O Cobrador
Mandrake
Eu j ogava com as brancas e em pregava o bispo em fianqueto. Berta
preparava um forte centro de peões.
Aqui é do escritório do dr. Paulo Mendes, disse a m inha voz no telefone-
gravador, dando a quem ligava trinta segundos para deixar sua m ensagem . O suj eito disse se cham ar Cavalcante Méier, com o se entre os dois nom es existisse um hífen, e que estavam tentando envolvê-lo num crim e, m as — tlec — o tem po dele acabou antes de dizer o que pretendia.
Sem pre que a gente está num j ogo duro um cliente telefona, disse Berta.
Tom ávam os vinho Faísca.
O suj eito ligou novam ente, pedindo que eu ligasse para a casa dele. Um
telefone da zona sul. Atendeu um a voz velha, cheia de calos (de reverência) nas cordas vocais. Era o m ordom o. Foi cham ar o doutor.
Tem m ordom o na história, j á sei quem é o assassino. Mas Berta não achou
graça. Além de viciada em xadrez ela levava tudo a sério.
Reconheci a voz do gravador: o que quero lhe relatar tem que ser
pessoalm ente, posso passar no seu escritório?
Eu estou em casa, expliquei, dando o m eu endereço.
Mixou o j ogo, bebê (Berta Bronstein), eu disse, discando o telefone.
Alô, dr. Medeiros, com o é que vai a situação?
Medeiros disse que a situação não era grave, m as tam bém não era tranquila.
Medeiros só pensava em política, tinha sido coisa e loisa no início da revolução e apesar do seu escritório ser o m aior da cidade ele não se libertava da nostalgia do poder. Perguntei se ele conhecia um tal de Cavalcante Méier.
Todo m undo conhece.
Eu não. Até pensei que o nom e fosse falso.
Medeiros contou que o hom em era fazendeiro em São Paulo e no Norte,
exportador de café, açúcar e soj a, suplente de senador por Alagoas, um hom em rico.
O que m ais? Tem rabo de palha, andou m etido em com borças financeiras, é tarado sexual, além de latifundiário?
Para você o m undo só tem canalhas, não é? O senador é um hom em público da m aior honorabilidade, um líder em presarial, um cidadão exem plar, inatacável.
Lem brei a ele que o banqueiro J. J. Santos tam bém era inatacável e eu tivera de livrá-lo das garras de um travesti m aníaco num m otel da Barra.
Você ganhou dele um Mercedes, é assim que agradece?
Eu não tinha ganho o carro, tinha extorquido, com o os banqueiros fazem , j uros e taxa de adm inistração.
Medeiros com voz m elíflua: qual o problem a com o Cavalcante Méier?
Eu disse que não sabia.
Vam os acabar a partida, disse Berta.
Não posso receber o suj eito nu, posso?, eu disse.
Estava m e vestindo quando a cam painha tocou, três vezes em dez segundos. Um hom em im paciente, acostum ado a que lhe abrissem as portas com presteza.
Cavalcante Méier era elegante, m agro, cinquenta anos. O nariz era ligeiram ente torto. Os olhos eram fundos, castanho-esverdeados, intensos.
Eu sou Rodolfo Cavalcante Méier. Não sei se o senhor m e conhece.
Conheço. Tenho sua ficha.
Minha ficha?
Sim . Vi que ele olhava para o copo na m inha m ão. Quer um pouco de vinho Faísca?
Não obrigado, disse ele, evasivo, vinho m e dá dor de cabeça. Posso sentar?
Fazendeiro, exportador, suplente de senador por Alagoas, serviços prestados à revolução, eu disse.
Irrelevantes, ele cortou, seco.
Mem bro do Rotary Clube, eu disse de m olecagem .
Country Clube apenas.
Um líder, um hom em de bem , um patriota.
Ele m e olhou e disse firm e, não brinque com igo.
Não estou brincando. Tam bém sou patriota. De m aneira diferente.
Por exem plo: não quero declarar guerra à Argentina.
Tam bém tenho sua ficha, ele m e im itou. Cínico, inescrupuloso, com petente.
Especialista em casos de extorsão e estelionato. Ele falava com o se fosse um a gravação, lem brava-m e um a caixa de gargalhadas em que se dá corda e sai um som que não é hum ano, nem anim al. Cavalcante Méier tinha dado corda nele m esm o, a corda que fazia a voz de fazendeiro falando com m eeiro. Com petente sim , inescrupuloso e cínico não. Apenas um hom em que perdeu a inocência, eu disse.
Mais corda na caixa. Você leu os j ornais?
Respondi que nunca lia j ornais e ele m e contou que um a j ovem havia
aparecido m orta na Barra, dentro do próprio carro. Saíra a notícia em todos os j ornais.
Essa m oça era, ehn, m inha, anh, ligada a m im , entendeu?
Sua am ante?
Cavalcante Méier engoliu em seco.
Já havíam os term inado. Eu achava que Marly devia encontrar um j ovem
com o ela, casar-se, ter filhos.
Ficam os calados. O telefone tocou, alô Mandrake. Tirei o som .
Sim , e depois?
Nossa relação era m uito discreta, eu diria, secreta m esm o. Ninguém sabia de nada. Ela apareceu m orta na sexta-feira. No sábado recebi um telefonem a, um hom em , m e am eaçando, dizendo que eu a havia m atado e que tinha provas de que éram os am antes. Cartas. Não sei que cartas podem ser essas.
Cavalcante Méier disse que não procurara a polícia porque tinha m uitos inim igos políticos que se aproveitariam do escândalo.
Além disso, nada sabia que pudesse esclarecer o crim e. E que sua filha única ia casar-se naquele m ês.
Minha ida à polícia seria um gesto ética e socialm ente inútil. Gostaria que você procurasse essa pessoa para m im , visse o que ele quer, defendesse os m eus interesses da m elhor m aneira. Estou disposto a pagar para evitar o escândalo.
Com o é o nom e do suj eito?
Márcio, foi o nom e que ele m e deu. Quer que eu vá m e encontrar com ele num lugar cham ado Gordon’s, em Ipanem a, hoj e à noite, às dez horas. Ele estará de m otocicleta, de blusão negro, e nas costas do blusão está escrito Jesus.
Com binam os que eu iria m e encontrar com Márcio e negociar o preço do seu silêncio. Podia valer m uito ou não valer nada.
Perguntei quem lhe indicara o m eu nom e.
O dr. Medeiros, ele disse, levantando-se. Saiu sem m e estender
a m ão, apenas um aceno com a cabeça.
Fui procurar a caixa de gargalhadas. Rem exi o arm ário de roupas, a estante, m uitas gavetas até encontrá-la na cozinha. Dona Balbina adora ouvir as gargalhadas.
Levei a caixa para o quarto, deitei e liguei. Um a gargalhada convulsiva e inquietante, engasgada no goto, roxa, de alguém a quem tivessem enfiado um funil pelo ânus e as gargalhadas atravessassem o corpo e saíssem m ortíferas pela boca, congestionando os pulm ões e o cérebro. Aquilo exigia um pouco m ais de vinho Faísca. Quando eu era m enino, um hom em , na m inha frente, no cinem a, teve um ataque de riso tão forte que m orreu. De vez em quando m e lem bro daquele suj eito.
Pra que você está ouvindo esse barulho horrível? Você parece m aluco, disse Berta. Vam os continuar o j ogo?
Agora vou ler os j ornais, eu disse.
Merda, disse Berta, j ogando o tabuleiro e as peças no chão. Um a m ulher
im pulsiva.
Na m esinha de cabeceira estavam todos os j ornais. Jovem secretária m orta
dentro do próprio carro na Barra. Um tiro na cabeça. A vítim a estava com j oias e docum entos. A polícia não acreditava em roubo. A m orta ia de casa para o trabalho e voltava cedo. Saía m uito pouco à noite. Não tinha nam orado. Os vizinhos diziam que era am ável e tím ida. Os pais inform avam que ela ao chegar do trabalho ia para o quarto ler. Ela lia m uito, disse a m ãe, gostava de poesia e rom ances, era m eiga e obediente, sem ela a nossa vida ficará vazia, sem sentido. Havia nos j ornais várias fotos de Marly, alta e m agra, de cabelos com pridos. Seu olhar parecia triste. Ou era apenas im pressão m inha? Sou um rom ântico incurável.
Afinal fui j ogar com Berta. Abri com as pretas, peão do Rei. Berta repetiu
m inha j ogada. Em seguida m ovi m eus cavalos. Berta m e repetindo, criando posições sim étricas que levariam à vitória o m ais paciente, o que com etesse m enos falhas, ou sej a, Berta. Sou m uito nervoso, j ogo xadrez para m e irritar, explodir in cam era, lá fora é perigoso, tenho que m anter a calm a.
Tentei m e recordar da partida de Capablanca com Tarrash, São Petersburgo
1914, onde tinha ocorrido um a abertura dos quatro cavalos e um a cilada terrível fora arm ada, m as que cilada era essa? Não conseguia m e lem brar, na cabeça o m otoqueiro do Gordon’s.
Não adianta m e olhar com essa cara vitoriosa, eu disse, vou ter que sair agora.
Agora? No m eio da partida? Outra vez? Você é um covarde, sabe que vai
perder e foge.
É verdade. Mas além disso tenho que ver um cliente.
Berta, os braços levantados, com eçou a prender os cabelos. O sovaco de um a
m ulher é um a obra-prim a, principalm ente se ela é m agra e m usculosa com o Berta. O sovaco dela tam bém cheira m uito bem , quando não tem desodorante, é claro. Um cheiro agridoce e que m e deixa m uito excitado. Ela sabe disso.
Vou encontrar um m otoqueiro no Gordon’s.
Ah, um m otoqueiro?
Tem um Hitchcock às onze na tv.
Não gosto de televisão, detesto film es dublados, disse Berta de m au hum or.
Então fica estudando a abertura Nim zovitch, ela perm ite boas ciladas posicionais. Daqui a pouco eu volto.
Berta disse que não m e esperaria, que eu não tinha consideração por ela, nem respeito.
Quando parei na porta do Gordon’s, ainda dentro do carro, vi o m otoqueiro. Era um rapaz baixo, forte, de cabelos castanho--escuros. Ele discutia, de m aneira insolente, com um a m oça. Ela tinha cabelos tão negros que pareciam pintados, seu rosto era m uito pálido, diferente do das m eninas bronzeadas que frequentavam o Gordon’s. Talvez a sua palidez fizesse os cabelos m ais negros e estes por sua vez tornassem o rosto m ais pálido, que por seu turno — enquanto eu m e divertia com essa proposição, m e lem brando do quaker da lata de aveia que eu tom ava quando era criança — um quaker com um a lata de aveia na m ão onde tinha outro quaker com um a lata de aveia na m ão etc, ad infinitum — a m oça sentou na garupa da m oto e eles partiram velozm ente pela rua Visconde de Piraj á. Eu não podia segui-los, m eu carro ficara bloqueado. Saltei, fui ao balcão do Gordon’s, pedi um a coca e um sanduíche. Com i lentam ente. Esperei um a hora. Eles não voltaram .
Berta estava na cam a, dorm indo, a televisão acesa.
Liguei para o Cavalcante Méier.
O apóstolo não apareceu, eu disse. Não adiantava contar o que havia acontecido.
O que o senhor vai fazer? Ele falava baixo, com a boca encostada no fone. Meus clientes sem pre falam assim . Me irritam .
Nada. Vou para a cam a. Am anhã conversam os. Desliguei.
Beij ei de leve os lábios de Berta. Ela acordou.
Diz que m e am a, disse Berta.
Levantei de m anhã j á com vontade de tom ar vinho Faísca. Berta não gostava
que eu bebesse tão cedo, m as vinho português não faz m al a nenhum a hora do dia ou da noite. Liguei o gravador e havia um recado do Cavalcante Méier.
Disquei.
O senhor leu os j ornais?, Cavalcante Méier perguntou.
Acabei de acordar, m enti. Que horas são?
Meio-dia. Leu os j ornais? Não, é claro que ainda não leu. A polícia diz que tem
um suspeito.
Eles sem pre têm um suspeito, que costum a ser inocente.
Sendo inocente posso ser o suspeito, conform e a sua lógica. Outra coisa, o tal
Márcio telefonou. Disse que vem à m inha casa hoj e à tarde.
Estarei aí. O senhor m e apresenta com o seu secretário particular.
Desde que horas você está tom ando vinho?, Berta perguntou, entrando na sala.
Expliquei a ela que Churchill acordava e tom ava cham panha, fum ava charutos
e ganhava a guerra.
Li os j ornais, fum ando um panatela escuro da Suerdieck. O espaço dedicado à
m orte de Marly era grande, m as não havia novidade. Não se falava em suspeito.
Telefonei para o Raul.
Esse crim e da m oça da Barra. Qual é a dica?
Que m oça? A que foi estrangulada, a que foi atropelada, a que levou um tiro na
cabeça, a que —
Tiro na cabeça.
Marly Moreira, secretária da Cordovil & Méier. Quem está com o caso é
gente m inha.
Dizem que há um suspeito. Você sabe algum a coisa?
Pode deixar que eu apuro.
Cavalcante Méier m orava na Gávea Pequena. Parei o carro no portão e toquei a cam painha. Um guarda particular saiu de um a guarita. Usava um revólver na cintura e tinha cara de quem não sabia usar a arm a. Abriu o portão.
É o dr. Paulo Mendes?, ele perguntou.
Sim .
Pode entrar.
Você devia pedir a m inha identidade.
Ele m exeu desconcertado no quepe e pediu m inha identidade. Esses falsos profissionais estão hoj e em todos os lugares.
Subi por um a alam eda ladeada de quaresm eiras, através de um gram ado bem -cuidado. Gram a inglesa, certam ente. O m ordom o abriu a porta. Ele era m esm o velho com o eu havia previsto e tinha no rosto o rancor e nas costas a corcunda do lam ber sapatos, tantos anos. A voz reverente perguntou m eu nom e, pediu-m e que esperasse.
Fiquei andando de um lado para o outro no hall de m árm ore. Havia um a larga escadaria que levava ao andar superior. Um a j ovem desceu as escadas acom panhada de um cão dálm ata. Tinha cabelos louros, vestia j eans e um a blusa de m alha j usta. Eu não podia despregar os olhos dela. Ao chegar perto de m im perguntou, im pessoal:
Está esperando alguém ? Olhos azuis.
O dr. Cavalcante Méier.
O papai j á sabe que o senhor está aqui? O olhar dela m e atravessava com o se eu fosse de vidro.
O m ordom o foi avisá-lo.
Sem outra palavra m e virou as costas, abriu a porta e saiu, acom panhada do cachorro.
Um dia, quando era adolescente, ia andando pela rua quando vi um a m ulher bonita e m e apaixonei de m aneira súbita e avassaladora. Ela passou por m im e continuam os andando em direções opostas, eu de rosto virado, vendo-a distanciar-se agile e noble, avec sa j am be de statue, até que ela desapareceu no m eio da m ultidão. Então, num im pulso desconsolado, virei-m e para a frente, para além daquela passante e bati com a cabeça num poste.
Fiquei olhando a porta por onde a m oça saíra, passando a m ão na cicatriz da
testa que o tem po não apagara.
Favor m e acom panhar, disse o m ordom o.
Atravessam os um a sala enorm e que tinha no centro um a m esa grande
redonda, cercada de cadeiras de veludo. E outra, com poltronas e grandes quadros nas paredes.
Cavalcante Méier m e esperava, no escritório forrado de livros.
Quem é a m oça do cachorro, perguntei, um a loura bonita?
É m inha filha Eva. Vai casar-se no dia 23, j á lhe disse.
Cavalcante Méier estava, com o da prim eira vez, traj ado com roupas
elegantes. Seu cabelo bem -penteado, um risco ao lado, nem um fio sequer fora do lugar. Parecia o Rodolfo Valentino em A Dam a das Cam élias, com Alia Nazim ova.
Perguntei se ele havia visto o film e. Não, não era nem nascido quando o film e
foi exibido. Eu tam bém não, m as frequentava as cinem atecas.
Cordovil & Méier tem algum a coisa a ver com o senhor?
É a m inha em presa de exportação.
Então a m oça m orta era sua em pregada?
Era secretária do m eu gerente de m arketing internacional.
Um a som bra passou pelo rosto de Cavalcante Méier. Poucos artistas sabiam
fazer um a som bra passar pelo próprio rosto. Everett Sloane sabia, Bogart não sabia. Caretas são outra coisa.
O telefone tocou. Cavalcante Méier atendeu.
Pode deixar, ele disse.
Ouvi o barulho de um a m otocicleta. O som parou por algum tem po e depois voltou a ser ouvido. Cavalcante Méier pareceu não dar im portância ao ruído, dava instruções ao m ordom o para trazer im ediatam ente à sua presença a pessoa que chegara.
Márcio, o m otoqueiro, entrou na sala, no rosto a m esm a arrogância que ostentara no Gordon’s. Olhando m elhor, parecia um a m áscara m alcolocada.
Você disse que estaríam os sozinhos, quem é este suj eito?
Meu secretário.
A conversa é só entre nós dois, m anda ele em bora.
Ele fica, disse Cavalcante Méier, controlando sua ira.
Então quem vai sou eu, disse Márcio.
Esperem , calm a, não vam os criar problem as, posso esperar lá fora, eu disse.
Saí rapidam ente para o salão. Da j anela vi Eva sentada no gram ado, o dálm ata a seu lado. O sol filtrado pelos galhos das árvores dourava ainda m ais os seus cabelos.
A porta do escritório se abriu e Márcio passou rapidam ente por m im , sem m e olhar. Ouvi o barulho da m otocicleta. A m oça, nesse instante, levantou-se depressa.
Está tudo resolvido, disse Cavalcante Méier, da porta do escritório.
Com o assim ?, perguntei sem sair da j anela. Eva correu pelo gram ado, seguida pelo cão, e desapareceu do m eu cam po visual.
Cheguei a um entendim ento com esse indivíduo. Não preciso m ais dos seus serviços. Quanto lhe devo?
Quem foi m esm o que disse que a linguagem existe para esconder o pensam ento?, perguntei saindo da j anela.
Não sei e não m e interessa. Quanto lhe devo?
Nada.
Virei-lhe as costas. O m ordom o estava no hall. Parecia ter andado por trás das
portas ouvindo todas as conversas.
Peguei m eu carro. Não havia sinal de Eva. O guarda abriu o portão para m im .
Perguntei a ele se o m otociclista havia parado no m eio do cam inho antes de entrar na casa.
Parou perto do lago, para falar com dona Eva.
O guarda olhou algum a coisa por cim a da capota do carro. Olhei tam bém e vi
um a m oça pálida, de cabelos escuros, parada a uns vinte m etros. Era a garota que eu tinha visto na garupa do m otoqueiro, no Gordon’s. Ao notar que eu a observava afastou-se, cam inhando lentam ente.
Quem é aquela m oça?, perguntei.
É sobrinha do doutor, o guarda disse. O nom e era Lili e ela m orava na casa do
tio.
O telefone da guarita tocou. O guarda foi atender. Ao voltar foi abrir o portão.
Aproxim ei o carro.
Esse cara da m otocicleta j á esteve aqui antes?
Não sei de nada, disse o guarda virando o rosto. Devia ter recebido instruções
de evitar conversas com igo.
Cheguei em casa, abri a geladeira, tirei um a garrafa de vinho Faísca. Na m esa
um bilhete: você podia ter usado a cilada de Würtzberg. Bastava oferecer a Dam a, m as isso você nunca faz. Te am o. Berta.
Liguei para o m eu sócio, Wexler.
Hoj e não vou ao escritório.
Já sei, Wexler disse. Vai j ogar xadrez com um a m ulher e tom ar vinho. Fico
dando duro enquanto você com e as m ulheres.
Estou com um caso m andado pelo dr. Medeiros. Contei tudo para ele.
Isso não vai dar em nada, disse Wexler.
Liguei para o Raul. Ele m arcara um j antar no Albam ar com o delegado que estava no caso da Marly.
Na cidade?, chiei.
A Hom icídios é na cidade. O nom e dele é Guedes.
Guedes era um hom em j ovem , precocem ente calvo, m agro, de olhos castanhos tão claros que pareciam am arelos. Pediu um a coca-cola para beber. Raul tom ava uísque. Não tinha Faísca e pedi um Casa da Calçada. Prefiro os m aduros, m as às vezes um verde geladinho cai bem .
Marly tinha um Rolex de ouro no pulso, um a aliança de brilhantes e seis m il cruzeiros na bolsa, disse Guedes.
Isso facilita, disse Raul.
Facilita, m as estam os no escuro, disse Guedes.
Os j ornais dizem que vocês têm um suspeito.
Isso é para despistar.
Já surgiu nesse enredo o nom e do chefe dela na Cordovil & Méier, o gerente de m arketing?, perguntei.
Artur Rocha. Os am arelos olhos suspicazes de Guedes exam inaram m eu rosto.
Li o nom e dele no j ornal, eu disse.
O nom e não saiu no j ornal. Os olhos de Guedes ardiam em cim a de m im . Eu não ia sacanear aquele cara, ele parecia um tira decente.
Fiz um pequeno serviço para o presidente da firm a, o senador Cavalcante Méier.
Eu m esm o tom ei o depoim ento do Artur Rocha. Ele afirm ou que nada sabia sobre a vida da secretária, disse Guedes.
Você acha que ele disse a verdade?
Já viram os a vida dele pelo avesso. A m oça foi m orta na sexta--feira, entre
oito e nove horas da noite. Às onze horas Rocha estava em Petrópolis, na casa de am igos. Ele não se interessa por m ulheres, parece que gosta m esm o é de ostentar sua riqueza.
Mandou fazer um picadeiro na casa dele, em Petrópolis, e dizem que m al sabe
m ontar. Entendeu a j ogada? Os grã-finos m enores têm quadra de tênis e piscina. Ele tem tudo isso e ainda um picadeiro
e cavalos para em prestar aos am igos.
Se um gerente ganha para isso, im agine o presidente, disse Raul.
Ele não deve ser assalariado, deve ser sócio. Salário tem os nós, quer dizer, eu e
o Raul, o senhor não.
Epa!, não m e cham a de senhor, m e cham a de Mandrake, eu disse.
Dizem que o senhor é um advogado rico.
Antes fosse.
O Mandrake é um gênio, disse Raul, que j á havia bebido m etade da garrafa de
uísque. É um trem endo filho da puta. Ele com eu a m inha m ulher. Hem , Mandrake, se lem bra?
Sofro até hoj e por isso, eu disse.
Já te perdoei, disse Raul. E àquela filha da puta tam bém .
A m ulher dele dava para todo m undo. Eles não eram m ais casados. Enfim .
O crim e se configura, em princípio, com o um crim e passional, disse o Guedes,
pouco interessado na m inha conversa com Raul. Artur Rocha não tem capacidade de se apaixonar ou m atar por paixão, ou dinheiro, ou outra coisa qualquer. Mas tenho a im pressão de que ele está m entindo. O que acha você?
Quando investigo um crim e até m inha m ãe é suspeita, disse Raul.
Guedes continuava m e olhando, esperando um a resposta.
As pessoas m atam quando sentem m edo, tergiversei, quando odeiam , quando invej am .
Direto do alm anaque Capivarol, disse Raul.
Sei que ele está m entindo, disse Guedes.
Sozinho no carro eu disse, m ais tarde, para o espelho retrovisor, está todo m undo m entindo.
No dia seguinte os j ornais j á não davam destaque à m orte de Marly. Tudo cansa, m eu anj o, com o dizia o poeta inglês. Os m ortos têm que ser renovados, a im prensa é um a necrófila insaciável. Um a notícia nas colunas sociais cham ou m inha atenção: o casam ento de Eva Cavalcante Méier com Luís Vieira Souto não m ais se realizaria naquela sem ana. Alguns colunistas lam entavam que o enlace tivesse sido cancelado. Um deles exclam ava: o que será feito com a im ensidão de presentes que o ex-futuro casal j á recebeu de todos os cantos do Brasil? Um problem a realm ente sério.
Peguei o carro e fui para a estrada da Gávea. Parei a cem m etros do portão da casa. Enfiei no toca-fitas do carro um cassete do Jorge Ben e fiquei batucando com ele no painel do carro.
Prim eiro apareceu o Mercedes. Cavalcante Méier sentado no banco traseiro. O m otorista vestido de azul-m arinho, cam isa branca, gravata preta, quepe preto na cabeça. Esperei m ais m eia hora e os portões se abriram , e um Fiat esporte saiu em disparada.
Fui atrás. O carro fazia as curvas em alta velocidade, os pneus zunindo. Não era fácil segui-lo. É hoj e que m orro, pensei. Qual das m inhas m ulheres sofreria m ais? Berta talvez deixasse de roer unhas.
O Fiat parou no Leblon, na porta de um pequeno edifício. A m oça saltou do carro, entrou por um a porta onde estava escrito Bernard — Ginástica Fem inina. Esperei dois m inutos.
Sala de espera atapetada, paredes cheias de reproduções de bailarinas de Degas e posters de dança. De trás de um a m esa de aço e vidro um a recepcionista de cabelos oxigenados, toda m aquiada, de uniform e cor-de-rosa, m e deu bom -dia, perguntou se eu desej ava algum a coisa.
Queria inscrever m inha esposa no curso de ginástica.
Pois não, disse ela pegando um a ficha.
Cocei a cabeça e expliquei que não queria a m inha esposa frequentando
qualquer curso, que podiam m e cham ar de antiquado, m as eu era assim m esm o.
A recepcionista sorriu com a boca inteira, com o só sabem fazer os que têm
todos os dentes e disse que aquele era o lugar certo, um a academ ia frequentada por senhoras e m oças do soçaite. Ela falou soçaite de boca cheia. Suas unhas eram longas, pintadas de verm elho-forte.
Com o é o nom e de sua esposa?
Pérola... Hum , ahn, m as quem ensina é um a professora? Ou é um hom em ?
Um professor, m as que não m e preocupasse, Bernard era m uito respeitador.
Pedi para ver um pouquinho da aula.
Só um pouquinho, disse a loura, levantando-se. Ela era da m inha altura, um
corpo esguio, de seios pequenos, toda sólida.
Você tam bém faz ginástica?
Eu não, este corpo foi Deus que m e deu, m as podia ser obra de Bernard, ele
faz verdadeiros m ilagres.
Saiu deslizando na m inha frente, até um a porta com um espelho, que
entreabriu.
As alunas acom panhavam o ritm o agitado da m úsica transm itida em alto
volum e por caixas acústicas espalhadas pelo chão. Num golpe rápido elas inclinaram o tórax para a frente, a cabeça para baixo, em purraram as m ãos entre os j oelhos para trás, depois endireitaram o corpo, levantaram novam ente os braços e com eçaram tudo de novo.
Eram um as quinze m ulheres, vestidas de m alhas de diversas cores
predom inando o azul, m as havia verm elho, rosa, verde. No m eio da sala, com um a vara na m ão, estava Bernard, tam bém de m alha. Devia ter sido bailarino e certam ente orgulhava-se de suas nádegas firm es.
Não curve os j oelhos, Pia Azam buj a! Contraia as nádegas, Ana Maria Melo!
Vupt! um a varada na bunda de Ana Maria Melo.
Siga o ritm o, Eva Cavalcante Méier! Não pare, Renata Albuquerque Lins! Bernard dizia os nom es das alunas por inteiro, eram sobrenom es im portantes, dos pais, dos m aridos.
A recepcionista fechou a porta.
Já viu tudinho, não viu?
Ele sem pre bate nas alunas?, perguntei.
É de leve, não m achuca não. Elas não se incom odam . Até gostam . Bernard é m aravilhoso. As alunas chegam cheias de celulite, flácidas, posturas erradas, pele ruim , e o Bernard as deixa com um corpo de m iss.
Fizem os a ficha da m inha m ulher.
Pearl White?
Minha m ulher é am ericana. Pearl quer dizer Pérola.
Não sei qual é a graça em fazer piadas que ninguém entende, m as vivo fazendo isso.
Fiquei andando de um lado para o outro defronte do Fiat, j ogando com as brancas, controlando o centro 3r, 3d, 4br, 4r, 4d, 4bd, 5br, 5r, 5d, 5bd, 6r e 6d. Poder e raio de ação. Giuoco Piano. Siciliana. Nim zoíndia.
Eva surgiu com os cabelos m olhados, calças com pridas de brim , blusa de m alha, braços nus. Carregava um a bolsa grande.
Alô. Postei-m e na frente dela.
Eu o conheço?, ela perguntou friam ente.
Da casa do seu pai. Ele m e contratou para ser advogado dele.
Sim ...?
Mas j á m e dispensou.
Sim ...?, ela falava rispidam ente, m as não ia em bora.
Queria ouvir o que eu tinha a dizer. As m ulheres são curiosas com o os gatos.
(Os hom ens tam bém são com o os gatos. Enfim .)
Alguém queria envolvê-lo na m orte de Marly Moreira, a m oça que apareceu
na Barra com um tiro na cabeça.
Só isso?
Um chantagista cham ado Márcio afirm a que tem docum entos que podem
incrim inar o seu pai.
O que m ais?
A polícia suspeita dele. Tenho m ais coisas a dizer, m as não aqui na rua.
Quando o garçom veio ela pediu um a água m ineral. Deus, Bernard e Regim e
Feroz tinham feito aquela m aravilha. Pedi vinho Faísca. Ficam os em silêncio.
Se m eu pai corre perigo você devia falar com ele m esm o. Não sei o que
adianta falar com igo.
Seu pai dispensou os m eus serviços.
Ele deve ter tido algum a razão.
Contei a ela as entrevistas que tivera com Cavalcante Méier, m inha ida ao
Gordon’s, o encontro entre sua prim a Lili e o m otoqueiro Márcio. O rosto dela perm aneceu im penetrável.
Você acha que m eu pai m atou essa m oça? Sorriso de desprezo.
Não sei.
Meu pai tem m uitos defeitos, é vaidoso e fraco, e outras coisas piores, m as não
é um assassino. Basta olhar para ele, para se ter essa certeza.
Rem em orei os rostos dos assassinos que conhecia. Nenhum deles tinha cara de
culpado.
Alguém m atou a m oça e não foi um assaltante.
Nem m eu pai.
Márcio, o m otoqueiro, quando foi ver o seu pai, parou no j ardim para conversar com você.
Você está enganado. Não sei quem é essa pessoa.
Olhei bem o rosto inocente dela. Eu sabia que ela sabia que eu sabia que ela m entia. Eva tinha um a cara botichelesca, pouco brasileira, naquele dia de sol, talvez por isso m ais atraente para m im . Não gosto de m ulheres queim adas de sol. É um artifício. A pele sabe a sua cor, e os cabelos, e os olhos. Usar o sol com o cosm ético é um a estupidez.
Você é m uito bonita, eu disse.
Você é um a pessoa desagradável, feia e ridícula, ela disse.
Eva levantou-se e saiu, pisando com o Bernard ensinava.
Cheguei em casa, desliguei o telefone-gravador. Berta havia ido para a casa dela. Passei toda a m inha vida sem sonhar ou esquecendo a m aioria dos sonhos. Mas de dois sonhos eu sem pre lem brava, só e sem pre esses dois. Num eu sonhava que estava dorm indo e sonhava um sonho que eu esquecia quando acordava, com a sensação de que um a im portante revelação se perdia com o m eu esquecim ento. No outro eu estava na cam a com um a m ulher e ela tocava no m eu corpo e eu sentia a sensação dela ao tocar no m eu corpo, com o se m eu corpo não fosse de carne e osso. Eu acordava (fora do sonho, na realidade) e passava a m ão na m inha pele e sentia com o se ela fosse coberta de um m etal frio.
Acordei com o barulho da cam painha da porta. Wexler.
O que você andou arranj ando? Sabe quem está atrás de você? O delegado Pacheco. Você agora anda m etido com os com unas?
Wexler contou que cedo, pela m anhã, o delegado Pacheco havia aparecido no escritório m e procurando. Pacheco era fam oso no país inteiro.
Ele quer que você vá à delegacia falar com ele.
Eu não queria ir m as Wexler m e convenceu. Do Pacheco ninguém escapa, ele disse.
Wexler foi com igo. Pacheco não nos fez esperar m uito tem po. Era um hom em
gordo, de rosto agradável, não aparentava a m aldade que a sua fam a difundia.
Suas atividades estão sendo investigadas, Pacheco disse, com ar sonolento.
Não sei o que estou fazendo aqui, sou corrupto, não sou subversivo. Era outra
piada.
Você não é um a coisa nem outra, Pacheco disse com voz cansada, m as não
seria difícil provar que é as duas coisas. Ele m e olhou com o um irm ão m ais velho olhando para o caçula traquinas.
Um am igo m e procurou para dizer que você o anda m olestando.
Pare com isso.
Posso perguntar quem é o seu am igo? Molesto m uita gente.
Você sabe quem é. Deixe-o em paz, palhaço.
Então j á vam os, disse Wexler. O pai dele havia sido m orto no pogrom do gueto
de Varsóvia em 1943, na frente dele, um m enino de oito anos. Ele lia a cara das pessoas.
Cuidado com aquele nazista, disse Wexler na rua. Afinal, em que em brulho
você anda m etido?
Contei o caso Cavalcante Méier para ele. Wexler cuspiu com força no chão —
ele não dizia nom e feio m ais cuspia no chão quando ficava com raiva — e m e agarrou com força no braço.
Você não tem m ais nada com o caso. Sai dessa. Esses nazistas! Outra
cusparada.
Liguei para Berta.
Bebê, você abre com a Ruy Lopes e eu ganho de você em quinze lances.
Mentira. As dificuldades das pretas nesta abertura são m uito grandes quando os
enxadristas se equivalem , com o era o nosso caso. Eu apenas queria ter perto de m im alguém que m e am ava. Tua cara não está boa, disse Berta ao chegar.
Minha cara é um a colagem de várias caras, isso com eçou aos dezoito anos; até então o m eu rosto tinha unidade e sim etria, eu era um só. Depois tornei-m e m uitos.
Coloquei a garrafa de vinho Faísca ao lado do tabuleiro.
Com eçam os a j ogar. Ela abriu com a Ruy Lopes, com o tínham os com binado. No décim o quinto lance m inha situação era difícil.
O que está acontecendo? Por que você não usou a defesa Steinitz pra deixar a coluna do Rei aberta para a Torre? Ou a defesa Tchigorin, desenvolvendo o flanco da Dam a? Você não pode ficar inerte assim ante um a Ruy Lopes.
Olha Berta, Bertinha, Bertonga, Bertete, Bertíssim a, Bertérrim a, Bertinhazinha, Bertinhona, Bebê.
Você está bêbado, disse Berta.
Estou.
Não j ogam os m ais.
Eu quero abraçar você, deitar a cabeça no teu peito, sentir o calor entre as tuas pernas. Estou cansado, Bebê. Além do m ais estou apaixonado por outra m ulher.
Com o? Dando um a de Le Bonheur pra cim a de m im ?
É um film e m edíocre, eu disse.
Berta j ogou todas as pedras do tabuleiro no chão. Mulher im pulsiva.
Quem é essa m ulher? Eu fiz um aborto seu, tenho o direito de saber.
A filha de um cliente.
Quantos anos? A m inha idade? Ou você j á está baixando? Dezesseis? Doze?
A tua idade.
Ela é m ais bonita do que eu?
Não sei. Talvez não. Mas é um a m ulher que m e atrai.
Vocês hom ens são infantis, fracos, fanfarrões! Bobo, você é um bobo!
Eu te am o, Bebê, eu disse pensando em Eva.
Então fom os para a cam a, eu pensando o tem po todo em Eva. Depois que
fizem os am or Berta dorm iu de barriga para cim a. Roncava levem ente, a boca aberta, inerte. Sem pre que bebo m uito durm o apenas m eia hora, acordo com com plexo de culpa. Ali estava Berta, de boca aberta com o um m orto sonhando. Que fraqueza é dorm ir! As crianças sabem . É por isso que durm o pouco, tenho m edo de ficar desarm ado. Berta roncava. Estranho, num a pessoa tão suave. O sol ia surgindo, um a luz fantástica entre o branco e o verm elho, aquilo m erecia um a garrafa de vinho Faísca. Acabei de beber, tom ei banho, m e vesti, fui para o escritório. O vigia do prédio perguntou, deu form iga na cam a, doutor?
Sentei e fiz as alegações finais de um cliente. Wexler chegou e com eçam os a
discutir coisas sem im portância, m as que nos deixaram exaltados.
Deve ser um a m erda ser filho de im igrante português, disse Wexler.
E filho de j udeu m orto no pogrom ?, perguntei.
Meu pai era professor de latim , m inha m ãe tocava Bach, Beethoven e Brahm s
no piano, teu pai pescava bacalhau, tua m ãe era costureira!
Wexler foi na j anela e cuspiu.
Bach, Beethoven, Brahm s, Belsen e Buchenwald, os cinco bês, no piano, eu
disse.
Ele fez um a cara de dor, um olhar que só os j udeus são capazes de m ostrar.
Desculpe, eu disse. A m ãe dele tinha m orrido em Buchenwald, um a m ulher
j ovem , que no retrato era bonita e tinha um rosto doce e m oreno. Desculpe.
O dia acabou e eu decidi não ir para casa. Não queria ver Berta, o telefone-
gravador, nada, ninguém , só pensava em Eva. Minhas paixões duram pouco, m as são fulm inantes.
Um hotel ordinário na rua Corrêa Dutra, no Flam engo. Apanhei a chave, fui
para o quarto, deitei olhando para o teto.
Havia um a lâm pada, um globo suj o de luz, que eu acendia e apagava. O barulho da rua m isturou-se com o silêncio, num a gosm a opaca e neutra. Eva. Eva. Caim m atou Abel. Alguém está sem pre m atando alguém . Passei a noite rolando na cam a.
De m anhã paguei o hotel e fui cortar o cabelo e fazer a barba.
A defesa Steinitz, eu disse ao barbeiro, não é assim tão eficiente, a Torre tem os seus m ovim entos lim itados, é um a peça forte, porém previsível.
O senhor tem razão, disse o barbeiro, cautelosam ente.
A defesa Tchigorin arrisca a Dam a e eu nunca arrisco a Dam a, continuei. Está tudo errado, o hino nacional com sua letra idiota, a bandeira positivista sem a cor verm elha, toda bandeira deve ter a cor verm elha, de que vale o verde das nossas m atas e o am arelo do nosso ouro sem o sangue de nossas veias?
É tudo um a pouca vergonha, disse o barbeiro.
Enquanto o barbeiro falava do custo de vida eu lia o j ornal. Márcio Am aral, tam bém conhecido com o Márcio da Suzuki, fora encontrado m orto no seu apartam ento no bairro de Fátim a. Um tiro na cabeça. Na m ão direita um revólver Taurus, calibre 38, com um a cápsula deflagrada no tam bor. A polícia suspeitava de hom icídio. Márcio da Suzuki estaria envolvido no tráfico de entorpecentes na zona sul da cidade.
Isso não m e interessa m ais, que todos se fodam , o senador canalha e sua filha dedetizada, a sobrinha pálida, a secretária m orta e seus pais falantes, o m otoqueiro, o Guedes, o raio que o parta, pra m im chega.
O barbeiro m e olhou assustado.
No m eu apartam ento um bilhete:
Onde você se m eteu? Está louco? Wexler quer falar com você, coisa urgente. Estou na loj a. Liga pra m im . Te am o. Morro de saudades. Berta.
Eu ainda gostava de Berta, m as m eu coração não disparava m ais ao ouvir sua voz ou ler seus bilhetes. Berta se tornara um a pessoa perfeita para casar, quando eu fosse velho e doente.
Liguei para Berta, m arquei um encontro para aquela noite. O que podia eu fazer? Disquei, Wexler.
Pensei que o Pacheco tinha posto a m ão em você, disse Wexler.
O Raul está te procurando, diz que é im portante.
O telefone de Raul tocou, tocou, tocou e quando eu ia desligar ele atendeu.
Estava no banheiro. O Guedes queria m uito falar contigo. Passa na
Hom icídios, ele disse.
Contei ao Raul as am eaças do Pacheco. Raul m e m andou tom ar cuidado.
Na Hom icídios. Guedes m e recebeu logo.
Eu j ogo aberto com você, ele disse. Leia isso.
A letra era redonda, os pingos dos ii pequenos círculos: Rodolfo, não pense que
você pode m e tratar dessa m aneira, com o um obj eto que se usa e j oga fora. Estou disposta a fazer as m aiores loucuras, falar com a sua m ulher, fazer escândalo na firm a, botar a boca no m undo, nos j ornais, você não sabe do que eu sou capaz. Não quero m ais apartam ento nenhum , você não m e com pra, com o faz com todo m undo. Você é o hom em da m inha vida, nunca conheci outro, nem quis, nem quero. Você tem m e evitado, não é assim que acabam relações com o a nossa. Eu quero te ver. Me telefona, sem dem ora. Ando m uito doida, nervosa, sou capaz de tudo. Marly.
Então?, disse o Guedes.
Então o quê?
Você tem algum a ideia?
Que ideia posso ter?
Que achou da carta?
Já foi feita algum a perícia grafotécnica?
Não. Mas tenho certeza que a letra é de Marly Moreira. Sabe onde a carta foi
encontrada? Com um tal Márcio Am aral, vulgo Márcio da Suzuki. Quem m atou Márcio revirou o quarto, possivelm ente atrás da carta, m as se esqueceu de procurá-la no bolso da vítim a. A carta estava lá.
Coisa de am ador, eu disse.
É am ador m esm o. Tentou fingir que a m orte era suicídio sem saber os truques. Márcio não tinha sinais de pólvora nos dedos, a traj etória do proj étil é de cim a para baixo, m uitos erros, o assassino de pé e a vítim a sentada. Acho que sei quem é o assassino. Um hom em im portante.
Cuidado, hom ens im portantes com pram todo m undo.
Nem todos se vendem , disse Guedes. Ele poderia dizer que era incorruptível, m as os que realm ente não se vendem , com o ele, não se gabam disso.
O senador Rodolfo Cavalcante Méier m atou Marly, continuou Guedes. Márcio, não sabem os com o, obteve a carta e com eçou a chantagear o senador. Para esconder o prim eiro crim e o senador com eteu outro, m atando Márcio.
Ali estava na m inha frente um hom em decente fazendo o seu trabalho com dedicação e inteligência. Tive vontade de contar a ele tudo o que sabia, m as não consegui. Cavalcante Méier nem sequer era m eu cliente, era um burguês rico noj ento e talvez um assassino torpe e m esm o assim eu não conseguia denunciá-lo. Meu negócio é tirar as pessoas das garras da polícia, não posso fazer o contrário.
Então?, perguntou Guedes.
O senador não precisaria m atar pessoalm ente, encontraria alguém para fazer o serviço para ele, eu disse.
Não estam os em Alagoas, disse Guedes.
Aqui tam bém existem pistoleiros que m atam por um a ninharia.
Mas nesses não se pode confiar. A polícia põe a m ão neles, enche de porrada e eles contam tudo. Não são j agunços de fazenda, protegidos pelo feudo, disse Guedes. Além do m ais você concordou que os dois crim es são coisa de am ador.
Repeti que não sabia nada dos crim es, que m inha opinião era superficial.
O Raul disse que você poderia aj udar, disse Guedes, decepcionado, quando m e despedi dele.
Arm ei o tabuleiro de xadrez. Botei um a garrafa de Faísca no balde de gelo.
Não quero j ogar xadrez nem beber vinho, disse Berta.
O que foi, m eu bem ?, perguntei, farto de saber.
Só continuo com você se você acabar com essa m oça.
Nada tenho com ela, com o posso acabar o que não existe?
Você gosta dela, isso existe. Quero que você deixe de gostar dela. Você um a
vez m e disse que só gosta de quem gosta de você, que só gosta de quem você quer. Quero que goste apenas de m im . Do contrário adeus, não tem m ais j ogo de xadrez, trepadas na hora que você bem entende, pileques de vinho. Eu odeio vinho, seu cretino, bebo por sua causa. Odeio, odeio, odeio.
E xadrez?
Xadrez eu gosto, disse Berta enxugando as lágrim as. Em vez de ser um
protagonista da sua própria vida, Berta o era da m inha.
Prom eti que ia fazer força para esquecer Eva. Deixei que ela ganhasse de
m im usando o contragam bito Blem enfeld. Para falar a verdade ela ganharia de qualquer form a, pois o tem po todo eu pensava em quem poderia ter feito a carta de Marly Moreira chegar às m ãos de Márcio da Suzuki. p4d, c3br. Cavalcante Méier certam ente guardaria a carta com cuidado. c3br, p3r. Por que não a destruiu? Talvez não a tivesse recebido, interceptada por alguém . p4b, p4b. Nesse caso seria alguém da casa dele, se é que a carta foi para a casa dele; podia ter ido para o escritório. Meu palpite era a casa. O m ordom o? Ri. p5d, p4cd. Está rindo, é?, disse Berta, daqui a pouco você vai ver. pxpr, pbxp, Berta riu por sua vez. Alguém da segurança, ou a esposa, que eu nunca tinha visto, ou a filha, ou a sobrinha. Com o dizia Raul, há que desconfiar até da própria m ãe. pxp, p4d. Mate!, disse Berta.
Bebê, nem Alekhine j ogaria com tanto brilho, eu disse.
Você é que j ogou m al, disse Berta.
Eu estava disposto a esquecer Eva, com o havia prom etido a Berta, m as ao
chegar na casa de Cavalcante Méier, Eva abriu a porta e m eu entusiasm o voltou de novo. Eu havia ido prim eiro ao escritório e m e disseram que o senador estava em casa, indisposto. Na m ão eu carregava um j ornal com notícias sobre a m orte de Marly Moreira. O assunto ganhara novam ente a prim eira página dos j ornais. A perícia estabelecera que Márcio da Suzuki fora m orto pela m esm a arm a que assassinara Marly. O delegado Guedes num a entrevista dizia que havia um figurão envolvido e que a polícia estava prestes a detê-lo, custasse o que custasse. Falava-se tam bém em tráfico de entorpecentes.
Quero falar com seu pai.
Ele não pode atender ninguém .
É do interesse dele. Diga-lhe que a polícia tem a carta. Só isso. Ela m e olhou com o rosto im passível de boneca, a pele saudável parecia de louça, faces rosadas, lábios verm elhos, radiantes olhos azuis, um vicej ar violento na flor da idade. Parecia um slide colorido proj etado no ar.
Ele não pode atender ninguém , Eva repetiu.
Olha aqui, m enina, seu pai está num a enrascada e eu quero aj udá-lo. Vai e diz a ele que a polícia tem a carta.
Cavalcante Méier m e recebeu de robe de cham bre curto de veludo verm elho. Seu cabelo estava cuidadosam ente penteado e oleado, recentem ente.
A polícia tem a carta, eu disse. Sabem que foi dirigida a um certo Rodolfo e acham que esse Rodolfo é o senhor. Felizm ente o envelope não foi achado e eles não podem provar nada.
Eu rasguei o envelope, disse ele, não sei por que não rasguei a carta tam bém . Guardei-a na gaveta da m esinha de cabeceira do m eu quarto.
Um vício de banqueiro, guardar docum entos, pensei.
Eu não m atei Marly. Não tenho a m enor ideia de quem o fez.
Não sei se acredito nisso. Acho que foi você.
Prove-o.
Parecia Jack Palance, Wilson o pistoleiro, calçando as luvas negras e dizendo prove-o, para Elisha Cook Jr., antes de sacar rapidam ente o Colt e dar-lhe um estrondante tiro no peito e j ogá-lo de cara na lam a sulcada pelas rodas das carroças.
Existem m uitos Rodolfos no m undo. Posso provar que nunca vi essa m oça na vida. Sabe onde eu estava na hora do crim e? Jantando com o governador do estado. Ele pode confirm ar isso. Você é um hom em m ortificado pela invej a, não é? Você odeia os que venceram na vida, os que não acabam a vida com o advogados de porta de xadrez, não é?
Não odeio ninguém . Apenas desprezo canalhas com o você.
Então o que veio fazer aqui? Atrás de dinheiro.
Não, atrás da sua filha.
Cavalcante Méier levantou a m ão para m e bater. Segurei a m ão dele no
cam inho. Seu braço não tinha força. Larguei a m ão daquele porcaria, áulico explorador, sibarita, parasita.
Raul estava m e procurando no escritório.
Guedes foi afastado do caso Marly Moreira por um a portaria do chefe de
Polícia, de hoj e. Deu entrevistas proibidas pelo regulam ento.
Acham que ele está querendo se prom over. Foi transferido para a delegacia de
Bangu. Não pode m ais abrir o bico.
Guedes não queria se prom over. Acreditava na culpa de Cavalcante Méier e
queria botar o préstito na rua antes que abafassem tudo. Um crente, na im prensa e na opinião pública, um ingênuo, m as m uitas vezes esse tipo de pessoa realiza coisas incríveis.
Com o é que está a coisa?, perguntou Wexler.
Ah, Leon, estou apaixonado!
Você sem pre está. A Berta é boa m enina.
Já é outra. A filha do senador Cavalcante Méier.
Você quer com er todas as m ulheres do m undo, Wexler disse recrim inante.
É verdade.
Era verdade, eu tinha um a alm a de sultão das m il e um a noites; quando era
m enino m e apaixonava e passava as noites chorando de am or, pelo m enos um a vez por m ês. E adolescente com ecei a dedicar m inha vida a com er as m ulheres. Com o as filhas dos am igos, as m ulheres dos am igos, as conhecidas e desconhecidas, com o todo m undo, só não com i m inha m ãe.
Tem um a m oça na sala de espera, querendo falar com você, disse dona Gertrudes, a secretária. Dona Gertrudes estava cada dia m ais feia, com eçava a crescer um a corcunda nela, e bigodes, tive a im pressão que m e olhava vesgo, um olho para cada lado. Um a santa pessoa. Pensando bem , ela era assim m esm o?
Eva, na sala de espera. Ficam os lendo um o olhar do outro.
Você j oga xadrez?, perguntei.
Não. Bridge.
Você m e ensina?, perguntei.
Ensino.
Eu m e controlava para não sair voando pela sala com o um besouro doido.
Não foi m eu pai, sei que não foi.
Eu te am o, eu disse. Aconteceu no prim eiro dia em que te vi. Seu olho parecia um m açarico.
Eu tam bém fiquei m uito perturbada naquele dia.
Estávam os de m ãos dadas quando Wexler entrou na sala.
Raul acabou de chegar. Eu disse que você estava ocupado. Você quer falar com ele?
Deve ser coisa ligada ao caso de Marly. Vou falar com ele. Você espera aqui, eu disse para Eva.
Estava na porta quando Eva disse: salva m eu pai.
Voltei.
Para isso você tem que m e aj udar.
Com o?
Com eça deixando de m entir para m im .
Não m entirei m ais.
O que você conversou com Márcio da Suzuki em sua casa? De onde você o
conhecia?
Márcio fornecia cocaína para m inha prim a Lili. Mas há seis m eses, m ais ou
m enos, ela deixara o vício. Naquele dia perguntei a Márcio se Lili voltara a cheirar e Márcio disse que não. Meu m edo era de que ele tivesse ido levar tóxico para ela.
Onde Lili arranj ava dinheiro para com prar o pó?
Papai dá a Lili tudo que ela pede. Ela é filha do irm ão dele que m orreu quando
Lili era m enina. A m ãe dela não quis saber da filha, casou-se de novo e Lili veio m orar com a gente quando tinha oito anos.
Por que você disse que sabe que o seu pai não m atou Marly e o Márcio?
Meu pai não seria capaz de m atar ninguém .
Então é apenas um pressentim ento, um a sim ples presunção?
Sim , ela disse desviando os olhos dos m eus.
Raul estava em pé, na sala de Wexler, andando dum lado pro outro.
Guedes diz que vai denunciar o senador com o assassino e que não se incom oda
com o que possa acontecer.
O Guedes está m aluco, eu disse. Tem os de evitar que ele faça essa besteira.
Eu e Raul saím os à procura de Guedes. Eva foi para casa, prom eti que depois
lhe telefonaria.
Guedes estava no Instituto Oswaldo Éboli, conversando com um perito am igo.
Preparava a docum entação para entregar aos j ornais.
Não foi o Cavalcante Méier, eu disse.
Até dois dias atrás você nada sabia sobre o caso, agora vem m e falar com essa certeza.
Contei a ele parte do que eu sabia.
Se não foi o Cavalcante Méier, então quem foi?
Não sei. Talvez traficantes de tóxicos.
Eu esm iucei a vida de Marly Moreira, não existe a m enor chance dela estar envolvida com traficantes de tóxicos. E os dois foram m ortos pela m esm a pessoa. Seu raciocínio está totalm ente furado.
Tentei defender o m eu ponto de vista. Mencionei o álibi do Cavalcante Méier. Afinal o testem unho do governador não poderia ser ignorado.
São todos uns corruptos. Você vai ver, quando o governador deixar o cargo vai ser sócio do Cavalcante Méier num dos negócios dele.
Guedes, você vai quebrar a cara.
Não tem im portância. O que posso perder? O m eu em prego? Já cansei de ser polícia.
Acusar um inocente é calúnia, é crim e.
Ele não é inocente. Eu tenho m inhas provas. Os olhos de Guedes rutilavam de retidão, j ustiça, honradez e probidade. Você sabia que o senador Cavalcante Méier tem registrado na polícia um revólver Taurus 38, o calibre dos proj éteis que causaram a m orte de Marly e do Márcio?
Muita gente tem um 38 em casa. Quando é a entrevista?, perguntei.
Am anhã às dez horas.
Cheguei na casa da Gávea quando a noite caía.
O que foi, que cara é essa?, perguntou Eva.
Onde está seu pai?
No quarto. Ele não está se sentindo bem .
Preciso falar com ele, é im portante.
Fiquei surpreso ao ver Cavalcante Méier. Seu cabelo estava em desalinho, a
barba por fazer, os olhos verm elhos com o se ele tivesse bebido m uito ou chorado. O olhar de Jannings, professor Rath, no Anj o Azul, lutando para não sentir vergonha, surpreso com a incom preensão do m undo. Junto de Cavalcante Méier estava Lili, rosto m ais pálido do que nunca, a pele parecia pintada de cal. Segurava um a bolsa na m ão. Um vestido negro realçava seu belo ar fantasm agórico.
Fui eu sim , disse Cavalcante Méier.
Papai!, exclam ou Eva.
Cavancante Méier soava falso. Vi m uitos film es e conheço os canastrões.
Fui eu, j á disse que fui eu. Diga ao seu am igo polícia que pode m e prender.
Fora da m inha casa!
Aproxim ou-se de m im com o se fosse m e agredir. Eva segurou-o.
Vai em bora, por favor, vai em bora, suplicou Eva.
Ao sair, Lili m e acom panhou. Parou j unto ao m eu carro.
Posso ir com você?
Pode.
Lili sentou-se ao m eu lado. Dirigi lentam ente pelas alam edas escuras dos
j ardins da casa e descem os a estrada.
Ele está m entindo, eu disse. Deve ser para proteger alguém . Talvez Eva.
O corpo de Lili com eçou a trem er, m as não saía um som de sua garganta. Ao
passar perto de um poste de luz vi que o seu rosto estava m olhado de lágrim as.
Não foi ele, não. Nem Eva, disse Lili, tão baixo que eu m al distinguia as
palavras.
Então era isso. Eu j á sabia a verdade, e o que isso adiantava? Existem m esm o
culpados e inocentes?
Estou ouvindo, pode com eçar, eu disse.
Descobri que eu am ava o tio Rodolfo há dois anos, não m ais com o um tio, ou pai, que era o que ele tinha sido para m im até então, m as com o se am a um am ante.
Fiquei calado. Sei quando um a pessoa com eça a abrir a alm a até o fundo.
Som os am antes há seis m eses. Ele é tudo na m inha vida e eu na dele.
Foi por isso que você m atou a Marly ?
Sim .
Ele sabia?
Não. Só lhe contei hoj e. Ele quis m e proteger. Ele m e am a, tanto quanto eu o am o.
Seu rosto na penum bra do carro parecia um a estátua fluorescente ilum inada por um a luz negra.
Posso contar com o foi.
Então conte.
Meu tio m e disse que estava tendo problem as com um a m oça que trabalhava num a das firm as dele e com quem tivera um caso. Ela am eaçava fazer escândalo, contar tudo para m inha tia. Minha tia é um a m ulher m uito doente, gosto dela com o se fosse m inha m ãe.
Eu nunca a tinha visto. As fam ílias ricas têm segredos invioláveis, rostos secretos, cum plicidades som brias.
Ela não sai do quarto dela, tem sem pre um a enferm eira à sua cabeceira, pode m orrer a qualquer instante.
Continua.
Meu tio recebeu a carta, acho que foi num a segunda-feira. Toda noite, cerca das onze horas, eu ia para o quarto dele, e saía cedo, antes que os em pregados com eçassem a arrum ar a casa. Eva sabia disso?
Sabia.
Continua, eu disse.
Naquele dia tio Rodolfo estava m uito nervoso. Me m ostrou a carta, disse que
Marly era um a louca, que o escândalo poderia m atar a tia Nora, arruiná-lo politicam ente. Tio Rodolfo é um hom em m uito bom , não m erece um a coisa dessas.
Continua, eu disse.
Tio Rodolfo m e m ostrou a carta dessa tal Marly e depois largou-a na m esinha
de cabeceira. No dia seguinte apanhei a carta, localizei aquela m ulher e telefonei para ela. Disse quem eu era e que tinha um recado do tio Rodolfo. Marcam os um encontro para depois do expediente. Escolhi um local erm o, onde às vezes tom o banho de m ar. Ela chegou arrogante, disse que eu avisasse ao tio Rodolfo para não tratá-la com desprezo. Quando a velha m orrer, ela am eaçou, aquele canalha vai ter de casar com igo. Eu levava na bolsa o revólver do tio Rodolfo. Dei apenas um tiro nela. Ela caiu para a frente, gem endo. Saí correndo, peguei m eu carro, fui procurar o Márcio, pedir a ele que m e vendesse um pouco de pó. Fiquei cheirando cocaína na casa dele, a prim eira vez em m ais de seis m eses. Estava desesperada. Dorm i e Márcio deve ter revistado a m inha bolsa e retirado a carta enquanto eu dorm ia. Quando soube pelo tio Rodolfo que você ia se encontrar com Márcio no Gordon’s, eu m e antecipei para evitar que você o encontrasse. Inventei que tio Rodolfo tinha m andado a polícia prendê-lo.
Para de cham á-lo de tio, por favor.
Eu sem pre o cham ei assim , não vai ser agora que vou m udar. Márcio ficou
furioso e no dia seguinte foi à casa do tio Rodolfo. Você viu tudo, esta parte você conhece.
Tudo não.
Encontrei Márcio no j ardim , quando ele saía. Me disse que tio Rodolfo ia
pagar, m as que ele não iria devolver a carta. Marquei um encontro para com prar cocaína, disposta a acabar com ele. Márcio estava sentado num a poltrona vendo televisão, j á cheio de pó, m andrix e uísque. Me aproxim ei e atirei na sua cabeça, não senti nada, só noj o, com o se ele fosse um a barata.
Você não achou a carta. Estava no bolso do Márcio.
Procurei em todos os lugares, no bolso eu nunca iria procurar, tocar nele m e repugnaria, disse Lili.
E o dinheiro?
Estava num a m ala. Levei para casa. Está todo no arm ário do m eu quarto.
Parei o carro. Ela segurava a bolsa com força, as m ãos trêm ulas.
Me dá isso, eu disse.
Não!, ela respondeu, apertando a bolsa de encontro ao peito.
Arranquei a bolsa da sua m ão. Dentro o Taurus, cano de duas polegadas, cabo de m adrepérola. Os olhos dela eram um abism o sem fundo.
Deixa o revólver com igo, Lili pediu.
Balancei a cabeça negativam ente.
Então m e leva de volta para perto do tio Rodolfo.
Tenho que encontrar o Guedes. Pega um táxi. É bom contratar logo um advogado.
Está tudo perdido, não é?
Infelizm ente. Para todos nós, respondi.
Coloquei-a num táxi. Saí à procura de Guedes. Pensei em Eva. Adeus m inha querida, longo adeus. O grande sono. Não havia ninguém dentro do m eu corpo, as m inhas m ãos no volante pareciam ser de outra pessoa.