O Cobrador

Rubem Fonseca · Capítulo 11 de 12

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O Cobrador

O escritor armado

Sérgio Augusto

Quando este quinto livro de contos de Rubem Fonseca foi posto à venda pela Nova Fronteira, em outubro de 1979, fazia j á quatro anos que o anterior, Feliz ano novo, estava proibido pela censura, sob a acusação de “exteriorizar m atéria contrária à m oral e aos bons costum es”— e nessa condição continuaria por m ais seis anos. Pelo m esm o m otivo, o conto que dá título a esta coletânea, prem iado no concurso de literatura da revista Status de 1978 e levado ao palco por Beth Lopes e Luiz Cabral onze anos após sua publicação, estivera algum tem po no index do Ministério da Justiça. Nenhum outro escritor brasileiro incom odava tanto o regim e na década de 1970 quanto Rubem Fonseca.

ACIMA, CAPAS DAS EDIÇÕES ESPANHOLA E ARGENTINA. ABAIXO,

CAPA DA EDIÇÃO AMERICANA, DE 2008, E DA BRASILEIRA PUBLICADA

EM 1991.

O Cobrador estreou na lista dos m ais vendidos na quinta colocação, saltando,

no espaço de duas sem anas, para o segundo lugar, até superar o quase sem pre im batível Jorge Am ado, que acabara de publicar Farda, fardão, camisola de dormir. Esperava-se que fosse um a extensão de Feliz ano novo, e não apenas por conta da reaparição, com m aior destaque, do investigador-cabeça Mandrake, m as sobretudo porque o brutalizado Brasil dos anos 1970 parecia exigir cada vez m ais a vigília de um a ficção incôm oda, brutal, m oralm ente transgressiva e socialm ente subversiva. Rubem Fonseca deu conta do recado.

Não há país m ais real que aquele que em erge de O Cobrador, com o escreveu na Vej a a j ornalista Marília Pacheco Fiorillo: “um país desagradavelm ente palpável, com suas m etrópoles doentes de pânico e solidão, secretando a todo instante obsessões tão excêntricas quanto inofensivas”, um país de incontroláveis surtos de violência, aterrorizado por bandidos e esquadrões da m orte, tarados e j usticeiros, burgueses obscenam ente ricos e pobres indecorosam ente desvalidos, políticos corruptos e velhinhos infelizes e am edrontados, um a falsa ilha de paz e prosperidade idiotizada pela pasm aceira televisiva.

Mais que um a coda ou um desdobram ento de Feliz ano novo, O Cobrador revelou-se um m arco m iliário na obra do autor, um m om ento de “indecisão e m etam orfose”, nas palavras do crítico Wilson Martins, um a reviravolta experim ental, envolvendo novas form as narrativas e a em ergência de personagens m ais problem atizados, m enos polarizados, “nas fronteiras indecisas em que o bom e o m enos bom parecem equilibrar-se e neutralizar-se e neutralizar-se entre si, na m edida inevitável em que tam bém se repelem ”; com o se, a exem plo do cobrador-narrador do últim o conto, Rubem Fonseca estivesse fechando um ciclo de sua carreira literária e abrindo outro.

Na contracorrente das narrativas veristas, j ornalísticas, confessionais e m em orialísticas então predom inantes no m ercado editorial, O Cobrador oferecia um a variedade de démarches literárias, que iam do m onólogo registrado num gravador por um m isantropo pedófilo à paródia (do rom ance noir de Ray m ond Chandler e do beletrism o subdesenvolvido dos rom ânticos brasileiros de m eados do século XIX), passando pelo ensaio em butido em “H.M.S. Corm orant em Paranaguá”, ao qual, aliás, Ivan Lessa dedicou um a divertida paráfrase, no

sem anário O Pasquim, intitulada “O clandestino da Corm orant”[1]. À exceção de “O j ogo do m orto”, todos os contos são narrados na prim eira pessoa, três deles por um “colega de ofício” de Rubem Fonseca. Três das histórias de Feliz ano novo tam bém eram protagonizadas por poetas e escritores, m as não com o m esm o grau de com prom etim ento, por assim dizer, de “Pierrô da caverna”, “H.S.M. Corm orant em Paranaguá” e “O Cobrador”.

Neles fala-se m uito em literatura, com alusões a textos e personagens adm irados ou não pelo autor, levantam -se questões de estilo, crise criativa e integridade artística. Em artigo publicado no Jornal da Tarde (27/09/1979), o ensaísta Boris Schnaiderm an m apeou o universo de referências de Rubem Fonseca, com parando a “concisão extrem a e a ausência de pitoresco” do segundo episódio de “Livro de ocorrências” ao conto “Gaetaninho”, de Antônio de Alcântara Machado, atribuindo a “A cam inho de Assunção” “certos procedim entos caros a Isaac Bábel” (escritor russo que estaria no centro da intriga do rom ance Vastas emoções e pensamentos imperfeitos, escrito por Rubem Fonseca quase dez anos m ais tarde), vislum brando na Sofia de “Pierrô da caverna” um a hom enagem à m achadiana heroína de Quincas Borba, e apontando o poeta russo Vladim ir Maiakóvski com o a m ais evidente influência sobre as im precações antiburguesas do poeta bandido que, no conto “O Cobrador”, troca a vida crim inal pela luta arm ada.

PARA FLÁVIO MOREIRA DA COSTA, EM TEXTO DE 10 DE OUTUBRO DE

1979, PUBLICADO NA ISTOÉ, O COBRADOR NÃO DEIXAVA DÚVIDAS:

RUBEM FONSECA HAVIA CHEGADO AO NÍVEL DOS GRANDES CONTISTAS, “EM QUALQUER LÍNGUA, EM QUALQUER PAÍS”.

EM MATÉRIA PUBLICADA NA VEJA, NO DIA 17 DE OUTUBRO DE 1979,

MARÍLIA PACHECO FIORILLO APRESENTA O RECÉM--LANÇADO LIVRO DE CONTOS DE RUBEM FONSECA COMO “UM EXATO DIAGNÓSTICO DE

NOSSA MODERNIDADE” NARRADO “NUMA LINGUAGEM

DESPRETENSIOSA E FÁCIL, SEM ELIPSES OU SUSTOS PARA O LEITOR”.

 

Houve quem percebesse na aproxim ação das figuras do escritor, do bandido e

do guerrilheiro um repto à acom odação estética im posta pela atuação da censura e pelas pressões do m ercado sobre o conj unto das produções artísticas. A censura afinal acabaria na década seguinte, m as as forças do m ercado prosseguiriam incontroláveis, cada vez m ais fortes, im pondo novos desafios (e novas cobranças) a Rubem Fonseca.

A MATÉRIA DO CADERNO B DO JORNAL DO BRASIL, DE 8 DE SETEMBRO

DE 1979, TRAZ TRECHOS DO PARECER DO CRÍTICO LITERÁRIO

AFRÂNIO COUTINHO SOBRE A PROIBIÇÃO DE FELIZ ANO NOVO, LIVRO

PUBLICADO POR RUBEM FONSECA QUATRO ANOS ANTES DE O

COBRADOR E APONTADO COMO PORNOGRÁFICO.