O Cobrador
Paródia e concisão num livro de Rubem Fonseca
PARÓDIA E CONCISÃO NUM LIVRO DE RUBEM FONSECA[2]
Boris Schnaiderman
Se alguém com eçar a leitura de O Cobrador, de Rubem Fonseca, pelo conto
“O j ogo m orto”, ficará com a im pressão de que o escritor está apresentando um tipo de história com que j á nos acostum ou e na qual adquiriu um dom ínio invej ável: o conto de violência e banditism o, descritos frequentem ente com sim plicidade, num tom cotidiano e isento de patético, com o se a m orte nestas circunstâncias fosse algo norm al e aceitável.
No caso, esta im pressão se reforça pelo fato de a ação se passar na Baixada
Flum inense, num a das zonas de dom ínio do Esquadrão da Morte. Eventualm ente, alguém pode especular sobre a figura m isteriosa de Falso Perpétuo atribuir a tudo um tom m etafísico. Tem -se, pelo m enos, esta possibilidade em suspenso.
Outras vezes, a placidez nos relatos sinistros chega ao m áxim o, m as, ao
m esm o tem po, o sinistro que aparece é um sinistro com que estam os acostum ados a conviver nas grandes cidades. O caso do m enino atropelado, no segundo episódio de “Livro de ocorrências”, faz surgir na lem brança de cada um algum a cena presenciada, um as destas cenas que acabam os esquecendo, pois, afinal, é preciso viver sob a lei da selva. A concisão extrem a e a ausência de pitoresco tornam essa história cotidiana realm ente exem plar, de um a exem plaridade m aior do que, por exem plo, a do fam oso e notável “Gaetaninho”, de Antônio de Alcântara Machado, sobre episódio do m esm o tipo. No entanto, essas histórias que nos trazem um tom m uito frequente no autor, não dão a tônica do livro.
Elas estão aí com o um a espécie de contraponto, pois outros contos revelam
m ais soltura de im aginário, um desprendim ento m aior na relação entre o im aginado e o em pírico. Não é por acaso que o livro tem com o epígrafe a “Encantação pelo riso”, de Vielim ir Khlébnikov, na tradução de Haroldo de Cam pos: “Ride, ridentes! Derride, derridentes!” etc., etc., que, a par da exaltação do riso, é um hino à soltura, à exploração de cam adas insuspeitadas na linguagem .
No conto inicial, “Pierrô da caverna”, um escritor m onologa com a
“m aquineta”, isto é, um gravador. Ele busca assim um a liberdade de expressão que a palavra escrita não lhe perm itia. Quando utilizava esta, precisava buscar “o estilo requintado que os críticos tanto elogiam e que é apenas um trabalho paciente de ourivesaria”. Por exem plo, ele “j am ais escreveria inconciliabilidade”. Sua vida corriqueira era o oposto da “alegoria sobre a am bição, a soberba e a im piedade” que seu “prestígio de escritor” im pelia a incluir num a novela. Apesar da “correspondência entre o registro oral e o verbal” que percebe, o uso do gravador é para ele um a libertação. Mas um a libertação com uso im oderado do literário que acum ulara na m em ória. Surge então um a sarabanda de alusões a textos, a tal ponto que ele chega a usar um a frase em grego. Tem -se aí um a inversão curiosa: a oralidade é que perm ite um a explosão m ais livre do literário verdadeiro, freado no cotidiano pelas convenções m esquinhas da “vida literária”.
Tudo isso está m esclado com um a história do dia a dia, m as, tam bém aí, o literário penetra soberano. A m enininha de doze anos que ele, um cinquentão, acaba possuindo, cham a-se Sofia com o a heroína de Quincas Borba. Pode ser apenas coincidência, é claro. Mas lá vem o trecho: “Eu sou diferente a cada sem ana, a cada dia, sou contraditório, bruto e delicado, cruel e generoso, com preensivo e im piedoso. Essa confissão eu j am ais faria por escrito, m uitos ecos e rim as ginasianas.” E, no rom ance de Machado, lem os: “Então a entrevista da rua da Harm onia, Sofia, Carlos Maria, esse chocalho de rim as sonoras e delinquentes é tudo calúnia?” Será coincidência, ainda, esta sem elhança entre as “rim as ginasianas” e as “rim as delinquentes”? Em m eio do m onólogo aloucado do cinquentão repontam outros ecos m achadianos. “Após contem plarm os certas coisas, ou um a determ inada coisa, há que m udar de vida.” De onde saiu este “há que m udar”? Parece que ele insiste em usar, ao lado de form as bem coloquiais, outras que só o acervo de elem entos literários de sua m em ória poderia sugerir. Logo nos lem bram os das violetas que, “para terem um cheiro superior, hão m ister de estrum e de porco” do capítulo XCII de Dom Casm urro. Aliás, no próprio Machado, repercutem aqui, segundo parece, alguns textos m ais antigos e o literário solene da época.
Toda a história lem bra algo da Grécia, frequentem ente da Grécia contam inada pela luxúria oriental — a Grécia da decadência. O próprio nom e do pai da m enina reboa a princípio com a grandiosidade clássica: Milcíades. Mas, am eaçador inicialm ente em relação ao “sedutor” de sua filha (parece m ais certo: seduzido por ela), am olece e acaba tom ando um uísque no apartam ento deste (“com voz m ais suave e conciliadora: com gelo”). Evidentem ente, Grécia e m undo m oderno se m isturam , os planos do literário e do real acabam em baralhados.
Mas, apesar de toda essa liberdade que o escritor assum e diante do gravador, acaba aparecendo a dificuldade de com unicar: “Não sei, estou m uito confuso, sinto que estou escondendo coisas de m im , eu sem pre faço isso quando escrevo m as nunca pensei que o fizesse falando em segredo com esta fria m aquineta.” E, ao m esm o tem po, toda esta dificuldade de com unicação, tão angustiosa, não o im pede de contar de m odo excelente um a história construída, com início, m eio e fim , entre os episódios soltos e a literatura de seu m onólogo oral.
Em outros contos, igualm ente, percebe-se a repercussão de textos dos
escritores m ais diversos. “A cam inho de Assunção” parece retom ar, com o parte de um sistem a literário pessoal, certos procedim entos caros a Isaac Bábel (a frase curta e fustigante; os porm enores de cor e de cheiro que se destacam ; a guerra em seu horror, dada incisivam ente em prim eiros planos eisensteinianos, pode-se dizer — um a sucessão de m etoním ias que se gravam na m em ória; tudo isso num a verdadeira “m ontagem ” de episódio, em quatro páginas escassas, m as altam ente significativas): teríam os assim histórias da Guerra Russo-Polonesa de 1920 repercutindo num a narrativa sobre a Guerra do Paraguai!
“H.M.S. Cormorant em Paranaguá” trata do período, no Segundo Im pério
nosso, em que a hostilidade aos ingleses explodiu, culm inando na “Questão Christie”. Aparecem ali, em profusão, clichês do rom antism o, episódios que parecem repetir passagens da biografia de Álvares de Azevedo, num a sequência m uito doida, em que o próprio poeta surge tam bém no texto, m as às vezes parece fundir-se com a figura de By ron; alusões shakespeareanas transm udam -se no kitsch rom ântico tão com um nos nossos poetas da época, e o personagem , em m eio do seu delírio, chega a falar em versos tão pífios que se tornam tocantes. Esta transposição nunca é feita m ecanicam ente no livro, o elem ento literário transposto adquire outras conotações e m atizes. Se isto j á aparece nas histórias referidas até agora, torna-se m ais evidente, ainda, no últim o conto do volum e e que lhe dá título. Ou m elhor, este últim o conto repete, com m aior concentração
tem ática, a riqueza de elem entos paródicos que há no prim eiro.[3] Jornais russos dos dias da Revolução de Outubro noticiaram que os m arinheiros investiram contra o Palácio de Inverno cantando e gritando os versos de Maiakóvski: “Com e ananás, m astiga perdiz/teu dia está prestes, burguês.” (Esta tradução é de Augusto de Cam pos). Pois bem , o conto “O Cobrador” foi construído evidentem ente com base neste dístico, o próprio autor nos dá a indicação, pois seu personagem , tão im buído de ódio aos burgueses, aos bem -situados na vida, chega a exclam ar antes de suas vinganças: “Com e caviar/ teu dia vai chegar.” Vej a-se bem , este personagem não tem nada de revolucionário, é um revoltado que atua exclusivam ente no plano individual, todo o tom é rebaixado, quando se com para o texto com os de Maiakóvski. Os poem as capengas do “Cobrador” estão aí para reafirm ar isto. Sua vingança não vai além do assassínio frio e calculado e, antes de m atar, suas palavras insistem num a exigência bem individual: “Tão m e devendo colégio, nam orada, aparelho de som , respeito, sanduíche de m ortadela no botequim da rua Vieira Fazenda, sorvete, bola de futebol.” Outras palavras suas antes de um a “ação”: “Eu não pago m ais nada, cansei de pagar!, gritei para ele, agora eu só cobro!”
Fora destes m om entos de exaltação, é um rapaz sofrido e sensível, que chega a dizer de si m esm o: “Sou um a pessoa tím ida, tenho levado tanta porrada na vida (...)”. Sua relação com a velha dona Clotilde, de quem aluga um quarto, m ostra bem o carinho, a ternura de que é capaz. Quando, porém , se assum e com o “o Cobrador”, seu tom de voz adquire algo m aiakovskiano, o m aiakovskiano dos m om entos grandiosos, hiperbólicos, m as evidentem ente com outro tim bre. Chega a dizer: “Onde eu passo o asfalto derrete.”
O am or atinge o rapaz de m odo com pletam ente inesperado para o leitor, num a figura de m oça da burguesia. E é com pletam ente inesperado, tam bém , o toque de erudição no seu m onólogo: “Faço hora para ir na casa da m oça branca. Cham a-se Ana. Gosto de Ana, palindrôm ico.” E, no desenrolar de seu rom ance, refere-se a ela m ais um a vez com o Ana Palindrôm ica. Outras alusões m aiakovskianas são tam bém evidentes no conto. Num a passagem ele diz: “Estam os no m eu quarto, em pé, sobrancelha com sobrancelha, com o no poem a (...)”. Tem -se aí um a referência direta à Carta a Tatiana Iácovlevla: “Na estatura/ só você m e om breia,/ fique, pois,/ sobrancelha a sobrancelha,/ ao m eu lado.” (Tradução de Haroldo de Cam pos e Boris Schnaiderm an)
Depois desta citação, o próprio conto passa a espraiar-se um pouco em escadinha, com o os versos de Maiakóvski na década de 1920. Mais um a vez, aparece im agem inesperada: “(...) ela grita, a boca aberta, os dentes brancos com o de um elefante j ovem (...)”. Não será um eco do “elefante cansado” que surge de chofre num poem a de Maiakóvski, Lílitchka!, que era, ao m esm o tem po, um a carta de am or?
As ações individuais violentas do “Cobrador”, no final, transform am -se em algo de m aior am plitude; ele parte em com panhia de Ana para executar m orticínios; todavia, por m ais que afirm e: “Agora sei. Ana m e aj udou a ver”, em nenhum m om ento se vislum bra um revolucionário e Maiakóvski foi, realm ente, transposto para um plano intencionalm ente rebaixado, a par de toda a virulência hum ana do “vingador”.
Em todas as histórias, aparecem reflexos evidentes da História. Por m ais que isto lem bre um espelho deform ante, por m ais que se sugira um a outra história por trás da que foi narrada, e o discurso m isture o im aginado e o real, este não desaparece, não se dissolve no fluxo das palavras, apesar de toda a im portância que elas assum em . O tratam ento paródico parece destacá-las e recortá-las num quadro m ultiform e, que é reflexo e contraposição diversificada de outros quadros, tudo isto unificado habilm ente num m undo ficcional rico, m as contido num pequeno livro.
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Rubem Fonseca
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