O Cobrador

Rubem Fonseca · Capítulo 9 de 12

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O Cobrador

H. M. S.

H. M. S. CORMORANT EM PARANAGUÁMIOLO

Quem sou?, penso, vendo-m e ao espelho de vestido longo negro de cetim ,

luvas brancas de pelica, brincos, colar, peruca, tiara de brilhantes, m eia-m áscara de veludo negro.

Luísa arrum a o quarto. Falo do baile.

Livros, papéis espalhados, tinta azul e verm elha derram ada, canetas, penas de

aço belgas, m ata-borrão num a arm ação de prata,

caveira am arelada com todos os dentes, lápis coloridos, borracha, j ornais, o

retrato dos m eus pais, um espelho grande, na parede escrito a carvão 1850 Feliciano Coelho Duarte, 1851 João Batista da Silva Júnior, 1852 nada.

Depois de algum tem po o hom em aproxim ou-se dizendo que era o conde de

Fé d’Ostiani, representante do Reino das Duas Sicílias. Estendi-lhe a m ão, o conde a prendeu entre as suas m urm urando — desde que cheguei estou em bevecido a contem plar vossa form osura.

Fou rire de Luísa: Em que língua tu e ele falavam ?

Tiro a m áscara, os brincos, o colar, a peruca, as luvas. Luísa m e acusa de estar

ridículo, vestido de m ulher.

O conde agarrou m inha m ão e num italiano estropiado de napolitano sussurrou

que m orria de paixão. Para dele m ofar disse-lhe que havia outras j eunes fillies m ais form osas do que eu e m encionei teu nom e. Ao ouvi-lo ele exclam ou, m a com e! questa bam bina?, bateu na testa com o um canastrão desses dram as coxos que se levam no Teatro São Pedro e acrescentou que tu ainda usavas fraldas. É um don Juan serôdio, não sei o que vês nele.

Luísa tira o batom dos m eus lábios e o ruge do m eu rosto.

Quem sou eu? O dr. Bustam ante no hospital tem respostas: um poeta que

apenas tem para provar seu valor o aplauso dos estudantes e dos bêbados. Mas pro inferno Bustam ante, tenho o talento que apregoo, sou quem eu penso que sou e ainda terei tem po de alcançar a glória e m orrer cedo, com o By ron, aos trinta e seis, gritando coragem , entre espasm os de dor, calafrios, sezões, delírios; com o Shelley, trinta anos; Keats, vinte e seis. A vida, diz Bustam ante, é apenas um círculo de funções que resiste à m orte, e m inha doença resulta m enos dos bacilos do que de um a condição patológica a que seus colegas alem ães denom inam Wille zur Krankheit.

Luísa duvida da m inha certeza de que o conde realm ente não m e reconheceu, pensa que ele estaria brincando com igo com o eu com ele. Hipótese esdrúxula, d’Ostiani quis beij ar-m e na boca! Arre! afinal não m e diverti tanto quanto pensei. Falta-lhe um dente na boca, não sei se o percebeste. Um diplom ata, e conde, banguela, onde j á se viu isso?

Tiro o vestido e visto calças listradas, sapatos de verniz preto de bico fino, cam isa branca de cam braia francesa, plastron, sobretudo preto.

Luísa acha graça na m inha audácia, ir vestido de m ulher a um baile em que estava a irm ã do Im perador, irm ã bastarda, diga-se. A condessa de Iguaçu usava um vestido cinzento que lhe fazia um a cinturinha de sílfide; no colo, num a volta só, o colar de grossíssim as pérolas, um boné grená com fundo de rede de prata prendendo a trança e franj as tam bém de prata; na cintura um buquê de violetas; dançava incansável pelo salão.

Luísa m e pede que lhe ensine a dançar o schottisch. Agora não, vou à taberna, com Teresa. Teresa existe para que m oças com o Luísa não sej am corrom pidas. A prostituta tem um a função no m undo, a de satisfazer as paixões dos hom ens, principalm ente dos solitários, dos tristes, dos desesperados. Luísa, à m inha frente, segura m inha m ão e a coloca na sua cintura, a cintura dela é tão fina que eu quase posso abarcá-la com as duas m ãos. Ela tem um cheiro bom , um perfum e m isterioso, entontecedor. Ficam os na posição de dançarinos, o schottisch tara tata tata tata Busta tata tatam ante, o hospital, a freira com o terço na m ão.

O que estás esperando, sonhas de olhos abertos?

danço, tara tata tata tata

a invenção vem da im aginação e a im aginação é um labirinto em que o difícil não é a saída, é a entrada.

Tum tum tum , batem na porta. A m úsica silencia.

É Teresa. Ela não sabia que eu estava acom panhado, não conhecia m inha irm ã, as duas se fitam e baixam os olhos. Cum prim entai-vos, ordeno, im paciente. Logo, elas conversam , trivialidades, um a diz que o vestido da outra é m ais bonito, e sorriem alegrem ente, e Teresa diz que o dela foi feito por dona Serafina, um a portuguesa que m ora na Cancela.

Sento-m e à escrivaninha, aborreço-m e, pego papéis.

Luísa se veste com costureiros franceses, digo.

Ah, então é por isso que o vestido dela é tão bonito.

Luísa quer o vestido de Teresa, que tem braços de fora e om bros nus, queixa-

se, aqui em casa nunca m e com prariam um vestido com os braços de fora. Am bas alacrem ente pedem -m e que feche os olhos ou fique de costas. Pego a caveira. Em decassílabos: foi a cabeça ardente de um poeta, esta fronte era bela, aqui, nas faces form osa palidez cobria o rosto, seus cabelos eram loiros, agora tudo é cinza.

Estalo os dedos, grito para Luísa e Teresa que estou escrevendo um poem a

sobre um a caveira. Elas, entretidas um a com a outra, ignoram m inha observação, pois têm o corpo quase igual e o vestido de um a aj usta-se ao corpo da outra, e têm a m esm a idade, dezessete anos, ah, as utopias, os sonhos da ciência nada valem , a vida é um escárnio sem sentido, com édia infam e que ensanguenta o lodo! m as elas, apesar dos m eus gritos, continuam a não m e prestar atenção. Com a caveira nos braços recito lugubrem ente: era um a fronte olím pica som bria, nua ao vento da noite que agitava as loiras ondas do cabelo solto, cabeça de poeta e libertino, corada pelo fogo da em briguez, na fronte a palidez, no olhar o lum e errante de um a febre ardente.

Teresa e Luísa riem com o duas crianças. Oh, céus, com o é difícil a arte

poética! Vam os Teresa, a um pagode na Taberna do Sapo e das Três Cobras, cantar e dançar rondós e tarantelas? Com o disse By ron, o bretão de alm a de fogo, quem escreveria se tivesse coisa m elhor para fazer? Ação, ação, isso é que é im portante, não escrever, e m uito m enos rim ar, vide a vida m onótona dos escritores.

Jogo os papéis da escrivaninha para o alto, com o corações na m issa, e nesse

instante ele aparece, num elegante traj e de lorde inglês, os olhos pequenos brilhando ironicam ente, um sorriso no rosto bonito e arrogante de lábios sensuais e cabelos encaracolados. Manca um pouco m ais do que ontem .

Que coisa m ais idiota cham ar-m e de bretão de alm a de fogo, diz By ron.

A frase faz parte de um poem a que te dediquei, digo, enquanto ouço Teresa

sussurrando ao ouvido de Luísa — ele fala sozinho? Finj o não ter percebido, se tenho um a visão que os outros não têm nem podem com preender de que m e adianta tentar explicá-la? Sem pre, ultim am ente, responde Luísa, tam bém num m urm úrio.

By ron tam bém não gosta de ser cham ado de poeta altivo das brum as de Albion, nem de m inha m usa, nem errante trovador d’alm a som bria. A Inglaterra é a Inglaterra, deve ser cham ada assim , ele diz.

Nessas horas, continua segredando Luísa, a boca encostada na orelha de Teresa com o se a estivesse beij ando, nessas horas é m elhor não interrom pê-lo, é com o se ele estivesse conversando um assunto im portante com um interlocutor para nós invisível, ainda que a conversa, com o vês, não tenha pé nem cabeça; m as seu delírio para aí, quando não está conversando com o seu fantasm a ele é um m ancebo gentil, bom , delicado e atencioso; é pena que a saúde dele não estej a boa.

Já disse que estou ótim o, digo, botando a língua para fora. Já viste língua m ais saudável? Puxo a borda inferior do olho para baixo. Vês? Verm elho com o o pôr do sol, rutilante com o sangue de um j avali. Vou com em orar esta saúde de gorila na taberna.

Luísa insiste, enquanto By ron nos contem pla divertido, em que eu devo ser exam inado por um m édico, a doce e bela criança ignora que a m edicina não salva ninguém da m orte, se todos os m édicos desaparecessem a saúde do povo nada sofreria, se não existissem m édicos as pessoas seriam obrigadas a descobrir o próprio corpo e saber com o ele se com unica com a m ente. Ah, a cabeça! coisas estranhas tem os dentro da cabeça.

Sim , tolices, ideias delirantes, sopra Luísa ao ouvido de Teresa, sua voz tem o rum or de um a asa de colibri batendo, ele está doente, vê com o está pálido, durante as noites levanta-se da cam a e cam inha dorm indo pela casa, dizendo palavras que ninguém entende, tom a conta dele por favor!

Luísa supõe que sou louco. Loucura e j uventude são coisas parecidas, a m ente flutua sem lim ites por espaços e tem pos vazios. Luísa, o rosto preocupado e aflito, apanha os papéis do chão e os arrum a na escrivaninha, enquanto By ron procura sentir o arom a do seu corpo. Um curto e ágil balé ocorre. Luísa se m ovim enta sem vê-lo e By ron se desviando dela, o nariz arrebitado aspirando o perfum e do seu corpo. By ron costum a dizer que há qualquer coisa que o suaviza na presença das m ulheres, um a influência estranha, m esm o quando ele não está am ando, algo que não entende, pois não tem em alta conta o sexo fem inino. Se tem um a m ulher ao lado, ele está de m elhor hum or, com ele m esm o e com o resto.

Vam os, vam os, digo, segurando o braço roliço de Teresa, vam os para a taberna. By ron desaparece. Luísa, com um suspiro fundo, senta-se na m inha cam a.

As m esas da taberna estão quase todas ocupadas por hom ens e m ulheres

cantando tarantelas, polcas, m azurcas, schottischs e valsas. Peço vinho ao taberneiro, um velho gordo dado a filosofar. By ron, com o sem pre, aparece inesperadam ente e senta-se à nossa m esa, coloca um a resm a de papel à sua frente e com eça a escrever. Ele m esm o se denom ina um furioso scribbler, diz que odeia escrever, que gosta de j ogar as coisas que escreve no fogo, principalm ente os poem as, escrever para ele é um a tortura, um sofrim ento do qual gostaria de se libertar.

Escrevo para retirar-m e de m im m esm o.

A garrafa de clarete português está vazia. Vinho, taberneiro!, grito. Um a

tarantela agitada na m inha cabeça. Divago. Minha im aginação é um cavalo selvagem em disparada, no qual cavalgo sem freio. Subitam ente irrom pe na taberna m eu am igo e colega da Faculdade de Direito, Francisco de Paula, de capa preta, à m aneira dos estudantes de Coim bra.

Silêncio, silêncio!, exclam a Francisco de Paula, acabo de saber que Feliciano

Coelho Duarte, por am or à bela Laura Milliet, filha do cônsul francês, m atou-se.

By ron costum a dizer que sem pre se alegra quando alguém m orre j ovem .

Feliciano m orreu há dois anos. Francisco deve estar delirando. Vagueia entre as m esas, sua capa negra-asa-de-m orcego, e brada que Feliciano perdidam ente apaixonado subm eteu-se a todos os caprichos da form osa Laura e que neste dia, ao apresentar-se com o pretendente à sua m ão, ela recebeu-o com desdém e sarcasm o dizendo que ia casar-se com outro, que não é esbelto com o Feliciano o era, e nem inteligente e sensível, e nem tão nobre, um com erciante cuj a única virtude é ter a burra cheia de ouro. O que restaria ao pobre Feliciano após tão horrenda hum ilhação e desencanto senão a corda, a escopeta ou o veneno? Matou-se, o pobre desgraçado.

Ouço vozes. Que o nosso poeta diga algum as palavras! O Poeta, o Poeta! Um

exórdio! Um necrológio! Um a ode fúnebre! Ouço a gritaria da súcia de bêbedos e estudantes. Levanto-m e. Ele era um Poeta, um irm ão das Letras. Por que m orreu? Perguntai às aves de arribação por que as leva de vencida o tufão das tem pestades! Sua existência fadava-se brilhante: as glórias da tribuna, os triunfos do gênio e talvez outras palpitações m ais ardentes — o Am or! O vento da m orte ao correr pela selva sagrada m irrou o cedro m ais soberbo! Por que m orreu?

Matou-se com form icida, diz um a voz pastosa.

Respeito ao cadáver, senhores! As grandes vidas, com o essa foi, não m orrem das doenças m iseráveis, legados ulcerosos que a hum anidade deixa aos seus filhos! Quando as harpas santas rom pem suas cordas é que o vento de Deus roçou terrível por elas! Dorm e, pois, criatura sublim e, dorm e em paz! Que os anj os te alum iem nos teus sonhos, com o as estrelas do céu às noites escuras da terra. E a ti, que sentias com o Poeta, a quem talvez o gênio m atou num beij o de fogo, a quem Deus daria na existência a coroa m ística dos am ores, a Glória suas visões, a Tarde seus perfum es, a Noite suas lâm padas de ouro: Boa Noite.

Quando se pode ir à fonte não se bebe água no rego das ruas, diz o taberneiro, o m enino falou que nem Shakespeare. Ele corta um enorm e pedaço de paio e com e e bebe largas goladas de vinho. Eu poderia lhe dizer, se quisesse perder o m eu tem po com um taberneiro que só conhece os prazeres dos intestinos, que realm ente a figura de Ham leto m e inspirava: um personagem aguilhoado pela própria consciência, estim ulado por instintos destrutivos, pela obsessão da violência; um ser hum ano atrás da cortina e ele o m ata com sarcasm o — que é isto, um rato? — enfiando-lhe a espada na barriga. By ron continua a escrever. Eat, drink and love, what the rest avail to us? Léo, o Ladrão, pede licença e senta-se à nossa m esa. Ele vangloria-se de tam bém ser poeta pois só rouba dos ricos. Na verdade ele não rouba dos pobres porque os pobres nada têm . Se todos fôssem os pobres não haveria ladrões? Um a boa teoria. Léo segura no m eu braço e eu lhe peço que m e largue, ele não é nenhum François Villon para agarrar no m eu braço e bufar sobre m im o seu hálito alcoólico. Ele pede desculpas, apenas quer que eu recite um dos m eus poem as, aquele, diz ele, em que vou ficando blasé e passo os dias pelo m eu corredor, sem com panheiro, sem ler nem poetar — o resto ele não se lem bra, sabe que é sobre charutos e ele gosta de charutos, com o eu. Acendem os nossos havanas.

O poeta vai recitar!, anuncia Léo. Alguns basbaques postam --se em volta da nossa m esa. By ron, sem parar de escrever, atira--m e olhares zom beteiros. Minha casa não tem m enores névoas que as deste céu de inverno... Solitário, passo aqui as longas noites e os longos dias. Dei-m e agora ao charuto, de corpo e alm a, debalde ali de um canto um beij o im plora, com o a beleza que o sultão despreza, m eu cachim bo alem ão abandonado. Lancei-m e ao desviver, gastei na insânia das paixões a m inha vida inteira, qual o fervor da escum a na cachoeira quebrei os m eus sonhos e do m eio do m undo prostituto só am ores guardei ao m eu charuto. Aplausos, gritos, tapinhas nas costas, efeitos do vinho. Insânia das paixões! Teresa diz que tem fom e e peço ao taberneiro m ais vinho e iscas de fígado com batatas. Insânia das paixões... Um a m ulher, diz By ron, m esm o um a prostituta, nunca deve ser vista com endo ou bebendo — a m enos que sej a lagosta com cham panha, a única vianda verdadeiram ente fem inina.

Clam or de vozes vindas da rua. É Francisco de Paula que volta, m ais

esbaforido do que antes, com novidades. O povo, reunido no largo do Paço e na praça em frente ao Hotel Pharoux, surra e j oga lam a nos m arinheiros ingleses que passeiam pela cidade, vinga-se dos atos de pura arrogância e pirataria perpetrados pelo com andante Schom berg, do navio Cormorant de Sua Maj estade Britânica (os ingleses, diz By ron, sem parar de escrever, estão acostum ados aos insultos dos subdesenvolvidos e tam bém às suas reverências, é tudo que eles sabem fazer, insultar e reverenciar, às vezes ao m esm o tem po). Os insolentes bretões desceram até Paranaguá, na em bocadura do rio, e Schom berg enviou um a nota intolerável ao com andante do nosso forte dizendo que tinha instruções do Alm irantado inglês para exam inar todos os navios suspeitos e apreender os que se dedicassem ao tráfico negreiro. Vários navios estavam ancorados, entre eles o brigue Sereia (que desem barcara, diz By ron, novecentos e oitenta e seis escravos em Santos) e o brigue Leônidas (By ron: que com o um bandido ordinário m uda de nom e e sob o vulgo de Dona Anna desem barcou oitocentos escravos em Dois Rios) e o bergantim Astro (seiscentos escravos em Macaé) e o brigue Lucy Ann (vulgo Campaneja, capaz de transportar m il e seiscentos escravos de um a só vez). O Astro, para não ser apresado, foi posto a pique pela própria tripulação de bravos m arinheiros patrícios, m as os outros navios foram abordados e rebocados para alto-m ar. O forte abriu fogo, m atou m uitos bretões (um só m arinheiro inglês m orreu, e assim m esm o porque caiu ao m ar e afogou-se, por não saber nadar com o o poeta Shelley, bem feito para ele, todo hom em deve saber nadar e lutar boxe) m as o desaforado com andante do Cormorant, o m aldito Schom berg, ao largo do forte e à vista de todos, num a torpe e ultraj ante exibição de força e poder, incendiou o Sereia e o Leônidas e levou o Lucy Ann para Santa Helena, afrontando de m aneira hum ilhante a soberania brasileira.

Soberania de traficante de escravos, m ofa By ron. Nessas horas ele m e

aborrece. Morte à Inglaterra!, bradam os bêbedos e os estudantes da taberna. Abaixo a Grã-Bretanha! Morte a John Bull! No ano do seu nascim ento, Manoel, em 1831, entraram no Brasil apenas cento e trinta escravos, diz By ron, m as nos vinte anos que se passaram desde então, o nefando tráfico foi aum entado e quatrocentos e oitenta e seis m il quinhentos e vinte e seis escravos negros vieram para este país, de Angola, Moçam bique, Guiné, Congo, em pilhados pior do que anim ais, nos porões desses navios que a Arm ada da Inglaterra apresa e incendeia.

Os ingleses, retruco, descobriram um a form a m ais sutil e aparentem ente lim pa de explorar o negro sem ter que transportá-lo através dos m ares até a Inglaterra: a colonização, a exploração do escravo na própria terra dele. Ah, as hipócritas consciências calvinistas! O novo em baixador britânico, o fam igerado Jam es Hudson, que acabou de chegar, teve a audácia de declarar que o Brasil quer m ão de obra barata e que eles, os bretões, tom aram ao seu cargo evitar que isso aconteça. Querem acabar com a nossa agricultura. By ron diz que despreza um país onde a econom ia nacional e o bem -estar de um pequeno grupo de privilegiados se baseia na exploração de escravos ferozm ente subj ugados. A Inglaterra fez um a prom essa de acabar com o tráfico de escravos, de fazer valer o direito hum ano do negro à liberdade. By ron, com um copo na m ão, brinda aos m inistros de Sua Maj estade Britânica, George Canning, lord Castlereagh, lord Aberdeen, lord Dalm erston. Depois senta-se, com um brilho cínico no olhar, um sorriso irônico nos lábios sensuais. Detesto todos os governos e governantes e quanto m ais conheço os hom ens m ais os desprezo; prefiro ficar sozinho apesar da afirm ativa de Locke de que ficar só é sem pre estar em m á com panhia.

Querem os ouvir o Poeta!, bradam as vozes das m esas envoltas em fum aça. Levanto-m e e com o m eu olhar faço cessar o tilintar dos copos, a risada das hetairas, a cantilena dos ébrios. Triste coroa sobre a qual acaba de ser gravada um a inscrição de infâm ia! Envolto em seu m anto prostituto, nosso Im perador olvida-se das Glórias que sonhava. Para ele, m aldição! Seu leito lava em lodaçal corrupto. Vede — a Pátria debruça o peito exangue onde a turba corvej ou! Na Glória, no Passado eles cuspiram ! Vede — a Pátria ao Bretão aj oelhou-se, beij ou-lhe os pés, no lodo m ergulhou-se. Eles a prostituíram ! Malditos!

Malditos! Malditos!, berra e canta a turba entusiasm ada. Malditos!

Pus e lam a, covardia, canalhice e capitulação! O povo é explorado em nom e do Com ércio e da Indústria, os trabalhadores são acusados de serem pobres, são cham ados de turba — bellua m ultorum capitum — um a besta de m uitas cabeças que devem ser cortadas, eis a solução dos detentores do poder para o problem a da existência de um povo explorado e desesperado. Com o diz Hobbes, um povo fam into tem o direito de fazer tudo, sej a o que for, para m atar sua fom e.

Tu falas dos brancos, diz By ron, e os negros? Enfim , quem sou eu para falar sobre isto, se aqui estou, oblitus m eorum obliviscendus et illis, esquecendo o m eu povo e sendo esquecido por ele.

O povo nos esquecerá, a nós poetas? Depois de rolarem as cabeças, depois de passar o odor do sangue derram ado e da carne carbonizada, de serem esquecidos o tropel e os gritos, voltarem os a ser necessários?

By ron dá de om bros, olhando o papel à sua frente. Um a cortesã cham ou

m inha letra de garranchos de um a lavadeira... By ron é apenas um scribbler, e eu um poeta alienado, e aqui estam os nós, vis-à-vis, esquecidas nossas diferenças, diluídas as condescendências de um e os rancores de outro. By ron não precisa de m im , nem a Inglaterra do Brasil, ele é o m eu paragon e o Brasil um a colônia da pérfida Albion. Ser fraco custa um preço alto, chego às vezes a pensar que o inglês é um a língua m ais bonita do que a nossa. Cormorant só invadiu Paranaguá porque By ron, Keats, Shelley invadiram antes a m inha m ente. A Colonização se faz em nom e de Deus, da Lógica, da Razão, da Estética e da Civilização. Os im perialistas levam o nosso ouro e corrom pem a nossa alm a. By ron e Schom berg eram iguais — a Poesia e o Canhão a serviço da Dom inação.

Nonsense, diz By ron, e desaparece.

Léo convida Teresa a ir à sua m ansarda esquentar-lhe os lençóis e os ossos, e

quando Teresa responde que não está fazendo frio ele responde que faz sem pre frio no coração de um ladrão. Léo fala baixo para que eu não o ouça. Perde o seu tem po, as prostitutas são m uito fiéis. A prom iscuidade fútil é um hábito da nobreza. Léo oferece a Teresa j oias, pedras preciosas que roubou dos ricos e que nunca vendeu aos intruj ões, que guardou para um dia dar à m ulher am ada. Prom ete casar com Teresa com véu e grinalda e certidão.

Quantos escravos tens?, pergunta Léo.

Estou econom izando para com prar um a negrinha que lave a m inha roupa e

faça a m inha com ida.

Pois te darei duas m ucam as, um a para te dar banho, lavar tua roupa e cozinhar

tua com ida e a outra só para catar os teus piolhos.

Teresa nega que tenha piolhos. Léo responde que toda m ulher tem piolhos, que

a m ãe dele tem piolhos, que a própria Im peratriz tem piolhos. Teresa diz que veio com igo, pede a Léo que não a im portune. Léo, irritado, se retira. Ficam os na taberna apenas Teresa, eu e o taberneiro, que finge dorm ir, a cabeça apoiada no balcão. Pergunto a Teresa sobre o que ela e Léo tanto conversavam . Teresa, coquette, diz que Léo a pediu em casam ento, que ele é um grande com erciante de j oias. Ele é um ladrão, sua m entirosa, eu digo, devias ter ido com ele. Teresa, chorando, se atira ao chão e abraça m inhas pernas, diz que m e am a tanto que tem vontade de m orrer. Meu coração fica pesado, levanto-a do chão, peço-lhe carinhosam ente que não chore, com m eu lenço enxugo seus olhos e assoo o seu nariz. Eu te am o, tens o encanto da espontânea canção dos passarinhos, tens os seios alvos e m acios com o o pelo sedoso dos arm inhos.

Com o podes dizer que os m eus seios são alvos e m acios se nunca os viste nem tocaste?

Licença poética, j ustifico-m e.

Teresa diz que passa as noites ardendo de am or por m im . Seu rosto está perto do m eu, ainda com restos de lágrim as em torno dos olhos. Meu coração pesa de dor, pena, constrangim ento e vergonha.

Sei que tu és virgem , diz Teresa.

Sinto o sangue enrubescer o m eu rosto e um trem or de frio trespassar m eu corpo. Cala-te, que palavra m ais tola, virgem ! E se eu te disser que am o outra m ulher?

Em borco m eu copo com sofreguidão. Teresa não sabe o que é ter vinte anos sem nunca ter provado o am or. Nos m eus sonhos passam tantas visões, a febre m e dom ina e m eu coração bate com tanto fogo! Eu a vej o sem pre, perfum ada visão, rom per a nuvem dos sonhos, sentar-se j unto a m im e ao acordar delirante, sabendo-a tão próxim a, em balde a cham o no m eu coração im puro. É loucura am ar um anj o.

Cam inho pelas ruas desta cidade som bria, feia e suj a. Na m ão levo um a garrafa. Bebo pelo cam inho. Não revelarei m inha alm a desvairada.

Luísa está deitada na m inha cam a. Seu alvo rosto adorm ecido, em oldurado pelos cabelos castanho-escuros, não parece feito de carne m as sim de outra substância ou tecido. Seu seio arfa levem ente, pobre criança.

Manoel... Que horas são?, diz Luísa, acordando e espreguiçando-se suavem ente.

As araras são aves belas m as pouco perspicazes, digo.

Que araras?

As aves não se interessam pelo que se passa no coração dos hom ens. Luísa segura m inha m ão e pergunta se estou bem .

Não creio, eu digo.

É a febre?

Sim , sinto febre, estou triste.

Luísa diz que tam bém está triste, pergunta pela m inha Teresa e eu respondo

que Teresa não é m inha, nunca foi m inha, não m e interessa, nada m e interessa, que am o outra pessoa. É preciso am ar, grito, é preciso am ar, é preciso am ar e só paro de gritar quando Luísa, com sua m ão perfum ada, tapa delicadam ente m inha boca. Eu am o nosso pai e nossa m ãe, diz ela.

O am or de um hom em por um a m ulher, exclam o, e agarro os om bros de

Luísa e o seu hálito de virgem se funde com m eu hálito fétido de ébrio im undo, vej o m inha face de lodo pútrido no espelho e o doce rosto de Luísa exprim e a revelação que aos poucos tom a conta da sua m ente e se aproxim a lentam ente, e nossas bocas se encontram , e dizem os um para o outro que não tem os m edo e som os lindos e nossos sonhos são bons e nossos corações são puros e deitam os na cam a e abrim os corpo e espírito à nossa paixão, m esse e paz, m em ória eterna.

Aos poucos, na penum bra do quarto a im agem de By ron se m aterializa. Às

vezes ele surge assim , lentam ente, com o um a m iragem dos vapores do calor. Ele está ao lado da escrivaninha e pega a caveira e diz que quando abriram o seu crânio viram que ele, By ron, tinha um a lesão do lado esquerdo do cérebro, que os ossos da sua cabeça eram extrem am ente duros, sem sutura aparente, com o o crânio de um octogenário. A dura-m áter estava tão firm em ente presa nos parietais internos que os esforços repetidos de dois hom ens fortes foram insuficientes para separá-la. O seu cérebro pesava seis libras, o escritor de cérebro m ais pesado no m undo. Meu olho esquerdo é m ais proem inente do que o direito e tenho na perna um defeito de origem neurológica. Com e here, y ou lam e brat! A voz de By ron im ita a de um a velha inglesa, educada e cruel, lam e brat, lam e brat! Ah, aquela hidra, m inha m ãe!

Sofro, By ron. Fala-m e do teu am or por Augusta.

Que é isto? Queres arrancar os olhos em desespero, com o Édipo? Lem bra-te,

não és um grego antigo, assom brado por deuses e dem ônios; és um hom em m oderno, um poeta, ainda que de um país atrasado e obscurantista. Inferno! Nossa vida é um a falsa natureza, não está na harm onia das coisas este duro m andato, esta inextirpável m ancha de pecado.

Foi bom e alegre?

Sim , o am or tem que ser alegre, o dia em que os am antes deixarem de rir

j untos é porque o am or acabou. Tive um a am ante atrás da outra, na Inglaterra, na Grécia, na Itália, em todos os países por onde andei, e com todas m e engaj ei em peçonhentas e exasperantes discussões. Mas m inha irm ã era diferente, foi o único ser que am ei até a m orte. Tivem os um a filha do nosso am or, Medora.

E não te arrependes?, pergunto, m as ele não tem rem orso de nada, a não ser de um dia ter atirado num filhote de águia nas m argens do golfo de Lepanto, perto de Vostitza. A ave foi ferida e ele tentou salvá-la, m as ela definhou e m orreu em alguns dias.

Morrer. Não quero m orrer doente, grito para o dr. Bustam ante.

Infelizm ente é assim que se m orre, diz By ron, eu tinha sífilis, febre terçã e gonorreia, quando m orri. By ron com eça a desaparecer enquanto m e diz que acha que estou chegando ao fim , que sente no ar a m inha febre.

A m orte quando se aproxim a traz com ela um arom a horrível.

Não te vás, não m e deixes aqui com toda a tristeza do m undo. Há, nesta vida, páginas turvas que não se apagam , nódoas que não se lavam . Sofro tanto, um Deus irado m anchou de negra profecia os m eus dias ao nascer, o país vacila, vê a m entira no que existe e a falsidade no que pode vir, tudo está profanado, de todas as assem bleias, das vozes populares das praças públicas, das academ ias, de todas as associações deve correr grande luz, porque a chaga do povo é funda. Dizem que não gosto de fazer ginástica, só porque caí do cavalo, estava preocupado com um a rim a difícil, da palavra púrpura.

Essa rim a derruba qualquer um do cavalo, diz By ron, apenas sua cabeça ainda visível, m arço não é um bom m ês para andar-se a cavalo, e hoj e é Dom ingo de Ressurreição, um dia estranho para m orrer.

Um trem or tom a conta do m eu corpo. Estou só com a cabeça de By ron, as paredes brancas e atrás da porta Bustam ante e os enferm eiros. It’s vain to struggle, let m e perish y oung. I’m dy ing George, dream s, dream s, dream s. A boca da cabeça fantasmagórica em ite em surdina forward, courage, don’t be afraid, follow m y exam ple e desaparece. Levanto-m e trôpego e escrevo o m eu nom e na parede na frente da data 25 de abril de 1852. Bustam ante diz que By ron era incestuoso, fanfarrão, pederasta, sedutor de m ulheres, que o Corm orant foi em bora, que eu não sou Álvares de Azevedo, que o schottisch virou chorinho, que tudo m udou, outros navios de guerra, novos escravos, outros poetas, m inha vida se esvai, cham ai m eu pai.