O Cobrador

Rubem Fonseca · Capítulo 6 de 12

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O Cobrador

Livro de ocorrências

1.

O investigador Miro trouxe a m ulher à m inha presença.

Foi o m arido, disse Miro, desinteressado. Naquela delegacia de subúrbio era

com um briga de m arido e m ulher.

Ela estava com dois dentes partidos na frente, os lábios feridos, o rosto inchado.

Marcas nos braços e no pescoço.

Foi o seu m arido que fez isso?, perguntei.

Não foi por m al, doutor, eu não quero dar queixa.

Então por que a senhora veio aqui?

Na hora eu fiquei com raiva, m as j á passou. Posso ir em bora?

Não.

Miro suspirou. Deixa a m ulher ir em bora, disse ele entre dentes.

A senhora sofreu lesões corporais, é um crim e de ação pública, independe de

sua queixa. Vou enviá-la a exam e de corpo delito, eu disse.

Ubiratan é nervoso m as não é m á pessoa, ela disse. Por favor, não faz nada

com ele.

Eles m oravam perto. Decidi ir falar com Ubiratan. Um a vez, em Madureira,

eu havia convencido um suj eito a não bater m ais na m ulher; outros dois, quando trabalhei na Delegacia de Jacarepaguá, tam bém haviam sido persuadidos a tratar a m ulher com decência.

Um hom em alto e m usculoso abriu a porta. Estava de calção, sem cam isa.

Num canto da sala havia um a barra de aço com pesadas anilhas de ferro e dois halteres pintados de verm elho. Ele devia estar fazendo exercícios quando cheguei. Seus m úsculos estavam inchados e cobertos por grossa cam ada de suor. Ele exalava a força espiritual e o orgulho que um a boa saúde e um corpo cheio de m úsculos dão a certos hom ens.

Sou da Delegacia, eu disse.

Ah, então ela foi m esm o dar queixa, a idiota, Ubiratan resm ungou.

Abriu a geladeira, tirou um a lata de cervej a, destam pou e com eçou a beber.

Vai e diz pra ela voltar logo para casa senão vai ter.

Acho que você ainda não percebeu o que vim fazer aqui. Vim convidá-lo para depor na Delegacia.

Ubiratan atirou a lata vazia pela j anela, pegou a barra de aço e levantou-a sobre a cabeça dez vezes, respirando ruidosam ente pela boca, com o se fosse um a locom otiva.

Você acha que eu tenho m edo da polícia?, ele perguntou, olhando com adm iração e carinho os m úsculos do peito e dos braços.

Não é preciso ter m edo. Você vai lá apenas para depor.

Ubiratan pegou m eu braço e m e sacudiu.

Cai fora, tira noj ento, você está m e irritando.

Tirei o revólver do coldre. Posso processá-lo por desacato, m as não vou fazer isso. Não com plique as coisas, venha com igo à Delegacia, em m eia hora estará livre, eu disse, calm am ente e com delicadeza.

Ubiratan riu. Qual é tua altura, anãozinho?

Um m etro e setenta. Vam os em bora.

Vou tirar essa m erda da sua m ão e m ij ar no cano, anãozinho. Ubiratan contraiu todos os m úsculos do corpo, com o um anim al se arrepiando para assustar o outro, e estendeu o braço, a m ão aberta para agarrar o m eu revólver. Atirei na sua coxa. Ele m e olhou atônito.

Olha o que você fez com o m eu sartório!, Ubiratan gritou m ostrando a própria coxa, você é m aluco, o m eu sartório!

Sinto m uito, eu disse, agora vam os em bora senão atiro na outra perna.

Pra onde você vai m e levar, anãozinho?

Prim eiro para o hospital, depois para a Delegacia.

Isso não vai ficar assim , anãozinho, tenho am igos influentes.

O sangue escorria pela sua perna, pingava no assoalho do carro.

Desgraçado, o m eu sartório! Sua voz era m ais estridente do que a sirene que

abria nosso cam inho pelas ruas.

2.

Manhã quente de dezem bro, rua São Clem ente. Um ônibus atropelou um

m enino de dez anos. As rodas do veículo passaram sobre a sua cabeça deixando um rastro de m assa encefálica de alguns m etros. Ao lado do corpo um a bicicleta nova, sem um arranhão.

Um guarda de trânsito prendeu em flagrante o m otorista. Duas testem unhas

afirm aram que o ônibus vinha em grande velocidade.

O local do acidente foi isolado cuidadosam ente.

Um a velha, m alvestida, com um a vela acesa na m ão, queria atravessar o

cordão de isolam ento, “para salvar a alm a do anj inho”.

Foi im pedida. Com os outros espectadores, ela ficou contem plando o corpo de

longe. Separado, no m eio da rua, o cadáver parecia ainda m enor.

Ainda bem que hoj e é feriado, disse um guarda, desviando o trânsito, j á

im aginou isso num dia com um ?

Aos gritos um a m ulher rom peu o cordão de isolam ento e levantou o corpo do

chão. Ordenei que ela o largasse. Torci seu braço, m as ela não parecia sentir dor, gem ia alto, sem ceder. Eu e os guardas lutam os com ela até conseguir tirar o m orto dos seus braços e colocá-lo no chão onde ele devia ficar, aguardando a perícia. Dois guardas arrastaram a m ulher para longe.

Esses m otoristas de ônibus são todos uns assassinos, disse o perito, ainda bem

que o local está perfeito, dá pra fazer um laudo que nenhum rábula vai derrubar.

Fui até o carro da polícia e sentei no banco da frente, por alguns m om entos. Meu paletó estava suj o de pequenos despoj os do m orto. Tentei lim par-m e com as m ãos. Cham ei um dos guardas e m andei trazer o preso.

No cam inho da Delegacia olhei para ele. Era um hom em m agro, aparentando uns sessenta anos, e parecia cansado, doente e com m edo. Um m edo, um a doença e um cansaço antigos, que não eram apenas daquele dia.

3.

Cheguei ao sobrado na rua da Cancela e o guarda que estava na porta disse: prim eiro andar. Ele está no banheiro.

Subi. Na sala um a m ulher com os olhos verm elhos m e olhou em silêncio. Ao seu lado um m enino m agro, m eio encolhido, de boca aberta, respirando com dificuldade.

O banheiro? Ela m e apontou um corredor escuro. A casa cheirava a m ofo, com o se os encanam entos estivessem vazando no interior das paredes. De algum lugar vinha um odor de cebola e alho fritos.

A porta do banheiro estava entreaberta. O hom em estava lá.

Voltei para a sala. Já havia feito todas as perguntas à m ulher quando o perito Azevedo chegou.

No banheiro, eu disse.

Anoitecia. Acendi a luz da sala. Azevedo m e pediu aj uda. Fom os para o banheiro.

Levanta o corpo, disse o perito, para eu soltar o laço.

Segurei o m orto pela barriga. Da sua boca saiu um gem ido.

Ar preso, disse Azevedo, esquisito não é? Rim os sem prazer. Pusem os o corpo no chão úm ido. Um hom em franzino, a barba por fazer, o rosto cinzento, parecia um boneco de cera.

Ele não deixou bilhete, nada, eu disse.

Eu conheço esse tipo, disse Azevedo, quando não aguentam m ais eles se m atam depressa, tem que ser depressa senão se arrependem .

Azevedo urinou no vaso sanitário. Depois lavou as m ãos na pia e enxugou-as

nas fraldas de sua cam isa.