O Homem do Castelo Alto

Philip K. Dick · Capítulo 13 de 16

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O Homem do Castelo Alto

Capítulo 12

 

MR. RAMSEY disse:

— Mr. Tagom i, este é Mr. Yatabe.

Retirou-se para um canto da sala, e o senhor de idade adiantou-se.

— Prazer em conhecê-lo pessoalm ente, senhor — disse Mr. Tagom i, estendendo a m ão.

A m ão leve, frágil apoiou-se na sua; sacudiu-a sem apertá-la, soltando-a im ediatam ente. Espero não tê-la quebrado, pensou. Exam inou a fisionom ia do velho senhor, e ficou encantado. Era um espírito forte, coerente.

Nada nebuloso. Evidentem ente em anavam dele todas as sólidas tradições ancestrais. Era a m elhor qualidade que se podia desej ar num ancião... e eis que percebeu estar diante do general Tedeki, ex-Chefe do Estado-Maior Im perial.

Mr. Tagom i fez um a profunda reverência.

— General — disse.

— Onde está a terceira pessoa? — perguntou o general Tedeki.

— Está quase chegando — respondeu Mr. Tagom i. — Inform ei-o pessoalm ente em seu quarto de hotel.

Um tanto ou quanto atordoado, afastou-se alguns passos ainda inclinado, parecendo não ser capaz de endireitar-se. O general sentou-se. Sem dúvida ainda ignorando a identidade do senhor de idade, Mr. Ram sey aj udou-o com a cadeira, m as sem dem onstrar m aior deferência. Hesitantem ente, Mr. Tagom i sentou-se na cadeira em frente.

— Perdem os tem po — disse o general. — É lam entável m as im possível de evitar.

— É verdade — concordou Mr. Tagom i. Passaram -se dez m inutos. Nenhum dos dois falou.

— Com licença, senhor — disse Mr. Ram sey, nervoso. — Vou deixá-los, se não precisam de m im .

Mr. Tagom i assentiu e Mr. Ram sey partiu.

— Chá, general? — perguntou Mr. Tagom i.

— Não, senhor.

— Senhor — disse Mr. Tagom i — confesso estar com m edo. Pressinto neste encontro algo de terrível.

O general inclinou a cabeça.

— Mr. Bay nes, que j á encontrei — continuou Mr. Tagom i — e recebi em m inha casa, diz ser sueco. Porém , a um exam e cuidadoso, conclui-se que ele é, na realidade, um a espécie de alem ão altam ente situado. Digo isto porque...

— Por favor, continue.

— Obrigado, general; a agitação dele diante deste encontro leva a deduzir haver um a ligação com os distúrbios políticos no Reich.

Mr. Tagom i não m encionou outro fato: seu conhecim ento de que o general não chegou à cidade na data prevista.

— Agora o senhor está plantando verde — disse o general. — Não está inform ando.

Seus olhos brilharam de m aneira paternal. Sem m alícia. Mr. Tagom i aceitou a repreensão.

— Senhor, será m inha presença nesta reunião um a m era form alidade para confundir os espiões nazistas?

— Naturalm ente — continuou o general — estam os interessados em m anter um a certa ficção. Mr. Bay nes representa as Indústrias Tor-Am , de Estocolm o. É um sim ples hom em de negócios e eu sou Shinj iro Yatabe.

E eu sou Tagom i, pensou Mr. Tagom i. Isto eu garanto.

— Na certa os nazistas têm observado as idas e vindas de Mr. Bay nes — disse o general.

Colocou as m ãos nos j oelhos, sentado ereto na cadeira... com o se, pensou Mr. Tagom i, estivesse sentindo um longínquo arom a de bouillon.

— Mas, para dem olir a ficção, terão que recorrer à lei. É esta a verdadeira finalidade; não enganar, m as exigir as form alidades no caso de descoberta. O senhor com preende, por exem plo, que, para prender Mr. Bay nes, terão que fazer m ais do que sim plesm ente atirar nele... o que seria fácil se ele viaj asse com o... bem , se viaj asse sem a proteção deste disfarce.

— Com preendo — disse Mr. Tagom i.

Parece um j ogo, pensou. Mas eles conhecem a m entalidade nazista. De m odo que im agino que vai dar resultado. O intercom na m esa tocou. Era a voz de Mr. Ram sey .

— Mr. Bay nes está aqui. Pode entrar?

— Sim ! — exclam ou Mr. Tagom i.

A porta abriu-se e Mr. Bay nes, im pecàvelm ente vestido com um a roupa bem passada e adm iràvelm ente cortada, apareceu. Sua fisionom ia era a adequada para a ocasião.

O general Tedeki ficou de pé para recebê-lo. Mr. Tagom i tam bém se levantou. Todos três inclinaram -se.

— Senhor — disse Mr. Bay nes ao general. — Sou o capitão Wegener, da Contra-Espionagem naval do Reich. Com o foi com binado, represento a m im m esm o e um grupo de cidadãos particulares anônim os e nenhum departam ento ou escritório de espécie algum a do Governo do Reich.

— Herr Wegener — respondeu o general — com preendo que, de form a algum a, representa o Governo do Reich. Eu estou aqui oficiosam ente, em caráter particular. Minha posição anterior no exército im perial pode ser considerada com o m e dando acesso a certas rodas em Tóquio que desej am ouvir o que o senhor tiver para dizer.

Estranho discurso, pensou Mr. Tagom i. Mas não desagradável. Contém certa qualidade quase m usical. Alivia e repousa, na verdade.

Sentaram -se.

— Sem preâm bulo — disse Mr. Bay nes — desej o inform ar-lhe e àqueles a quem tem acesso, que há em estágio avançado no Reich um program a cham ado Löwenzahan, dente de leão.

— Sim — respondeu o general, com ar de quem j á tivesse ouvido isso antes.

Mas, pensou Mr. Tagom i, ele parece ansioso por ouvir o que Mr. Bay nes tem para dizer.

— Dente de Leão — continuou Mr. Bay nes — consiste num incidente que se vai produzir na fronteira entre os Estados das Montanhas Rochosas e os Estados Unidos.

O general assentiu, sorrindo ligeiram ente.

— As tropas dos Estados Unidos serão atacadas e revidarão atravessando a fronteira e entrando em com bate com as tropas regulares dos Estados das Montanhas Rochosas estacionadas na vizinhança. As tropas dos Estados Unidos têm m apas detalhados revelando instalações m ilitares no Centro Oeste. É a prim eira etapa. A segunda consistirá num a declaração da Alem anha sobre o conflito. Um destacam ento de pára-quedistas voluntários da Wehrmacht será enviado para auxiliar os Estados Unidos. Contudo, isso é apenas m ais um a cam uflagem .

— Sim — disse o general, atento.

— O obj etivo essencial da Operação Dente de Leão — prosseguiu Mr. Bay nes — é um gigantesco ataque nuclear ao arquipélago nipônico, sem aviso prévio.

Calou-se, então.

— Com a intenção de elim inar a fam ília real, o exército de defesa m etropolitana, a m aior parte da m arinha im perial, a população civil, as indústrias, os recursos — disse o general Tedeki. — Deixando as colônias ultram arinas sem defesa e perm itindo sua absorção pelo Reich.

Mr. Bay nes ficou em silêncio.

— Que m ais? — perguntou o general. Mr. Bay nes parecia perplexo.

— A data, senhor — pediu o general.

— Foi tudo m udado — disse Mr. Bay nes — devido à m orte de Martin Borm ann. Ao m enos, é o que presum o. Não estou em contato com a Abwehr agora.

— Continue, Herr Wegener — instou o general.

— O que recom endam os é que o Governo j aponês interfira na situação interna do Reich. Ou, ao m enos, foi isso que vim aqui recom endar. Certos grupos do Reich são a favor da Operação Dente de Leão; outros não. Esperava-se que estes opositores subissem ao poder, com a m orte do Chanceler Borm ann.

— Mas enquanto você estava aqui — respondeu o general — Herr Borm ann m orreu e a situação política resolveu-se por si. O doutor Goebbels é agora Chanceler do Reich. Acabou-se a agitação. Fez um a pausa. — Com o esta facção encara a Operação Dente de Leão?

— O doutor Goebbels é partidário dela — disse Mr. Bay nes.

Sem que os dois reparassem , Mr. Tagom i fechou os olhos.

A voz de Mr. Bay nes chegou aos ouvidos de Mr. Tagom i.

— Que é contra? — perguntou o general Tedeki.

— O general Hey drich, da S.S.

— Isso m e surpreende — disse o General Tedeki. — Estou em dúvida. Esta é um a inform ação de fonte segura ou apenas um ponto de vista seu e de seus colegas?

Mr. Bay nes explicou :

— A Adm inistração do Oeste, ou sej a, da área atualm ente ocupada pelo Japão, ficaria a cargo do Ministério do Exterior, com o pessoal do Rosenberg, que trabalha diretam ente com a Chancelaria. Este foi um tem a duram ente discutido em m uitas sessões pelos principais interessados no ano passado. Tenho cópias fotostáticas das notas redigidas. A policia exigiu lhe fosse dada autoridade, m as negaram . Vai caber-lhe a colonização espacial, Marte, Lua, Vênus. Será seu dom ínio. Um a vez resolvida esta divisão de autoridade, a polícia com eçou a incentivar o program a espacial e lutar contra a Operação Dente de Leão.

— Rivalidade — disse o General Tedeki. — Um grupo j ogado contra o outro. Pelo líder. Para que nunca o contestem .

— É verdade — respondeu Mr. Bay nes. — Foi por isso que m e m andaram aqui, para pedir sua intervenção. Ainda é possível agir; a situação ainda não se solidificou. Vão ser necessários m eses antes que o doutor Goebbels possa consolidar sua posição. Terá que quebrar a resistência da polícia, talvez fazer com que Hey drich e outros chefes da S.S. e S.D. sej am executados. Feito isso...

— Acha que devem os apoiar a Sicherheitsdienst? — interrom peu o general Tedeki. — A porção m ais nefasta da sociedade alem ã?

— É isso m esm o — respondeu Mr. Bay nes.

— O Im perador — respondeu o general Tedeki — nunca toleraria tal política. Considera os corpos de elite do Reich, todos os que usam o uniform e preto e a caveira, o Sistem a do Castelo... Com o a própria encarnação do m al.

Do m al, pensou Mr. Tagom i. Sim , é verdade. Devem os aj udá-los a tom ar o poder, para salvar nossas vidas? É este o paradoxo de nossa situação terrestre?

Não posso enfrentar este dilem a, pensou Mr. Tagom i. O hom em deve ser obrigado a agir diante de tal am bigüidade m oral. Não há Cam inho nisso; tudo está confuso. Tudo é caos de luz e trevas, som bra e substância.

— A Wehrm acht — disse Mr. Bay nes — os m ilitares, são os únicos no Reich a possuírem a bom ba de hidrogênio. Quando foi usada pelos cam isas-negras, foi sem pre sob supervisão m ilitar. A Chancelaria, sob a direção de Borm ann, nunca perm itiu que a polícia adquirisse arm am ento nuclear. Na Operação Dente de Leão, tudo será executado pelo O.K.W., o Alto Com ando do Exército.

— Estou ciente do fato — disse o general Tedeki.

— O com portam ento m oral dos cam isas-negras excede em ferocidade ao da Wehrm acht. Mas sua força é m enor. Precisam os apenas pensar em função da realidade, do poder atual. Não em intenções éticas.

— Sim , é preciso ser realista — disse Mr. Tagom i. em voz alta.

Tanto Mr. Bay nes quanto o General Tedeki voltaram -se para ele.

— Que está sugerindo especificam ente? Que entrem os em contato com a S.D. aqui nos Estados do Pacífico? Negociar diretam ente com ... não sei quem é o chefe da S.D. aqui. Algum a criatura repugnante, na certa.

— O S.D. local não sabe nada — disse Mr. Bay nes. — Seu chefe aqui, Bruno Kreuz von Meere, é um velho m ercenário do Fartei. Ein Altparteigenosse. Um im becil. Ninguém em Berlim lhe diria nada; ele apenas executa trabalhos de rotina.

— Quem , então? — o general parecia zangado. — O cônsul daqui, ou o Em baixador do Reich em Tóquio?

Esta conversa será inútil, pensou Mr. Tagom i. Apesar do que está em j ogo. Não podem os entrar no m onstruoso pântano esquizofrênico da intriga interna nazista; nossas m entes não se adaptariam .

— Isso precisa ser tratado com cautela — disse Mr. Bay nes. — Através de um a série de interm ediários. Alguém próxim o de Hey drich, que estiver servindo fora do Reich, em país neutro. Ou alguém que vá e venha entre Tóquio e Berlim .

— Está pensando em alguém em particular?

— O Ministro do Exterior italiano. Conde Ciano. Um hom em inteligente, de confiança, m uito coraj oso, inteiram ente dedicado à causa da com preensão internacional. Contudo... seu contato com o dispositivo da S.D. é inexistente. Mas ele poderia por interm édio de alguém na Alem anha, pessoas com interesses econôm icos, com o os Krupp ou o General Speidel ou talvez até através de gente da Waffen-S.S. A Waffen-S.S. é m enos fanática, m ais dentro das norm as da sociedade alem ã.

— Seu organism o, a Abwehr... Seria vão, tentar alcançar Hey drich através de vocês?

— Os cam isas-negras vivem nos insultando. Há vinte anos que tentam obter a aprovação do Fartei para nos elim inar com pletam ente.

— Você não corre excessivo perigo da parte deles? — perguntou o general Tedeki. — Segundo ouvi dizer, eles são m uito ativos aqui na Costa do Pacífico.

— Ativos porém ineptos — respondeu Mr. Bay nes.

— O suj eito do Ministério do Exterior, Reiss, é habilidoso, m as opõe-se à S.D.

Deu de om bros.

— Eu gostaria de ter suas fotocópias — disse o general Tedeki. — Para levá-las ao m eu Governo. Qualquer docum ento que tiver sobre aquelas discussões na Alem anha. E... — parou para pensar. —. Provas. De natureza obj etiva.

— Pois não — respondeu Mr. Bay nes. Colocando a m ão no bolso, tirou um a cigarreira chata, de prata. Com o o senhor verá, cada cigarro é um recipiente ôco para m icrofilm e.

Passou a cigarreira ao general.

— E a cigarreira em si? — perguntou o general, exam inando-a. — Parece um obj eto valioso dem ais para dar de presente.

Com eçou a tirar os cigarros de dentro. Sorrindo, Mr. Bay nes disse:

— A cigarreira, tam bém .

— Obrigado.

Tam bém sorrindo, o general guardou a cigarreira no bolso.

O intercom na m esa tocou. Mr. Tagom i apertou o botão. Chegou lhe a voz de Mr. Ram sey :

— Senhor, há um grupo de hom ens da S.D. no saguão, em baixo; estão tentando ocupar o prédio. Os guardas do Times estão lutando com eles.

Ao longe, ouviu-se o som de um a sirene vindo da rua, sob a j anela de Mr. Tagom i.

— A Polícia Militar está a cam inho, além do Kempetai, de São Francisco.

— Obrigado, Mr. Ram sey —, disse Mr. Tagom i. — O senhor deu m ostras de grande dignidade inform ando-m e com tanta placidez.

Mr. Bay nes e o General Tedeki ouviam atentos, am bos im óveis.

— Senhores — disse Mr. Tagom i — sem dúvida liquidarem os os bandidos da S.D. antes que alcancem este andar.

— Corte a força dos elevadores — disse, depois, dirigindo-se a Mr. Ram sey .

— Sim , Mr. Tagom i — respondeu Mr. Ram sey , desligando.

— Vam os esperar — disse Mr. Tagom i.

Abriu a gaveta da escrivaninha e retirou um a caixa de teca; abrindo-a, tirou um Colt 44, da Guerra Civil am ericana de 1860, perfeitam ente preservado, valiosa peça de colecionador. Apanhando um a caixa de pólvora, bala e cartucho, com eçou a carregar a arm a. Mr. Bay nes e o General Tedeki observaram , adm irados.

— Obj eto de m inha coleção particular — disse Mr. Tagom i. — Fui vítim a de m uitas brincadeiras por treinar orgulhosam ente tiro ao alvo e velocidade de saque, nas horas de folga. Confesso que, do ponto de vista de rapidez, posso m e com parar a outros entusiastas. Mas até hoj e não tive oportunidade de usar esse talento na prática. Segurando a arm a da m aneira correta, apontou para a porta da sala. E sentou-se esperando.

 

Frank Frink estava sentado diante da polia, na banca de sua oficina, no porão. Segurava um brinco de prata sem i-acabado contra o barulhento polidor de algodão, partículas de pó de ferro batiam contra seus óculos em preteciam suas unhas e m ãos. O brinco, em form a de caracol, aquecera-se com a fricção, m as Frink aum entava inflexivelm ente a pressão.

— Não dê brilho dem ais — disse Ed McCarthy. — Pegue apenas os relevos; pode deixar as reentrâncias de lado.

Frank Frink resm ungou.

— Há m ais m ercado para a prata se não estiver polida dem ais — disse Ed. — Os trabalhos em prata devem ter um ar de velhos.

Sem pre o m ercado, pensou Frink.

Não tinham vendido nada. À parte a consignação na American Artistic Handcrafts, ninguém quisera nada e j á haviam visitado cinco loj as de varej o ao todo.

Não estam os ganhando dinheiro, disse Frink a si próprio. Estam os fazendo cada vez m ais j óias e em pilhando-as em volta de nós.

A tarraxa do brinco prendeu-se na roda; a peça voou das m ãos de Frink, ricocheteou no escudo de proteção da roda e caiu no chão. ele desligou o m otor.

— Não perca essas peças — disse McCarthy , soldando com o m açarico.

— Nossa Senhora, é do tam anho de um a ervilha. Não dá para segurar.

— Bom , de qualquer j eito apanha ela.

Para o inferno com esse troço todo, pensou Frink.

— O que foi que houve? — perguntou McCarthy, vendo que ele não se m exia para apanhar o brinco.

— Estam os investindo dinheiro em nada — disse Frink.

— Não podem os vender o que não estiver feito.

— Não podem os vender nada — insistiu Frink. —

Feito ou não.

— Cinco loj as. Escolhidas ao acaso.

— Mas a tendência — retrucou Frink. — Já deu para ver.

— Não cai nessa.

— Não estou caindo — disse Frank.

— Que é que você quer dizer?

— Quer dizer que está na hora de procurar um ferro-velho.

— Está certo — respondeu McCarthy . — Pode desistir, então.

— Já desisti.

— Vou continuar sozinho. McCarthy reacendeu o m açarico.

— Com o vam os dividir as coisas?

— Não sei. Acharem os um j eito.

— Com pra m inha parte — disse Frink.

— Isso nunca. Frink fez as contas:

— Então m e dá seiscentos dólares. —i Não, você leva m etade de tudo.

— Metade do m otor?

Então os dois ficaram em silêncio.

— Mais três loj as — disse McCarthy. — Depois a gente conversa. Baixando a m áscara sobre o rosto, com eçou a ligar um pedaço de fio de cobre a um a pulseira.

Frank Frink desceu da banca de trabalho. Procurou o brinco em caracol e recolocou-o na caixa de peças não term inadas.

— Vou lá fora fum ar — disse, e atravessou o porão até a escada.

Um m om ento depois estava lá fora na calçada, com um T'ien-lai entre os dedos.

Acabou-se, pensou. Não preciso do oráculo para m e dizer; reconheço quando o Mom ento chega. Sente-se o cheiro. A derrota.

E é tão difícil dizer por quê. Talvez, teoricam ente, possam os continuar. De loj a em loj a, outras cidades. Mas... há algo errado. E todo o esforço e habilidade do m undo não podem m odificá-lo.

Quero saber por quê, pensou.

Mas não vou saber nunca.

O que devíam os ter feito? Feito o que em lugar disso?

Contrariam os o Mom ento. Contrariam os o Tao. Contra o vento, no sentido errado. E agora... dissolução. Decom posição.

O Yin nos pegou. A luz nos voltou as costas, foi-se em bora.

Só nos resta nos subm eter.

Enquanto estava ali, sob a platibanda do prédio, dando puxadas rápidas no cigarro de marijuana e desinteressadam ente observando os carros passarem , aproxim ou dele um hom em branco, de m eia altura, de aparência com um .

— Mr. Frink? Mr. Frank Frink?

— Ele m esm o — disse Frink.

O hom em tirou do bolso um docum ento dobrado e um cartão de identidade. — Sou da Chefatura de Polícia de São Francisco. Tenho aqui um a ordem de prisão contra o senhor.

Já estava segurando o braço de Frink; a prisão j á estava consum ada.

— Por quê? — perguntou Frink.

— Falcatrua. Mr. Childan, American Artistic Handcrafts.

O tira em purrou Frink pela calçada; outro, à paisana, j untou-se a ele, um de cada lado do preso. Arrastaram -no em direção de um carro, tipo Toyopet, sem identificação.

É isso o que a época exige de nós, pensou Frink, enquanto era despej ado no assento entre os dois tiras. A porta bateu; o carro, guiado por um terceiro tira, este de uniform e, partiu em m eio ao trânsito. São esses os filhos da puta a que tem os de nos subm eter.

— Tem advogado? — perguntou-lhe um dos policiais.

— Não — respondeu ele.

— Na delegacia receberá um a lista de nom es.

— Obrigado — disse Frink.

— O que foi que fez com o dinheiro? — perguntou-lhe, m ais tarde, um dos tiras, enquanto estacionavam na garagem da delegacia de Kearny Street.

— Gastei — respondeu Frink.

— Tudo?

Não respondeu.

Um dos tiras sacudiu a cabeça e com eçou a rir.

— Seu nom e verdadeiro é Frink? — perguntou um deles a Frink, saindo do carro.

Frink ficou aterrorizado.

— Frink — repetiu o tira. — Você é j udeu. — Mostrou um a grande pasta de papéis cinzenta. — Refugiado da Europa.

— Nasci em Nova York — disse Frank Frink.

— Você é um fugitivo dos nazistas — disse o tira. — Sabe o que isso quer dizer?

Frank Frink desvencilhou-se e correu pela garagem . Os três policiais gritaram e na porta ele encontrou um carro com guardas arm ados, cortando-lhe o cam inho. Os policiais sorriam -lhe, e um deles, de arm a na m ão, adiantou-se e algem ou-o.

Puxando-o pelos pulsos — o m etal fino entrava na carne, até o osso — o tira fez com ele o cam inho de volta.

— Vai voltar para a Alem anha — disse um dos policiais, exam inando-o.

— Sou am ericano — respondeu Frank Frink.

— Você é j udeu — retrucou o tira.

Enquanto o levavam para cim a, um dos tiras disse:

— Vão trancafiá-lo aqui?

— Não — disse o outro. — Vam os guardá-lo para o cônsul alem ão. Querem j ulgá-lo pela lei alem ã.

Não havia nenhum a lista de advogado, afinal.

 

Durante vinte m inutos Mr. Tagom i perm anecera im óvel à sua m esa, m antendo a arm a apontada para a porta, enquanto Mr. Bay nes andava de um lado para outro. O velho general, depois de refletir algum tem po, pegara o telefone e pedira um a ligação para a em baixada j aponesa em São Francisco. Contudo, não conseguira falar com o Barão Kaelem akule; o em baixador, inform ou-lhe um funcionário, estava fora da cidade.

Agora o general Tedeki estava tentando conseguir um a ligação transpacífica para Tóquio.

— Vou consultar o Conselho de Guerra — explicou a Mr. Bay nes. — Entrarão em contato com as forças m ilitares im periais estacionadas perto daqui.

Não parecia perturbado.

De m odo que serem os salvos daqui a um as horas, pensou Mr. Tagom i. Talvez pelos fuzileiros de um porta-aviões j aponês, arm ados de m etralhadoras e m orteiros. Operar por interm édio dos canais oficiais é altam ente eficiente quanto ao resultado final... m as ocasiona lam entáveis problem as de tem po. No andar de baixo, bandidos de cam isa negra estão em penhados em surrar secretários e funcionários.

Ele, porém , não podia fazer m uito m ais.

— Será que vale a pena tentar entrar em contato com o cônsul alem ão? — perguntou Mr. Bay nes.

Mr. Tagom i j á se via cham ando Miss Epreikian com seu advogado, para ditar um protesto urgente, endereçado a Herr Reiss.

— Posso cham ar Herr Reiss — disse Mr. Tagom i. — No outro telefone.

— Por favor — pediu-lhe Mr. Bay nes.

Ainda segurando seu Colt 44, peça de coleção, Mr. Tagom i apertou um botão em sua m esa. Apareceu um telefone, especialm ente instalado para com unicações clandestinas.

Discou o núm ero do consulado alem ão.

— Bom -dia. Quem fala? Era um a voz incisiva de hom em , com um forte sotaque. Sem dúvida um funcionário subalterno.

— Sua Excelência Herr Reiss, por favor — disse Mr. Tagom i. — É urgente. Aqui fala Mr. Tagom i, Presidente da Diretoria da Missão Com ercial Im perial.

Usou sua voz m ais dura e form al.

— Sim , senhor. Um m om ento por favor.

Um longo m om ento, pareceu-lhe. Nenhum som no telefone, nem m esm o cliques. Ele está lá parado, com o fone na m ão, pensou Mr. Tagom i. Fazendo hora com astúcia tipicam ente germ ânica.

— Estão tentando m e enganar — disse para o general Tedeki, que esperava no outro telefone, e para Mr. Bay nes, que andava de um lado para outro.

Finalm ente, ouviu a voz do funcionário, de novo.

— Desculpe fazê-lo esperar, Mr. Tagom i.

— De nada.

— O cônsul está em conferência. Contudo... Mr. Tagom i desligou.

— Tem po perdido, para não dizer outra coisa — com entou, sentindo-se frustrado.

Quem m ais podia cham ar? Tokkoka j á estava inform ado, as unidades da P.M. do porto tam bém ; inútil telefonar. Um telefonem a direto a Berlim ? Ao Chanceler do Reich, Goebbels? Ao Aeroporto Militar Im perial em Napa, pedindo reforço aéreo?

— Vou cham ar o chefe do S.D., Herr Bruno Kreuz von Meere — decidiu em voz alta. — E reclam ar am argam ente. Gritar e xingar.

Com eçou a discar o núm ero form alm ente e eufem isticam ente constante do catálogo com o "Depósito de Obj etos Preciosos do Term inal Aéreo da Lufthansa". Enquanto o telefone tocava, disse:

— Vou fazer um a gritaria histérica.

— Interprete bem o seu papel — pediu o general Tedeki, sorrindo.

— Quem fala? — disse um a voz germ ânica no ouvido de Mr. Tagom i.

Mais dura e apropriada que m inha própria voz, pensou Mr. Tagom i. Mas pretendia continuar.

— Fale de um a vez — exigiu a voz.

— Estou ordenando — gritou Mr. Tagom i — a prisão e j ulgam ento do seu bando de degoladores e degenerados louros que andam soltos com o grandes feras dem entes que desafiam qualquer descrição! Sabe quem sou eu, Kerl? Aqui fala Tagom i, Conselheiro do Governo Im perial. Vocês saem da legalidade e, cinco segundos depois, as tropas de choque dos fuzileiros com eçam o m assacre com lança-cham as e bom bas de fósforo. É um a vergonha para a civilização.

Do outro lado da linha, o lacaio da S.D. balbuciava ansiosam ente.

Mr. Tagom i piscou para Mr. Bay nes.

—... não sabem os de nada — disse o lacaio.

— Mentiroso! — berrou Mr. Tagom i. — Então não tem os escolha — bateu o telefone com força. — É sem dúvida um m ero gesto — disse a Mr. Bay nes e ao general Tedeki. — Mas não pode fazer m al. Sem pre resta um a vaga possibilidade de haver um elem ento nervoso até na S.D.

O general Tedeki ia com eçar a falar quando se ouviu um a trem enda barulheira na porta da sala; calou-se A porta abriu-se.

Apareceram dois hom ens brancos, fortes, am bos arm ados de pistolas com silenciador. Apontaram para Mr. Bay nes.

— Da ist er — disse um deles e partiram em sua direção.

De sua m esa, Mr. Tagom i apontou o Colt 44, velha peça de coleção, e apertou o gatilho. Um dos hom ens da S.D. caiu no chão. O outro apontou a pistola com silenciador para Mr. Tagom i e atirou. Mr. Tagom i não viu nada, viu apenas um a fum acinha sair da arm a e percebeu o assobio da bala passando por perto. Com velocidade recorde arm ou novam ente o gatilho de seu Colt, atirando várias vezes seguidas.

O m axilar do hom em da S.D. espatifou-se. Pedaços de osso, carne, dentes, voaram pelo ar. Atingido na boca, constatou Mr. Tagom i. Lugar horrível, especialm ente com a bala vindo de baixo. Os olhos do hom em sem queixo da S.D. continham ainda um a certa vida. Ainda está m e vendo, pensou Mr. Tagom i. Depois aqueles olhos perderam o brilho e o hom em caiu, soltando a arm a e fazendo com a garganta um barulho inum ano.

— Nauseante — disse Mr. Tagom i.

Não apareceram m ais hom ens do S.D. na porta aberta.

— Talvez tenha acabado — respondeu o general Tedeki, após um intervalo.

Mr. Tagom i, em penhado na tediosa tarefa de recarregar a arm a, o que durava três m inutos, interrom peu-se para apertar o botão do intercom .

— Traga o socorro m édico de em ergência — ordenou. — Há aqui um bandido horrivelm ente ferido.

Nenhum a resposta, apenas um zum bido. Abaixando-se, Mr. Bay nes apanhou as arm as dos alem ães, passou um a ao general e ficou com a outra.

— Agora vam os liquidá-los — disse Mr. Tagom i, voltando a sentar-se com seu Colt 44, com o antes. — Que form idável triunvirato, nesta sala!

Um a voz gritou do saguão:

— Os bandidos alem ães renderam -se!

— Aqui j á cuidam os deles — gritou de volta Mr. Tagom i. — Estão m ortos ou m orrendo. Venham e verifiquem pessoalm ente.

Um grupo de funcionários do Nippon Times apareceu, hesitante, vários carregando equipam ento apropriado para com bater conflito, com o m achados, rifles e granadas de gás lacrim ogêneo.

— Cause célebre — disse Mr. Tagom i. — O Governo dos Estados Am ericanos do Pacífico, em Sacram ento, podia declarar guerra ao Reich sem hesitação. — Abriu a arm a. — Em todo caso, agora acabou.

— Negarão qualquer cum plicidade — disse Mr. Bay nes. — A técnica habitual. Usada inúm eras vezes.

Colocou a pistola com silenciador na m esa de Mr. Tagom i e, apontando para o cabo dela, acrescentou:

— Feita no Japão.

Não estava brincando. Era verdade. Um a pistola j aponesa de tiro ao alvo de excelente qualidade. Mr. Tagom i exam inou-a.

— E não são cidadãos alem ães — continuou Mr. Bay nes. Retirara a carteira de um dos brancos, o que estava m orto. — Cidadão dos Estados Am ericanos do Pacífico. Mora em São José. Nada que o ligue à S.D. Nom e, Jack Sanders. Jogou a carteira no chão.

— Um assalto — disse Mr. Tagom i. — Obj etivo: nosso cofre forte. Sem aspectos políticos.

Ficou de pé, trêm ulo. Em todo caso, a tentativa de seqüestro ou assassinato por parte da S.D. falhara. Pelo m enos a prim eira. Mas era claro que sabiam quem era Mr. Bay nes e, na certa, tam bém o m otivo de sua visita.

— O prognóstico é som brio — disse Mr. Tagom i. Im aginou se, naquele caso, o oráculo seria útil.

Talvez pudesse protegê-los. Avisá-los, protegê-los com . seu conselho.

Ainda trêm ulo, com eçou a retirar as quarenta e nove varetas de yarrow. A situação inteira era confusa e anôm ala, pensou. Nenhum a inteligência hum ana poderia decifrá-la; era preciso pedir a aj uda de um a sabedoria coletiva de cinco m il anos. A sociedade totalitária alem ã parece ser um a form a de vida defeituosa, pior do que a natural. Pior em todas as suas m isturas, no seu potpourri de coisas inúteis.

Aqui, pensou, a S.D. local age com o instrum ento de um a política diferente da adotada pela chefia em Berlim . Com o encontrar lógica nesse ser híbrido? Quem é, na verdade, a Alem anha? O que j á foi? É quase um pesadelo onde assistim os à paródia e à decom posição dos problem as habitualm ente encontrados no curso da nossa existência.

O oráculo destrinchará tudo. Até m esm o essa fantástica raça de gatos que é a Alem anha nazista, é com preensível para o I Ching.

Mr. Bay nes, vendo Mr. Tagom i m anipular agitadam ente o punhado de varetas vegetais, constatou a profundidade da perturbação do outro. Para ele, pensou Mr. Bay nes, este acontecim ento, o fato de ele ter sido obrigado a m atar e m utilar dois hom ens, não é só terrível m as inexplicável.

O que posso dizer para consolá-lo? Atirou por m inha causa; a responsabilidade m oral dessas duas vidas é portanto m inha e eu a aceito. É assim que vej o a coisa.

Aproxim ando-se de Mr. Bay nes, o general Tedeki disse em voz baixa:

— O senhor é testem unha do desespero de um hom em . ele foi, sem dúvida, criado no budism o. Ainda que não form alm ente, a influência está presente. É um a cultura que ensina que não se deve tirar a vida; todas as vidas são sagradas.

Mr. Bay nes assentiu.

— ele recuperará o equilíbrio com o passar do tem po — continuou o general Tedeki. — Agora lhe faltam recursos para encarar e com preender seu gesto. O livro irá aj udá-lo, pois fornece um sistem a de referência externo.

— Com preendo — disse Mr. Bay nes.

Pensou: outro sistem a de referência que talvez o aj udasse seria a da doutrina do Pecado Original. ele j á terá ouvido falar? Som os todos condenados a praticar atos de crueldade, de violência ou de m aldade; é nosso destino, determ inado por fatores im em oriais. Nosso karma.

Para salvar um a vida, Mr. Tagom i teve que acabar com duas. A m ente lógica, equilibrada, não pode aceitar isso. Um hom em bom com o Mr. Tagom i pode ser levado à loucura pelas conseqüências de tal realidade.

Em todo caso, pensou Mr. Bay nes, o ponto crucial está não no presente, nem na m inha m orte nem na m orte desses dois S. D. ; está — hipoteticam ente — no futuro. O que aconteceu aqui estará j ustificado, ou não j ustificado, pelo que acontecerá depois. Podem os talvez salvar m ilhões de vidas, até o Japão inteiro?

Mas o hom em que m exia as varetas não podia pensar nisso; o presente, a atualidade, eram tangíveis dem ais, os alem ães, um m orto e o outro m orrendo no chão de sua sala.

O general Tedeki tinha razão; o passar do tem po daria um a perspectiva a Mr. Tagom i. A m enos que ele se refugiasse nas trevas da doença m ental, desviando o olhar para sem pre, num estado de perplexidade desesperada.

Na realidade, não som os tão diferentes dele, pensou Mr. Bay nes. Enfrentam os as m esm as confusões. Portanto, infelizm ente, não podem os aj udar Mr. Tagom i em nada. Podem os apenas aguardar, na esperança de que ele não sucum ba e venha finalm ente se recuperar.