O Cobrador

Rubem Fonseca · Capítulo 10 de 12

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O Cobrador

O jogo do morto

Eles se reuniam no Bar do Anísio, todas as noites. Marinho, dono da principal

farm ácia da cidade, Fernando e Gonçalves, sócios num arm azém , e Anísio. Nenhum deles era natural da cidade ou m esm o da Baixada. Anísio e Fernando eram m ineiros e Marinho cearense. Gonçalves viera de Portugal. Eram pequenos com erciantes, prósperos e am biciosos. Possuíam m odestas casas de veraneio no m esm o condom ínio na região dos lagos, eram do Lion’s, iam à igrej a, levavam um a vida pacata. Tinham ainda em com um um grande interesse por todas as form as de j ogo a dinheiro. Costum avam fazer apostas, entre eles, em j ogos de cartas, j ogos de futebol, corridas de cavalos, corridas de autom óvel, concursos de m isses, em tudo que fosse aleatório. Jogavam alto, m as nenhum deles costum ava perder m uito dinheiro, um a fase de perdas era sucedida quase sem pre por um a de ganhos. Nos últim os m eses, todavia, Anísio, o dono do bar, vinha perdendo continuadam ente.

Jogavam cartas e bebiam cervej a na noite em que foi inventado o j ogo do

m orto. Anísio inventou o j ogo.

Aposto que o esquadrão este m ês m ata m ais de vinte, ele disse.

Fernando observou que m ais de vinte era m uito vago.

Aposto que o esquadrão m ata vinte e um , este m ês, disse Anísio.

Só aqui na cidade ou em toda a Baixada?, perguntou Gonçalves.

Apesar de estar no Brasil há m uitos anos seu sotaque ainda era forte.

Mil pratas que o esquadrão m ata vinte e um , este m ês, aqui em Meriti, insistiu

Anísio.

Aposto que m ata sessenta e nove, disse Gonçalves, rindo.

Acho m uito, disse Marinho.

Estou brincando, disse Gonçalves.

Brincando porra nenhum a, disse Anísio j ogando a carta com força na m esa,

falou está falado, azar de quem diz besteira, cansei de quebrar a cara assim .

Era verdade.

Vocês conhecem a história do português e do sessenta e nove?, perguntou Anísio. Foram explicar para o português o que era sessenta

e nove; ele ficou horrorizado e disse — Meu Deus, que coisa m ais noj enta, eu não faria isso nem com a m inha m ãezinha.

Todos riram , m enos Gonçalves.

Sabe que esse j ogo é bom ?, disse Fernando. Mil pratas que o esquadrão m ata um a dúzia. Ei Anísio! que tal um queij inho para acom panhar a cervej inha? E um a porção daquele salam inho?

Anota aí, disse Anísio para Marinho, que num livro de capa verde registrava as apostas, m ais m il que dos m eus vinte e um dez são m ulatos, oito são pretos e dois são brancos.

Quem vai decidir quem é branco, preto ou m ulato? Aqui é tudo m isturado. E com o vam os saber se quem m atou foi m esm o o esquadrão?, perguntou Gonçalves.

O que sair em O Dia é que vale. Se disser que é preto, é preto, se disser que foi o esquadrão, foi o esquadrão. De acordo?, perguntou Marinho.

Outra m ilha que o m ais m oço dos m eus tem dezoito anos e o m ais velho vinte e seis, disse Anísio.

Nesse instante entrou no bar O Falso Perpétuo e logo os quatro parceiros se calaram . O Falso Perpétuo tinha cabelos lisos, negros, feições ossudas, o olhar im passível e nunca ria, igual ao Perpétuo Verdadeiro, um detetive fam oso que haviam assassinado anos antes. Nenhum dos j ogadores sabia o que O Falso Perpétuo fazia, talvez fosse apenas um bancário ou funcionário público, m as a presença dele, que vez por outra ia ao Bar do Anísio, sem pre atem orizava os quatro am igos. Ninguém sabia o seu nom e, sendo O Falso Perpétuo um apelido colocado por Anísio, que dizia haver conhecido o Verdadeiro.

Ele usava dois quarenta e cinco, um de cada lado da cintura, e a gente via a cartucheira largona em cim a da calça. Tinha o hábito de ficar esfregando de leve, entre os dedos, as abas do paletó, com o esses bebezinhos fazem com as fraldas, um sinal de alerta, estava sem pre pronto para sacar as arm as e atirava com as duas m ãos. Para m atarem ele, teve que ser pelas costas.

O Falso Perpétuo sentou-se e pediu um a cervej a, sem olhar para os j ogadores, m as virando um pouco a cabeça, o pescoço retesado; talvez prestasse atenção ao que o grupo dizia.

Acho que é só im pressão da gente, m urm urou Fernando, e sej a lá quem ele

for, pra que ficarm os preocupados? Quem não deve não tem e.

Não sei, não sei, disse Anísio pensativo. Passaram a j ogar as cartas em

silêncio, esperando O Falso Perpétuo ir em bora.

No fim do m ês, de acordo com O Dia, o esquadrão havia executado vinte e

seis pessoas, sendo dezesseis m ulatos, nove pretos e um branco, o m ais novo tinha quinze anos, era egresso da Funabem , e o m ais velho trinta e oito.

Vam os com em orar a vitória, disse Gonçalves para Marinho, que j unto com ele

havia ganho a m aioria das apostas. Beberam cervej a, com eram queij o, presunto e pastéis.

Três m eses de azar, disse Anísio soturno. Ele havia perdido tam bém no pôquer,

nos cavalos e no futebol; a lanchonete que com prara em Caxias estava dando prej uízo, seu crédito bancário piorava e a j ovem m ulher com quem se casara há pouco m ais de seis m eses gastava m uito.

E agora vam os entrar em agosto, ele disse, o m ês em que Getúlio deu o tiro no

coração. Eu era garoto, trabalhava num bar da rua do Catete e vi tudo, o choro e os gritos, o povo desfilando diante do caixão, o corpo sendo transportado para o Santos Dum ont, os soldados atirando de m etralhadora na m ultidão. Se dei azar em j ulho, im aginem em agosto.

Então não aposta este m ês, disse Gonçalves, que acabara de em prestar

duzentos m il cruzeiros a Anísio.

Não, este m ês eu pretendo recuperar parte do que perdi, disse Anísio com

rancor.

Os quatro am igos, para o m ês de agosto, am pliaram as regras do j ogo. Além

da quantidade, da idade e da cor dos m ortos, foi acrescentada a naturalidade, o estado civil e a profissão. O j ogo tornava-se com plexo.

Acho que inventam os um j ogo que vai ficar m ais popular do que o j ogo do

bicho, disse Marinho. Já m eio em briagados riram tanto que Fernando chegou a urinar nas calças.

O fim do m ês se aproxim ava e Anísio, cada vez m ais irritado, discutia frequentem ente com os com panheiros. Naquele dia ele estava m ais exasperado e nervoso do que nunca e seus am igos esperavam , constrangidos, a hora de acabar a partida de cartas.

Quem topa um m ano a m ano com igo?, disse Anísio.

Mano a m ano com o?, perguntou Marinho, que de todos era o que ganhara m ais vezes.

Aposto que o esquadrão este m ês m ata um a m enina e um com erciante. Duzentas m il pratas.

Que loucura, disse Gonçalves, pensando no seu dinheiro e no fato de que o esquadrão j am ais m atava m eninas e com erciantes.

Duzentos m il, repetiu Anísio, num a voz am arga, e você, Gonçalves, para de cham ar os outros de m alucos, m aluco é você que deixou a sua terra para vir para este país de m erda.

Eu topo, disse Marinho, essa você não tem chance de ganhar, j á estam os quase no fim do m ês.

Perto das onze horas os parceiros acabaram a partida e se despediram rapidam ente.

Os garçons foram em bora e Anísio ficou sozinho no bar. Nos outros dias ele corria para casa, para perto de sua j ovem m ulher. Mas naquele dia ele ficou sentado bebendo cervej a até pouco depois de um a da m anhã, quando bateram na porta dos fundos.

O Falso Perpétuo entrou e sentou-se na m esa de Anísio.

Quer um a cervej a?, disse Anísio, evitando tratar O Falso Perpétuo de senhor ou de você, em dúvida quanto ao grau de respeito que devia lhe tributar.

Não. Qual é o assunto? O Falso Perpétuo falava baixo, um a voz m acia, apática, indiferente.

Anísio relatou as apostas no j ogo do m orto que ele e os am igos faziam todos os m eses. O visitante ouvia em silêncio, ereto na cadeira, as m ãos apoiadas nas pernas; por instantes pareceu a Anísio que O Falso Perpétuo esfregava entre os dedos as abas do paletó, com o o Verdadeiro, m as não, havia sido um engano.

Anísio com eçou a sentir-se m al com a suavidade do hom em , talvez não

passasse m esm o de um funcionário burocrático. Meu Deus, pensou Anísio, duzentos m il j ogados fora, ia ter que vender a lanchonete de Caxias; inesperadam ente pensou em sua j ovem m ulher, no seu corpo tépido e redondo.

O esquadrão tem que m atar um a m enina e um com erciante ainda este m ês

para eu sair do buraco, disse Anísio.

E o que é que eu tenho com isso? Suave.

Anísio se encheu de coragem ; havia bebido m uita cervej a, estava à beira da

ruína e sentia-se m al, com o se não pudesse respirar direito.

Acho que você é do esquadrão da m orte.

O Falso Perpétuo m anteve-se insondável.

Qual a proposta?

Dez m il se você m atar um a m enina e um com erciante. Você ou os seus

colegas, para m im tanto faz.

Anísio suspirou, infeliz. Agora, que via o seu plano prestes a se realizar, um a

sensação de fraqueza tom ava conta do seu corpo.

Você tem o dinheiro aqui? Posso fazer o serviço hoj e m esm o.

Tenho em casa.

Por onde com eço?

Os dois de um a vez.

Algum a preferência?

Gonçalves, o dono do arm azém , e a filha.

O galego seu am igo?

Ele não é m eu am igo. Outro suspiro.

Que idade tem a filha dele?

Doze anos. A im agem da m enina tom ando refrigerante no bar surgia e desaparecia de sua cabeça, com o um a pontada de dor.

Está bem , disse O Falso Perpétuo, m e m ostra a casa do galego. Anísio notou então que sobre o cinto da calça ele tam bém usava um cinturão largo.

Entraram no carro de O Falso Perpétuo e rum aram para a casa de Gonçalves. Àquela hora a cidade estava deserta. Pararam a cinquenta m etros da casa. Do cofre do painel O Falso Perpétuo tirou duas folhas de papelão onde desenhou, de form a tosca, duas caveiras com as iniciais E. M. em baixo.

Vai ser rápido, disse O Falso Perpétuo saindo do carro.

Anísio colocou as m ãos nos ouvidos, fechou os olhos e curvou-se no banco do carro até que o seu rosto tocou o forro plástico do assento, de onde saía um cheiro ruim que lem brava a sua infância. Seus ouvidos zum biam . Passou-se um longo tem po, até que ouviu três tiros.

O Falso Perpétuo voltou, entrou no carro.

Vam os apanhar o m eu dinheiro, j á despachei os dois. Matei a velha, de lam buj a.

Pararam na porta da casa de Anísio. Ele entrou em casa. Sua m ulher estava deitada, as costas nuas viradas para a porta do quarto. Ela costum ava deitar-se de lado e o seu corpo visto de costas era m ais bonito. Anísio apanhou o dinheiro e saiu.

Sabe que não sei o seu nom e, disse Anísio no carro, enquanto O Falso Perpétuo contava o dinheiro.

É m elhor assim .

Eu coloquei um apelido em você.

Qual?

O Falso Perpétuo. Anísio tentou rir, m as seu coração estava pesado e triste.

Teria sido ilusão? O olhar do outro havia ficado subitam ente alerta e ele esfregava delicadam ente as abas do paletó. Os dois ficaram se olhando na penum bra do carro. Ao perceber o que ia acontecer Anísio sentiu um a espécie de desafogo.

O Falso Perpétuo tirou da cintura um enorm e engenho negro, apontou para o

peito de Anísio e atirou. Anísio ouviu o estrondo e depois um silêncio m uito grande. Perdão, ele tentou dizer, sentindo o sangue na boca e procurando se lem brar de um a prece, enquanto o rosto ossudo de Cristo ao seu lado, ilum inado pela luz da rua, escurecia rapidam ente.