O Cobrador

Rubem Fonseca · Capítulo 8 de 12

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O Cobrador

Almoço na serra no domingo de carnaval

Na subida da serra um a m ulher pequena, de chapéu de abas largas, fez sinal pedindo carona. Usava m inissaia de cetim , bustiê de lantej oulas verm elhas, luvas brancas longas quase até o cotovelo.

Parei o carro.

Vai subir? Voz de falsete. Dentes ruins. Batom verm elho brilhante. Tinha qualquer coisa num a das vistas, ligeiram ente fechada e rem elenta. Pestanas pintadas de rím el.

Não. Desculpe, eu disse acelerando o carro.

Se fosse um a m ulher eu a teria levado com igo. Vergonha de dar carona para um travesti? Medo do travesti? Ele era tão frágil m as eu tinha m edo dele? Era isso? Ou eu m e aborrecera por ele não ser um a m ulher e eu queria que o destino pusesse na m inha frente um a m ulher que m e levasse para outro lugar que não aquele para onde eu estava indo?

Ao ver o m uro de cerca viva senti um aperto no coração. Quando atravessei o portão de pedra com ecei a chorar. Dei m archa a ré e segui pela estrada. A últim a vez que eu havia chorado fora há tanto tem po que eu até tinha esquecido com o era.

Voltei, agora podia olhar a casa sem sobressaltos. Aquelas árvores estavam ali desde o início do m undo, e tam bém os pássaros, os sapos, os esquilos e o lagarto preto de m anchas am arelas que habitava a beira do rio.

A senhorita Sônia está na piscina, vou conduzi-lo até lá, disse o copeiro que m e recebeu na varanda da casa.

Não é preciso, sei o cam inho.

Carros nas alam edas. O gram ado e o j ardim estavam bem -cuidados. Havia caram anchões novos, cobertos de trepadeiras.

Parei a certa distância da piscina cercada de m esas cobertas por enorm es guarda-sóis coloridos. As pessoas em traj es de banho deitavam -se em espreguiçadeiras, nadavam , conversavam , bebiam e com iam salgadinhos servidos por garçons de preto. “Apenas um grupo de am igos m ais chegados”, dissera Sônia. Eram um as cem pessoas.

Você que é o Zeca?, perguntou um a garota vestida com um a pequena tanga.

Eu sou Suely, irm ã da Sônia, ela está na piscina. Por que você não veste a sua roupa de banho?

Eu não trouxe.

Suely segurou a m inha m ão. Vem que eu vou te arranj ar um calção.

Não, eu não quero tom ar banho de piscina.

Você está m uito pálido, com um a cor horrível.

Não quero, obrigado.

Quer beber algum a coisa?

Não obrigado. Me faz um favor? Cham a Sônia pra m im .

Eu não queria ser apresentado àquela gente, sorrir, apertar m ãos.

Sônia veio correndo. Seu corpo queim ado de sol parecia feito de cobre. Quis

m e beij ar na boca, m as eu virei o rosto.

O que é? Está zangado?

Não.

Vai botar o teu calção de banho.

Eu não trouxe calção de banho.

Eu te arranj o um . A água da piscina está um a m aravilha.

Eu não quero tom ar banho de piscina.

Você está branco dem ais. Destoante.

Destoante do que ou de quem ?

De m im , por exem plo. Sônia riu, dentes m uito brancos. Vem que eu quero te

apresentar m inha m ãe e m eu pai.

Depois.

Eles querem m uito conhecer você.

Depois.

O que é que você tem ?

Nada. Tua casa é bonita.

E você ainda não viu tudo, este sítio é enorm e. Está vendo lá adiante? Tem um bosque tão grande que a gente até se perde dentro dele. E do outro lado do rio tem um pom ar com m ais de m il árvores frutíferas. Só j abuticabeiras são m ais de cem .

Surgiu ao nosso lado um hom em de calção de banho, segurando um copo. Ele colocou a m ão com o copo no m eu om bro e a outra m ão no om bro de Sônia.

Então este é o j ovem que está nam orando a m inha filha? Onde é que está o seu copo? Não está bebendo nada? E o seu calção?

Sem esperar resposta tocou com o copo frio no m eu braço, sorriu e afastou-se. Adiante parou para falar com um casal.

Eu estava m orrendo de saudades, disse Sônia.

E o lagarto da beira do rio?

Sônia m e olhou sem entender, por alguns segundos.

Ah! o lagarto. Papai m andou o caseiro m atar, a m am ãe m orria de m edo dele. Com o é que você sabia que tinha um lagarto aqui?

Esta casa j á foi m inha, eu disse. Passei m inha vida nela.

É m esm o? Que coisa m ais engraçada. Nós com pram os o sítio no ano passado. Então foi de vocês que nós com pram os?

Olhei seu rosto perfeito, saudável. Fizeram um a pulseirinha de relógio com a pele do lagarto?, perguntei.

Papai, vem cá, que coisa m ais engraçada.

O pai de Sônia parou de conversar com o casal e se aproxim ou de nós.

Você não está bebendo nada, m eu rapaz? Não quer um drinque?

Papai, você sabia que esta casa j á foi do Zeca?

Não, não sabia, disse o pai de Sônia, eu não cheguei a conhecer ninguém de

sua fam ília, toda a operação foi feita através de um corretor, logo que chegam os de São Paulo. Soube do que aconteceu com vocês. A vida é assim m esm o. Mas vej o que você suportou bem os golpes. Vá botar o seu calção, rapaz. Arranj a um drinque para ele, Sônia.

Outro sorriso, nova retirada. O pai dela não parava. Cem convidados.

Vocês fizeram um a pulseirinha com a pele do lagarto? ou um a sandália? ou foi

um a carteira de notas para o papai banqueiro?

Meu bem , o que está acontecendo com você? Nunca te vi assim .

Estávam os andando por dentro do bosque, indo na direção do rio. Sônia havia

colocado um roupão sobre a roupa de banho. Param os em frente à cachoeira. Tirei o roupão de Sônia e coloquei-o no chão.

É pena que você não estej a de calção, podíam os tom ar um banho de

cachoeira, disse Sônia aflita.

Deita, eu disse.

Não, m eu bem , por favor.

Agarrei os om bros de Sônia e sacudi o seu corpo.

Por favor, você está m e m achucando.

Obriguei-a a deitar-se. Arranquei o seu biquíni.

Vira de costas, anda.

Você acha que é assim que um hom em trata a m ulher que ele am a?

Cala a boca, eu disse, agarrando-a com força.

Quando acabei, levantei-m e e fui em bora sem olhar para trás. Entrei no carro.

Desci a serra velozm ente. Queria ter coragem para j ogar o carro num precipício e acabar com tudo. Mas apenas chorava. Duas vezes no m esm o dia! Que inferno estava acontecendo com igo?