxe.
Suely segurou a m inha m ão. Vem que eu vou te arranj ar um calção.
Não, eu não quero tom ar banho de piscina.
Você está m uito pálido, com um a cor horrível.
Não quero, obrigado.
Quer beber algum a coisa?
Não obrigado. Me faz um favor? Cham a Sônia pra m im .
Eu não queria ser apresentado àquela gente, sorrir, apertar m ãos.
Sônia veio correndo. Seu corpo queim ado de sol parecia feito de cobre. Quis
m e beij ar na boca, m as eu virei o rosto.
O que é? Está zangado?
Não.
Vai botar o teu calção de banho.
Eu não trouxe calção de banho.
Eu te arranj o um . A água da piscina está um a m aravilha.
Eu não quero tom ar banho de piscina.
Você está branco dem ais. Destoante.
Destoante do que ou de quem ?
De m im , por exem plo. Sônia riu, dentes m uito brancos. Vem que eu quero te
apresentar m inha m ãe e m eu pai.
Depois.
Eles querem m uito conhecer você.
Depois.
O que é que você tem ?
Nada. Tua casa é bonita.
E você ainda não viu tudo, este sítio é enorm e. Está vendo lá adiante? Tem um bosque tão grande que a gente até se perde dentro dele. E do outro lado do rio tem um pom ar com m ais de m il árvores frutíferas. Só j abuticabeiras são m ais de cem .
Surgiu ao nosso lado um hom em de calção de banho, segurando um copo. Ele colocou a m ão com o copo no m eu om bro e a outra m ão no om bro de Sônia.
Então este é o j ovem que está nam orando a m inha filha? Onde é que está o seu copo? Não está bebendo nada? E o seu calção?
Sem esperar resposta tocou com o copo frio no m eu braço, sorriu e afastou-se. Adiante parou para falar com um casal.
Eu estava m orrendo de saudades, disse Sônia.
E o lagarto da beira do rio?
Sônia m e olhou sem entender, por alguns segundos.
Ah! o lagarto. Papai m andou o caseiro m atar, a m am ãe m orria de m edo dele. Com o é que você sabia que tinha um lagarto aqui?
Esta casa j á foi m inha, eu disse. Passei m inha vida nela.
É m esm o? Que coisa m ais engraçada. Nós com pram os o sítio no ano passado. Então foi de vocês que nós com pram os?
Olhei seu rosto perfeito, saudável. Fizeram um a pulseirinha de relógio com a pele do lagarto?, perguntei.
Papai, vem cá, que coisa m ais engraçada.
O pai de Sônia parou de conversar com o casal e se aproxim ou de nós.
Você não está bebendo nada, m eu rapaz? Não quer um drinque?
Papai, você sabia que esta casa j á foi do Zeca?
Não, não sabia, disse o pai de Sônia, eu não cheguei a conhecer ninguém de
sua fam ília, toda a operação foi feita através de um corretor, logo que chegam os de São Paulo. Soube do que aconteceu com vocês. A vida é assim m esm o. Mas vej o que você suportou bem os golpes. Vá botar o seu calção, rapaz. Arranj a um drinque para ele, Sônia.
Outro sorriso, nova retirada. O pai dela não parava. Cem convidados.
Vocês fizeram um a pulseirinha com a pele do lagarto? ou um a sandália? ou foi
um a carteira de notas para o papai banqueiro?
Meu bem , o que está acontecendo com você? Nunca te vi assim .
Estávam os andando por dentro do bosque, indo na direção do rio. Sônia havia
colocado um roupão sobre a roupa de banho. Param os em frente à cachoeira. Tirei o roupão de Sônia e coloquei-o no chão.
É pena que você não estej a de calção, podíam os tom ar um banho de
cachoeira, disse Sônia aflita.
Deita, eu disse.
Não, m eu bem , por favor.
Agarrei os om bros de Sônia e sacudi o seu corpo.
Por favor, você está m e m achucando.
Obriguei-a a deitar-se. Arranquei o seu biquíni.
Vira de costas, anda.
Você acha que é assim que um hom em trata a m ulher que ele am a?
Cala a boca, eu disse, agarrando-a com força.
Quando acabei, levantei-m e e fui em bora sem olhar para trás. Entrei no carro.
Desci a serra velozm ente. Queria ter coragem para j ogar o carro num precipício e acabar com tudo. Mas apenas chorava. Duas vezes no m esm o dia! Que inferno estava acontecendo com igo?