O Homem do Castelo Alto

Philip K. Dick · Capítulo 10 de 16

Páginas do PDF

O Homem do Castelo Alto

Capítulo 9

 

APÓS duas sem anas de trabalho quase ininterrupto, Edfrank Custom Jewellery j á estava com o prim eiro lote de peças pronto. Lá estavam elas, em duas tábuas cobertas de veludo preto, e o conj unto todo num a cesta quadrada de origem j aponesa. Ed McCarthy e Frank Frink tinham feito cartões de visita. Gravaram seu nom e num a borracha de apagar e o im prim iram em verm elho e com pletaram os cartões num aparelho de im pressão de brinquedo. O efeito — usaram cartolina pesada, de alta qualidade, colorida, própria para cartões de Natal — ficou deslum brante.

Em todos os seus aspectos, o trabalho tinha sido de profissionais. Exam inando suas j óias, cartões e m ostruário, não viam nenhum a indicação de am adorism o. Por que haveria de ter? pensou Frank Frink. Som os am bos profissionais, não em j oalheria, m as em trabalhos de oficina, em geral.

As prateleiras de m ostruário com portavam um a boa variedade. Pulseiras feitas de latão, cobre, bronze e até ferro fundido. Pingentes, a m aioria de latão, com enfeites de prata. Brincos de prata. Broches de prata ou latão. A prata tinha saído cara; até a solda de prata custara um dinheirão. Haviam com prado algum as pedras sem ipreciosas, tam bém , para m ontar os broches: pérolas barrocas, j ade, lascas de opala cor de fogo. E, se tudo corresse bem , tentariam ouro e talvez diam antes de cinco ou seis quilates.

O ouro é que iria dar-lhes lucros reais. Já tinham com eçado a procurar fontes de ouro velho, peças antigas derretidas sem nenhum valor artístico — m uito m ais barato que com prar ouro novo. Mas m esm o assim , seria um a despesa enorm e. E contudo, um broche de ouro vendido daria m ais do que quarenta broches de latão. E podiam pedir praticam ente qualquer preço no m ercado varej ista por um broche de ouro realm ente bem desenhado e bem executado... partindo do pressuposto, com o ressaltara Frink, que fosse vendido.

Até agora não tinham nem tentado. Resolveram prim eiro o que parecia ser seus problem as técnicos básicos; j á estavam com sua banca de trabalho, m otores, m áquina de cabo flexível, eixo e rodas para polim ento. Na verdade, j á estavam com um a coleção com pleta de ferram entas para acabam ento, desde as escovas grossas

de aram e às de latão e rodas de Cratex, aos polidores revestidos de algodão, linho, couro e pêlo de cam elo, que podiam utilizar desde com postos de esm eril e pedra-pom es ao m ais delicado pó de ferro. E, naturalm ente, tinham tam bém o m aterial de solda de oxiacetileno, seus tanques, m anôm etros, m angueiras, pontas, m áscaras.

E m agníficas ferram entas de ourives. Alicates da Alem anha e da França, m icrôm etros, brocas de diam ante, serras, tenazes, pinças, soldadeiras de três bicos, tornos m ecânicos, flanelas para polim ento, tosquiadeiras, m artelos m inúsculos feitos a m ão... Toda um a variedade de m aterial de precisão. E seu estoque de bastões de solda de diversos graus, chapas de m etal, suportes, elos, fechos de brinco. Gastaram m ais de m etade dos dois m il dólares; no m om ento a conta bancária Edfrank continha apenas duzentos e cinqüenta dólares. Mas estavam legalm ente estabelecidos; tinham até alvará dos E.A.P.. Agora só faltava vender.

Nenhum com erciante, pensou Frink, exam inando o m ostruário, poderá ser m ais severo que nós. Aquelas poucas peças selecionadas, cada um a cuidadosam ente verificada, estavam com ótim a aparência. Nada de soldas m al feitas, bordas irregulares, m anchas coloridas pela ação do fogo... Seu controle de qualidade era excelente. A m enor opacidade ou arranhão de escova m etálica bastava para que a peça voltasse à oficina. Não podem os nos perm itir apresentar trabalho grosseiro ou m al-acabado; um a m ancha preta que passar despercebida num colar de prata e estam os fritos.

A prim eira loj a em sua lista era a de Robert Childan. Mas só Ed podia ir lá; Childan certam ente se lem braria de Frank Frink.

— Cabe a você vender a m aior parte — disse Ed, m as estava resignado a falar com Childan ele m esm o.

Com prara um bom terno, gravata nova, cam isa branca, para dar boa im pressão. Apesar disso, não se sentia à vontade.

— Sei que som os bons — disse pela m ilionésim a vez. — Mas... que inferno.

As peças, em sua m aioria, eram abstratas; espirais; de aram e, curvas, form as até certo ponto assum idas; pelos m etais ao serem fundidos. Algum as tinham a delicadeza, a leveza de um a teia de aranha; outras um ; peso forte, m aciço, quase bárbaro. Havia um a enorm e: variedade de form as, considerando as poucas peças que' repousavam nas bandej as de veludo; e apesar disso, percebeu Frink, um a só loj a poderia com prar tudo o que: tem os aqui exposto. Visitarem os cada loj a um a vez — se falharm os. Mas se form os bem sucedidos, se conseguirm os que se interessem por nossa linha de produção, vam os passar o resto da vida preparando rem essas.

Juntos, os dois colocaram os m ostruários na cesta de vim e. Na pior das hipóteses, pensou Frink, poderem os revender o m etal. E as ferram entas e equipam ento; podem os desfazer-nos deles com prej uízo, m as ao m enos algum a coisa terem os.

Era o m om ento de consultar o oráculo. Perguntar: qual será o resultado desta prim eira tentativa de venda? Mas estava nervoso dem ais. Podia sair um presságio negativo, e não se sentia capaz de enfrentá-lo. Em todo caso, a sorte estava lançada: as peças prontas, a loj a m ontada — independente da opinião do I Ching no m om ento.

Não pode vender nossas j óias por nós... Não pode dar-nos sorte.

— Vou tentar Childan prim eiro — disse Ed. — Talvez possam os colocar tudo lá. E depois você tentará um a ou duas loj as. Você vem , não é? No cam inhão. Vou estacionar na esquina.

Entrando no cam inhão com a cesta, Frink pensou:

Deus sabe que bons vendedores som os Ed ou eu. Childan pode ser convencido, m as vai ser fogo.

Se Juliana estivesse aqui, pensou, seria capaz de entrar e fazer tudo num instante; ela é bonita, sabe falar com qualquer pessoa e é m ulher. Afinal, são j óias de m ulher. Podia usá-las para ir à loj a. Fechando os olhos, tentou im aginar com o ficaria um a de suas pulseiras no braço dela. Ou um daqueles grandes colares de.prata. Com seus cabelos negros e sua pele clara, olhos tristes, perspicazes... vestindo um suéter cinzento, um pouco apertado, a prata repousando na pele nua, o m etal subindo e descendo à m edida que respirava...

Meu Deus, com o estava viva em sua m ente, neste instante. Via seus dedos fortes e finos apanhando e exam inando as j óias que tinham feito; j ogando o cabelo para trás, levantando a j óia. Juliana escolhendo, sem pre testem unha de seu trabalho.

Brincos ficariam m elhor nela, pensou. Aqueles pingentes, brilhantes, especialm ente o de latão. Com seu cabelo preso por um a fivela ou cortado curto, de m odo a ressaltar sua nuca e orelhas. E poderíam os fotografá-la para publicidade. ele e Ed haviam discutido a possibilidade de um catálogo, para que pudessem vender pelo correio a outras partes do m undo. Ela ficaria fantástica... Sua pele é bonita, saudável, sem pregas e sem rugas, e um a bela cor. Será que topava, se conseguisse localizá-la? Independente de sua opinião a m eu respeito; nada a ver com nossa vida pessoal. Seria puram ente com ercial.

Que diabo, não seria eu a tirar as fotos. Contrataríam os um profissional. Ela ia gostar disso. Sua vaidade na certa é a m esm a de sem pre. Sem pre gostou de que olhassem para ela, que a adm irassem . Não im porta quem . Suponho que a m aioria das m ulheres é assim . Exigem atenção perpétua. São m uito infantis nesse sentido.

Juliana nunca pôde suportar ficar só, pensou; precisava ter-m e sem pre ao seu lado, elogiando, elogiando. As criancinhas são assim : acham que se os pais não~ estão olhando o que fazem , aquilo deixa de ser real. Na certa ela está agora com um suj eito que lhe dá atenção. Dizendo-lhe com o é bonita. Suas pernas. Seu ventre m acio e chato...

— O que é que há? — disse Ed, observando-o. — Perdendo a coragem ?

— Não — disse Frink.

— Não vou só ficar parado lá — disse Ed. — Tenho um as idéias aqui na caixola. E vou te dizer um a coisa: não estou com m edo. Não estou intim idado só porque é um lugar chique e fui obrigado a vestir um terno bacana. Confesso que não gosto de m e arrum ar. Confesso que não estou à vontade. Mas isso não interessa. Vou entrar lá e enrolar aquele palhaço.

Você é que é feliz, pensou Frink.

— Que diabo, se você pôde entrar lá com o fez — disse Ed — e contar aquela história de ser o aj udante de um alm irante j aponês, eu devo ser capaz de dizer-lhe a verdade, que estas são j óias de boa qualidade, criações originais, feitas a m ão, que...

— Trabalhadas a m ão — disse Frink.

— É. Trabalhadas a m ão. Quero dizer, vou entrar lá e não vou sair até arrancar o dinheiro dele. ele deve com prar. Se não com prar é porque é m uito m aluco. Já olhei por toda parte; não há nada parecido com nosso trabalho à venda. Puxa, quando penso que ele talvez vá olhar e não com prar... fico tão furioso que sou capaz de sair no tapa.

— Vê se lem bra de dizer que não é folheado — disse Frink. — Que o cobre é cobre m aciço e o latão é latão m aciço.

— Deixa eu fazer as coisas à m inha m aneira — disse Ed. — Estou com algum as boas idéias-

U que eu posso fazer é o seguinte, pensou Frink r posso apanhar um par de peças — Ed não vai ligar —, em pacotá-las e m andar para Juliana. Assim ela vai ver o que estou fazendo. As autoridades postais podem localizá-la; m ando registrado para seu últim o endereço. O que será que vai dizer quando abrir a caixa? Porei dentro um bilhete explicando que fui eu quem fez; que sou sócio de um novo negócio de fabricação de j óias originais. Vou estim ular sua im aginação, contando um a história que dê vontade de saber m ais, assim ficará interessada. Vou falar de pedras e de m etais. Das casas,, para as quais vendem os, das loj as elegantes...

— Não é por aqui? — pergunta Ed, dim inuindo a m archa. Estavam no m eio do intenso trânsito do centro ; edifícios escondiam o céu. — É m elhor eu estacionar.

— Faltam cinco quarteirões — disse Frink.

— Tens um daqueles cigarros de marijuana? — perguntou Ed. — Um deles m e acalm aria agora.

Frink passou-lhe seu m aço de Tien-lais, a m istura "Música Celeste" que aprendera a fum ar na W.-M. Corporation.

Sei que ela está vivendo com alguém , disse Frink a si m esm o. Dorm indo com ele. Com o se fosse sua m ulher. Eu conheço Juliana. Não agüentaria de nenhum a outra m aneira; sei com o fica ao anoitecer. Quando fica frio e escuro e todo m undo está em casa sentado na sala. Ela não foi feita para a vida solitária. Nem eu, concluiu ele.

Talvez o cara sej a um bom suj eito. Algum estudante tím ido que ela apanhou. Ela seria um a boa m ulher para um j ovem que nunca teve coragem de chegar perto de m ulher. Ela não é dura nem cínica. Faria m uito bem a ele. Só espero que não estej a com um hom em m ais velho que ela. Isso eu não suportaria. Um cam arada experiente e m esquinho, com um palito enfiado na boca, dando ordens.

Com eçou a respirar m al. Veio-lhe a im agem de um suj eito peludo, carnudo, explorando Juliana, fazendo de sua vida um inferno... Sei que ela acabará se suicidando, pensou. Está nas cartas: se ela não encontrar o hom em certo... e isso significa um tipo gentil, sensível, um estudante delicado que será capaz de apreciar todos os seus pensam entos.

Eu era duro dem ais com ela, pensou. E não sou tão ruim assim ; há um a porção de caras piores. Eu im aginava m ais ou m enos o que ela estava pensando, o que queria, quando se sentia só, m al ou deprim ida. Passei um tem pão m e preocupando, cuidando dela. Mas não foi o suficiente. Ela m erecia m ais. Ela m erece m uito, pensou.

— Vou estacionar — disse Ed.

Encontrara um a vaga e estava dando m archa-ré, olhando para trás.

— Escuta — disse Frink. — Posso m andar um par de peças à m inha m ulher?

— Não sabia que você era casado — Ed respondeu distraído, ocupado em encostar. — Claro, contanto que não sej am de prata.

Ed desligou o m otor.

— Chegam os — disse. Deu um as tragadas m ais, apagou o cigarro no painel e j ogou a ponta no chão. — Desej e-m e sucesso.

— Sucesso — disse Frank Frink.

— Ei, olhe! Há um daqueles poem as waka, j aponeses no verso deste m aço. Ed leu o poem a alto, por cim a do ruído do tráfego.

Ouvindo o grito do cuco,

Olhei na direção

De onde vinha o som ;

E o que vi?

Apenas a lua pálida no céu do am anhecer.

Devolveu o m aço de Tien-lais a Frink.

— Cruzes! — exclam ou e, dando um tapa nas costas de Frink, m ostrou os dentes, abriu a porta, apanhou a cesta e desceu do cam inhão.

— Vou te deixar colocar a m oeda no parquím etro— disse, afastando-se pela calçada.

Num segundo desapareceu entre os outros pedestres.

Juliana, pensou Frink. Será que você está tão sozinha quanto eu?

Desceu do cam inhão e pôs um a m oeda na fenda do parquím etro.

É m edo, pensou. Toda essa história de j oalheria. E se não der certo? E se não der certo? Era com o dizia o oráculo. Choro, lam entações e a ruína.

O hom em enfrenta as som bras que envolvem sua vida. Seu cam inho para o túm ulo. Se ela estivesse aqui não seria tão ruim . Nada ruim .

Estou com m edo, percebeu. E se Ed não vender nada? E se rirem da gente?

E daí?

 

Juliana estava deitada sobre um lençol no chão da sala do apartam ento, segurando Joe Cinadella contra ela. O quarto estava quente e abafado com o sol do m eio-dia. Seu corpo e o do hom em em seus braços estavam úm idos de suor. Um pingo, escorrendo da testa de Joe, deteve-se um instante na m açã de seu rosto e caiu no pescoço dela.

— Você ainda está suando — m urm urou ela.

Ele não respondeu. Sua respiração era longa, lenta, regular... feito o oceano, pensou. Não som os m ais do que água por dentro.

— Que tal? — perguntou ela. Resm ungou que foi perfeito.

Tam bém achei, pensou Juliana. Tenho certeza. Agora

precisam os levantar, nos arrum ar. Ou isso é ruim ?" Sinal de desaprovação do subconsciente? ele se m exeu.

— Vais levantar? — Ela conservou-o apertado entre os braços. — Não. Ainda não.

— Não tens que ir à academ ia?

Não vou à academ ia, disse Juliana a si própria. Você não sabe? Vam os a algum lugar; não vam os ficar aqui por m uito tem po. Mas vai ser um lugar onde nunca fom os. Está na hora.

Ela sentiu que ele se libertava, punha-se de j oelhos, as m ãos dela deslizaram pelas suas costas úm idas, escorregadias. Depois ouviu seus passos, seus pés descalços no chão. Foi ao banheiro, na certa. Tom ar um a chuveirada.

Acabou, ela pensou. Ainda bem . Suspirou.

— Estou te ouvindo — disse Joe do banheiro. — Estás gem endo. Sem pre deprim ida, hein? Preocupação,, m edo, suspeita, de m im e do m undo...

Saiu, por um instante, pingando água e sabão, sorrindo.

— Que tal um a viagem ? Seu pulso acelerou.

— Aonde?

— A um a cidade grande. Que tal para o norte, Denver? Vou te levar para passear; com prar entradas para um espetáculo, ir a um bom restaurante, andar de táxi, com prar-te um vestido de noite ou o que quiseres. Tá?

Ela m al podia, m as queria, tentava acreditar.

— Teu velho Stude agüenta? — perguntou Joe.

— Claro.

— A gente pode com prar roupa fina para os dois — disse ele. — Vam os nos divertir, talvez pela prim eira vez em nossas vidas. Isso im pedirá que você estoure.

— E o dinheiro?

— Eu tenho — disse Joe. — Olha na m inha m ala.

Fechou a porta do banheiro; o barulho da água interrom peu a conversa.

Abrindo o arm ário, ela tirou a m aleta surrada. Era verdade, no canto encontrou um envelope; continha notas grandes do Reichsbank, válidas em toda parte. Então podem os ir, percebeu. Talvez não estej a m e levando na conversa. Eu queria era entrar dentro dele e ver o que há por lá, pensou contando o dinheiro...

Por baixo do envelope encontrou um a caneta grande, cilíndrica, ou ao m enos era o que parecia; tinha, inclusive um pregador. Mas era m uito pesada. Tirou cuidadosam ente o obj eto da m ala, desatarraxou a tam pa. Sim , tinha um a ponta de ouro. Mas...

— O que é isso? — perguntou a Joe quando ele ressurgiu do chuveiro.

Ele apanhou o obj eto e recolocou-o na m ala. Com que cuidado o segurava... notou ela, refletindo, perplexa.

— Mais m orbidez? — perguntou Joe.

Parecia tranqüilo, m ais do que em qualquer outra ocasião desde que o conhecera; com um grito de entusiasm o, pegou-a pela cintura, levantou-a nos braços, balançando seu corpo, para frente e para trás, estudando seu rosto, soprando seu hálito quente sobre ela, apertando até fazê-la gem er.

— Não — disse ela. — É só que... custo a m udar. E ainda tenho um pouco de m edo de você, pensou.

Tanto que não posso nem falar no assunto, nem contar o que é.

— Pela j anela — gritou Joe, cam inhando pela sala com ela nos braços. — Lá vam os nós.

— Por favor — disse ela.

— Estou brincando. Escuta... Vam os com eçar um a m archa, com o a Marcha sobre Rom a. Você se lem bra.

O Duce guiou-os, a gente com o m eu tio Cario por exem plo. Agora trata-se de um a pequena m archa, m enos im portante, que não será m encionada nos livros de história. Certo? — Abaixando a cabeça, deu-lhe um beij o na boca, com tanta força que seus dentes se chocaram . — Vam os ficar lindos, de roupa nova. E você pode m e ensinar com o falar, com o m e com portar, certo? Você m e ensinará boas m aneiras; com binado?

— Você fala bem — disse Juliana. — Melhor que eu até.

— Não — sua fisionom ia de repente tornou-se som bria. — Falo m uito m al. Sotaque de carcam ano m esm o. Você não percebeu quando m e conheceu no café?

— Acho que sim — respondeu ela; não achava im portante.

— Só um a m ulher conhece as convenções sociais — disse Joe, carregando-a de volta e deixando-a cair, assustada, na cam a. — Sem as m ulheres, discutiríam os carros de corrida, cavalos e contaríam os piadas suj as; sem nenhum a educação.

Que hum or estranho, pensou Juliana. Inquieto e pensativo, até o m om ento em que resolve partir; então fica exuberante. Você quer m esm o que eu vá? Você pode m e largar, m e deixar aqui; j á aconteceu antes. Se eu tivesse que ir em bora, pensou, eu te largaria.

— Isso é teu ordenado? — perguntou enquanto ele se vestia. — Você econom izou?

Era m uito dinheiro. Claro, no Leste havia m uito dinheiro.

— Os outros m otoristas que eu conheci nunca...

— Você acha que eu sou m otorista? — interrom peu Joe. — Escuta: eu dirigia aquele cam inhão não porque fosse m otorista m as para defendê-lo dos assaltantes. Eu parecia um m otorista, cochilando no volante.

Deixando-se cair na cadeira, no canto da sala, recostou-se fingindo dorm ir, boca aberta, corpo m ole.

— Tá vendo?

De início não viu. Depois percebeu que em sua m ão havia um a faca, dessas finas, de cortar batata-palha. Nossa senhora, pensou. De onde saíra aquilo? De sua m anga; do ar.

— Foi por isso que o pessoal da Volkswagen m e contratou. Pela m inha folha de serviço. Nós nos protegem os contra Haselden, contra os com andos de que ele era líder. — Seus olhos negros soltavam faísca; sorriu de lado para Juliana. — Adivinha quem liquidou o coronel, no final, quando os alcançam os no Nilo — ele e quatro m em bros do seu Long Range Desert Group, m eses após a cam panha do Cairo. Assaltaram -nos um a noite para roubar gasolina. Eu estava de sentinela. Haselden aproxim ou-se, com a cara, o corpo, até as m ãos pintados de preto; daquela vez não tinham aram e, só granadas e m etralhadoras. Tudo m uito barulhento. ele tentou partir m inha laringe. Eu o peguei.

Joe saltou da cadeira, rindo.

— Vam os fazer as m alas. Telefona ao pessoal da Academ ia e diz que vais tirar uns dias de férias.

Sua história não a convencia. Talvez nem tivesse estado no Norte da África, nem tivesse lutado do lado do Eixo, talvez não tivesse m esm o lutado. Que assaltantes? perguntou-se. Nenhum cam inhão, que ela soubesse, tinha vindo da Costa Leste por Canon City, com um ex-soldado profissional arm ado com o guarda. Talvez não tivesse nem m orado nos Estados Unidos, talvez fosse tudo m entira desde o início; um papo para enfeitar a cantada, para interessá-la, parecer rom ântico.

Talvez sej a louco, pensou. Gozado... Talvez eu acabe fazendo o que pretendi fazer inúm eras vezes: usar m eu j udô para m e defender. Para salvar... m inha virgindade? Minha vida, pensou. Mas o m ais provável

é que ele sej a apenas um carcamano pobre coitado, com . m ania de grandeza; quer fazer um a farra, gastar todo seu dinheiro, levar um a boa vida... e depois voltar à sua m onótona existência. E precisa de um a garota para acom panhá-lo.

— Está bem — disse. — Vou ligar para a Academ ia. Dirigindo-se ao hall, ela pensou: vai m e com prar roupas caras e levar-m e a um hotel de luxo. Todo hom em sonha ter um a m ulher bem vestida antes de m orrer, m esm o que sej a obrigado a com prar-lhe as roupas ele m esm o. Esta farra na certa é o sonho da vida de Joe Cinadella. E ele é esperto — aposto que tinha razão quando m e analisou — tenho um terror neurótico de hom em . Frank tam bém sabia. Foi por isso que nos separam os; é por isso que ainda hoj e sinto esta ansiedade, esta desconfiança.

Quando voltou do taxifone, encontrou Joe novam ente m ergulhado no Grasshopper, de cara fechada, alheio ao m undo.

— Quando você vai m e deixar ler isso? — perguntou.

— Talvez enquanto eu dirigir — disse Joe, sem levantar os olhos.

— Você vai dirigir? Mas é m eu carro!

Ele não respondeu. Apenas continuou a ler.

 

Da caixa registradora, Robert Childan levantou a cabeça para olhar um hom em alto, m agro, m oreno, entrando na loj a. O hom em vestia um terno quase na m oda e trazia no braço um a grande cesta. Vendedor. Mas faltava o sorriso alegre; em lugar disso, tinha um a expressão som bria, triste, em seu rosto curtido. Parece m ais um bom beiro ou eletricista, pensou Robert Childan.

Quando acabou de atender o cliente, Childan cham ou o hom em :

— Quem você representa?

— Edfrank Jewellery — resm ungou de volta o hom em .

Colocara a cesta em cim a de um dos balcões.

— Nunca ouvi falar.

Childan aproxim ou-se, sem pressa, enquanto o hom em abria e levantava a tam pa com um incrível exagero de m ovim entos.

— Trabalhados a m ão. Exem plares únicos. Cada m odelo original. Latão, cobre, prata. Até ferro fundido.

Childan espiou dentro da cesta. Metal em veludo preto, estranho.

— Não, obrigado. Não é m eu gênero de com ércio.

— Isto representa um a criação artística am ericana, contem porânea.

Balançando a cabeça negativam ente, Childan voltou à caixa.

Por um m om ento, o suj eito ficou m exendo nos m ostruários de veludo e na cesta. Não estava nem tirando nem guardando; parecia não saber o que estava fazendo. De braços cruzados, Childan observou-o, pensando nos diversos problem as do dia. Às duas da tarde tinha hora m arcada para m ostrar um as xícaras antigas. Depois, às três —i outra rem essa voltando dos Cal Labs, chegando do teste de autenticidade. Estava m andando exam inar m ais e m ais peças, nas duas últim as sem anas. Desde aquele incidente desagradável com o Colt 44.

— Não são folheados — disse o hom em com a cesta, m ostrando um a pulseira. — Puro cobre.

Childan concordou com a cabeça. O suj eito ia-se dem orar um pouco, m exendo nas am ostras, m as acabaria indo em bora.

O telefone tocou. Childan atendeu. Era um cliente, indagando sobre um a cadeira de balanço antiga,, m uito valiosa, que Childan estava m andando consertar para ele. Não estava pronta e Childan teve que inventar um a desculpa convincente. Olhando o trânsito do m eio-dia pela vitrine da loj a, conseguiu convencê-lo. Finalm ente, o cliente, um pouco apaziguado, desligou.

Não havia a m enor dúvida, pensou colocando o telefone no gancho. Aquela história do Colt 44 abalara-o consideravelm ente. Já não olhava sua m ercadoria com os m esm os olhos. O conhecim ento dessas coisas vem de longe. É com o o despertar da infância; as coisas da vida. Mostra, refletiu, a ligação com nossos prim eiros anos: não é apenas a história dos Estados Unidos que está em j ogo, m as a nossa pessoal. Com o se surgissem dúvidas quanto à autenticidade de nossa certidão de nascim ento. Ou nossa im pressão sobre nosso pai.

Talvez na verdade eu não m e lem bre de F.D.R., por exem plo. Tenho dele um a im agem sintética, lentam ente form ada à força de ouvir falar. Um m ito sutil-m ente im plantado na m atéria cinzenta. Com o o m ito de Hepplewhite, o m ito de Chippendale. Ou talvez m ais na linha de "Abraham Lincoln com eu aqui". ele usou esta velha faca de prata, esta colher, este garfo. Não se vê, m as o fato perm anece.

No outro balcão, ainda m exendo com suas am ostras e a cesta, o vendedor disse:

— Podem os fazer obj etos de encom enda. A pedido. Se algum de seus clientes tiver um a idéia própria.

Sua voz estava um tanto estrangulada; pigarreou, fitando Childan e em seguida a j óia que tinha na m ão. Não sabia com o ir em bora, evidentem ente.

Childan sorriu e não disse nada.

Não depende de m im e sim dele, sair daqui. Tenha ou não vendido algum a coisa.

É duro, é desagradável. Mas ele não precisa ser vendedor. Todos sofrem os nesta vida. Eu, por exem plo. Agüentando esses j aponeses o dia todo, j aponeses com o Mr. Tagom i. Com um a sim ples inflexão conseguem hum ilhar-m e, tornar m inha vida um inferno.

E então veio-lhe um a idéia. Aquele suj eito obviam ente não tinha experiência. Bastava olhar. Talvez eu obtenha algum a coisa em consignação. Vale à pena tentar.

— Ei — disse Childan.

O hom em levantou a cabeça depressa, o olhar fixo. Aproxim ando-se dele, ainda de braços cruzados, Childan continuou:

— Parece que vam os ter um a m eia hora de calm a, aqui. Não prom eto nada, m as você pode arrum ar algum as dessas coisas aí no balcão. Tire aquelas gravatas de lá.

Apontou. Assentindo, o hom em com eçou a abrir um espaço em cim a do balcão. Reabriu a cesta e, novam ente, m exeu nas bandej as de veludo.

Vai tirar tudinho, sabia Childan. Aj eitar com o m aior cuidado durante um a hora ou m ais. Cuidando e aj ustando até estar com tudo m ontado. Esperando. Rezando. Espiando-m e a cada segundo com o canto do olho. Para ver se dem onstro algum interesse. Por m enor que sej a.

— Quando o senhor estiver pronto — disse Childan — se eu não estiver ocupado dem ais dou um a olhada.

O hom em trabalhou febrilm ente, com o se estivesse galvanizado. Então vários clientes entraram na loj a e Childan cum prim entou-os. Deu-lhes toda atenção ao que desej avam e esqueceu o vendedor arrum ando o m ostruário. O vendedor, com preendendo a situação, com eçou a trabalhar furtivam ente, para não ser notado. Childan vendeu um a caneca de barbeiro, quase vendeu um tapete feito a m ão e recebeu um depósito por um a colcha tricotada. O tem po passou. Finalm ente os clientes saíram . A loj a agora estava vazia, à exceção dele e do vendedor.

O vendedor term inara. Sua inteira seleção de j óias estava arrum ada no veludo preto em cim a do balcão.

Indo até lá devagar, Robert Childan acendeu um Land-O-Smiles e ficou se balançando nos calcanhares, cantarolando baixinho. O vendedor ficou em silêncio. Nenhum dos dois abriu a boca.

Finalm ente Childan estendeu a m ão e apontou um broche:

— Gostei.

— É dos bons — disse o vendedor rapidam ente. — Não encontrará nenhum arranhão. Tudo bem acabado. Não perde o brilho. Usam os um verniz plástico que dura anos. É o m elhor verniz industrial que existe.

Childan assentiu ligeiram ente.

— O que fizem os aqui — disse o vendedor — foi adaptar técnicas industriais testadas e aprovadas à fabricação de j óias. Que eu saiba, é a prim eira vez que se faz algum a coisa no gênero. Nada de form as. Tudo m etal contra m etal. Soldado a bronze. — Parou. — Os pregadores recebem solda dupla.

Childan apanhou duas pulseiras. Depois um broche. Ficou com eles na m ão um instante e colocou-os de lado.

O rosto do vendedor crispou-se. Esperança.

Exam inando a etiqueta de um colar, Childan perguntou :

— Isso é...

— Preço de varej o. Para o senhor é 50% disso. E se com prar, digam os, em torno de uns cem dólares, dam os um desconto adicional de 2%.

Um a por um a, Childan separou várias outras peças. A cada um a que apanhava, o vendedor ficava m ais e m ais agitado; falava cada vez m ais depressa, acabando por se repetir, dizendo bobagens sem o m enor sentido, em voz baixa e apressada, file acha m esm o que vai m e vender, pensou Childan. Sua própria expressão não revelava nada; continuou com o j ogo de selecionar peças.

— Este é especialm ente bom — continuou o vendedor, vendo Childan pescar um pingente bem grande e parar. — Acho que o senhor escolheu as m elhores. Todas as m elhores — o hom em riu. — O senhor tem bom gosto.

Seus olhos dardej avam . Estava som ando de cabeça o que Childan escolhera. O total da venda.

— Nossa política, com m ercadoria nova, é recebê-la em consignação — disse Childan.

Por alguns instantes o vendedor não com preendeu. Parou de falar, m as ficou olhando, sem com preender. Childan sorriu-lhe.

— Em consignação — ecoou o vendedor, por fim .

— Prefere levar de volta? — disse Childan. Gaguej ando, o hom em finalm ente falou:

— Quer dizer que eu deixo a m ercadoria e o senhor m e paga depois, quando...

— Você recebe dois terços do preço de venda. Quando as peças forem vendidas. Assim ganha m uito m ais. É preciso esperar, naturalm ente, m as... — Childan deu de om bros. — Depende de você. Talvez possa colocar na vitrine. E se tiver saída, então m ais tarde, talvez, dentro de um m ês m ais ou m enos, com o próxim o pedido... Bom , talvez possam os com prar algum a coisa diretam ente.

O vendedor gastara m ais de um a hora m ostrando sua m ercadoria, percebeu Childan. Tirara tudo da cesta. Todos seus m ostruários estavam desarrum ados e desm antelados. Mais um a hora de trabalho para arrum ar tudo e levar a outro lugar. Fez-se silêncio. Nenhum dos dois falou.

— Aquelas peças que pôs de lado... — disse o vendedor em voz baixa. — São essas que desej a?

— Sim . Pode deixar todas — Childan foi até o escritório nos fundos. — Vou dar lhe um recibo. Assim . Terá um a lista do que deixou com igo.

Voltando com o livro de recibos, acrescentou:

— Você sabe que, quando um a m ercadoria é deixada em consignação, a loj a não assum e responsabilidade em caso de roubo ou dano.

Deu um papel m im eografado para o vendedor assinar. A loj a nunca teria que prestar contas dos artigos deixados. Quando a parte não vendida fosse devolvida, se estivesse faltando... teria que ser roubo, pensou Childan. Sem pre acontecia em loj as. Especialm ente coisas pequenas com o j óias.

Não havia com o Robert Childan sair perdendo. Não precisava pagar as j óias ao suj eito; não precisava fazer investim ento algum . Se vendesse saía lucrando, caso contrário, devolvia tudo — ou o que pudesse ser encontrado — em algum a vaga ocasião futura.

Childan fez o recibo, acrescentando um a lista daí j óias. Assinou e deu um a cópia ao vendedor.

— Telefone — disse — daqui a um m ês m ais ou m enos. Para saber com o vão as coisas.

Apanhando as j óias que queria, foi até o fundo da loj a, deixando que o vendedor reunisse o resto.

Nunca pensei que fosse topar, pensou. Nunca se sabe. Por isso vale a pena tentar sem pre.

Quando levantou a cabeça de novo, viu que o vendedor estava pronto para partir. Carregava a cesta debaixo do braço e o balcão estava livre. O vendedor estava se aproxim ando dele, estendendo-lhe algo.

— Sim ? — disse Childan, que estava abrindo a correspondência.

— Quero deixar lhe nosso cartão. — O vendedor ofereceu um estranho quadradinho de papel cinza e verm elho: Edfrank Custom Jewellery. — Tem o nosso endereço e o núm ero do telefone. Para o caso de o senhor querer se com unicar conosco.

Childan balançou a cabeça, sorriu em silêncio e voltou ao trabalho.

Quando de novo interrom peu-se e levantou a cabeça a loj a estava vazia. O vendedor tinha ido em bora.

Colocando um a m oeda no autom ático fixado na parede, Childan obteve um a xícara de chá quente instantâneo que sorveu pensativam ente.

Será que vai vender? perguntou-se. Era pouco provável. Mas são bem feitos. E não se vê coisa parecida. Exam inou um dos broches. É um desenho curioso. Evidentem ente não são am adores.

Vou m udar as etiquetas. Aum entar os preços. Insistirei no ângulo "feito a m ão". E o caráter único. Peças originais. Pequenas esculturas. Use um a obra de arte. Um a criação exclusiva em sua lapela ou pulso.

E havia outra idéia circulando e crescendo no fundo do pensam ento de Robert Childan. Com esses objetos não há problema de autenticidade. E esses problem as podem vir a acabar com a indústria de artesanato histórico am ericano. Não hoj e nem am anhã — m as depois, quem sabe?

Era m ais garantido não botar todos os ovos na m esm a cesta. A visita daquele j udeu escroque talvez fosse um presságio. Se eu adquirir na surdina um estoque de obj etos não históricos, de trabalhos contem porâneos sem historicidade real ou im aginária, poderei m anter-m e na linha de frente. E j á que não m e custa nada...

Reclinando a cadeira, de m odo a encostá-la na parede, saboreou seu chá, refletindo.

O Mom ento está para se transform ar. Deve-se estar pronto para acom panhá-lo. Ou fica-se na m ão. Adaptar-se.

A regra da sobrevivência, pensou. Observar com olhos lúcidos a situação ao redor. Aprender suas exigências. E — confrontá-las. Estar lá na hora certa fazendo a coisa certa.

Ser yinnish. O oriental sabe. Os olhos yin negros e espertos...

De repente, teve um a boa idéia; no m esm o instante endireitou-se na cadeira. Dois coelhos de um a só caj adada. Ah! Deu um salto, ficou de pé, excitado. Em brulhar cuidadosam ente a m elhor das j óias (tirando a etiqueta, claro). Um broche, um pingente, ou um a pulseira. Algo belo, em todo caso. E — j á que precisas deixar a loj a, fechar às duas, nesse caso — dar um pulo até a casa dos Kasouras. Mr. Kasoura, Paul, estará no trabalho. Mrs. Kasoura, Betty, contudo, provavelmente estará em casa.

Dar-lhe de presente esse produto original de um novo artesanato am ericano. Um a hom enagem pessoal m inha, para sentir a reação de pessoas im portantes. É assim que se introduz um a nova linha de produtos. Não é lindo? Há um a grande quantidade na loj a; apareça; etc. Este é para você, Betty .

Estrem eceu. Só ela e eu de tarde, no apartam ento. O m arido no trabalho. Tudo m uito correto, porém ; um : brilhante pretexto.

Perfeito!

Apanhando um a caixinha, papel e fita, Robert Childan com eçou a preparar o presente para Mrs. Kasoura. Aquela m ulher m orena, atraente, esbelta em seu vestido de seda oriental, salto alto, e assim por diante. Ou talvez estej a hoj e de pij am a de algodão azul, estilo coolie, leve, confortável, inform al. Ah! suspirou.

Ou é m uita audácia? O m arido Paul zangando-se, descobrindo e reagindo m al. Talvez sej a m elhor ir devagar; levar o presente a ele, no escritório? Contar-lhe a m esm a história, só que a ele. Deixar que ele lhe dê o presente; nenhum a suspeita. E, pensou Robert Childan, posso telefonar a Betty am anhã ou depois para saber sua reação.

Mais perfeito ainda!

 

Quando Frank Frink viu seu sócio voltando calçada acim a, percebeu logo que as coisas não tinham ido bem .

— O que houve? — perguntou, tirando a cesta das m ãos de Ed e colocando-a no cam inhão. — Nossa Senhora, você dem orou m ais de um a hora e m eia. Ele levou esse tem po todo para dizer não?

— Ele não disse que não — respondeu Ed. Parecia exausto. Entrou no cam inhão e ficou sentado.

— Disse o quê, então? — Abrindo a cesta, Frink viu que havia m uitas peças faltando. Das m elhores. — ele apanhou um m onte. O que foi, então?

— Em consignação — disse Ed.

— E você topou? — Não podia acreditar. — Mas nós discutim os...

— Não sei com o foi.

— Nossa Senhora! — disse Frink.

— Sinto m uito. Parecia que ia com prar. Escolheu um m onte. Pensei que estivesse com prando.

Ficaram sentados j untos em silêncio no cam inhão.