O Homem do Castelo Alto

Philip K. Dick · Capítulo 8 de 16

Páginas do PDF

O Homem do Castelo Alto

Capítulo 7

 

O BONITO casal de j ovens j aponeses que visitara a loj a de Robert Childan, os Kasouras, telefonou-lhe no final da sem ana convidando-o a ir j antar no seu apartam ento. ele estava m esm o esperando que se m anifestassem e ficou encantado.

Fechou a American Artistic Handcrafts Inc. um pouco m ais cedo e tom ou um velotáxi para ir ao bairro elegante onde os Kasouras m oravam . ele o conhecia bem , em bora ali não m orasse nenhum branco. Enquanto o velotáxi rodava pelas lindas ruas com seus gram ados •e salgueiros, Childan observou os m odernos prédios de apartam entos, adm irando a beleza da sua arquitetura. Os balcões de ferro-batido, as im ensas e contudo m odernas colunas, as cores pastel, o em prego de m ateriais diversos... O todo era um a obra de arte. Lem brava-se de quando tudo aquilo não passava de escom bros da guerra.

As criancinhas j aponesas brincando nas calçadas olharam -no sem nada dizer, voltando logo ao seu futebol ou baseball. Mas não os adultos, pensou; os j ovens j aponeses bem vestidos, estacionando seus carros na entrada dos edifícios, o olharam com vivo interesse. Será que ele m ora aqui? perguntavam -se talvez. Desde j ovens negociantes j aponeses voltando para casa até chefes das Missões Com erciais habitavam aquele bairro. Reparou nos cadillacs estacionados. À m edida que o velotáxi se aproxim ava do endereço, foi ficando cada vez m ais nervoso.

Pouco depois, subindo as escadas do apartam ento dos Kasouras, pensou: Aqui estou, não a negócios, m as convidado para j antar. Naturalm ente tom ara o m aior cuidado ao vestir-se; ao m enos não precisava preocupar-se com sua aparência. Minha aparência, pensou. Sim , é isto. Pareço o quê? Não dá para enganar ninguém ; m eu lugar não é aqui. Nesta terra que os hom ens brancos desbravaram e na qual construíram um a de suas m elhores cidades. Sou um forasteiro em m eu próprio país.

Chegou à porta indicada no saguão atapetado e tocou a cam painha. Logo a porta se abriu. Lá estava a j ovem Mrs. Kasoura, de quim ono de seda e obi, com os longos e brilhantes cabelos negros caindo pelas costas e com um sorriso de boas-vindas nos lábios. Atrás dela, na sala, seu m arido, de copo na m ão, acenando com a cabeça.

— Mr. Childan. Entre. Inclinando-se, entrou.

Interior de enorm e bom gosto. E... tão ascético.

Poucas peças. Um a lâm pada aqui, m esa, estante, um a gravura na parede. O incrível sentido j aponês de wabi. Não havia nem com o pensá-lo em inglês. A habilidade de encontrar em obj etos sim ples um a beleza m uito além do elaborado ou do enfeitado. Um a questão de arrum ação.

— Um drinque? — perguntou Mr. Kasoura. — Uísque com soda?

— Mr. Kasoura... — com eçou.

— Paul — disse o j ovem j aponês. Depois, indicando a esposa — Betty . E o senhor...

Mr. Childan m urm urou:

— Robert.

Sentados no tapete m acio, com seus drinques, ouviram um a gravação de koto, a harpa j aponesa de treze cordas. Novo lançam ento da H.M.V. j aponesa, m uito popular. Childan notou que todas as partes da vitrola estavam escondidas, até o alto-falante. Não sabia nem de onde vinha o som .

— Não conhecendo seus gostos quanto à com ida — disse Betty — preferim os não arriscar. No forno elétrico da cozinha está sendo feito um T-bone steak. Para acom panhar, batata assada com m olho de crem e talhado e cebolinha. O provérbio diz: ninguém erra servindo carne a um novo convidado.

— Magnífico — disse Childan. — Gosto m uito de bife.

E era m ais do que verdade. Quase nunca com ia carne. Os m atadores do Centro-Oeste m andavam pouca carne para a Costa Oeste. Não se lem brava da últim a vez em que com era um bom bife.

Estava na hora de entregar seu presente de convidado.

Retirou do bolso do casaco um pequeno em brulho em pape] de seda. Colocou-o discretam ente na m esinha. Am bos im ediatam ente repararam , forçando-o a dizer:

— Um presentinho para vocês. Para dem onstrar m uito m odestam ente o bem -estar e a alegria que sinto aqui.

Desem brulhou o pacote, m ostrando o presente. Era um pedaço de m arfim esculpido havia um século pelos baleeiros da Nova Inglaterra. Um m inúsculo obj eto artístico ornam entado, c ha m a do scrimshaw. Seus rostos ilum inaram -se ao reconhecer o scrimshaw feito pelos m arinheiros nas horas de folga. Nada poderia ter resum ido m elhor a velha cultura am ericana. Houve um silêncio.

— Obrigado — disse Paul. Robert Childan inclinou-se.

Então, sentiu paz por um m om ento em seu coração. Esta oferta, esta — com o diria o I Ching — libação. Cum prira sua obrigação. Parte da ansiedade e opressão que ultim am ente o vinham sufocando com eçou a dissipar-se.

Recebera indenização de Ray Calvin pelo Colt 44, com garantias escritas de que aquilo não tornaria a ocorrer. Mas isso não o aliviara. Só naquele instante, num a situação não relacionada com o outro fato, perdera por um m om ento a im pressão de que as coisas estavam num processo de desequilíbrio constante. O wabi em torno dele, as vibrações harm oniosas... sim , é isso, pensou. A proporção. O equilíbrio. Estão tão próxim os do Tao, estes dois j aponeses. Foi por isso que reagi im ediatam ente ao vê-los. Senti o Tao através deles. Pude percebê-lo em m im .

Com o seria, perguntou-se, conhecer realm ente o Tao? O Tao é aquilo que primeiro dá a luz e depois o escuro. É aquilo que leva à interpenetração de duas forças prim itivas, de m odo que há sem pre renovação. É: aquilo que im pede que tudo se desgaste. O universo-nunca se extinguira porque no m om ento exato em que o escuro parecer ter sufocado tudo, ser realm ente transcendental, as novas sem entes de luz renascem das próprias profundezas. É este o Cam inho. Quando a sem ente cai, penetra na terra, no solo. E lá em baixo, escondida, germ ina.

— Um hors-d'oeuvre — disse Betty .

De j oelhos, ofereceu-lhe um prato de salgadinhos. ele pegou dois, agradecendo.

— Os acontecim entos internacionais estão predom inando nestes dias — disse Paul, saboreando seu drinque. — Ao voltar para casa, hoj e à noite, ouvi a transm issão direta do grande Funeral Oficial em Munique, com a participação de cinqüenta m il pessoas, bandeiras e tudo o m ais. O Ich hatte einen Kamerad foi m uito cantado. O corpo está agora exposto para receber as hom enagens dos fiéis.

— Sim , foram terríveis as notícias repentinas do início da sem ana — disse Robert Childan.

— O Nippon Times de hoj e diz que fontes seguras afirm am que Von Schirach está em prisão dom iciliar — disse Betty . — Ordens do S.D.

— Mau — disse Paul, balançando a cabeça.

— É claro que as autoridades querem m anter a ordem — disse Childan. — Von Schirach é conhecido com o im petuoso, dado a atos irrefletidos. Com o Hess, no passado. Lem bre-se do insensato vôo para a Inglaterra.

— O que m ais dizia o Nippon Time?l — perguntou Paul à m ulher.

— Muita confusão e intriga. Deslocam ento de unidades do exército. Licenças canceladas. Postos de fronteira fechados. O Reichstag em sessão. Todo m undo fazendo discursos.

— Isso m e lem bra um excelente discurso do doutor Goebbels — disse Robert Childan. — No rádio, há um ano ou m ais. Violento e m ordaz. Tinha a platéia na palm a da m ão, com o de costum e. Usou toda um a gam a de em oções diversas. Sem dúvida: com o prim eiro de todos, Adolf Hitler, fora do j ogo, o doutor Goebbels é o m elhor orador nazista.

— É verdade — concordaram Paul e Betty , inclinando-se.

— O doutor Goebbels tam bém tem excelentes filhos e esposa — continuou Childan. — Pessoas da m elhor qualidade.

— É verdade — reconheceram Paul e Betty .

— Um pai de fam ília, em contraste com outros figurões de lá, que têm costum es sexuais duvidosos — disse Paul.

— Não gosto de dar ouvidos a boatos — disse Childan. — Refere-se a casos com o o de Roehm ? História antiga. Há m uito esquecida.

— Pensava principalm ente em Göring — disse Paul, tom ando seu drinque devagar e observando-o atentam ente. Orgias rom anas com toda a espécie de fantasias. Arrepiante, só de ouvir falar.

— Mentiras — disse Childan.

— Bom , o assunto não vale a pena ser discutido — disse Betty, diplom aticam ente, lançando um olhar aos dois.

Haviam esvaziado os copos e ela levantou-se para tornar a enchê-los.

— As discussões políticas acabam sem pre acaloradas — disse Paul. — Sem pre. O essencial é não perder a cabeça.

— Sim — concordou Childan. — Calm a e ordem . Assim as coisas voltam à sua estabilidade habitual.

— Na sociedade totalitária, o período logo após a m orte do líder torna-se crítico — disse Paul. — A falta de tradição, associada a instituições de classe m édia...

Interrom peu-se.

— É m elhor, talvez, deixar a política de lado — sorriu. — Com o nos velhos tem pos de estudante.

Robert Childan sentiu o rosto enrubescer e inclinou-se sobre o copo para fugir aos olhos do anfitrião. Que início terrível. Discutira política de m aneira tola e em voz alta; fora descortês ao discordar e só o tato do seu anfitrião salvara a noite. Com o tenho a aprender, pensou Childan. São tão am áveis e delicados. E eu... o bárbaro branco. É verdade.

Por alguns m inutos contentou-se em saborear seu drinque, m antendo no rosto um a expressão artificial de prazer. Devo segui-los em tudo, disse a si próprio. Concordar sem pre.

Mas, em pânico, pensou: m inhas idéias estão em baralhadas pela bebida. Pelo cansaço e nervosism o. Conseguirei? Na certa nunca m ais m e convidarão; j á é tarde dem ais. Sentiu-se desesperado.

Betty, tendo voltado da cozinha, sentara-se novam ente no tapete. Com o é atraente, pensou de novo Robert Childan. O corpo esbelto. Seus corpos são tão superiores ; nenhum a gordura, nenhum a protuberância. Não precisam de soutien nem cinta. Devo esconder m eu desej o a todo custo. E, contudo, perm itiu-se de vez em quando um olhar de relance. As lindas cores escuras de sua pele, cabelos, olhos. Som os m al acabados em com paração com eles. Retirados do forno antes da hora. A velha lenda indígena; nela está a verdade.

Preciso pensar em outra coisa. Encontrar tem a m undano, qualquer coisa. Seus olhos vagavam , procurando assunto. O silêncio pesava, agravando sua tensão. Insuportável. Que diabo tinha para dizer? Algo sem com prom isso. Seus olhos pousaram em um livro na estante baixa, de teca preta.

— Vej o que estão lendo The Grasshopper Lies Heavy — disse. — Já ouvi falar m uito, m as m eus negócios não m e têm dado folga ultim am ente.

Ficando de pé, foi apanhar o livro, exam inando cuidadosam ente as expressões deles; pareciam reconhecer este gesto de sociabilidade, de m odo que prosseguiu.

— Livro de m istério? Perdoem m inha profunda ignorância.

Virou as páginas.

— Não de m istério — disse Paul. — Ao contrário, um a interessante form a de ficção talvez no gênero de ficção científica.

— Oh, não — discordou Betty. — Não tem nada de científico. Não se passa no futuro. Ficção científica lida com o futuro, sobretudo o futuro em que a ciência é m ais adiantada do que agora. O livro não é nada disso.

— Mas — disse Paul — trata-se de um presente diferente. Existem m uitos livros célebres de ficção científica desse gênero.

Depois, virando se para Robert, explicou:

— Perdoe m inha insistência m as, com o m inha m ulher sabe, fui durante m uito tem po fanático por ficção científica. Com ecei a ler esse gênero aos doze anos. Nos prim eiros dias da guerra.

— Com preendo — disse Robert Childan, delicadam ente.

— Gostaria de levar o Grasshopper? — perguntou Paul. — Nós o term inarem os daqui a um dia ou dois, no m áxim o. Meu escritório fica no centro, não longe de sua estim ada loj a e eu poderia facilm ente deixá-lo lá na hora do alm oço.

Ficou um m om ento em silêncio e aí — provavelm ente, pensou Childan, devido a um sinal de Betty — continuou:

— Você e eu, Robert, podíam os alm oçar j untos nessa ocasião.

— Obrigado — disse Robert.

Não podia dizer m ais nada. Alm oçar num desses elegantes restaurantes do centro, freqüentados por hom ens de negócios. ele e este j ovem j aponês m oderno, fino, im portante. Era dem ais; sentiu o olhar anuviar-se. Mas continuou exam inando o livro e balançando a cabeça.

— Sim — disse — parece interessante. Gostaria m uito de lê-lo. Procuro estar em dia com os tem as atuais.

Seria apropriado, este com entário? Confessar seu interesse no livro por estar na m oda. Talvez fosse falta de classe. Não sabia, m as tinha a im pressão de que sim .

— Não se pode j ulgar um livro pelo sucesso com ercial — disse. — Sabem os disso. Muitos best sellers são um lixo. Este, contudo... — hesitou.

Betty disse:

— Muito verdadeiro. O gosto do leitor m édio é realm ente deplorável.

— Com o na m úsica — disse Paul. — Ninguém se interessa pelo folk jazz am ericano, por exem plo. Robert, você gosta, digam os, de Bunk Johnson, Kid Ory , e outros do m esm o gênero? De Dixieland! Eu tenho um a discoteca dessa m úsica antiga, com gravações originais da fábrica Genet.

Robert respondeu:

— Lam ento, m as pouco conheço de m úsica negra. Seu com entário não pareceu agradá-los.

— Prefiro os clássicos. Bach e Beethoven. Certam ente isso era aceitável. Sentia agora um a certa irritação. Queriam então que ele renegasse os grandes m estres da m úsica européia, os clássicos eternos, em favor do jazz de Nova Orleans, oriundo dos honky-tonks do bairro negro?

— Talvez se eu tocar um a seleção dos New Orleans Rythm Kings — com eçou Paul, saindo da sala, m as Betty o advertiu com um olhar.

Ele hesitou e deu de om bros.

— O j antar está quase pronto — disse ela. Voltando, Paul sentou-se novam ente. Com certo m au-hum or, pensou Robert, ele m urm urou:

— O jazz de Nova Orleans é a m ais autêntica m úsica folclórica am ericana. Nascida neste continente. Todo o resto veio da Europa, com o as híbridas baladas inglesas.

— Esta é um a discussão eterna entre nós — disse Betty sorrindo para Robert. — Eu não com partilho a paixão dele pelo jazz original.

Ainda segurando a cópia do The Grasshopper Lies Heavy, Robert disse:

— Que espécie de presente diferente este livro descreve?

Betty , após um m om ento, respondeu:

— Um no qual a Alem anha e o Japão teriam perdido a guerra.

Ficaram todos em silêncio.

— Está na hora de com er — disse Betty, ficando de pé. — Venham , por favor, fam intos hom ens de negócios.

Levou Robert e Paul para a sala de j antar, onde a m esa, j á estava posta com toalha branca, pratas, porcelanas e grandes guardanapos sim ples enfiados no que Robert reconheceu com o sendo argolas de osso no estilo da arte prim itiva am ericana. A prata, tam bém , era da m elhor qualidade. As xícaras e pires eram Roy al Albert, azul-escuro e am arelo. Excepcionais; não pôde deixar de olhá-las com adm iração profissional.

Os pratos não eram am ericanos. Pareciam j aponeses; não tinha certeza, era fora de seu cam po.

— É porcelana Im ari — disse Paul, notando seu interesse. — De Arita, no Japão. Um produto considerado de prim eira qualidade.

Sentaram -se.

— Café? — perguntou Betty a Robert.

— Sim — disse ele — obrigado.

— No final do j antar — falou ela, saindo para apanhar o carrinho de servir.

Com eçaram logo a com er. Robert achou a refeição deliciosa. Ela era um a cozinheira deveras excepcional. A salada, em particular, agradou-o. Abacate e fundo de alcachofra, com um m olho de queij o bleu para tem perar... ainda bem que não lhe ofereceram um a refeição j aponesa, aqueles pratos de verduras e carnes m isturadas, que com era tanto desde a guerra.

E os eternos frutos-do-m ar. Chegara ao ponto de passar m al só de ver cam arão ou um m arisco qualquer.

— Gostaria de saber — disse Robert — com o ele im agina que seria o m undo se o Japão e a Alem anha tivessem perdido a guerra.

Nem Paul nem Betty responderam im ediatam ente. Depois, Paul acabou por dizer:

— Há diferenças m uito com plicadas. É m elhor ler o livro. Eu certam ente estragaria seu prazer se lhe explicasse.

— Tenho opinião form ada a respeito — disse Robert. — Já pensei m uito no caso. O m undo seria m uito pior.

Ouviu a própria voz, firm e, quase brusca.

— Muito pior.

Eles pareceram surpresos. Talvez fosse seu tom .

— O com unism o dom inaria tudo — continuou Robert.

Paul concordou.

— O autor, Mr. Abendsen, estuda este ponto com o sendo a conseqüência da expansão sem controle da Rússia

Soviética. Mas, com o na Prim eira Guerra Mundial, m esm o estando do lado do vencedor, a Rússia, país cam ponês de segunda classe, sai perdendo do m esm o j eito. É um a grande piada, quando lem bram os a guerra que o Japão fez contra eles...

— Nós tivem os que sofrer, para pagar o preço — respondeu Robert. — Mas sofrem os por um a boa causa. Para im pedir a inundação do m undo pelos eslavos.

Betty disse em voz baixa:

— Pessoalm ente, não acredito em nenhum a dessas teorias histéricas de "inundação m undial" por povo algum , sej a eslavo, chinês ou j aponês.

Olhou Robert tranqüilam ente. Estava inteiram ente dona de si, calm a; m as queria expressar seus sentim entos. Manchas verm elhas escuras apareceram em cada um a de suas faces.

Continuaram a com er em silêncio.

Com eti outra falta, constatou Robert Childan. Era im possível evitar o assunto. Porque ele está em toda parte, num livro que apanho ao acaso, num a coleção de discos, nestas argolas de osso para guardanapos — o saque am ontoado pelos conquistadores. Pilhagem do m eu povo.

Encarem os a realidade. Estou tentando fingir que estes j aponeses e eu som os iguais. Mas considerem os um a coisa: quando exprim o m inha gratidão por eles terem ganho a guerra que m eu país perdeu... ainda aqui nada tem os em com um . O que as palavras significam para m im é exatam ente o oposto do que significam para eles. Seus cérebros são diferentes. Suas alm as tam bém . É só ver com o bebem em xícaras inglesas de porcelana, com o com em em prataria am ericana, com o ouvem m úsica negra. Tudo superficial. Riqueza e poder tornam essas coisas accessíveis para eles, m as são ersatz, tão certo quanto dois e dois são quatro.

Até o I Ching, que eles nos obrigaram a engolir, é chinês. Tom ado por em préstim o nos anos que passaram , quando... A quem estão tentando enganar? A eles m esm os? Roubar hábitos aqui e ali, vestir, com er, falar, andar, com o, por exem plo, devorar com prazer batatas assadas no forno, com crem e e cebolinha, um velho prato típico am ericano incorporado ao seu cardápio trivial. Mas ninguém se deixa enganar, posso garantir. Muito m enos eu.

Só as raças brancas têm faculdade de criação, refletiu. E eu, contudo, m em bro sangüíneo de um a delas, sou obrigado a inclinar-m e diante desses dois. Mas se nós tivéssem os ganho, teríam os esm agado os j aponeses até sua desaparição com pleta. Hoj e não haveria Japão e os Estados Unidos seriam a única grande potência brilhando no m undo inteiro.

Pensou: preciso ler esse livro — The Grasshopper — É um dever patriótico, ao que parece.

Betty falou baixinho:

— Robert, você não está com endo. Não está gostando?

Im ediatam ente ele com eu um a garfada de salada.

— Estou — disse. — Esta é, na verdade, a m elhor refeição que faço há anos.

— Obrigada — disse ela, visivelm ente lisonj eada. — Esforcei-m e para ser autêntica... Por exem plo, com prando cuidadosam ente os ingredientes em m inúsculos m ercados am ericanos de Mission Street. Soube que são os m elhores.

Você prepara os pratos nativos à perfeição, pensou Robert Childan. O que dizem é verdade: a capacidade im itativa de vocês é im ensa: torta de m açã, Coca-Cola, passeio depois do cinem a, Glenn Miller... vocês seriam capazes de m ontar, com latas de conserva e papel de arroz, um a Am érica artificial com pleta. Mãe feita de papel de arroz na cozinha, pai feito de papel de arroz lendo j ornal, com um cãozinho de papel de arroz aos seus pés. Tudo.

Paul observou-o em silêncio. Robert Childan, notando subitam ente a atenção de que era obj eto, cortou o fio de seu pensam ento e concentrou-se no j antar. Será que ele lê m inha m ente? — indagou-se. Vê o que estou realm ente pensando? Sei que nada deixei transparecer. Mantive a expressão correta; não é possível que tenha notado.

— Robert — disse Paul — j á que você nasceu e foi criado aqui, falando o idiom a am ericano, talvez possa aj udar-m e na leitura de um livro que tem m e dado certo trabalho. Um rom ance dos anos 30, de autor am ericano.

Robert inclinou-se ligeiram ente.

— O livro — continuou Paul — que é m uito raro, m as do qual não obstante possuo um a cópia, é de Nathanael West. O título é Miss Lonelyhearts. Li-o com prazer, m as não apreendi inteiram ente o que Nathanael West quis dizer.

Olhou para Robert com esperança.

Passado um instante, Robert Childan confessou:

— Eu... nunca li esse livro, sinto m uito. Nem nunca tinha ouvido falar, pensou.

A expressão de Paul revelou seu desapontam ento.

— Que pena. É um livro pequeno. Conta a história de um hom em que é colunista num j ornal diário; recebe constantem ente consultas sobre problem as sentim entais até que, levado à loucura pela dor alheia, im agina ser Jesus Cristo. Não se recorda? Talvez o tenha lido há m uito tem po.

— Não — disse Robert.

— Dá um a visão curiosa do sofrim ento — prosseguiu Paul. — Oferece-nos um a tentativa bastante original de esclarecim ento do significado da dor sem razão algum a, problem a estudado por todas as religiões. Religiões com o o cristianism o, que m uitas vezes declaram que deve haver pecado para explicar o sofrim ento. West parece acrescentar um a idéia m ais dinâm ica, passando por cim a de noções m ais antigas. Talvez se possa dizer que West viu que se pode sofrer sem causa pelo fato de ele ser j udeu.

Robert disse:

— Se a Alem anha e o Japão tivessem perdido a guerra, os j udeus estariam dom inando o m undo agora. Através de Moscou e Wall Street.

Os dois j aponeses, m arido e m ulher, pareceram encolher-se. Pareceram diluir-se, esfriar, entrar neles m esm os. O próprio quarto ficou frio. Robert Childan sentiu-se só. Com endo sozinho, não m ais na com panhia deles. O que fizera agora? Qual foi o m al-entendido? Incapacidade estúpida da parte deles de aprender um idiom a estrangeiro, o pensam ento ocidental. Não conseguindo com preender, ofendem se. Que tragédia, pensou, continuando a com er. E contudo... o que poderia fazer?

A clareza existente antes — apenas um m om ento atrás — precisava ser explorada até a últim a gota. Sua extensão total só fora percebida agora. Robert Childan não se sentia tão m al quanto antes, porque aquele sonho sem sentido com eçava a afastar-se de sua m ente. Eu esperava tanto deste encontro quando cheguei aqui, recordou. Quando subia as escadas, eu estava m ergulhado num a espécie de brum a rom ântica, com o um adolescente. Mas a realidade não pode ser ignorada; precisam os ser adultos.

E aqui o negócio é o seguinte: essa gente não é exatamente humana. Vestem roupas m as são com o m acacos de circo fantasiados. São espertos e capazes de aprender, mas é só.

Por que corro para servi-los, então? Apenas porque venceram ?

Um a grande falha em m eu caráter foi revelada neste encontro. É assim que as coisas acontecem . Tenho um a tendência patética a... bom , digam os, a infalivelm ente escolher entre dois m ales o m enor. Com o um a vaca quando avista o bebedouro; saio a galope sem prem editação.

O que tenho feito é com portar-m e de acordo com as conveniências, porque é m ais seguro; afinal de contas, eles são os vencedores... eles m andam . E vou continuar assim , suponho. Porque não vej o razão para tornar-m e infeliz. Eles lêem um livro am ericano e querem que o explique; esperam que eu, um hom em branco, possa dar-lhes a resposta. E eu m e esforço! Mas neste caso não posso; no entanto, se o tivesse lido, certam ente poderia.

— Talvez um dia dê um a olhada nesse livro, Miss Lonelyhearts — disse ele a Paul. — E depois lhe direi o que significa.

Paul inclinou-se ligeiram ente.

— Contudo, no m om ento estou ocupado dem ais com m eu trabalho — disse Robert. — Mais tarde, talvez... Estou certo de que não levarei m uito tem po.

— Não — m urm urou Paul. — É um livro m uito curto.

Tanto ele quanto Betty pareciam tristes, pensou Robert Childan. Perguntou-se se eles tam bém haviam sentido a presença daquele fosso intransponível entre eles. Espero que sim , pensou. Eles m erecem . Um a vergonha — deixá-los descobrir a m ensagem do livro sozinhos.

Com eu com m aior prazer.

 

Nenhum outro incidente perturbou a paz da noite. Quando deixou o apartam ento dos Kasouras, às dez, Robert Childan ainda sentia aquela sensação de confiança que se apossara dele durante a refeição.

Foi descendo as escadas do prédio sem nem se preocupar com os ocasionais residentes j aponeses que, indo ou vindo dos banhos com unais, pudessem vê-lo e notá-lo. Saiu até a calçada escura, cham ando um velotáxi. Logo estava a cam inho de casa.

Eu sem pre quis saber com o m e sentiria ao encontrar certos fregueses socialm ente. Nada m al, afinal de contas. E, pensou, esta experiência talvez m e aj ude nos negócios.

É terapêutico encontrar essa gente que j á m e intim idou. Descobrir com o são na realidade. E assim a intim idação se dissipa.

Seguindo esta linha de pensam ento, chegou ao seu bairro e finalm ente à porta de casa. Pagou ao chofer chink do velotáxi e subiu as escadas fam iliares.

Lá, na sala de estar, encontrou um hom em que não conhecia. Um hom em branco, de sobretudo, sentado no sofá lendo um j ornal. Enquanto Robert Childan perm anecia, atônito, de pé na entrada, o hom em pôs de lado o j ornal, levantou-se sem a m enor pressa e enfiou a m ão no bolso direito. Retirou um a carteira e apresentou-a.

— Kempeitai.

Era um pinoc. Funcionário da Polícia Estadual instalada em Sacram ento pelas autoridades j aponesas de ocupação. Assustador!

— Você é Robert Childan?

— Sim , senhor — respondeu, com o coração quase a saltar-lhe do peito.

— Recentem ente — disse o policial, consultando um m aço de docum entos que retirara de um a pasta no sofá — o senhor recebeu a visita de um hom em branco, que disse ser representante de um oficial da Marinha Im perial. Pesquisas efetuadas revelaram que o tal oficial não existia, nem o navio.

Olhou para Childan.

— Correto — disse Childan.

— Tem os inform ações — continuou o policial —de um a quadrilha que está operando na área da Baía. Esse suj eito evidentem ente faz parte dela. Poderia descrevê-lo?

— Pequeno, de pele bastante escura — com eçou Childan.

— Judeu?

— Sim ! — disse Childan. — Agora que o senhor o m enciona. Mas na hora não m e ocorreu.

— Vej a esta foto.

O hom em de Kempeitai passou-a.

— É ele — disse Childan, que o reconhecia fora de qualquer dúvida.

Estava algo abalado pelos poderes de descoberta do Kempeitai.

— Com o foi que o encontraram ? Não avisei a polícia, m as telefonei ao m eu fornecedor, Ray Calvin, e disse-lhe...

O policial fez sinal que se calasse.

— Tenho um papel para você assinar e é só. Não terá que prestar depoim ento no tribunal; esta é um a form alidade legal que põe fim à sua participação no caso.

Entregou o papel a Childan, j unto com um a caneta.

— Declara que este hom em entrou em contato com você e, assum indo um a identidade que se revelou falsa, tentou ludibriá-lo, etc. Leia o papel.

O policial puxou a m anga e olhou o relógio, enquanto Robert Childan lia o papel. — Está totalm ente correto?

Estava... substancialm ente. Robert Childan não teve tem po de dar toda atenção ao papel e, além do m ais, estava um pouco confuso depois de tudo o que acontecera

naquele dia. Mas sabia que o hom em dera um a identidade falsa e que havia um a quadrilha envolvida; e, com o o hom em do Kempeitai dissera, o suj eito era j udeu. Robert Childan olhou o nom e em baixo da foto. Frank Frink. Nascido Frank Fink. Sim , certam ente era j udeu. Qualquer um podia ver, com um nom e com o Fink. E ele o tinha m odificado.

Childan assinou o papel.

— Obrigado — disse o policial.

Recolheu suas coisas, levantou o chapéu, desej ou um a boa-noite a Childan e partiu. A coisa toda não levara m ais do que um m om ento.

Parece que o apanharam , pensou Childan. Fosse qual fosse sua história.

Era um grande alívio. Trabalham depressa, não há dúvida.

Vivem os num a sociedade onde reinam a lei e a ordem , onde os j udeus não podem enganar os inocentes. Estam os protegidos.

Não sei por que não reconheci suas características raciais logo que o vi. Evidentem ente sou fácil de enganar.

Sim plesm ente não sou capaz de enganar e isto m e deixa indefeso, pensou. Sem a lei, estaria à m ercê deles. ele poderia ter-m e convencido de qualquer coisa. É um a espécie de hipnose. São capazes de controlar um a sociedade inteira.

Am anhã vou sair e com prar o tal livro, aquele Grasshopper, disse a si m esm o. Vai ser interessante ver com o o autor retrata um m undo dirigido por j udeus e com unistas, com o Reich em ruínas e o Japão sem dúvida transform ado em um a província da Rússia; na verdade, com a Rússia se estendendo do Atlântico ao Pacífico. Será que o autor — com o se cham a, m esm o? — descreve um a guerra entre a Rússia e os.Estados Unidos? Livro interessante, pensou. Estranho que ninguém tenha pensado em escrevê-lo antes.

Devia fazer com que a gente percebesse a sorte que tem , pensou ele. Apesar das evidentes desvantagens... podia ser m uito pior. Esse livro nos dá um a grande lição de m oral. Sim , os j aponeses estão no poder aqui e nós som os um a nação derrotada. Mas é preciso olhar além ; é preciso construir. Disso tudo deverão sair coisas grandiosas, com o a colonização dos planetas, por exem plo.

Está na hora do noticiário, reparou. Sentando-se, ligou o rádio. Talvez tenham escolhido o novo Chanceler do Reich. Sentiu expectativa e excitação. Para m im , o m ais dinâm ico é o tal de Sey ss-Inquart. O m ais capaz de levar a cabo program as audaciosos.

Gostaria de estar lá, pensou. Talvez algum dia tenha dinheiro suficiente para viaj ar à Europa e ver tudo o que está sendo feito. É um a pena perder isso, ficar encalhado aqui na Costa Oeste, onde nunca, acontece nada. A História se desenrola sem nossa participação.