O Cobrador
Pierrô da caverna
Existem pessoas que não se entregam à paixão, sua apatia as leva a escolher um a vida de rotina, onde vegetam com o “abacaxis num a estufa”, com o dizia m eu pai. Quanto a m im , o que m e m antém vivo é o risco im inente da paixão e seus coadj uvantes, am or, ódio, gozo, m isericórdia. Carrego um gravador a tiracolo. Apenas quero falar, e o que eu disser não será passado j am ais para o papel, e assim não tenho necessidade de buscar o estilo requintado que os críticos tanto elogiam e que é apenas um trabalho paciente de ourivesaria. Não sabendo com o as palavras se posicionam no papel perco a noção da sua velocidade e coesão, da sua com patibilidade. Mas isso não interferirá com a história. Havia alguém m e vigiando atrás da porta. Regina respondeu que era tudo m inha im aginação; o casal que m orava lá trabalhava fora e a única filha deles passava o dia no colégio. Ao voltar para o m eu apartam ento depois que Regina saiu, o telefone tocou e com o sem pre ele, ou ela, ficou em silêncio, um silêncio denso, secreto, que m e am eaçava e cada vez ficava m ais sinistro. Gritei: está pensando que eu tenho m edo de você? Não podia ser Maria Augusta, dela eu j am ais sentiria m edo. Quando nos separam os deixei-lhe o apartam ento e todos os m óveis, quadros, livros, tudo. Mas isso foi há m uito tem po, ou m elhor, foi há pouco tem po m as j á afastei tudo para tão longe que, se não fossem os livros, eu nem m e lem braria da existência dela. Li no j ornal que em Londres organizaram um a associação de pedófilos e seus m em bros, no dia da inauguração, foram agredidos por um a m ultidão de cidadãos irados, m ulheres na m aioria. Conto isso para Regina quando ela m e telefona para perguntar, com o sem pre faz, se eu a am o. Digo para ela tom ar cuidado com a extensão, m as não há perigo, ele está no banho, e am bos dizem os eu te am o, várias vezes e com binam os o encontro do dia seguinte. Depois deitei no sofá e fiquei pensando. Quando era m enino eu gostava de fingir que ia dorm ir para poder ficar pensando sem ninguém m e interrom per. Os adultos ficam preocupados quando veem um a criança quieta pensando. Eu passava, e passo, a noite, ou grande parte dela, acordado, pensando. Às vezes sobre um acontecim ento que presenciei, com o a briga de galos que vi outro dia. Num dos intervalos da luta o galeiro tirou um esporão cravado no peito do galo e colocou-o de volta na rinha, sangue escorrendo do ferim ento, as pernas m arcadas de nervuras estrem ecendo num trem or contínuo; o galo m orria, feroz, e o hom em aceitava as apostas que faziam contra ele sabendo que perderia. Então saí de lá pensando em fazer um poem a usando a m orte do anim al com o um sím bolo. Toda arte é sim bólica, m as não seria preferível, m ais sim bólico, escrever sobre pessoas se m atando? Macacos m e m ordam . Acabei decidindo que escreveria um a novela; talvez volte a falar disso daqui a pouco. Eu disse que havia deixado os livros para Maria Augusta, m as não foi bem assim , nós decidim os dividir os livros, ela escolhendo prim eiro. Mas Maria Augusta nunca fez isso. E assim , vez por outra, eu vou à casa dela apanhar um livro. Nossos contatos cada vez ficam m ais desagradáveis. Da últim a vez ela não escondeu a irritação que a dom inou ao m e ver. Ela usava um vestido longo e j oias, com o se fosse a algum lugar; dem orou a convidar-m e para entrar e logo vi por quê. Um suj eito estava sentado na sala, rosto rechonchudo pálido azulado pela barba, apesar de bem -escanhoado; vestia-se na m oda, cam isa de voile francês aberta no peito, um cordão de ouro grosso com um m oedão em volta do pescoço, e estava perfum ado. Cham ava-se Fernando, suas unhas e suas m aneiras eram polidas, perguntou se eu estava escrevendo algum a coisa. Essa é um a pergunta que vivem nos fazendo, a nós escritores, com o se não parássem os nunca de escrever; nós param os, e às vezes dam os um tiro na cabeça por causa disso. Respondi-lhe que o tem a do livro que eu estava escrevendo era pedofilia. Eu ia dizer, na ordem em que pensei: que era um livro sobre a devastação da Am azônia; que era sobre um curandeiro que enganava as pessoas pela televisão; sobre um a fam ília de m igrantes m iseráveis vagando sem pouso no Rio de Janeiro; sobre briga de galos. Mas saiu pedofilia. Maria Augusta, percebendo que Fernando desconhecia o significado da palavra, explicou com rispidez que tratava-se de atração erótica por crianças, um a palavra com posta grega que originalm ente não tinha conotações perversas. A ignorância de Fernando m e fez sorrir e isso deixou Maria Augusta irritada. O que aconteceu com você, ela perguntou sarcástica, está m ais calvo e grisalho, com um j eito de velho, algum problem a de saúde? Olham o-nos, hostis e im piedo sos, à m aneira daqueles que deixaram de se am ar. Deve ser m esm o a idade, respondi, o pior de todos os venenos. Maria Augusta colocou a m ão no pescoço, era ali que ela achava que o tem po depredava m ais o seu corpo, e perguntou im paciente qual era o obj etivo da m inha visita. Apanhei os livros que queria e saí. À noite rolei na cam a, sem sono, m as gostando de estar sozinho e acordado, dono absoluto dos m eus pensam entos. O telefone tocou várias vezes e eu gritei: vá para o inferno!, e ele, ou ela, perm aneceu em silêncio do outro lado. Alectrionon agones, alectriom achia. Eu e Regina fazíam os am or no sofá nos dias em que ela tinha pressa de voltar para casa. Após contem plarm os certas coisas, ou um a determ inada coisa, há que m udar de vida. Eu pensava em Sofia e não m e saía da cabeça a pulseirinha de ouro no tornozelo dela, que coisa m ais diabólica. Quando nos encontram os no hall, o rosto dela ficou m uito pálido, com o estaria tam bém o m eu, certam ente. Senti-m e com o se m inha alm a, se é que tenho um a alm a, se desprendesse e subisse para o céu com o um a labareda alucinante. Com o vai o colégio?, perguntei. Ah, m eu Deus, se é que Deus existe, não era um a urna grega, era o próprio ser hum ano, ao invés de um a das suas criações. Ela perguntou, m antendo a porta do elevador aberta, se eu ia descer. Não, não, eu não ia descer. Um a pulseirinha de ouro no tornozelo. Quem era m esm o que aos cinquenta anos achava que sua criatividade havia se esgotado, que estava velho e acabado? Era um escritor com o eu, ah esse veneno! Em Atenas havia um a lei que m andava que todos os anos se celebrasse um a luta de galos no teatro, às expensas do Tesouro, em m em ória do discurso feito por Tem ístocles sobre o valor dos seus concidadãos, antes da batalha de Salam ina. Atenienses! estais dispostos a im itar, em defesa da Liberdade e da Pátria, o encarniçam ento desses anim ais que se m atam apenas pelo prazer de vencer? Isso era um enredo, com o queria o balofo am ante da m inha ex-m ulher? O que será que Maria Augusta via em personagem tão raso? Com o seriam os dois na cam a, teria ele força para apertá-la nos braços, fazendo os ossos lhe doerem , e a carne, e o espírito, com o ela gostava? Mordê-la, não apenas com os dentes? Na segunda vez em que a vi foi na m inha casa. Sofia usava um vestido branco e os cabelos negros estavam presos num a fita, tam bém branca, e a pulseirinha brilhava no tornozelo. Ela colocou o dedo na boca pedindo silêncio. Eu trem i, perguntei, num m urm úrio, o que era. Era dom ingo e os pais dorm iam até m ais tarde e ela sem pre quisera ver o m eu apartam ento. Eu estava estarrecido, essa talvez sej a a m elhor palavra para caracterizar o que eu sentia com a presença de Sofia em m eu apartam ento. Tudo aconteceu rapidam ente, sem eu perceber bem de m aneira lógica e lúcida a transação que ocorreu, com o se eu estivesse fortem ente dopado, e de fato eu estava, pela assom brosa proxim idade dela. Depois ela se retirou, levando discos e livros. Era ela que m e vigiava por trás da porta pois raram ente ia ao colégio; não sei com o isso era possível, talvez ela m entisse. Sofia disse ainda que nunca telefonava para m im , portanto não era ela o psicopata dos telefonem as, m as isso eu j á sabia. Macacos m e m ordam . Sofia desde então não saía do m eu pensam ento, nem m esm o quando Regina chegava com o seu dinâm ico corpo aceso e perfum ado e suas histórias burguesas idiotas. Eu ansiava por falar de Sofia m as sabia que com Regina isso seria im possível e assim falava sobre outras coisas que Regina m e fez depois descobrir serem m etáforas evasivas da m inha m ente ardilosa. Severino Borges, quarenta e quatro anos, m orador na favela Parque Alegria, em São Cristóvão, Rio de Janeiro, carpinteiro, era um hom em delicado e prestativo. Não posso falar m al de Severino, disse o presidente da Associação de Moradores do Parque Alegria, porque ele sem pre foi m uito quieto e nunca prej udicou ninguém aqui, pelo contrário, trabalhou de carpinteiro de graça para quase todo m undo. Eu sabia que ele tinha essa doença, m as não sei quantos casos foram . Fiquei de longe vendo o espancam ento, disse Maria da Penha, que m ora na favela, bateram tanto nele que m e deu pena, depois que ele caiu continuaram chutando e pisando e dando pauladas até ele m orrer. Se ele tivesse feito isso com a irm ã de Lucinha, que tem doze anos, acho que o pessoal não batia nele, m as a Lucinha tem só oito aninhos. Regina ouviu tudo isso em silêncio e depois m e perguntou se eu estava gostando de algum a garotinha. Respondi que o am or era necessário ao desenvolvim ento espiritual do hom em , que o sexo era inocente e bom , um a parte im portante da experiência estética e espiritual, com o o prazer da m úsica e da poesia. Não fuj a da pergunta, disse Regina, outro dia você m e disse que um hom em de setenta anos havia casado com um a m enina de doze e eu achei estranho que você se interessasse por isso e tam bém achei estranho que você se interessasse por um suj eito que em Israel foi condenado à prisão por ter m antido relações sexuais com um a m enina tam bém de doze anos. Na verdade os j uízes deram com o provada sua alegação de que fora seduzido por ela. Não consegui fugir a tão vulcânica paixão, ele havia dito. Discutim os a tarde toda, eu e Regina, e pela prim eira vez não fizem os am or. Ordem e Progresso. Quando o telefone tocou eu atendi e defendi-m e da agressão silenciosa do troteador com um a cascata de doestos e vitupérios que Regina encarou com o sendo indiretam ente dirigidos a ela, o que a deixou ainda m ais triste. Dez anos de análise para acabar com essa estrutura m ental? A cor da pele de Sofia tem a brancura de lírio das heroínas dos rom ances antigos, um lírio branco, profundo, cam adas de branco superpostas, um abism o de alvura sem fundo. Com o o branco do m eu sonho, um sonho em que não há nem pessoas nem tram as, nem obj etos, só a cor branca e a cor preta, no sonho tudo com eça com trevas profundas e nada se vê na escuridão. Subitam ente tudo fica claro, m as tam bém nada se vê nessa luz cegante. Olho m uito para a boca das pessoas. Minha prim eira nam orada tinha um pivô azulado no m eio da boca e queria m e ensinar a dançar no cim ento do ginásio de basquete; tinha um a barriguinha m ole e com placente, pés ligeiros e suava no pescoço e m e esprem ia na parede enfiando com força suas pernas entre as m inhas. Não quero saber do teu sonho, nem da gordinha, disse Regina. Perguntei se j á lhe havia falado sobre a bandeira brasileira e ela respondeu que conhecia todas as m inhas m anias, as antigas pelo m enos, e que ela estava interessada no segredo que eu ocultava dela. Regina disse que pela prim eira vez havíam os estado j untos sem fazer am or e que tem ia que aquilo pudesse ter um significado catastrófico. Macacos m e m ordam . Ordem e Progresso. E o telefone tocava: fala covarde, você não tem nada m elhor para fazer? Em frente à m áquina de escrever eu buscava forças para vencer o m eu tédio. Que tal um texto apotegm ático e aposiopésico: na natureza nada se perde, nada se cria. Eu só conseguia escrever ouvindo m úsica e sentia vontade de ou vir o concerto para oboé em fá m aior de Corelli, m as não achava o disco, devia estar na casa daquela m egera, j unto com os m eus livros. Am o o oboé, o corne inglês, o fagote, paletas duplas cortam o m eu coração. Tentei então escrever com Bela Bartok e deu isto: as pessoas se colocaram em duas filas na areia da praia, cerca de duzentos hom ens e m ulheres e crianças, a m aioria m ulheres, em silêncio, aguardando reverentes a chegada do Curandeiro. Um vento fraco soprava do m ar; eram cinco horas da tarde de um a sexta-feira da Paixão. Só isso. Há qualquer coisa em Bartok que inibe a m inha m otivação. A arte está cheia de m eninas virando a cabeça de hom ens m aduros, a de Malle, a de Nabokov, a de Kierkegaard, a de Dostoiévski. Dostoiévski seduziu um a m enina de m enos de doze anos e contou para Turgueniev, que não lhe deu im portância. Sua culpa está proj etada no Svidrigailov, de Crim e e Castigo, e em Stavrogin, de Os Possessos, am bos pedófilos violadores. Cena do Diário de um Sedutor: a m enina desce da carruagem e deixa aparecer um pedaço da perna e eu, Kierkegaard, m e apaixono avassaladoram ente. Ordem e Progresso. Encontrei--m e com a m ãe de Sofia, no elevador, um a m ulher m agra, dessas que alm oçam um iogurte com um cream cracker e se pesam duas vezes por dia em um a balança dentro do banheiro. Me observava sem rebuços até que a olhei de volta da m esm a m aneira e ela se apresentou dizendo que gostaria que eu lhe autografasse um dos m eus livros, ou dois, se não fosse abuso. Seu últim o livro m e fez pensar m uito, ela disse, m odulando a voz com o certas atrizes da televisão, um a tonalidade baixa desprovida de em oção; vou tentar im itá-la: está escrevendo algum a coisa? Ah, cansou de escrever sobre o am or? O am or não cansa, o senhor com o escritor devia saber disso. Depois ela m e surpreendeu batendo no m eu apartam ento com dois livros debaixo do braço, pedindo o autógrafo. O m arido havia ido ao futebol. Tenho pressa, escrevi. Pressa de quê? Não podia ter a filha e agarrava a m ãe. Procurarei ser o m ais rápida possível, disse Eunice num sorriso coadj utor. Os burgueses epicuristas entediados fingem estar num m undo bom e poético em que todos vão para a cam a com todos. Da m áquina: Eles, os galos, com eçam a lutar entre um e dois anos de idade, com em alho, m ilho, cebola, ovos cozidos, carne crua, m assagens de álcool e am ônia tornam sua pele m ais dura, para suportar os esporões forrados de couro, os esporões de osso, os esporões de m etal, a m ortal Arm a Um . Pedigree de centenas de anos. Um a diversão real no tem po de Henrique VIII: suspeito que esta seria m ais um a inconciliabilidade entre ele e Morus, desdenhada pelos historiadores. Macacos m e m ordam . Eu j am ais escreveria inconciliabilidade. Gosto de dizer m acacos m e m ordam porque era assim que m eu pai vociferava quando ficava perplexo. Por que m acacos e não escorpiões, ou cobras, ou cães que estavam m ais à m ão para m ordê-lo? Nunca soube, m eu pai era um hom em m isterioso. Ordem e Progresso é m eu m esm o. Regina e Sofia tinham a m esm a pele, o m esm o cabelo, a m esm a treveluz do corpo. Mas Eunice era bronzeada de sol. Acho que entendi tudo, disse Eunice, não há tem po a perder. Para falar a verdade eu não sou um cínico, não sei ser irônico, sarcástico, sou tím ido e orgulhoso, m as m eu orgulho não tem arrogância nem ostentação, apenas autoestim a. Eu sabia que m e interessaria por Eunice apenas o tem po em que ela fosse um a pessoa nova, diferente, e isso ela conseguiria ser apenas algum as horas; durante esse tem po eu sentiria desej o, acharia graça nela. Da m áquina: Glória e Honra a Jesus!, disse o Curandeiro e a m ulher, que tinha um a perna tão inchada que não deixava m ais ela arrum ar a casa, passou a acom panhar as orações pela televisão até que um dia, de repente, levantou-se e percebeu que estava curada. Nossa irm ã está curada, disse o Curandeiro, acreditou na bondade infinita de Jesus, na força do seu m ilagre, no poder da oração, na fé. Orem os: glorioso Deus, glorioso Pai, nossos m ilhares e m ilhares de telespectadores aguardam a cura para seus horrendos sofrim entos, em nom e de Jesus ordeno que saiam dos seus corpos as doenças m alignas, pelo poder da m isericórdia e da com paixão, ó Jesus, pai bendito, libertai este povo que tanto tem aj udado o Pronto Socorro Divino. Im agens de Jesus, do Curandeiro, m úsica celestial, o rosto feliz dos sofredores. Havia em Eunice algum a coisa que m e afligia. Ela estava sem pre tensa e infeliz; era frio o suor do seu corpo nu, apenas no m om ento do orgasm o eu sentia que ela superava a sua aflição, m as logo em seguida seu rosto se crispava e ela com eçava a chorar. A iniciativa não havia sido m inha; depois que eu lhe dera os autógrafos ela perm anecera em pé, no m eio da sala, desaj eitada e eu dissera, fique à vontade e ela perguntara onde era o quarto. Eu sentia pena dela, m as tam bém ficava enfadado com o dram alhão de alcova que ela invariavelm ente encenava nas poucas vezes em que estivem os j untos, talvez porque eu não costum e sofrer desses instantâneos e fugazes sentim entos de culpa. Ir para cam a com Eunice, com o com todas as outras, fora algo parecido com um a viagem a um a cidade desconhecida: no princípio a gente percebe tudo, alerta, ligado, m as depois de algum tem po atravessam os a rua sem nada ver, e se vem os não sentim os, com o um carteiro fazendo a entrega da correspondência. Ah, o pior de todos os venenos! Tenho vontade de voltar a fita atrás e ouvir esta gravação, m as sei que se o fizer não continuarei registrando estes acontecim entos. De qualquer form a quando term inar de ditar j ogarei a fita no lixo. Eu nunca seria capaz de escrever sobre acontecim entos reais da m inha vida, não só porque ela, com o aliás a de quase todos os escritores, nada tem de extraordinário ou interessante, m as tam bém porque eu m e sinto m al só de pensar que alguém possa conhecer a m inha intim idade. É claro que eu poderia cam uflar os fatos com um a aparência de ficção, passando da prim eira para a terceira pessoa, acrescentando um pouco de dram a e com édia inventados etc. É isso o que m uitos escritores fazem e talvez sej a a razão pela qual a literatura deles é tão fastidiosa. Vej am os a m inha vida, nos últim os três m eses. Tento escrever um a novela sobre briga de galos, ou outras duas sobre as quais falarei em seguida, e procuro com er todas as m ulheres que passam perto de m im . Evidentem ente isso não basta para com por um a boa peça de ficção. O papel especial em que sem pre escrevo, com prado na Casa Mattos, está em cim a da m esa, e a tram a j á está arm ada dentro da m inha cabeça. O protagonista é um chefe poderoso do baixo m undo (j ogo do bicho, narcóticos, contrabando e prostituição) e o seu galo invencível (pedigree de cem anos), no qual ele aposta verdadeiras fortunas, dando vantagens de até dez por um . O antagonista é um pobre criador de galos da Baixada e o seu galo desconhecido, m as que ele, com sua longa experiência, considera im batível. O velho consegue convencer parentes e am igos a se associarem num a grande aposta contra o poderoso chefão. Será um a briga m ortal pois os galos usarão esporões de prata, a Arm a Um . Meu prestígio de escritor e m inhas pretensões exigem que a novela sej a um a alegoria sobre a am bição, a soberba e a im piedade. Agora pergunto: para quem arm o eu continuam ente essa em pulhação de seriedade e profundeza? Os m eus contem porâneos? Mas desprezo todos, não tenho um só am igo e nunca vej o os conhecidos, a única vez em que estive pessoalm ente com os m eus editores foi há três anos atrás, entendo-m e com eles por m eio de cartas. Os m eus contatos frequentes são apenas com as m ulheres com quem m antenho relações am orosas. Mas tam bém não é para elas que teço m inha rede de m entiras, hipérboles e subterfúgios, não é sua adm iração que quero. Desej o, com pulsivam ente, todas que passam à m inha frente, e racionalizo: um a é bonita, outra é sim pática, outra é poetisa, outra é boa e decente, outra é a m ãe da m enina que eu am o. Etc. O que fiz nestes três m eses? Com i, dorm i, li alguns livros, vi televisão, fui ao cinem a, m e envolvi com três m ulheres, coisas que não interessam a ninguém , nem m esm o a m im , e no entanto aqui estou contando tudo para um obj eto eletrônico, quadrado, m ovido a pilha. Mas j am ais seria capaz de escrever sobre isto. Escreverei sobre a criação do deserto da Am azônia pelas m ãos predatórias do hom em , sobre o terror atôm ico, sobre as inj ustiças sociais e econôm icas. Mas o papel que espere por essas verdades transcendentais m ais um pouco. Agora quero continuar falando, daqui a pouco talvez esse brinquedinho m e canse. Regina e Eunice m e aborreciam , eu estava preparado para Sofia, esperando por ela, eu sabia que ela vinha, com o a gente sabe quando o dia vai raiar, naquele instante antes do com eço da claridade. Ela surgiu com a sua curta saia azul de colégio, que deixava à m ostra suas pernas im aculadas. Ficam os sentados frente a frente em m eu apartam ento sem dizer um a palavra, até que ela perguntou: m am ãe tem trinta e cinco anos, você é m ais velho, não é? Eu tam bém era m ais velho do que o pai dela. Enquanto tom ava coca-cola Sofia disse que passando o dia todo dentro de casa, com o era o m eu caso, eu não ia saber nada do que estava acontecendo lá fora, no m undo. As pessoas estavam m uito doidas, era isso o que estava acontecendo lá fora, continuou Sofia. Eu sabia que ia ser naquele dia, senti-m e dom inado por espectrais alucinações, com o os santos, e m inha boca estava seca, m eu Deus, ela tinha apenas doze anos, seu hálito ardente entrou pelas m inhas narinas e extasiado vi o seu corpo se revelar, os pequenos seios redondos, a barriga enxuta por onde um fino fio de cabelos negros descia, até encontrar o púbis espesso de escuros pelos que m e engolfou com o um poço, um abism o noturno de gozo e volúpia. Depois Sofia perguntou se o sangue no lençol era dela. E perguntou tam bém se o orgasm o era um a espécie de agonia. Parecia que tudo havia sido um sonho, m eu corpo todo form igava, dorm ente, e m inha cabeça parecia ter explodido em m iríades de ínfim as partículas que pairavam no ar com o um gás denso e então entendi o que o poeta chinês queria dizer ao afirm ar que a m ente é am pla nuvem flutuando. Não doeu nada, disse Sofia, foi bom , isso tinha que acontecer um dia, não tinha? Ordem e Progresso. Me apaixonei por Sofia com o nunca estivera em toda a m inha vida de am ores im petuosos. Ela era um a pessoa m uito pura, quando ia ao banheiro pedia para eu ficar perto dela conversando pois assim aliviaria a sua prisão de ventre, o que de fato passou a acontecer diariam ente. Eu nunca pensei que acharia linda um a m ulher sentada num vaso sanitário, m as era isso exatam ente o que ocorria. Maria Augusta e Regina nunca m e deixaram vê-las nessa situação. Passávam os, eu e Sofia, horas esm iuçando um ao outro, descobrindo a protolinguagem do corpo. A pele do ânus e da vagina de Sofia era negra, m ais escura ainda do que os profusos cabelos que lhe cobriam o púbis e continuavam pelo rego das nádegas até às costas. Eu gostava de olhar e passar o dedo de leve em todos os desvãos do seu corpo, e ela fazia o m esm o com igo; ela besuntava de m el o m eu rosto, e eu o rosto dela, depois íam os para a cam a e um lam bia o m el do rosto do outro. De onde fora ela buscar toda esta sabedoria selvagem ? Eu am ava Sofia, eu am ava Sofia. Eu am o Sofia!, eu gritava na j anela, na praia quando a paixão era tão forte que ficava insopitável. Eu era m uito feliz. Passei a evitar Regina e Eunice. Soube que o pai e a m ãe de Sofia bebiam m uito, era com um , à noite, eles se em briagarem assistindo à televisão, sem perceberem que a filha os observava, com um pouco de pena e m uito desprezo. Convenci Sofia a voltar a frequentar o colégio. Nossos encontros eram pela m anhã, ou então à noite depois que os pais dorm iam . Sofia queria ser m uito rica quando crescesse, os ricos da im aginação dela eram iguais aos do Fitzgerald: im perturbáveis, distantes, desinteressados, nunca se excitavam , nem se encrespavam , nem se irritavam , nem se exaltavam , eram corteses, am enos, atentos, galantes. Quanto a m im , os que conheci eram gananciosos, cúpidos, aquisitivos, avaros e cobiçosos. Sofia não sabia o que era encrespar. Expliquei que era o m esm o que irritar. Sofia disse que eu falava dem ais, para que aquele palavreado todo? Só porque você é escritor não precisa falar assim . Engraçado, há um a certa correspondência entre o registro oral e o verbal, m as eu j am ais escreveria nem se excitam , nem se encrespam , nem se irritam , isso falado ainda passa, m as escrito seria afetado e asnático, com o Sofia percebeu. Querer produzir as belas-letras é tão ruim quanto querer ser coerente. Eu sou diferente a cada sem ana, a cada dia, sou contraditório, bruto e delicado, cruel e generoso, com preensivo e im piedoso. Essa confissão eu j am ais faria por escrito, m uitos ecos e rim as ginasianas. Sofia m e perguntou se tivéssem os um filho qual seria o nom e dele? Você não vai ter um filho, respondi. Não sei. Não vai não. Não sei. Macacos m e m ordam . Há dois m eses que a m enstruação dela não vinha. Telefonei para um laboratório e m e disseram para levar a prim eira urina da m anhã. Resultado do exam e de gravidez: Nom e: Sofia. Exam e: Teste im unológico para gravidez. Resultado: Positivo. Observação: Foi usado o prognosticon da Organon. Eu achava que você era velho dem ais e eu m oça dem ais para a gente ter um filho. Grávida! Inferno! Macacos m e m ordam ! Tentei refugiar-m e nos poetas, im aginei suicidar-m e, um velho pensam ento. Por que será que os nossos dentes ficam cariados? Certam ente o m eu dentista riria desta pergunta. Três m ulheres repartiam o m eu corpo, a m inha casa verdadeira, três m ulheres exigiam que eu fosse um bom hospedeiro atento aos seus desej os. Ordem e Progresso. Nunca tive um filho e não quero esse tipo de escravidão. Eu conhecia um suj eito cham ado José de Alencar, ele queria ser escritor m as o nom e não deixava. Dois Josés de Alencar é dem ais, ele disse, enquanto alm oçávam os na cidade, num dia quente em que havia tanta gente na rua que era im possível andar um pouco m ais depressa. José de Alencar era dono de um a agência de carros usados, m as eu desconfiava que ele era contrabandista. A lei existe para te sacanear, ele disse, e por isso eu conheço todos os m acetes para burlar a lei. Há um a clínica em Botafogo que é um a m aravilha, a m enina entra e sai e não sofre nada, é com o se fizesse um a lim peza de pele, de dois m eses então é um a sopa. Tim tim , bateu o copo no m eu, não se preocupe, o preço é razoável, procure a enferm eira-chefe, dona Moem a, pode usar o m eu nom e, sou velho freguês da casa. E contou suas proezas galantes, e m ostrava um grande apetite e adm itiu que sentia m ais fom e quando a com ida era de graça. Ela estava grávida, um feto m eu dentro da barriga, talvez j á tivesse até coração, m as assim m esm o eu entrava diariam ente no túnel do seu corpo e percorria os cam inhos de êxtase da sua carne, m acacos m e m ordam ! Meu bobinho, ela dizia, está nascendo cabelo na tua careca, olha só. E lam bia a m inha testa. Passeando na praia Sofia m e perguntou se eu m e casaria com ela quando ela fizesse dezoito anos. Faltam seis anos, você acha m uito ou pouco tem po? Muito. Ah, esse veneno! Ao voltarm os encontram os o pai de Sofia no hall do edifício. Ele estava esperando por nós e parecia em briagado. Vam os subir para o seu apartam ento, ele disse rispidam ente. Seus olhos estavam congestionados e ele torcia a boca exageradam ente, para que eu não tivesse dúvidas quanto ao seu estado de espírito. Vez por outra enfiava a m ão no bolso am eaçadoram ente. O nom e dele era Milcíades. Ele não havia feito a barba e parecia ter dorm ido com a roupa que usava. Entram os no m eu apartam ento e assim que fechou a porta Milcíades tirou do bolso um revólver que m e apontou com a m ão trêm ula. Se atirasse em m im e m e m atasse seria por acaso. Aos gritos Milcíades disse que nos havia visto de m ãos dadas na rua. Canalha, velho cínico e im oral, bradou ele, enrolando a língua. Eu deixei que ele gritasse até ficar cansado. Depois lhe disse, em m uitas e repetidas palavras, que eu tratava a filha dele com o m aior respeito, com o se fosse um pai, o que era verdade. Ele nos exam inou, a m im e a Sofia, com um astuto olhar esgazeado, e depois de algum tem po colocou o revólver no bolso do paletó e sentou-se. De qualquer form a não quero que o senhor vej a m ais a m inha filha, ele disse, e ordenou a Sofia que fosse para casa. Fiz um gesto tranquilizador para Sofia quando ela saiu. Perguntei a Milcíades se podia oferecer-lhe um uísque. Ele hesitou um pouco e respondeu, com voz m ais suave e conciliadora: com gelo. Preparei um a dose dupla para ele e outra para m im , sentei-m e ao seu lado e ficam os bebendo em silêncio. Ele só voltou a falar quando tom ava o quarto uísque. É do legítim o, disse Milcíades, levantando o polegar da m ão que segurava o copo e derram ando líquido na roupa. E depois, fazendo um a cara que parecia a de um velho cão sarnento abandonado, disse: confio no senhor. Ele estava dorm indo, de boca aberta, sentado no sofá, quando Sofia e Eunice chegaram . Elas tentaram levantá-lo, m as Milcíades era um hom em gordo e grande e o esforço das duas de nada adiantou. Afinal, com m inha aj uda, conseguim os levá-lo para casa e colocá-lo na cam a. Tirei os seus sapatos e o paletó com o revólver. Ela foi criada com tudo que um a m enina precisa, disse Milcíades com sua voz pastosa e logo com eçou a ressonar tranquilam ente. Eunice perguntou se eu queria beber algum a coisa. Recusei dizendo que j á havia bebido dem ais. Eunice não queria que eu fosse em bora, fez questão que eu m e sentasse um pouco, na sala de poltronas de plástico. Num canto um a televisão colorida; não havia quadros nas paredes. Vá deitar, disse Eunice para Sofia. Não, não vou, disse Sofia, sentando-se ao m eu lado. Sua m ãe está m andando!, gritou Eunice. Logo as duas se em penharam num a discussão violenta e cruel que m e encheu de desgosto. Levantei-m e e quando viram que eu m e retirava pararam a discussão, envergonhadas, talvez, e m e pediram que não fosse em bora. Saí com o coração pesado e passei a noite lendo. Storr: m uitos especialistas que exam inaram o problem a de crianças seduzidas ou que tiveram contato sexual com adultos concluíram que os danos em ocionais por elas sofridos resultaram do horror dos m ais velhos que tom aram conhecim ento do fato e não de algo intrinsecam ente assustador no contato sexual. Kinsey : alguns dos m ais experientes estudiosos dos problem as j uvenis concluíram que as reações dos pais, autoridades policiais e outros adultos podem prej udicar a criança m uito m ais do que os contatos sexuais em si. Storr: em m uitos casos, em que ocorreram repetidos contatos sexuais entre o adulto e a criança, esta m ostrou-se ativam ente interessada em continuar os contatos e não apresentou distúrbios ou outras anorm alidades, até ser descoberta e recrim inada. Tais crianças possuem personalidade agradável e têm grande aptidão para contatos pessoais. Não estou gravando isso para m e j ustificar. Não sei, estou m uito confuso, sinto que estou escondendo coisas de m im , eu sem pre faço isso quando escrevo m as nunca pensei que o fizesse falando em segredo com esta fria m aquineta. Ontem ocorreram aqueles episódios desagradáveis com o pai e a m ãe de Sofia. Hoj e eu ainda não os vi. De m anhã eu e Sofia fom os de carro à clínica em Botafogo. Sofia cantava, acom panhando a m úsica do carro: são as trapaças da sorte, são as traças da paixão. Macacos m e m ordam . Na sala da clínica estavam seis m ulheres, sendo quatro m uito j ovens, e dois hom ens, que nos olharam em silêncio quando chegam os. Um a atendente convocou logo depois as m ulheres, que foram conduzidas por um a porta, com o se fossem prisioneiras. Perguntei pela enferm eira-chefe. Ela dem orou uns dez m inutos para aparecer e levou-nos para um a salinha. Moem a era m agra, brusca, de voz estridente. Que idade ela tem ? Respondi: dezesseis. Moem a disse que Sofia parecia ter m enos, m as que de qualquer form a o m édico não operava pessoas com m enos de dezoito anos. Que diferença faz entre dezesseis e dezoito? Sou am igo do José de Alencar. Moem a m e olhou com frieza e disse que som ente o diretor da clínica poderia resolver o problem a. Quem fazia aborto num a garota de dezoito anos fazia num a de dezesseis, quem fazia num a de dezesseis fazia num a de quatorze, quem fazia num a de quatorze fazia num a de doze. Afinal surgiu o diretor. Era um hom em gordo, enorm e, vestido de branco. Apresentei-m e a ele dando um nom e falso. Quantos anos ela tem ?, perguntou ele, com aspereza. Dezesseis. Ele riu, os lábios grossos e úm idos brilhantes puxados para baixo e disse num tom perem ptório: ela não tem dezesseis anos. Se tivesse o senhor a operaria?, perguntei. Talvez, ele disse, dando um a volta sobre os calcanhares, com o se fosse um pião. Seus pés pequenos, e suas pernas finas pareciam incapazes de equilibrar o seu tronco rotundo, m as ele m ovia-se rápido e até com certa graça fem inina. Se ela tivesse dezesseis anos os riscos para a saúde da paciente seriam m enores e ele não queria m eter--se em confusões operando um a m enina de onze anos. Ela tem doze anos, corrigi, involuntariam ente. E o senhor com essa cara pierrotesca querendo m e fazer de trouxa, disse ele rindo. Ela tem um a saúde de ferro, eu disse, relevando o doesto, envergonhado. Ele continuou rindo, balançando a im ensa barriga, um riso baixo e m usical, Boris Godunov. Seus dentes eram am arelados de nicotina; ele salivava nos cantos da boca e com a língua, um a língua pequena e achatada com o a de um gato, espalhava a saliva pelos lábios polpudos. Nós não podem os ter esse filho, doutor, eu disse hum ilde. Boris parou de rir e encostou o rosto no m eu. Sua pele era cheia de pequenos buraquinhos com o se ele tivesse sofrido um surto brando de varíola. Por que não usou pílula, diafragm a, cam isinha, diu, coitus interruptus? Fazem besteira e depois vêm correndo para cá. É um pobre país este, cinco m ilhões de abortos por ano. Macacos m e m ordam . Nós não podem os ter esse filho, repeti desanim ado. Boris perguntou m inha idade e quando eu disse notei que ele m e olhou com m ais sim patia. Mesm o assim não abandonou o seu estilo inj urioso: m ais pra lá do que pra cá, hein? Eu am o esta m enina. Ah, o am or, o am or, sentenciou Boris. Tudo tem um ônus, um preço, um im posto, um a carga, um gravam e. Peguei Sofia pelo braço, para irm os em bora. Ela perm anecera calada; creio que em alguns m om entos divertiu-se com a figura de Boris. Vexam e, ele entoou, há sem pre um vexam e à nossa espera. Mas o senhor tem sorte, farei esta loucura, deve ser a sua cara de parvo que m e com ove. Quero dinheiro em espécie, dona Moem a lhe dirá quanto é. E saiu deslizando sobre os seus sapatos brancos de pelica. Pedi a dona Moem a que tratasse bem de Sofia. Olhei as duas desaparecendo por um a porta. As costas de Sofia eram tão delicadas e frágeis! Meus olhos se encheram de lágrim as. Felizm ente a visão dos seus vigorosos m úsculos glúteos, contidos pela calça lee, am ainou um pouco a m inha dor e o m eu m edo. Ainda por cim a eu não tinha o dinheiro que Boris m e pedira. Onde conseguir aquela quantia? Liguei para o m eu editor, m as não consegui localizá-lo. Macacos m e m ordam . Os am igos devem servir para estas horas, m as eu não tinha am igos. Liguei para Regina. Com binam os um encontro na agência do banco. Eu não disse para que era o dinheiro, nem ela perguntou. Eu te pago, assim que localizar o m eu editor eu te pago. Devo ter repetido isto várias vezes pois ela m e advertiu irritada: pare de m e tratar com o se eu fosse um gerente de banco, seu idiota. Voltei correndo para a clínica e entreguei o dinheiro a dona Moem a, que m e disse que Sofia estava passando bem e dorm ia. Sentei-m e num a sala de espera e pela prim eira vez na m inha vida, vendo retrospectivam ente (na hora não notei), consegui esvaziar a m inha cabeça de qualquer pensam ento, com o se o m eu cérebro tivesse sido arrancado e dentro do m eu crânio restasse um espaço vazio. Foi um tem po infindável. Então Moem a surgiu com Sofia. Ela estava m uito pálida, os lábios cinzentos. Ela está bem , disse Moem a. Não se esqueça de seguir as recom endações m édicas. Quando chegam os no carro dei a Sofia as flores que eu não tivera coragem de entregar na frente de dona Moem a. Adoro rosas am arelas, disse Sofia. Logo ela dorm iu com o buquê de rosas no colo enquanto eu dirigia com cuidado pelas ruas cheias de carros. Aos poucos m inha cabeça com eçou a se povoar de pensam entos: os telefonem as silenciosos, Boris, a briga de galos, Maria Augusta, m eu editor, o Curandeiro da televisão, Eunice, Regina. Abri as j anelas do carro e respirei fundo. O que estou fazendo tam bém agora, várias vezes. Com binei com Sofia que ela chegaria em sua casa e diria que estava com m uita dor de cabeça e iria direto para a cam a. A lavagem de am anhã e todas as outras ela fará aqui, j á estou com o clister e os rem édios. O telefone toca várias vezes. Nada m udou, nada vai m udar. Macacos m e m ordam .