O Homem do Castelo Alto
Capítulo 10
TINHAM sido duas sem anas terríveis para Mr. Bay nes. De seu quarto, no hotel, telefonara todos os dias ao m eio-dia para saber se o velho senhor aparecera na Missão Com ercial. A resposta era invariavelm ente não. A voz de Mr. Tagom i tornava-se cada dia m ais fria
e m ais form al. Enquanto Mr. Bay nes preparava-se para fazer a décim a sexta cham ada, pensou: Mais cedo ou m ais tarde vão m e dizer que Mr. Tagom i saiu. Que não atenderá m ais telefonem as m eus. E vai ser assim .
O que aconteceu? Onde está Mr. Yatabe?
Tinha um a idéia aproxim ada. A m orte de Martin Borm ann provocara im ediata consternação em Tóquio. Mr. Yatabe, na certa, estava há um dia ou dois em viagem quando recebeu novas instruções. Voltar ao Japão para novas consultas.
Era um a falta de sorte, percebeu Mr. Bay nes. Talvez até fatal.
Ele tinha, porém , que ficar onde estava, em São Francisco. Ainda tentando com binar a reunião para a qual viera. Quarenta e cinco m inutos pelo foguete da Lufthansa de Berlim para chegar lá e agora isso. Vivem os num a época estranha. Podem os viaj ar para onde quiserm os, até para outros planetas. E para quê? Para ficar sentado dia após dia, sentindo o m oral declinar e a esperança desaparecer. Mergulhado num tédio infinito. E enquanto isso, os outros estão ocupados. Não estão sentados esperando inutilm ente.
Mr. Bay nes abriu a edição da tarde do Nippon Times e leu novam ente as m anchetes.
O Dr. Goebbels nomeado Chanceler do Reich
Solução surpresa para o problem a da liderança, dada pelo Com itê do Fartei. Discurso radiofônico considerado decisivo. Multidões em Berlim aplaudem . Declaração aguardada. Göring talvez sej a nom eado Chefe de Polícia, com j urisdição sobre Hey drich.
Releu o artigo inteiro. Depois guardou o j ornal, pegou o telefone e discou o núm ero da Missão Com ercial.
— Aqui é Mr. Bay nes. Posso falar com Mr. Tagom i?
— Um m om ento, senhor. Foi um longo m om ento.
— Mr. Tagom i falando.
— Perdoe esta situação deprim ente para am bos, senhor... — disse Mr. Bay nes, respirando fundo.
— Ah, Mr. Bay nes.
— Sua hospitalidade, senhor, é inigualável. Algum dia sei que com preenderá os m otivos que m e levam a adiar nossa conferência até que o velho senhor...
— Infelizm ente, ainda não chegou. Mr. Bay nes fechou os olhos.
— Pensei que, talvez de ontem para cá...
— Lam ento, m as não, senhor. — Um a frieza polida. — Com licença, Mr. Bay nes, estou m uito ocupado.
— Bom dia, senhor.
O telefone ficou m udo. Hoj e Mr. Tagom i desligara sem nem se despedir. Mr. Bay nes lentam ente recolocou o fone no gancho.
Preciso fazer qualquer coisa. Não posso m ais esperar.
Recebera ordens explícitas de não entrar em contato com a Abivehr de m aneira algum a. Deveria apenas esperar até dar um j eito de encontrar o representante m ilitar j aponês; reunir-se com ele e voltar a Berlim . Mas ninguém previra que Borm ann iria m orrer j ustam ente nessa hora. Portanto...
Suas ordens haviam caducado. Era preciso substituí-las. Agir por conta própria, j á que não havia quem consultar.
Nos E.A.P. havia pelo m enos dez agentes da Abwehr, m as alguns — possivelm ente todos — eram conhecidos pela S.D. local e seu com petente chefe regional, Bruno Kreuz von Meere. Anos atrás conhecera Bruno rapidam ente num a reunião do Fartei. O hom em tinha um notório prestígio nas rodas policiais pelo fato de ter sido ele quem , em 1943, descobrira o com plô anglo-tcheco contra a vida de Reinhard Hey drich, salvando assim a vida do Carrasco. Em todo caso, Bruno Kreuz von Meere j á então estava vendo sua autoridade crescer dentro da S. D.. Não era um sim ples burocrata policial.
Era, na realidade, um hom em m uito perigoso.
Era possível até que, apesar de todas as precauções tom adas, tanto por parte da Abwehr, em Berlim , quanto pelo Tokkoka, em Tóquio, a S. D. j á tivesse conhecim ento desta tentativa de reunião em São Francisco, nos escritórios da Missão Com ercial. Contudo, este território estava sob adm inistração j aponesa. A S.D. não tinha autoridade oficial para interferir. Ela podia fazer com que o representante alem ão — ele, no caso — fosse preso quando novam ente pisasse em território do Reich; m as não podia fazer nada contra o j aponês, ou contra a realização da própria reunião.
Ao m enos, era o que esperava.
Seria possível que a S. D. tivesse conseguido reter o velho senhor em algum ponto do cam inho? Era um longo percurso de Tóquio a São Francisco, especialm ente para um a pessoa tão idosa e tão frágil que não podia nem enfrentar um a viagem aérea.
O que preciso fazer, concluiu Mr. Bay nes, é saber de m eus superiores se Mr. Yatabe ainda vem . Eles estarão inform ados. Saberão na certa se a S.D. o tiver interceptado ou se o Governo de Tóquio cham ou-o...
E se eles encontraram um m eio de chegar ao velho senhor, concluiu que conseguiriam chegar até ele.
Mas a situação, m esm o naquelas circunstâncias, não era desesperadora. Um a idéia ocorrera a Mr. Bay nes enquanto esperava, dia após dia, sozinho em seu quarto no Hotel Abhirati.
Será melhor transmitir minha informação a Mr. Tagomi do que voltar para Berlim de mãos abanando. Ao m enos assim haveria um a chance, por m ais rem ota que fosse, de que por fim as pessoas certas recebessem a inform ação. Mas Mr. Tagom i não podia fazer m ais que ouvir; era o ponto fraco da idéia. O m áxim o que podia fazer era ouvir, decorar o recado e, logo que possível, fazer um a viagem de negócios às ilhas nipônicas. Enquanto Mr. Yatabe tivesse aquele nível político, podia ouvir... e falar.
Mesm o assim , era m elhor do que nada. O tem po urgia. Com eçar tudo de novo, com binar penosam ente, cautelosam ente, outra vez, durante m eses, o delicado contato entre um grupo na Alem anha e um grupo no Japão...
Seria um a surpresa e tanto para Mr. Tagom i, pensou com acidez. Ver-se de repente com um a inform ação dessa espécie nas m ãos. Muito diferente das inform ações sobre m oldes inj etáveis...
Talvez tivesse um colapso nervoso. Ou revelasse tudo a alguém do seu grupo ou ficasse calado; fingir, até para si m esm o, que não ouvira nada. Sim plesm ente recusar-se a m e acreditar. Levantar-se, inclinar-se e sair da sala, apenas eu com ece a falar.
Indiscreto. Talvez pensasse isso de m im . Não estava ali para ouvir tais coisas.
Tão fácil, pensou Mr. Bay nes. A saída é tão im ediata, tão fácil de achar, para ele. Gostaria que o fosse para m im , pensou.
Mas, no fundo, não era possível nem para Mr. Tagom i. Não som os diferentes. Ele pode fechar os ouvidos às m inhas palavras. Mais tarde, porém . Quando não for um a questão de palavras. Se conseguir explicar-lhe. Ou a quem quer que sej a... com quem eu acabar falando.
Deixando o quarto do hotel, Mr. Bay nes desceu de elevador para o vestíbulo.
Um a vez na calçada, pediu ao porteiro que lhe cham asse um velotáxi e logo estava a cam inho de Market Street, com o chofer chinês pedalando energicam ente.
— Aqui — disse ao chofer, quando encontrou o letreiro que procurava. — Encoste na calçada.
O velotáxi parou ao lado de um hidrante. Mr. Bay nes pagou e despediu-o. Não parecia ter sido seguido. Mr. Bay nes foi andando a pé pela calçada. Um m om ento depois, j untam ente com outros clientes, entrava num a grande loj a do centro, o Fuga Department Store.
Havia gente por toda parte. Balcões e m ais balcões. Vendedoras, a m aioria brancas e algum as j aponesas com o chefes de departam ento. A barulheira era infernal.
Após um a certa confusão, Mr. Bay nes localizou o departam ento de roupas m asculinas. Parou ao lado dos cabides de calças e com eçou a exam iná-las. Im ediatam ente um vendedor, um j ovem branco, aproxim ou-se e cum prim entou-o.
Mr. Bay nes disse: — Vim buscar as calças de lã m arrom -escura que vi ontem — disse Mr. Bay nes. Encarando o vendedor, continuou: — Não foi com você que falei. O outro era m ais alto. Bigode verm elho. Magro. Tinha o nom e no paletó: Larry .
— Ele está alm oçando no m om ento. Mas volta logo — respondeu o vendedor.
— Vou experim entar essas — disse Mr. Bay nes, tirando um par de calças do cabide.
— Pois não, senhor.
O vendedor indicou um a cabine de provas vazia e foi atender outra pessoa.
Mr. Bay nes entrou na cabine e fechou a porta. Sentou-se num a das duas cadeiras e esperou.
Alguns m inutos depois bateram na porta. Esta abriu-se e entrou um j aponês baixo, de m eia-idade.
— O senhor é estrangeiro? — perguntou a Mr. Bay nes, — E devo aprovar seu crédito? Deixe-m e ver seus docum entos.
Fechou a porta atrás de si. Mr. Bay nes tirou a carteira do bolso. O j aponês sentou-se e com eçou a exam inar o conteúdo da carteira. Parou diante da foto de um a m oça.
— Muito bonita.
— Minha filha, Marta.
— Eu tam bém tenho um a filha cham ada Marta — disse o j aponês. — Está atualm ente em Chicago, estudando piano.
— Minha filha — inform ou Mr. Bay nes — está para se casar.
O j aponês devolveu-lhe a carteira e ficou esperando.
— Estou aqui há duas sem anas e Mr. Yatabe não apareceu — falou Mr. Bay nes. — Quero saber se ainda vem . Caso contrário, o que devo fazer.
— Volte am anhã à tarde — respondeu o j aponês. Levantou-se e Mr. Bay nes im itou-o. — Bom -dia.
— Bom -dia — disse Mr. Bay nes.
Saiu da cabine, pendurou as calças de volta no cabide, e deixou o Fuga Department Store.
Não durou m uito, pensou, enquanto andava pela tum ultuada calçada do centro com os outros transeuntes. Será que ele pode m esm o obter a inform ação até lá? Entrar em contato com Berlim , codificar m inhas perguntas e transm iti-las, receber a resposta e decifrar o código... passo a passo?
Aparentem ente, podia.
Agora lam ento não ter feito este contato antes. Teria evitado m uita preocupação e angústia. E evidentem ente não sofrerá um risco m aior; parecia ter corrido tudo tão bem . Na realidade não levou m ais de cinco ou seis m inutos.
Mr. Bay nes continuou andando, olhando as vitrines. Sentia-se m uito m elhor agora. Um pouco adiante, deparou com as fotos nas portas dos cabarés, m anchadas pelas m oscas, m ostrando m ulheres brancas, cuj os seios caíam com o bolas de vôlei m eio m urchas. Esta visão divertiu-o e dim inuiu o passo, sendo em purrado pelos pedestres m ais atarefados, que subiam e desciam Market Street.
Pelo m enos acabou por fazer algum a coisa.
Que alívio!
Encostada confortàvelm ente na porta do carro, Juliana lia. Ao seu lado, com o cotovelo para fora da j anela, Joe dirigia com um a m ão apoiada de leve no volante e um cigarro grudado no lábio inferior. Era bom m otorista e j á tinham feito um bom pedaço desde Canon City .
O rádio transm itia m úsica folclórica sentim ental do gênero biergarten, um a banda de acordeões executando um daqueles interm ináveis schottishes ou polcas; ela nunca sabia diferençar.
— Kitsch — disse Joe, quando term inou a m úsica.
— Escuta, eu conheço m uito m úsica; vou te dizer quem foi um grande m aestro. Você na certa não se lem bra. Arturo Toscanini.
— Não — disse ela, sem parar de ler.
— Era italiano. Mas os nazistas não o deixaram m ais reger depois da guerra, por causa de suas opiniões políticas. Está m orto agora. Não gosto daquele Von Karaj an, regente perm anente da Filarm ônica de Nova York. Obrigavam o pessoal do nosso dorm itório de trabalhadores a assistir aos concertos dele. O que eu gosto, com o carcamano que sou... você pode im aginar — olhou para ela. — Gostando do livro?
— É absorvente.
— Eu gosto de Verdi e Puccini. Em Nova York a única coisa que se tem é a m úsica pesada e bom bástica de Wagner e Orff e som os obrigados a ir todas as sem anas a um daqueles péssim os espetáculos dram áticos do Partido Nazista dos Estados Unidos em Madison Square Garden, com bandeiras, tam bores, trom betas e aquela cham a trêm ula. A história das tribos góticas e. outras porcarias educativas, cantada em lugar de falada, para ser cham ado de "arte". Você conheceu Nova York antes da guerra?
— Sim — disse ela, tentando ler.
— É verdade que havia um teatro excelente naquela época? Foi o que ouvi dizer. Agora é igual ao cinem a; é tudo um cartel com sede em Berlim . Nos treze anos que vivi em Nova York nunca vi um a boa peça ou m usical, só essas...
— Deixe-m e ler — disse Juliana.
— E é a m esm a coisa com os livros — continuou Joe, im perturbável. — É um cartel dirigido de Munique. A única coisa que fazem em Nova York é im prim ir; só grandes im pressoras... m as, antes da guerra, Nova York era o centro da indústria m undial da edição, pelo m enos é o que dizem .
Colocando os dedos nos ouvidos, ela concentrou-se no livro aberto em seu colo, cortando a voz dele. Ela havia chegado ao capítulo do Grasshopper que descrevia a fabulosa televisão e estava fascinada; especialm ente o pedaço sobre os pequenos aparelhos baratos para os povos subdesenvolvidos da África e da Ásia.
... Só know-how yankee e o sistem a de produção em m assa — Detroit, Chicago, Cleveland, nom es m ágicos! — podiam ter realizado aquele prodígio, enviado aquela torrente infindável e até nobre de conj untos de televisão a um dólar (dólar chinês, o dólar com ercial) a cada aldeia e buraco do oriente. Quando o aparelho, depois de m ontado por algum j ovem m agro e agitado da aldeia, louco por um a oportunidade, por aquilo que os generosos am ericanos lhe ofereciam , aquele aparelhinho m ovido por força própria, contida num a célula não m aior que um a bola de gude, com eçava a receber... E o que recebia? Agachados diante da tela, os j ovens da aldeia e, m uitas vezes, os velhos tam bém , viam palavras. Lições. Prim eiro, com o ler. Depois o resto. Com o cavar um poço m ais fundo. Com o arar m elhor. Com o purificar a água potável, curar os doentes. No céu girava um a lua artificial am ericana, distribuindo o sinal, levando-o a toda parte... às m assas ávidas, esperançosas, do Oriente.
— Você está lendo tudo? — perguntou Joe. — Ou pulando pedaços?
— É form idável, m aravilhoso — disse ela — ele nos faz enviar com ida e educação a todos os asiáticos, m ilhões deles.
— Assistência social em escala internacional — respondeu Joe.
— É. O New Deal sob Tugwell; elevam o nível das m assas. Escuta.
Leu em voz alta para Joe:
... O que tinha sido a China? Um a entidade aspirando a ser um a com unidade voltada para o Oeste, com seu grande presidente dem ocrático, Chiang Kai-Shek, que guiou o povo chinês nos anos da guerra, conduzindo-o agora aos anos de paz, à Década da Reconstrução. Mas para a China, não era um a reconstrução, pois aquela terra vasta e plana quase sobrenatural nunca fora construída; ainda dorm ia o sono dos séculos. Despertar; sim , a entidade, o gigante, precisava enfim despertar para a consciência total, despertar para o m undo m oderno com seus aviões a j ato e energia atôm ica, suas autobahns, fábricas e produtos farm acêuticos. E de onde viria o trovão para despertar o gigante? Chiang o sabia, m esm o durante a luta que levaria à derrota do Japão. Viria dos Estados Unidos. E, por volta de 1950, técnicos, engenheiros, professores, m édicos, agrônom os am ericanos invadiriam cada província com o um a nova form a de vida, cada...
Interrom pendo-a, Joe disse:
— Você sabe o que ele fez, não sabe? Pegou o m elhor do nazism o, a parte socialista, a Organização Todt e o progresso econôm ico que tivem os graças a Speer e a quem está atribuindo o m érito? Ao New Deal. E deixou de lado a parte ruim , os S. S., a exterm inação racial e a segregação. É um a utopia! Você acha que, se os aliados tivessem ganho, o New Deal teria sido capaz de revitalizar a econom ia e fazer aquelas m elhoras socialistas, com o ele diz? Claro que não; ele está falando de um a form a de sindicalism o estatal, de estado corporativo, com o aquele que desenvolvem os sob o Duce.
Está dizendo: vocês teriam tudo o que há de bom e nada de...
— Deixe-m e ler — disse ela ferozm ente.
ele deu de om bros. Mas teve que parar de falar. Ela continuou lendo, desta vez em silêncio.
... E estes m ercados, o incalculável núm ero de m ilhões de chineses, fazem rom arias às fábricas de Detroit e Chicago; aquela boca gigantesca j am ais seria enchida, cem anos não seriam suficientes para dar àquele povo bastantes cam inhões, tij olos, lingotes de aço, roupa, m áquinas de escrever, enlatados, relógios, rádios ou colírio. O trabalhador am ericano tinha, em 1960, o nível de vida m ais alto do m undo, graças àquilo que, delicadam ente, cham avam de cláusula da "nação m ais favorecida" constante de toda transação com ercial com o Oriente. Os Estados Unidos j á não ocupavam o Japão, e nunca haviam ocupado a China; e contudo o fato era indiscutível: Cantão, Tóquio e Xangai não com pravam dos ingleses; com pravam dos am ericanos. E a cada venda, os operários de Baltim ore, Los Angeles ou Atlanta ficavam um pouco m ais prósperos.
Parecia aos planej adores, aos hom ens de visão da Casa Branca, que haviam quase alcançado sua m eta. As naves espaciais exploratórias breve arriscariam um nariz prudente no vácuo, partindo de um m undo que por fim acabara com seus sofrim entos seculares: fom e, praga, guerra, ignorância. No Im pério Britânico, m edidas equivalentes visando ao progresso sócio-econôm ico levaram alívio sem elhante às m assas na índia, Birm ânia, África, Oriente Médio. As fábricas do Ruhr, de Manchester, do Sarre, o petróleo de Baku, todos fluíam e interagiam em harm onia intrincada porém eficaz; as populações da Europa repousavam no que parecia...
— Acho que eles deviam ser os chefes — disse Juliana, parando. — Foram sem pre os m elhores. Os ingleses.
Ela esperou um a resposta que não veio. Finalm ente continuou a ler.
... Realização do sonho de Napoleão; hom ogeneidade racional entre as diversas correntes étnicas que se tinham disputado e levaram à balcanização da Europa, desde a queda de Rom a. Sonho, tam bém , de Cario Magno: um a Cristandade unificada, totalm ente em paz não só consigo própria m as com o resto do m undo. E contudo... havia ainda um ponto fraco.
Cingapura.
Os Estados da Malásia tinham um a grande população chinesa, a m aioria da em preendedora classe com ercial, e esses prósperos e industriosos burgueses viam na adm inistração am ericana da China um tratam ento m ais j usto daqueles que se cham avam "o nativo". Sob o dom ínio britânico, as raças m ais escuras eram excluídas dos country clubs, dos hotéis, dos restaurantes m elhores; viram -se, com o nos tem pos antigos, confinados em certas partes do trem e do ônibus e — talvez o pior de tudo — lim itados quanto à sua escolha de residência dentro de cada cidade. Aqueles "nativos" perceberam e notaram , em suas conversas e j ornais que, nos Estados Unidos, o problem a racial havia sido resolvido desde 1950. Brancos e pretos viviam , trabalhavam e com iam lado a lado, até Deep South; a Segunda Guerra Mundial acabara com a discrim inação...
— Acaba saindo briga? — perguntou Juliana a Joe. ele resm ungou, conservando os olhos fixos na estrada.
— Me conta o que vai acontecer — disse ela. — Sei que não vou ter tem po de acabar; daqui a pouco estam os em Denver. A Am érica e a Inglaterra entram em guerra e um fica dom inando o m undo?
— De certa form a não é um m au livro — respondeu Joe em seguida. — ele fornece todos os detalhes; os Estados Unidos ficam com o Pacífico, m ais ou m enos com o nossa Esfera de Co-prosperidade do Este Asiático. E dividem a Rússia. Isso funciona durante uns dez anos. Depois com eçam as encrencas... naturalm ente.
— Por que naturalm ente?
— A natureza hum ana — acrescentou Joe. — A natureza das nações. Suspeita, m edo, cobiça. Churchill acha que os Estados Unidos estão sabotando o dom ínio britânico no Sul da Ásia, tentando atrair as vastas m assas chinesas, que são naturalm ente pró-am ericano, graças a Chiang Kai-Shek. Os ingleses com eçaram a m ontar — esboçou um sorriso — o que são cham ados de "detenções preventivas". Em outras palavras, cam pos de concentração. Para m ilhares de chineses talvez desleais. São acusados de sabotagem e propaganda. Churchill é tão...
— Você quer dizer que ele ainda está no poder? ele não anda pelos noventa anos?
— É aí que o sistem a britânico leva vantagem sobre o am ericano — continuou Joe. — Cada oito anos os Estados Unidos dem item seus líderes, por m elhores que sej am — m as Churchill sim plesm ente continua. Depois de Tugwell, os am ericanos nunca m ais tiveram um líder igual a ele. Só insignificâncias. E quanto m ais velho vai ficando, m ais autocrata e inflexível se torna... estou falando de Churchill. Até que, por volta de 1960, ele se tornou um a espécie de velho senhor da guerra no m undo todo, m enos na Ásia Central; ninguém pode nada contra ele. Está no poder há vinte anos.
— Nossa Senhora — disse ela, folheando a parte final do livro, procurando verificar o que Joe estava dizendo.
— Nesse ponto eu concordo — prosseguiu Joe. — Churchill foi o único bom líder que os ingleses tiveram durante a guerra; se o tivessem m antido, teriam se saído m elhor. Te garanto; um estado não é m elhor que seu líder. Führerprinzip — Princípio da Liderança, com o dizem os nazistas. Têm razão. Até esse Abendsen tem que concordar. Claro, os Estados Unidos se expandem econom icam ente depois de derrotar o Japão, porque conseguiram arrancar deles aquele vasto m ercado que é a Ásia. Mas não basta; falta espiritualidade. Não que os ingleses tenham . Am bos os países são plutocráticos, am bos são dirigidos pelos ricos. Se tivessem vencido, a única coisa que teria interessado àquela classe alta seria ganhar m ais dinheiro. Abendsen está errado; não haveria nenhum a reform a, nem planos de assistência social — os plutocratas anglo-saxões não o perm itiriam .
Ele fala com o um fascista convicto — pensou Juliana.
Evidentem ente, Joe percebeu pela sua expressão o que ela estava pensando; voltou-se para ela, dim inuindo a m archa, com um olho nela e o outro nos carros que vinham na direção contrária.
— Escuta, eu não sou um intelectual — o fascism o não precisa disso. O que precisa é ação. A teoria deriva da ação. O que o nosso estado corporativo exige de nós é a com preensão das forças sociais — da história. Você entende? Olha; eu sei, Juliana — seu tom era sincero, quase suplicante. — Aqueles velhos e podres im périos governados pelo dinheiro, Grã-Bretanha, França e Estados Unidos, em bora o últim o sej a realm ente um a espécie de país bastardo, um pouco m arginal e não um verdadeiro im pério; m as tendo, tam bém , o dinheiro com o deus. Não têm alm a, portanto não têm futuro. Não crescem . Os nazistas são um a corj a de bandidos, concordo. Você concorda? Correto?
Ela teve que sorrir. Sua exuberância italiana havia se acentuado na tentativa de guiar e falar ao m esm o tem po.
— Abendsen fala com o se fosse grande coisa os Estados Unidos ou a Inglaterra ganharem no final. Besteira! Não tem m érito, não tem história. Seis de um , doze do outro. Você j á leu os escritos do Duce? Inspirados. Um hom em m aravilhoso. Escritos m aravilhosos. Explica o que há por baixo de cada acontecim ento. A causa real da guerra foi: o velho contra o novo. O dinheiro — foi por isso que os nazistas com eteram o erro de envolver os j udeus na história — contra o espírito com unitário, o que os nazistas cham am de Gemeinschaft. Com o os Soviets. A Com una. Certo? Só que os com unistas se apropriaram das am bições do pan-eslavism o de Pedro o Grande e fizeram das reform as sociais um m eio de realizar desígnios im perialistas.
Está falando com o Mussolini. Igualzinho, pensou Juliana.
— O gangsterism o nazista é um a tragédia — continuou Joe, ultrapassando um cam inhão que ia devagar. — Mas a m udança é sem pre dura para quem perde. Nada de novo. Olha as revoluções anteriores, com o a francesa. Ou Crom well contra os irlandeses. Há filosofia dem ais no tem peram ento alem ão; m uito teatro, tam bém . Todas aquelas reuniões. Você nunca verá um verdadeiro fascista falando, m as só agindo, com o eu. Certo?
— Nossa, você está falando a cem por hora —disse ela, rindo.
— Estou te explicando a teoria fascista da ação! — gritou ele, agitado.
Ela não pôde responder; era engraçado dem ais.
Mas o hom em ao seu lado não estava achando graça; olhou-a carrancudo, com o rosto congestionado. As veias em sua testa cresceram e ele com eçou a trem er outra vez. E novam ente passou os dedos em garra bruscam ente pela cabeça, num m ovim ento contínuo, sem falar, só encarando a.
— Não fique zangado com igo — disse ela.
Por um m om ento ela pensou que fosse levar um soco; ele puxou o braço para trás... depois resm ungou, estendeu a m ão e ligou o rádio.
Continuaram . Música de banda no rádio, estática. Novam ente ela tentou concentrar-se no livro.
— Você tem razão — disse Joe, após bastante tem po.
— Sobre o quê?
— Esse im pério vagabundo. Esse palhaço com o líder. Não é de espantar não term os tirado nada da guerra.
Ela bateu-lhe no braço.
— Juliana, é tudo escuridão — disse Joe. — Nada é verdadeiro nem certo. Tenho razão?
— Talvez — disse ela distraidam ente, continuando a tentar ler.
— A Inglaterra vence — disse Joe, indicando o livro. — Vou te poupar o esforço de continuar. Os Estados Unidos decaem , a Inglaterra se expandindo, m antendo a iniciativa. De m odo que, guarda o livro.
— Espero que a gente se divirta em Denver — disse ela, fechando o livro. — Você precisa descansar.
E eu preciso de você.
Caso contrário, pensou, ele vai se desfazer em m il pedaços. Com o um a m ola arrebentada. E o que será de m im , então? Com o volto? PD... devo te deixar, sem m ais aquela?
Quero a farra que você m e prom eteu, pensou. Não quero ser enganada; fui enganada dem ais, por gente dem ais.
— Vam os nos divertir — disse Joe. — Escuta. Observou a com um a expressão estranha, introspectiva.
— Você gostou tanto desse livro, do Grasshopper; será... será que um suj eito que escreve um best seller, um autor com o esse Abendsen... as pessoas escrevem cartas para ele? Aposto que tem um m onte de gente que escreve elogiando o livro, talvez até o visitem .
De repente ela com preendeu.
— Joe, são só m ais cem m ilhas!
Os olhos dele brilharam ; sorriu-lhe, feliz de novo, j á não m ais verm elho riem perturbado.
— Podíam os! — disse ela. — Você dirige tão bem ... seria um a sopa ir lá em cim a, não seria?
— Bem , duvido que um hom em fam oso deixe que as pessoas entrem assim , sem m ais nem m enos. Deve vir gente dem ais — disse Joe, lentam ente.
— Por que não tentar? Joe... — ela agarrou seu om bro, apertou-o, excitada. — O m áxim o que pode fazer é m andar-nos em bora. Por favor.
— Depois que tiverm os feito nossas com pras e estiverm os de roupa nova, elegantes... — disse Joe, deliberadam ente — é im portante dar boa im pressão. E talvez até aluguem os um carro novo, lá em Chey enne. Aposto que você podia fazer isso.
— Claro — disse ela. — E você precisa cortar o cabelo. E deixe que eu escolha suas roupas; por favor, Joe. Eu sem pre escolhia as de Frank; hom em não sabe com prar.
— Você tem bom gosto para roupa — replicou Joe, novam ente voltando-se para a estrada, olhando para fora som briam ente. — E para outras coisas tam bém . Melhor você telefonar. Entrar em contato.
— Vou ao cabeleireiro — disse ela.
— Ótim o.
— Não tenho m edo de chegar e tocar a cam painha — disse Juliana. — Afinal, só se vive um a vez. Por que devem os nos intim idar? ele é apenas um hom em com o os outros. Na realidade, vai ver que ficará contente de saber que alguém veio de tão longe só para dizer que gostou do livro. Podem os pedir que ele autografe nosso exem plar, dentro, no lugar próprio. Não é? É m elhor com prar um novo; este está todo m anchado. Não ficaria bem .
— Com o você quiser — disse Joe. — Deixo os detalhes com você; sei que é capaz. Um a m ulher bonita consegue sem pre tudo; quando ele vir a beleza que você é, vai escancarar a porta na hora. Mas escuta; nada de brincadeiras.
— Com o assim ?
— Você diz que som os casados. Não quero que você se m eta com ele, sabe. Seria terrível. Estragaria a vida de todo m undo; que recom pensa por deixar entrar visitas; que ironia. De m odo que olha lá, Juliana.
— Você pode discutir com ele — disse Juliana. — Aquela parte da Itália perdendo a guerra por ter traído; diga a ele o que m e disse.
— É verdade — disse Joe, assentindo. — Podem os discutir a história toda.
Continuaram viaj ando depressa.
Às sete horas da m anhã seguinte, hora E. A. P., Mr. Nobusuke Tagom i saiu da cam a, com eçou a dirigir-se ao banheiro, m udou de idéia e foi diretam ente ao oráculo.
Sentado de pernas cruzadas no chão da sala, com eçou a m anipular as quarenta e nove varetas de yarrow. Tinha a nítida im pressão de que suas perguntas envolviam um caráter de urgência e trabalhou febrilm ente até estar por fim com as seis linhas diante dele.
Choque! Hexagram a Cinqüenta e Um .
Deus aparece sob a form a do que desperta. Trovão e relâm pago. Barulhos... Involuntariam ente levantou os dedos para cobrir os ouvidos. Ha-ha! Ho-ho! Um grande estouro que o fez estrem ecer e piscar. O lagarto corre e o tigre ruge e de dentro sai Deus em pessoa!
O que significa? Olhou em volta da sala. Chegada de... quê? Num im pulso, pôs-se de pé e ficou ofegante, esperando.
Nada. As batidas do seu coração. A respiração e todos processos som áticos, inclusive toda form a de reação autônom a de controle diencefálico diante de crise: adrenalina, taquicardia, pulso acelerado, glândulas segregando, garganta paralisada, dilatação das pupilas, intestino solto, etc. Estôm ago revirado e instinto sexual suprim ido.
E, contudo, nada para ver; nada para o corpo fazer. Fugir? Tudo preparado para um vôo de em ergência. Mas para onde e por quê? — perguntou-se Mr. Tagom i : Nenhum indício. Portanto im possível. O dilem a do hom em civilizado; o corpo m obilizado, m as o perigo obscuro.
Foi ao banheiro e ensaboou o rosto para barbear-se.
O telefone tocou.
— É o choque — disse em voz alta, deixando a navalha de lado. — Fica preparado.
Saiu rapidam ente do banheiro e voltou à sala.
— Estou preparado — disse, tirando o fone do gancho — Tagom i, aqui.
Sua voz saiu um guincho e ele pigarreou. Um a pausa. Depois um a voz distante, seca, sussurrada, quase com o folhas velhas na distância, disse:
— Senhor, aqui fala Shinj iro Yatabe. Acabo de chegar de São Francisco.
— Queira receber as boas-vindas da direção da
Missão Com ercial — respondeu Mr. Tagom i. — Estou m uito contente. Está bem de saúde e descansado?
— Sim , Mr. Tagom i. Quando podem os encontrar-nos?
— Já. Daqui a m eia-hora — Mr. Tagom i olhou para o relógio no quarto, tentando ver as horas. — Há um a terceira pessoa: Mr. Bay nes. Preciso avisá-lo. Talvez haj a um a pequena dem ora, m as...
— Digam os daqui a duas horas, senhor? — perguntou Mr. Yatabe.
— Está bem — respondeu Mr. Tagom i, inclinando-se.
— No seu escritório no edifício Nippon Times. Mr. Tagom i inclinou-se novam ente.
Clique. Mr. Yatabe desligara.
Mr. Bay nes vai ficar feliz, pensou Mr. Tagom i. Com o um gato diante de um pedaço de salm ão, um rabo bem espesso, por exem plo. Bateu no gancho e rapidam ente ligou para o Hotel Abhirate.
— Acabou-se o sofrim ento — disse, quando a voz sonolenta de Mr. Bay nes chegou-lhe aos ouvidos.
A voz perdeu a sonolência de im ediato.
— Chegou?
— No m eu escritório — disse Mr. Tagom i — às dez e vinte. Até-logo.
Desligou e correu de volta ao banheiro para term inar a barba. Não havia tem po para café; m andar Mr. Ram sey providenciar depois que todos tivessem chegado ao escritório. Talvez possam os nos deleitar os três... m entalm ente, enquanto se barbeava, planej ou um ótim o café da m anhã para todos.
Mr. Bay nes estava diante do telefone, de pij am a, esfregando a testa e pensando. Que vergonha eu ter fraquej ado e procurado aquele agente, pensou. Se eu tivesse esperado só m ais um dia...
Mas não atrapalhou nada. Só que devia voltar à loj a hoj e. E se eu não voltar? Talvez resulte num a reação em cadeia; vão pensar que fui assassinado ou algo assim . Vão tentar encontrar-m e.
Não tem im portância. Porque ele está aqui. Finalm ente. A espera acabou.
Mr. Bay nes precipitou-se para o banheiro e preparou-se para fazer a barba.
Não tenho a m enor dúvida de que Mr. Tagom i irá reconhecê-lo logo que o vir, pensou. Podem os deixar de lado o "Mr. Yatabe", agora. Na verdade, podem os deixar de lado todos os disfarces e subterfúgios.
Assim que acabou de fazer a barba, Mr. Bay nes entrou no chuveiro. Enquanto a água j orrava em cim a dele cantou a plenos pulm ões:
Wer reitet so spät,
Durch Nacht und Wind?
Es ist der Vater
Mit seinem Kind.
(Quem cavalga tão tarde
Pela noite, pelo vento
É o pai,
Com seu filho)
Provavelm ente agora é tarde dem ais para que a S. D. interfira. Mesm o se descobrirem . De m odo que talvez possa deixar de m e preocupar; ao m enos com as coisas m enores... com o a m inha pele em particular.
Mas quanto ao resto... estam os apenas com eçando.