O Cobrador

Rubem Fonseca · Capítulo 4 de 12

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O Cobrador

A caminho de Assunção

Meu dólm ã azul-ferrete de alam ares brancos estava puído nos punhos e na gola. Minhas botas não tinham saltos, e estavam furadas nas solas. O punho da m inha espada partira-se. Os soldados tinham os pés descalços e os uniform es rem endados pelas m ãos das chinas que seguiam voluntariam ente nosso exército ou eram arrebatadas nos povoados que atravessávam os a cam inho de Assunção.

O coronel Procópio, com andante do 2º Regim ento de Cavalaria, recusava-se a nos deixar vestir roupas civis.

Sabem os que o próprio General-Com andante veste sobre o seu uniform e um poncho azul de forro verm elho. E que oficiais e praças gaúchos do 5º Regim ento se vestem de bom bachas, ponchos e chapéus de vaqueiro, disse Procópio, na reunião do Estado-Maior.

Procópio era um hom em m agro, de testa pontuda e queixo fino. Passava as noites lendo na barraca. Diziam que ele não andava bom da cabeça.

Não som os um bando de peões de estância. Som os os Dragões Reais de Minas. Nosso regim ento foi criado por Carta Régia.

Quando Procópio gritava, sua voz ficava áspera e rouca.

Estávam os em dezem bro. Havíam os acabado de atravessar o Chaco e m etade do nosso regim ento fora dizim ado pelo cólera, o beribéri e o tifo. Em m eio à m archa rápida para o sul, bivacam os perto das coxilhas de Vileta. O acam pam ento fervilhava de hom ens e m aterial de guerra. Íam os atacar Avaí.

Ouvia-se, ao longe, um a paródia obscena do hino da Cavalaria, cantada pelos gaúchos do 5º.

Partim os de m adrugada. Raiou um dia de céu azul e nuvens m uito brancas. Ao cruzar um desfiladeiro som brio ouvim os o troar das bocas de fogo inim igas. O alferes Rezende, que crescera com igo em Santo Antônio do Paraibuna, caiu com o pé preso no estribo, a cabeça um a polpa sangrenta, e foi arrastado pelo seu cavalo em disparada até desaparecer num capinzal alto. De entre a m acega, os m osquetões inim igos atiravam sem parar. O céu com eçou a escurecer e logo um a chuva grossa desabou sobre o cam po de batalha.

Procópio ordenou um a carga sobre as baterias do flanco esquerdo. Atravessam os um capoeirão, um chão coberto de m ata rala. Com as lanças em riste, investim os sobre a artilharia inim iga.

Carreguem , carreguem !, bradava Procópio.

O ruído das patas dos cavalos em galope acelerado e dos nossos gritos era tão

forte quanto o estrondo dos canhões.

O prim eiro que m atei estava sem a barretina, os cabelos lisos, de índio,

m olhados pela chuva.

Muitos dos nossos, os cavalos m ortos, com batiam a pé. A lâm ina da m inha

espada brilhava lavada de sangue e chuva. Um artilheiro inim igo, um m enino, agarrou m eu estribo e m e atacou com um facão. Decepei-lhe a m ão direita, num golpe seco e hábil.

Aos poucos a luta foi cessando, apenas pequenas escaram uças ocorriam

esporadicam ente. O exército inim igo havia sido desbaratado.

Não se ouvia m ais o estrondo dos seus canhões. Dezessete deles haviam sido

capturados.

Nas ribanceiras e m ontes, nas m acegas e capoeiras estavam caídos corpos

m ortos de m uitos m ilhares de hom ens e anim ais. Saía do chão um cheiro de terra m olhada e sangue e pólvora m isturado com a fragrância doce da bosta dos cavalos.

O coronel Procópio e o tenente-coronel Rubião estavam m ortos.

O m aj or José Rias assum iu o com ando do regim ento. Os oficiais e sargentos se

reuniram em torno de sua cabeça pelada pelo tifo. A pele do rosto de Rias era pálida com o cera de vela de santo e seus olhos, encravados fundo no crânio, brilhavam de febre e loucura. O espírito de Procópio parecia ter entrado no seu corpo. Vam os até Assunção! Viva a Cavalaria!

Um estafeta surgiu para avisar que o General-Com andante estava passando

em revista as tropas. José Rias percorreu o acam pam ento berrando com os hom ens que estavam deitados, dorm indo ou apenas olhando exaustos para o céu.

A cavalo! de pé! Rias dava pontapés no rosto dos que não respondiam às suas

ordens, enfiava a espada nas costelas dos recalcitrantes.

Em pouco tem po os hom ens m ontaram nos seus cavalos. Aqueles que haviam perdido as m ontarias perfilavam -se a pé, alguns com os arreios ao lado, a lança na m ão direita usada com o apoio, para não caírem ao chão de cansaço.

No m eio da neblina, ao lado norte do cam po, surgiu o General-Com andante cavalgando um tordilho, acom panhado de um aj udante de ordens. Vestia o poncho azul com forro verm elho, segurava as rédeas na m ão esquerda e com a direita m antinha um lenço negro contra o rosto. Um tiro arrebentara seu m axilar e alguns dentes da frente. Havia m anchas de sangue no seu poncho. Ele estava enganchado na sela com o alguém que tivesse passado a vida inteira naquela posição. Os soldados, obedecendo ao com ando de Rias, ficaram em posição de sentido.

O General im obilizou sua m ontaria e sem soltar as rédeas levantou a m ão esquerda pedindo silêncio. Mas ouvia-se apenas o ranger do couro das selas e dos loros, o retinir das esporas e barbelas, o resfolegar dos cavalos contidos pelos freios. O General tirou o lenço do rosto e com eçou a falar.

Cam aradas do 2º Regim ento, Dragões Reais de Minas...

O ferim ento da boca não perm itia que ele pronunciasse as palavras corretam ente. Eu dorm itava sobre a m inha sela e m al entendia o que ele dizia.

O velho sargento Andrade, dado com o m orto, esticado ao lado de um a carreta de m unição, as esporas gastas de ferro enfiadas na terra estrangeira, o uniform e roto e suj o de lam a, levantou-se, fez um a continência e caiu ao chão. Alguns soldados riram à socapa.

Osório parou de falar. Respondeu a continência olhando o corpo im óvel de Andrade, seu rosto m eio escondido pelo lenço negro. Fez um gesto para o aj udante de ordens, esporeou o cavalo e partiu num trote curto em direção ao acam pam ento do 5°.