O Cobrador

Rubem Fonseca · Capítulo 3 de 12

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O Cobrador

Encontro no Amazonas

Soubem os que ele havia se deslocado de Corum bá para Belém , via Brasília, de ônibus. De tanto andar atrás dele eu j á sabia que tipo de pessoa ele era. Estava fugindo, m as isso não o im pedia de ver todos os m useus e igrej as no seu cam inho.

O único m useu que havia em Belém era o Goeldi. Ele passara dois dias seguidos visitando o Goeldi, m esm o tendo razões para suspeitar que nós estávam os chegando perto. Todo m undo o havia visto.

“Ele ficou um tem pão olhando os peixes. Tinha um caderno grosso cheio de anotações”, disse o hom em do aquário.

“Se isso foi anteontem é possível que ele ainda estej a por aqui”, disse Carlos Alberto.

Carlos Alberto estava naquela m issão com igo. Sentam os num bar e bebem os cervej a. A cervej a do Pará não era ruim . Em qualquer lugar do m undo pode-se tom ar cervej a sem susto.

“Qual será o nom e que ele estará usando agora?”, perguntou Carlos Alberto.

“Não sei. Mas não será nenhum dos que conhecem os.”

Ele havia entrado pela fronteira da Argentina e estava subindo para o norte. Sabíam os que chegara a Brasília e dali viera para Belém de ônibus, varando, só nesta etapa, m il novecentos e um quilôm etros de estrada. De Belém , se tivesse usado avião de carreira, ele poderia ter ido para Macapá, ou para Santarém , ou para Manaus e dali para Boa Vista, m ais para o norte, j unto da Guiana e da Venezuela. Ou então para noroeste, Porto Velho e depois Rio Branco, j unto das fronteiras do Peru e da Bolívia.

Achar o hotel dele em Belém fora m uita sorte nossa. Um m otorista que fazia ponto na rodoviária se lem brava dele. Era o Hotel Equatorial. O em pregado da portaria inform ou que ele indagara sobre um vapor que subia o rio até Manaus. A passagem havia sido com prada na agência de viagens Lusotour.

“Claro que lem bro dele, difícil seria esquecê-lo. Ele queria um a passagem num dos navios que sobe o Am azonas até Manaus”, disse o hom em da agência.

“E ele seguiu no navio?”

“Não sei. Creio que sim . Não tem os o controle do em barque. Aquilo é m uito

desorganizado. Mas ele pode ter ido de avião, pois tinha um a reserva para Manaus.”

No aeroporto tam bém não obtivem os inform ações. Ele poderia ter em barcado

ou não. Os nom es da lista de passageiros nada esclareciam . Inesperadam ente, as pessoas pareciam não m ais tê--lo visto, com o se isso fosse possível.

Tiram os cara ou coroa para ver quem ia direto de avião para Manaus, esperar

por ele, caso ele tivesse ido para lá, e quem ia subir o rio fazendo um a verificação em cada vila ou cidade em que o navio parava, até Manaus.

Coroa era Manaus e saiu para Carlos Alberto.

“Você sabe o que fazer, não sabe?”

“Pode deixar”, disse Carlos Alberto.

Carlos Alberto estava há pouco tem po com a gente. Era ainda m uito j ovem ,

m as m uito aplicado.

“O aeroporto de Manaus é m oderno e com m uito m ovim ento”, eu disse.

“Pode deixar.” Carlos Alberto só falava m uito quando era sobre a m ãe que ele

estava escolhendo. Levei-o até o aeroporto. Esperei o avião partir.

Eu tinha um a sem ana para ficar em Belém , esperando o navio. Acordava às

cinco da m anhã e ficava ouvindo o rádio, para m e fam iliarizar com as coisas locais. Depois tom ava banho, vestia um a calça e um a cam isa, e saía. O hotel onde eu estava era do tipo m édio, apenas com turistas brasileiros do norte e do nordeste.

Eram sete e m eia quando cheguei ao m useu. Entrei pela porta dos

funcionários, sem perceber que ainda não estava aberto para o público.

Fui até a j aula dos anim ais. Dentro de poucos anos não existiria m ais nenhum ,

toda a fauna am azônica estava sendo dizim ada. Quando m e viu, a onça com eçou a brincar; corria e rolava de barriga para cim a, com o se fosse um gato. Outro anim al m uito bonito e elegante era a suçuarana, um a espécie de leopardo; seu pelo lilás lavado brilhava na claridade m atutina. Os m acacos, porém , pareciam anim ais tristes, infelizes e m aníacos. Havia um que escondia o rosto agarrado nas barras de ferro. Suas m ãos eram parecidas com as m inhas. O rosto e o olhar do m acaco tinham um ar de desilusão e derrota, de quem perdeu a capacidade de resistir e sonhar.

O restaurante do hotel era pequeno, m as m uito eficiente. Eu com ia diariam ente unhas de caranguej o ao vinagrete e cam arões regados ao vinho branco do Rio Grande do Sul. Não adiantava ficar nervoso. Eu tinha que ser paciente. Ele podia estar subindo o rio, até Manaus. Se ficasse no m eio do cam inho eu o encontraria, a m enos que ele desem barcasse, pegasse um barco e se m etesse num dos afluentes do Am azonas. Então ele desapareceria sem deixar traço e nem todos os poderes do m undo seriam capazes de achá-lo. Mas ele não queria e não podia desaparecer na Am azônia. Ele tam bém tinha a sua m issão.

Se quisesse sair do Brasil de avião, via Manaus, com o parecia, ele podia ir ou para o Peru ou para a Bolívia, ou Venezuela ou Colôm bia. Então nós dificilm ente acharíam os o seu rastro outra vez.

Na Argentina ele tinha se dado m al. Tam bém no Paraguai. No Brasil ele fizera um bom trabalho, considerando as circunstâncias, até que nós o apertam os — custam os a descobrir quem era — e ele com eçou a se deslocar do sudeste, onde agia, para o norte, de m aneira insólita que quase nos enganou.

Um a cidade pequena para nós era a que tinha até um m ilhão de habitantes. Era assim Manaus. Nas pequenas cidades tínham os que ser m ais cuidadosos, os forasteiros eram facilm ente detectados. Além de outras dificuldades.

Na véspera do m eu em barque fui tom ar um sorvete de frutas perto da praça Bernardo Santos. Era um lugar que tinha m ais de oitenta tipos de sorvete. Eu queria tom ar um sorvete de bacuri.

“Está bom ?”, ela m e perguntou. Era um a garota m iudinha, loura, que surgira inesperadam ente perto de m im . “Você é de fora?”

“Sou”, respondi. Não adiantava m entir que não era. Belém era um a cidade grande, de m ais de um m ilhão de pessoas. Talvez eu passasse despercebido, m as m entiras óbvias deviam ser evitadas. A garota evidentem ente não era nenhum risco, m esm o assim eu agiria com ela de acordo com o figurino.

“De onde?”

“Porto Alegre.” Era m entira, m as eu conhecia Porto Alegre bem .

“Do outro extrem o. Quantos quilôm etros até lá?”

“Milhares. Quatro m il, m ais ou m enos.”

“Eu sou de Macapá. Estou estudando aqui, sou a ovelha negra da fam ília.”

Seus olhos eram de um verde esm aecido. Com o seu olhar ansioso e o rosto

pequeno ela parecia o m acaco triste do Goeldi.

“Tam bém sou um a ovelha negra”, eu disse.

Fom os andando e tom ando sorvete.

“Para onde você vai agora? Quer j antar com igo?”, perguntei.

Com em os churrasco de tam baqui, no restaurante do hotel. Os peixes da

Am azônia são todos m uito gostosos. Sem pre que ia para o Norte eu só com ia peixe. A cozinha do Pará é m uito rica. Dizem os gastrônom os que é a única genuinam ente brasileira.

Ela com eu pato no tucupi. Com tanto peixe, tucunarés, pirarucus, tam baquis,

pintados e cam arões, lagostas, caranguej os, eu não iria perder tem po com endo pato com o se estivesse na França.

No restaurante baratinei a m enina. Ela disse que tinha dezenove anos, era de

Macapá, o pai com erciava com m adeiras (um dos que estavam devastando o Brasil), recebia um a m esada, m orava sozinha, ia fazer o vestibular de adm inistração na Universidade de Belém . Era tudo verdade, eu podia ficar tranquilo.

Fom os para o m eu quarto. Seu corpo pequeno era m uito bem --feito. Porém

nua ela parecia m ais velha e flácida.

“Posso ficar para dorm ir?”, ela perguntou. Isso acontecia m uito com igo. Às

vezes, nas cidades pequenas, eram cães que m e seguiam pelas ruas até onde eu estava m orando. Sem pre lhes dava com ida e tapinhas na cabeça.

“Pode”, eu disse.

Durante a noite fiquei m ais tem po acordado do que dorm indo.

Foi um a sem ana de tédio. Carlos Alberto telefonou de Manaus dizendo que

estava a postos. Havia feito um reconhecim ento com pleto no aeroporto.

“A cidade está cheia de bagulheiros. O que tem de gente carregando caixa de papelão com equipam entos eletrônicos não é norm al. Gente do Brasil inteiro. São uns m alucos. Quem foi que inventou essa porcaria de Zona Franca?”

“É um a longa história que não vou explicar pelo telefone”, eu disse. “Encontrou a tua m ãe?”

“Ainda não. Aqui só tem burguesa noj enta de short, paulistas e cariocas e paranaenses e gaúchas, olhando pra vitrine de loj a de im portados. Um as escrotas perfum adas.”

A garota de Macapá se cham ava Dorinha. Maria das Dores. Dorinha, dor pequena, dorzinha. Era assim que eu a cham ava.

“Dorzinha, vou em bora hoj e.”

“Posso ir com você?”

“Eu volto.”

“Jura?”

Juram entos não valem nada. Os m eus m enos ainda.

“Juro.”

Eu viaj ava com pouca bagagem . Um a bolsa a tiracolo e um a m ala-saco de ny lon. Dorzinha carregou o saco até o cais Mosqueiro Soure. A bolsa eu nunca largava. Não podia, é claro, seria um erro.

No cais havia centenas de pessoas carregando um m ontão de bagagem , buj ões de gás, colchões, m obílias, sacos de m antim entos.

O Pedro Teixeira tinha um a prim eira classe, com cem passageiros, e um a terceira. Eu havia conseguido um dos poucos cam arotes com dois lugares. Um lugar fora bloqueado. Eu não queria viaj ar com ninguém . A m aioria dos cam arotes de prim eira tinha quatro beliches, geralm ente ocupados por pessoas que não se conheciam . Apenas dois cam arotes, cham ados de luxo, tinham banheiro próprio e ar-refrigerado. Todos os outros passageiros usavam os banheiros com uns.

Meu cam arote era o 30, e ficava a boreste.

“Não deixe de m e escrever”, disse Dorinha.

“Adeus, Dorzinha”, eu disse, beij ando-a no rosto.

Pelo alto-falante colocado no cais anunciaram que os passageiros da terceira

classe j á podiam em barcar. Eles correram para o convés da popa e arm aram suas redes.

As pessoas se colocavam um as sobre as outras, as redes se tocando, num

em aranhado que parecia algo inventado pela natureza,um a flor do fundo do m ar. Um a rede de redes que não poderia ser planej ada e criada por nenhum arquiteto ou engenheiro, m as que brotou, em apenas m eia hora, da necessidade e da ânsia das pessoas.

Estava m uito quente. Tirei a cadeira do m eu cam arote e coloquei-a no

corredor. Dali eu avistava as redes. Um a porta de com unicação estava aberta, m as os passageiros da terceira apenas olhavam para o corredor da prim eira com curiosidade reverente. Um hom em acom panhado da m ulher e do filho atravessou a porta. Passou por m im e o ouvi dizendo — “esse aí deve ser danado de im portante”. Não havia rancor na sua voz. Ele aceitava que o m undo tivesse pessoas danadas de im portante que viaj assem de cam arote e possuíssem um a cadeira para sentar, no corredor, e outras que viaj assem em redes dependuradas, com o réstias de cebola.

O cam arote 28 (a boreste os cam arotes tinham núm eros pares; a bom bordo,

ím pares) era ocupado por três hom ens. Um deles com eçou a conversar com igo. Disse que era advogado em Goiás e que estava se m udando para Parintins.

“Lá só tem um j uiz, um prom otor e um advogado. Não adianta ficar em

Goiânia, a concorrência é m uita.”

O nom e dele era Ezir. No dedo anular da m ão esquerda exibia um enorm e

anel de grau com pedra verm elha.

Meu cam arote, além dos beliches, tinha dois arm ários e um a pia. Verifiquei as

portas — um a de venezianas, e outra, por dentro, com um a tela, para evitar os insetos. O taifeiro m e havia dado duas chaves — um a do cam arote e outra do banheiro.

O banheiro, m esm o antes da viagem com eçar, j á estava suj o.

Três apitos longos ecoaram na noite m orna. O navio com eçou a se deslocar.

Um a brisa fresca e agradável soprava. A porta de com unicação com a terceira classe foi fechada por um taifeiro. Senti um certo alívio. Pobreza m e incom odava, com o se fosse um a doença contagiosa. Eu m e irritava com aquela gente suportando tanta hum ilhação e sofrim ento.

Eram dez horas. Tirei toda a roupa e deitei-m e no beliche inferior. Dorm i m al. Sonhei com ele. Não era a prim eira vez. Eu nunca o tinha visto m as sonhava com ele. Com a descrição que m e haviam feito dele. Eu queria vê-lo, encostar a m ão no seu corpo, estava cansado de correr atrás dele inutilm ente.

Levantei-m e às quatro e m eia. No cam arote não havia toalhas nem sabão. Eu tinha um a toalha na m inha bagagem e um pequeno sabão do hotel. Vesti um calção e saí, carregando m inha bolsa. Um vento frio envolveu m eu corpo. O navio inteiro dorm ia.

O banheiro tinha três privadas e dois chuveiros. Tentei defecar, com o sem pre fazia ao acordar, m as não consegui. Tom ei banho e enxuguei apenas as nádegas, o pênis e os testículos, para poupar a toalha. Minha bolsa ficou sem pre perto de m im .

Voltei ao m eu cam arote e vesti um a calça de brim e um a cam isa. Fui para o convés superior aberto, da popa.

O dia raiou nublado, quase às seis horas. Ainda estávam os no rio Pará. O café seria servido às sete horas. O alm oço das onze às doze e o j antar das dezessete às dezoito horas.

Os passageiros da terceira haviam sido segregados no convés inferior, m as alguns conseguiram escapar e dorm iam nas cadeiras de descanso de cim a.

Às sete horas fui para a m esa de refeições. Eu tinha que agir com o um passageiro com um , e decidira adotar a identidade de um turista do sul, interessado em visitar a Zona Franca para fazer com pras.

Eu havia estado em Manaus logo nos prim eiros anos da Zona Franca. A cidade m e dera a im pressão de ter m ais farm ácias do que qualquer outra em que eu j á estivera. E o espetáculo dos com pristas carregando sacas coloridas das im portadoras dava-lhe um ar m aterialista e corrupto. Fui com er, no m elhor restaurante da cidade, um churrasco de pirarucu. Os frequentadores do restaurante, que m e pareciam as pessoas finas da terra, eram com o os fregueses de qualquer churrascaria do Méier ou do Brás. Só que não havia pretos e m ulatos. Usavam relógios vistosos, vestiam -se com o os sulistas, de paletó e gravata. Fui para a cam a com um a prostituta de quatorze anos, que tinha dentes postiços.

Minha m esa, no navio, tinha, contando com igo, dez pessoas. Um casal

estrangeiro, am bos louros, na casa dos trinta anos; duas m ulheres m ais velhas, possivelm ente com pristas; três hom ens que haviam se conhecido na viagem e dorm iam no m esm o cam arote, sendo um deles o advogado Ezir, e um casal que só vim a conhecer na hora do alm oço, pois dorm ia até tarde.

Os estrangeiros falavam em voz baixa. Eram educados e prestativos. Estavam

no centro da m esa e passavam os bules de café e leite e o açucareiro de um lado para o outro, com um sorriso. Eu conhecia esse tipo de gente. O hom em carregava um a Nikon, para docum entar a viagem e m ostrar os slides para os am igos. Fotografava a im ensidão das águas e a pobreza das pessoas e dos barracos na m argem do rio.

Tentei descobrir a origem do casal pelo sotaque. Havia ecos do sotaque

italiano, rem iniscências sonoras do francês, um a certa guturalidade germ ânica. Não era difícil concluir que eram suíços.

Depois do café a suíça foi para o convés tom ar banho de sol. Seu corpo era

bem -feito. No café ela se alim entara parcam ente, com o alguém fazendo regim e para m anter o peso, recusando as bananas servidas, o que não acontecera com o hom em . O pé da suíça, porém , era m uito feio; com o a m aioria das m ulheres, ela tinha calos nos dedos e nos calcanhares; o dedo grande era torto; m as suas pernas eram bonitas.

Sem pre que passávam os ao largo dos barracos da m argem do rio, canoas se

aproxim avam do navio, tripuladas por m ulheres, com um a ou duas crianças, que pediam coisas em gritos que pareciam ganidos de cachorros, com o se esperassem que os passageiros lhes j ogassem coisas, com ida talvez, roupas. Mas não vi isso acontecer um a vez sequer.

Na hora do alm oço conheci o casal que faltava na m esa C. O hom em era

m oreno e forte, tinha bastos cabelos negros ondeados, um bigode grosso e usava óculos escuros. Parecia, inicialm ente, sinistro e am eaçador. Ela era m agra, queim ada de sol, alta e m ais j ovem do que ele. Devia ter no m áxim o uns vinte anos. Os dois riam m uito, descontraídos.

Os outros hom ens da m esa conversavam com Ezir. Um deles era funcionário

aposentado do governo do Pará e ia passar o Natal com a fam ília. O outro era funcionário do Ministério das Relações Exteriores, lotado na Com issão de Lim ites e Fronteiras, um hom em grande e falastrão, que sabia m uita coisa sobre a Am azônia e gostava de contar histórias pitorescas. As duas m ulheres eram pernam bucanas, estavam interessadas em aparelhos de som e m áquinas fotográficas. “O senhor acha que eles descobrem um a Olim pus escondida no m eio das roupas?” Eu podia ficar tranquilo quanto à m esa C. De qualquer m aneira, eu m e sentava de costas para a parede. Eram seis m esas, ocupadas em três turnos, o m eu era o prim eiro. Muitos passageiros da terceira haviam pago por fora para poderem com er na prim eira. A alim entação da terceira era m uito precária. Os passageiros tinham que possuir um prato e um a caneca, e com iam no próprio local onde estavam arm adas as suas redes. Vi m uitos passageiros da terceira j ogando a com ida fora, no rio.

Não havia no navio um a m ulher que Carlos Alberto escolhesse para ser m ãe dele. Eu não sabia o que ele procurava, m as sabia o que ele não queria. Carlos Alberto fora criado num asilo e nunca conhecera sua m ãe. Toda m ulher que via ele im aginava, “será que essa é a m ulher de cuj as entranhas eu gostaria de ter saído?”. Mas não conseguia encontrá-la.

Às vinte e três e trinta do segundo dia de viagem param os em Gurupá, no Urucuricaia. Apesar da hora o cais estava cheio. Eu sabia que sem pre haveria gente nos cais das cidades por onde passássem os. Seria im possível sair sem que ninguém o visse. Perguntei aos vendedores de frutas, aos vendedores de artesanato, às m ocinhas, se o haviam visto desem barcar do outro navio.

“Um a assom bração dessas se aparecesse todo m undo via”, disse um a m ocinha depois de ouvir a descrição que fiz dele.

Estávam os viaj ando havia três dias e eu ainda não conseguira defecar. Meu organism o sem pre funcionara bem . Devia ser a suj eira do banheiro. O trabalho m e deixava um pouco tenso, m as não a ponto de causar aquela inibição. Afinal, não era a m inha prim eira m issão. Fiquei um tem po enorm e trepado na privada, com o um a ave, a bolsa na m ão, um a postura ridícula e inconfortável.

A hora do dia que eu m ais gostava era a m adrugada, quando todos dorm iam e soprava um a brisa fresca. O convés estava sem pre vazio. Eu via o dia raiar sentado num a das espreguiçadeiras do convés superior.

Surgiu um hom em carregando um a gaiola com um pássaro. Era m agro e alto, cara ossuda e com prida de nordestino. Apanhei m inha bolsa que estava no chão, enquanto vigiava os seus m ovim entos.

“Que pássaro é esse?”, perguntei.

“É um xinó”, ele respondeu. Estava na terceira e transportava dez gaiolas com

pássaros. Quatro eram rouxinóis.

Logo depois surgiu m inha com panheira de m esa, casada com o hom em

sinistro.

“Você acorda cedo assim ?”, ela perguntou.

“Sem pre”, eu disse.

“Pois eu ainda nem dorm i”, ela disse.

Pegou um colar de contas verm elhas que tinha em torno do pescoço, rodou-o

no ar e atirou-o no rio. Olhou para m im com o se esperasse algum com entário. Fiquei calado. Parecia em briagada.

“Sou m ineira. Moacy r é gaúcho. Não aguento m ais essa viagem .”

A felicidade dela parecia ter acabado. Cham ava-se Maria de Lurdes. Fechado

dentro de um navio, um casal, m ais do que um suj eito sozinho, tem que saber dosar suas energias.

Durante o café, Evandro, o suj eito da Com issão de Lim ites e Fronteiras, m e

disse que havíam os passado por Alm erim .

“Ali, onde você vê aquela torre de m icro-ondas da Em bratel, é a Serra da

Velha Pobre. Aquelas árvores de copas am arelas são pau d’arco, dobram o gum e de qualquer m achado.”

“Está vendo lá longe?”, continuou Evandro. “São as terras do Jari. Um m undo.

Cabem três Franças aí nesse m ato. Tudo dum am ericano m aluco, o Ludwig.”

Evandro m e olhou, de m aneira suspicaz. Ou seria tudo invenção da m inha

m ente treinada para desconfiar? Que resposta ele estaria esperando?

“Esse Brasil é grande”, eu disse.

Maria de Lurdes aproxim ou-se e m e ofereceu um a laranj a. Agradeci,

recusando. Evandro debruçou-se na am urada do navio. Maria de Lurdes tirou o lenço da cabeça e num gesto dram ático j ogou-o no rio.

“O am or dura pouco”, disse Maria de Lurdes. “Estou te esperando hoj e às dez e trinta da noite. Minha cabine é a 25. Moacy r bebe um a garrafa de cachaça por dia e um as dez de cervej a. Quando chega a noite ele j á apagou.”

Maria de Lurdes tirou a blusa e a saia e j ogou dentro d’água. Usava por baixo um biquíni verm elho. Seu corpo era bonito e j ovem . O sol forte fazia a água do rio ainda m ais barrenta e definia o contorno verde-escuro da floresta distante.

“Está vendo os botos? Eu queria ser um boto. Às vezes penso em pular n’água e sair corcoveando.” Maria de Lurdes levantou os braços, no seu sovaco os cabelos raspados despontavam duros. Tive vontade de estender as m ãos e tocar nos bicos dos seus seios que apareciam através do tecido do sutiã. Carlos Alberto a escolheria para m ãe? Maria de Lurdes botou a língua para fora e para dentro, com o um lagarto, enquanto m e olhava nos olhos.

“Dez e m eia”, disse Maria de Lurdes.

Evandro, próxim o, fingia olhar o rio.

“Alm erim fica pra lá. Já estam os no Am azonas”, disse Evandro.

Passei o resto da m anhã na terceira classe. Todos os dias o ceguinho Noé tocava acordeão. Ia com a m ãe para Manaus e dali para Porto Velho. Era acom panhado por três suj eitos que tocavam pandeiro, bum bo e triângulo. Depois a m ãe corria o pandeiro e as pessoas colocavam nele notas suj as de pequeno valor e níqueis.

“O grosso do povo é gente indo visitar a fam ília. Mas tem tam bém alguns m arretas, que vendem de tudo, lavradores se m udando, m uam beiras, um pistoleiro procurando ares m ais frescos”, disse o taifeiro J. M. Diariam ente eu dava um a gorj eta para ele.

“Me m ostra o pistoleiro”, pedi.

Era um hom em m agro e pálido, de bigodinho fino, uns quarenta

anos. Matador ordinário.

“Pistoleiro de quem ?”

“De quem pagar. Não tem patrão. Trabalha por em preitada pros coronéis e com erciantes da região. Olha, desculpe eu pedir, não m e cham a de J. M., m e cham a só de João.”

“Me disseram que era assim que você era conhecido.”

“Me cham a de João, só João.”

No j antar Moacy r apareceu em briagado. Maria de Lurdes ria j ogando a

cabeça para trás e abrindo bem a boca, olhando para m im . Ezir piscou o olho para Evandro. As duas m ulheres segredaram entre si.

“Estam os entrando no rio Monte Alegre”, disse Evandro. “É um rio cheio de

peixe, tem tam baqui de um m etro.”

“Tem centenas de espécies de peixe neste rio”, disse o funcionário aposentado.

Depois do j antar fui para m inha cabine e m e deitei. Um a bruxa grande voava

dentro do cam arote e batia no m eu corpo nu. Na noite anterior um gafanhoto entrara no m eu cam arote e pousara no m eu peito. Suas patas grudaram na m inha pele. Quando quis tirá-lo, ele m e deu um a leve picada, um a pequena alfinetada. Ilum inado pela lâm pada que ficava sobre a m inha cabeça, parecia feito de folha. Havia tam bém um a lagartixa que à noite saía de trás do espelho e passeava pelo cam arote à caça de m osquitos. A bruxa se debatia e eu pensava em Maria de Lurdes.

Havia decidido que não iria vê-la, m as isso não dim inuíra o m eu desej o por

ela; ao contrário, parecia tê-lo aum entado. O seu corpo esguio e m oreno, sua boca, sua língua de réptil não saíam da m inha m ente. Mas eu não podia arriscar o m eu trabalho.

Chegaríam os a Monte Alegre por volta da m eia-noite.

Às onze horas eu estava na proa. Avistam os as luzes de Monte Alegre a

boreste. A cidade dividia-se em parte alta e baixa. Antes m esm o do navio atracar, barcos com vendedores de bananas, m angas, m am ões, abacates, queij os e doces acostaram o navio.

O cais estava cheio de gente. Passam os por várias gaiolas, algum as com luzes

brilhantes e redes coloridas estendidas no centro, m uitas j á ocupadas por passageiros.

Desem barquei e falei com pessoas que haviam estado no cais de Monte

Alegre quando o outro navio passara, na sem ana anterior. Ninguém havia visto ele desem barcar. Mas um rapaz que vendia queij os se lem brara de tê-lo visto na am urada do navio, sozinho, im óvel.

“Pensei que era um boneco”, disse o rapaz.

O navio soltou três apitos longos que ecoaram na noite enluarada. Eu estava na proa, perto da cabine de com ando. A lua brilhava tão forte que parecia o sol visto através de um filtro escuro. Soprava um a brisa pura e fresca.

“Rum am os de volta para o leito da m ãe de todas as águas doces — o Am azonas”, disse Evandro ao m eu lado. Levei um susto ao ouvir a sua voz. Ele se aproxim ara de m im sem eu tê-lo pressentido, apesar do silêncio. Ouvia-se a quilha do navio fendendo as águas com o se estivéssem os sendo im pulsionados pelo vento.

Chegam os a Santarém às três e trinta da m adrugada. Saíram vários passageiros. Um deles, da terceira classe, desem barcou com um a m obília com pleta de quarto — cam a, arm ário, colchão, m esinha — além de várias m alas e três buj ões de gás.

No cais de cim ento de Santarém estavam alguns navios m ercantes de grande calado. Vários vendedores de artesanato expunham suas m ercadorias. Os suíços desem barcaram e com praram bolsas e chapéus de palha.

Maria de Lurdes desem barcou com igo. Seus olhos estavam averm elhados e ela parecia m ais j ovem e frágil. “Você não sabe o que está perdendo”, ela disse, tentando parecer insolente.

“Eu sei.”

“Quem é esse suj eito que você está procurando?”, perguntou Maria de Lurdes, quando voltam os para o navio.

“Um velho am igo.” Eu podia cham á-lo assim . Nunca o tinha encontrado, m as sabia tudo dele, m enos o som da sua voz. Não estava no dossiê. Anotei m entalm ente essa lacuna.

O dia com eçava a raiar, quando saím os de Santarém , cortando a água azul escura do Tapaj ós, de volta para o Am azonas. Logo as águas lim pas do Tapaj ós foram engolfadas pelas barrentas do Am azonas. O Tapaj ós é um grande rio, m as o Am azonas é m uito forte. Arranca blocos de floresta de suas m argens. Na sua em bocadura em purra o m ar e entra quinze m ilhas por dentro do oceano Atlântico.

O Pedro Teixeira subia perto da m argem , a boreste. Ouvia-se, cobrindo as águas e subindo para o céu azul, o cantar dos pássaros que saía da densa floresta. O ar era lim po e transparente. O que teria ele pensado ao passar por ali? Teria feito anotações no seu livro grosso? De onde ele vinha não havia nada igual.

Excitados, os suíços fotografavam sem parar. “Já bati m ais de m il fotos”, disse

o suíço, tentando dar um tom m odesto à sua declaração.

Na hora do alm oço, o funcionário aposentado, que se cham ava Alencar e

pouco falava, perdeu a tim idez quando o suíço perguntou quem havia sido Pedro Teixeira.

“Pedro Teixeira foi a prim eira pessoa que subiu o rio, em 1637”, disse Alencar.

“Era um capitão português que com andara a expulsão, prim eiro dos ingleses, depois dos franceses, de Gurupá.”

Alencar falava de m aneira pausada, tem endo que o suíço não o entendesse.

“Ele saiu de Gurupá e subiu o rio até Quito, no Equador. Fundou a cidade de

Franciscana, hoj e Tabatinga. Colocou o padrão de posse portuguesa no rio Napo. Sua viagem tem características políticas im portantes pois m arcou a expansão portuguesa na região. Pelo Tratado de Tordesilhas, de 1494, a Am azônia deveria ser espanhola. Mas os exploradores portugueses, com sua vocação im perialista, desprezaram o Tratado, e nos séculos XV e XVI foram tom ando posse da Am azônia. Em 1669, o capitão Mota Falcão ergueu o forte de São José do Rio Negro, no local onde m ais tarde Manaus seria erigida. Em 1694, Lobo d’Alm ada subiu o rio Negro. Assim , no século XVII, quando perceberam que os portugueses j á haviam ocupado de fato a m aior parte da Am azônia e que, se não fossem sustados no seu expansionism o, acabariam ocupando-a inteira, os espanhóis propuseram outro tratado, que foi assinado em 1750, fixando os novos lim ites brasileiros no extrem o norte. Pelo Napo os portugueses haviam ido até ao Equador, pelo Maranõn até o Peru, pelo Negro até à Colôm bia e à Venezuela. Mais um pouco e a Am azônia seria toda brasileira.”

“Vej o que alguns brasileiros herdaram o espírito im perialista português. O

senhor, pelo m enos”, disse o suíço, gentilm ente.

“Para que m ais? A gente j á não dá conta do que tem ”, disse Evandro.

“Não sou im perialista”, disse Alencar. “Sabe quanto m ede a bacia hidrográfica

do Am azonas? Quase seis m ilhões de quilôm etros quadrados. E a floresta? Não existe nada igual no universo. E no entanto tudo vai ser arrasado. A destruição j á com eçou. De que adiantou os nossos antepassados conquistarem todo esse território se agora som os incapazes de preservá-lo?”

O suíço curvou-se sobre o seu prato de arroz com feij ão, disfarçando um sorriso irônico. Eram histórias pitorescas para contar quando voltasse a São Paulo, onde trabalhava num a m ultinacional. E m ais tarde na Suíça, ao m ostrar os seus slides, falaria do delírio nacionalista de m estiços m iseráveis de dentes cariados.

À noite não consegui dorm ir, pensando em Maria de Lurdes. À um a hora da m anhã levantei-m e e fui até ao cam arote 25. Dentro havia um a luz acesa. Bati na porta.

Maria de Lurdes saiu do cam arote. Estava cheia de colares em volta do pescoço, usava um vestido longo largo e um chapéu de palha na cabeça.

“Você aqui? Resolveu?”, disse ela. “Quer ver um a coisa?”

Maria de Lurdes escancarou a porta. Dentro do cam arote havia dois beliches. Num deles estava Moacy r dorm indo.

“Quinze dias de casada e j á o odeio”, disse Maria de Lurdes.

Levei-a para o m eu cam arote. Tirei os colares dela, um a um , sentindo na m inha boca o gosto antecipado da sua carne. Sob o vestido ela não tinha roupa algum a.

“Estava doida para botar uns chifres nele”, disse Maria de Lurdes.

“Vam os m udar de assunto”, eu disse.

“Você quer falar de am or?”

“É. Quero falar de am or.”

Deitam os no beliche de baixo.

“Me enlouquece, m e faz subir aos céus ao encontro de Jesus”, disse Maria de Lurdes. Seu corpo parecia ferver dentro da cabine quente e abafada.

De m anhã ela disse que não queria ir tom ar café na sala das refeições.

“Pensando bem vou ficar aqui até o fim da viagem .”

Me vesti, peguei m inha bolsa e saí.

Na hora do alm oço voltei. Maria de Lurdes estava dorm indo.

Acordei-a. “É m elhor você se vestir. Daqui a pouco o seu m arido acorda e vai

notar a sua falta.”

“Ele que vá para o inferno.”

Maria de Lurdes abriu os braços e as pernas. “Vem ”, ela disse.

Fui alm oçar. Moacy r não apareceu no alm oço. Evandro avisou que às quatorze

horas chegaríam os a Óbidos.

Ele não havia descido em Óbidos.

O com andante m e garantiu que todos os navios daquela linha paravam sem pre

nas m esm as cidades.

“Se o senhor quisesse, por exem plo, ir a Faro, ou Itacoatiara, tinha que pegar

outro navio. Nós param os sem pre no m esm o porto. Daqui pra frente até chegar a Manaus pararem os apenas em Orixim iná e Parintins. Nosso percurso será de cerca de m il m ilhas m arítim as, a m ilha m arítim a tem m il oitocentos e cinquenta e dois m etros, ou sej a, em quilôm etros o percurso será de m il oitocentos e cinquenta e dois quilôm etros, aproxim adam ente.”

Ele devia ter seguido para Manaus, se é que pegara m esm o o navio. Nesse

caso Carlos Alberto j á teria tom ado conta dele, há vários dias. Se tivesse ido de avião podia ainda estar ou não em Manaus. Se estivesse nós o acharíam os.

Moacy r surgiu na cabine do com andante.

“Capitão, m inha m ulher sum iu”, disse Moacy r. “Talvez tenha se atirado dentro

do rio.” Ele cheirava à bebida, m as sua voz era firm e.

“É m elhor o senhor procurar m ais”, disse o com andante.

Corri para o m eu cam arote. Maria de Lurdes se recusou a sair. Era por isso

que a gente não devia se m eter com m ulheres quando estava trabalhando.

Senti que o navio dim inuía a m archa. Devia estar chegando a Orixim iná.

“Não quero m ais saber de Moacy r. Vive bêbado. Além disso m e enganou, não tem m ais um tostão.”

O navio havia parado.

“Que diabo você carrega nessa bolsa que não larga nunca?” Deixei-a no cam arote. Eu sabia que o navio deveria ficar no porto apenas vinte m inutos, para desem barcar um passageiro.

Orixim iná era um pequeno vilarej o de poucos habitantes. Seu cais, com o o de todas as outras povoações em que havíam os parado, à exceção de Santarém , consistia num a plataform a de m adeira onde podiam atracar apenas pequenas em barcações. Sua posição perm itia divisar, no horizonte largo, as fozes do Trom betas e do Nham undá.

Desem barquei. Fiz a pergunta de rotina a um m enino com um cesto de m am ões.

O m enino o havia visto. Sua resposta fez o m eu coração bater apressado.

“Vendo m am ões e peixes para ele todos os dias. Mora num a casa lá em cim a. Hoj e de m anhã j á levei um piram bucu para ele.”

Pedi ao m enino que m e m ostrasse a casa. Eu sentia a boca seca e vontade de tossir.

Era um a casa pequena de alvenaria, que ficava no alto, com duas j anelas pequenas pintadas de azul-ferrete. Era ali que ele havia se escondido do m undo, com endo frutas e peixes e sentindo a força da natureza.

O garoto voltou para o cais.

Ouvi os três apitos do navio. Lá se ia a m ala com a m inha roupa, m as não tinha im portância. Eu não m e apegava a coisa algum a. A bolsa eu não podia perder, pois carregava nela o m eu instrum ento de trabalho. Com o poeira levada pelo vento os m eus com panheiros de viagem tam bém foram varridos da m inha m ente pelos apitos do navio.

Esperei, sentado sob um a árvore ao lado de um cão vagabundo, que a cidade voltasse à sua tranquilidade, perturbada pela chegada do Pedro Teixeira.

Bati na porta e ele abriu.

Nos últim os m eses eu pensara nele todos os dias e todas as noites.

Ele parecia ser ainda m ais alto do que os dois m etros e trinta que diziam ser a

sua altura. E sua cabeça era ainda m ais branca, seus cabelos resplandeciam na som bra.

Eu queria ouvir a sua voz.

“Bom dia”, eu disse, abrindo m inha bolsa.

“Bom dia”, respondeu.

Estendeu a m ão, quando viu o revólver com silenciador apontado

para ele, num gesto de paz.

“Não”, ele disse. Não tinha sotaque, nem m edo. Era um a voz fria. Seus olhos

m uito azuis m e deram um a rápida e dolorosa im pressão de que ele era inocente. Atirei duas vezes. Caiu de costas no chão. Abri-lhe a cam isa e toquei no seu corpo. Tinha a pele m acia e m am ilos rosados. O bico do m am ilo esquerdo estava túrgido com o se ele estivesse sentindo frio. Foi ali que encostei o cano do revólver e atirei outra vez.

Apanhei o livro e todos os seus papéis e saí, fechando a porta.

O cão levantou-se e veio para perto de m im . Eu tinha que achar um barco que

m e tirasse de Orixim iná.

Contem plei as águas azuis do Trom betas e do Nham undá ilum inadas pelo sol

poente, encontrando-se, no m eio da floresta im ensa, com as águas douradas do Am azonas. O silêncio cobria a terra toda. De repente m eu corpo se contraiu num espasm o violento e parei de respirar, sufocado no m eio de todo aquele ar. Depois passei a trem er convulsivam ente e a respirar uivando com o um anim al em agonia. O cão correu assustado. Mas logo os trem ores cessaram e fui envolvido por um sentim ento de paz e felicidade que parecia que ia durar para sem pre.