O Homem do Castelo Alto

Philip K. Dick · Capítulo 14 de 16

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O Homem do Castelo Alto

Capítulo 13

ENCONTRARAM em Denver loj as elegantes e m odernas. As roupas, pensou Juliana, eram incrivelm ente caras, m as Joe não parecia se im portar, nem reparar; ele contentava-se em pagar o que ela escolhia e corriam para a próxim a loj a.

Sua principal com pra — após m il provas e prolongadas discussões e recusas — foi feita no final do dia: um vestido exclusivo italiano, azul-claro, com m angas bufantes e um vasto decote.

Ela tinha visto um m odelo parecido num a revista de m oda européia; era considerada a linha m ais elegante do ano e custou a Joe quase duzentos dólares.

Para com binar com o vestido, precisava de três pares de sapatos, m ais m eias de nylon, chapéus, e um a nova bolsa de couro preto, feita a m ão. E, descobriu, o decote do vestido italiano exigia um dos novos sou-ti&ns que cobriam apenas a parte inferior dos seios. Olhando-se no grande espelho da loj a, sentiu-se m eio nua e um pouco insegura do que aconteceria quando se inclinasse. Mas a vendedora garantiu-lhe que os novos m eia-taça perm aneciam firm es no lugar, apesar de não terem alças.

Vem j usto até o bico do seio, pensou Juliana, exam inando-se na intim idade da cabine, e nem um m ilím etro a m ais. Os soutiens tam bém custaram um a nota; igualm ente im portados, explicou a vendedora, e feitos a m ão. A vendedora m ostrou-lhe ainda um vestido esporte, shorts e m aios, e um a saída de praia; m as, de repente, Joe ficou im paciente. Então saíram .

Enquanto Joe colocava os em brulhos e sacolas no carro, ela disse:

— Você não acha que vou ficar bárbara?

— Acho — disse ele num a voz preocupada. — Especialm ente com aquele vestido azul. Usa ele quando form os à casa de Abendsen, com preendeste?

Disse a últim a palavra com brutalidade, com o se fosse um a ordem ; o tom surpreendeu-a.

— Meu tam anho é quarenta ou quarenta e dois — disse ela quando entraram na loj a seguinte.

A vendedora sorriu gentilm ente e acom panhou-os à seção de vestidos. O que m ais precisava? perguntou-se Juliana. Era m elhor com prar o m áxim o enquanto podia; seus olhos abarcaram rapidam ente a loj a inteira, as blusas, saias, suéteres, calças, casacos. Sim , um casaco.

— Joe — disse ela. — Preciso de um casaco com prido. Mas não de tecido.

Acabaram com prando um dos casacos de fibra sintética im portados da Alem anha; era m ais durável do que pele natural e m enos caro. Mas ficou desapontada. Para se consolar, com eçou a exam inar as j óias. Mas só havia fantasia barata, sem im aginação ou originalidade.

— Preciso pelo m enos de uma j óia — explicou a Joe. — Brincos, pelo m enos. Ou um broche — para usar com o vestido azul.

Arrastou-o pela calçada até um a j oalheria. Ali, sentindo-se culpada, lem brou-se:

— E tuas roupas? Precisam os fazer com pras para você tam bém .

Enquanto ela procurava as j óias, Joe entrou no barbeiro para cortar o cabelo. Quando saiu, m eia-hora m ais tarde, ela ficou assom brada; não só cortara o cabelo o m ais curto possível, m as o tingira tam bém . Custou a reconhecê-lo; agora estava louro. Meu Deus, pensou, fitando-o adm irada. Por quê?

Joe, dando de om bros: — Estou cansado de ser carcamano — disse, dando de om bros.

Foi só o que disse; recusou-se a discutir o assunto. Entraram num a loj a de roupa m asculina e com eçaram a fazer as com pras dele.

Com praram um terno bem cortado de dacron, um a das novas fibras sintéticas da Du Pont. E novas m eias, cuecas, e um elegante par de sapatos, de bico fino. O que m ais? pensou Juliana. Cam isas. E gravatas. Ela e o vendedor escolheram duas cam isas brancas com punhos tipo "m osqueteiro", várias gravatas francesas e um par de abotoaduras de prata. Levaram som ente quarenta m inutos para fazer todas as com pras dele; ela ficou assom brada de ver com o era fácil, com parado com as suas.

O terno, pensou ela, precisava ser aj ustado aqui e ali. Mas novam ente Joe ficou im paciente; pagou a conta com as notas do Reichsbank que carregava. Sei de outra coisa que falta, percebeu Juliana. Um a carteira nova. De m odo que ela e o vendedor escolheram um a carteira preta de crocodilo e pronto. Deixaram a loj a e voltaram ao carro; eram quatro e m eia e as com pras — ao m enos as de Joe — estavam feitas.

— Você não quer apertar o paletó na cintura? — perguntou a Joe, enquanto ele dirigia o carro no trânsito do centro de Denver. — No seu terno...

— Não.

Sua voz, brusca e im pessoal, assustou-a.

— O que foi? Com prei coisa dem ais? — Sei que é isso, disse a si m esm a; gastei dinheiro dem ais. — Posso devolver algum as saias.

— Vam os com er.

— Meu Deus! — exclam ou ela. — Já sei do que m e esqueci. Cam isolas.

Ele encarou-a ferozm ente.

— Você não quer que eu com pre alguns pij am as novos? — perguntou ela. — Assim ficarei fresquinha e...

— Não — balançou a cabeça. — Esquece. Procura um lugar para com erm os.

— Vam os prim eiro nos registrar num hotel — disse Juliana, com voz calm a. — Assim podem os trocar de roupa. Depois vam os com er.

E é m elhor ser um hotel bom , pensou, ou não tem m ais conversa. Mesm o agora, a esse ponto. E perguntarem os no hotel onde é o m elhor lugar para se com er em Denver. E o nom e de um bom clube noturno onde possam os ver um espetáculo daqueles que só se vê um a vez na vida, não com artistas locais, m as com algum grande cartaz europeu, com o Eleanor Perez ou Willie Beck. Sei que os m aiores astros da UFA vêm até Denver, porque j á vi nos anúncios. E é o m ínim o que vou exigir.

Enquanto procuravam um bom hotel, Juliana exam inava furtivam ente o hom em ao seu lado. Com o cabelo curto e louro, e de roupa nova, não parecia a m esm a pessoa, pensou. Gosto m ais assim ? Era difícil dizer. E eu... quando tiver penteado m eu cabelo, serem os, praticam ente, duas pessoas novas. Nascidas do nada, ou m elhor, do dinheiro. Mas eu preciso é aj ustar m eu cabelo, disse a si m esm a.

Encontraram um grande e im ponente hotel no centro de Denver, com um porteiro de uniform e que providenciou o estacionam ento para o carro. Era o que ela queria. E um carregador — na realidade um hom em crescido, m as vestindo o uniform e castanho dos bell-boy s — aproxim ou-se logo e levou a bagagem , deixando-os livres, sem m ais nada a fazer além de subir as escadarias largas, atapetadas, sob o toldo, e atravessar as portas de vidro e acaj u, que levavam ao vestíbulo.

Havia pequenas loj as de cada lado do vestíbulo; loj as de flores, de presentes, de doces, telégrafo, reserva de aviões. Um a m ultidão se agitava no balcão de registro e j unto dos elevadores. Grandes potes com plantas aqui e ali e, sob seus pés, o tapete, grosso e m acio... Ela podia até cheirar o hotel, o grande núm ero de pessoas, a agitação. Sinais lum inosos indicavam a direção do restaurante, da sala de coquetéis e do bar. Ela m al podia abarcar tanta coisa j unta com o olhar, enquanto atravessavam o vestíbulo para chegar ao balcão de reservas. Havia até livraria.

Enquanto Joe assinava o registro, ela pediu licença e foi até a livraria ver se tinham The Grasshopper. Sim , lá estava, um a pilha de exem plares reluzentes, com um cartaz falando de sua popularidade e im portância, e de com o era verboten nos territórios controlados pela Alem anha. Um a m ulher sorridente, de m eia-idade, bem do tipo avó, atendeu-a; o livro custou quase quatro dólares, o que pareceu caro a Juliana, m as ela pagou com um a nota do Reichsbank, que tirou da bolsa nova, e correu de volta para j untar-se a Joe.

Levando a bagagem deles, o carregador indicou o cam inho para o elevador e depois de saltarem no segundo andar, seguiram por um corredor — silencioso, quente, atapetado — até um quarto soberbo, m aravilhoso. O carregador abriu a porta, levou tudo para dentro, aj ustou a j anela e as luzes; Joe deu-lhe um a gorj eta e ele partiu, fechando a porta.

Tudo estava se passando exatam ente com o Juliana planej ara.

— Quanto tem po vam os ficar em Denver? — perguntou a Joe, que com eçara a abrir a bagagem na cam a. — Antes de irm os para Chey enne?

Ele não respondeu; estava absorvido pelo conteúdo de sua m ala.

— Um dia ou dois? — perguntou ela, despindo o casaco novo. — Será que dava para ficar três?

— Vam os em bora hoj e de noite — respondeu Joe, levantando a cabeça.

Ela não entendeu im ediatam ente; e quando entendeu, não queria acreditar. Encarou-o e ele devolveu seu olhar com um a expressão m aliciosa, quase debochada, o rosto contraído por um a enorm e tensão, a m aior que ela j á vira, em sua vida inteira, em qualquer ser hum ano. ele não se m oveu; parecia paralisado, com as m ãos cheias de roupa da m ala, o corpo inclinado.

— Depois de com er — acrescentou. Ela não soube o que dizer.

— De m odo que veste aquele vestido azul que custou tão caro — disse ele. — Aquele de que você gostou tanto • o bom m esm o... entendeu? — Então com eçou a desabotoar a cam isa. — Vou fazer a barba e tom ar um bom chuveiro quente.

Sua voz tinha um tim bre m ecânico, com o se estivesse falando de m uito longe através de um instrum ento qualquer; voltando-se, dirigiu-se ao banheiro com passos duros e desaj eitados.

Ela conseguiu dizer, com dificuldade:

— Mas é m uito tarde hoj e.

— Não. Term inarem os de j antar lá pelas cinco e m eia, seis no m áxim o. Podem os chegar a Chey enne em duas horas, duas horas e m eia. Serão só oito e m eia. No m áxim o nove. Podem os telefonar daqui, dizer a Abendsen que estam os chegando; explicar a situação. Vai dar boa im pressão, um a ligação interurbana. Vam os dizer o seguinte: estam os voando para a Costa Oeste; vam os passar só um a noite em Denver. Mas gostam os tanto do seu livro que vam os de carro até Chey enne e voltar hoj e m esm o, num a tentativa de...

— Por quê? — interrom peu ela.

Vieram -lhe lágrim as aos olhos e com eçou a cerrar os punhos, com o polegar para dentro, com o fazia em criança; sentiu o queixo trem er e, quando falou, sua voz saiu quase inaudível.

— Não quero ir vê-lo hoj e à noite; não vou. Não quero ir, nem m esm o am anhã. Quero ver o que há por aqui. Com o você m e prom eteu.

E enquanto falava, o pânico m ais um a vez apareceu e pousou em seu peito, a espécie de terror cego que nunca a abandonara, m esm o nos m elhores m om entos com ele. Veio à tona e dom inou-a; sentiu o m edo trem er em seu rosto, aparecendo tão claram ente que era fácil percebê-lo.

— Vam os até lá — disse Joe — e depois voltam os. Na volta, verem os o que você quiser.

Ele estava falando calm am ente, m as ainda com aquela falta de vida, com o se estivesse recitando.

— Não — disse ela.

— Ponha o vestido azul.

Ele m exeu nos em brulhos até encontrá-lo na caixa m aior. Cuidadosam ente, desam arrou o barbante, tirou o vestido e esticou o na cam a, sem pressa.

— Tá? Você vai ficar um estouro. Escuta, vam os com prar um a garrafa de uísque caro e levar conosco. O Vat 69.

Frank, pensou ela, socorro. Estou m etida em algo que não entendo.

— É m uito m ais longe do que você está pensando — respondeu ela. — Olhei no m apa. Vai ser bem tarde quando chegarm os lá, às onze e tanto ou depois da m eia-noite.

— Põe aquele vestido ou eu te m ato — disse ele. Fechando os olhos, ela com eçou a rir forçadam ente.

Meu treinam ento, pensou. Era verdade, afinal; agora vam os ver. Será que ele pode m e m atar, será que serei capaz de acertar um nervo em suas costas, o que o deixará paralisado pelo resto da vida? Mas ele lutou contra aqueles com andos ingleses; j á passou por isso, há m uitos e m uitos anos.

— Eu sei que você pode m e derrubar — disse Joe. — Ou talvez não.

— Derrubar, não — disse ela. — Aleij ar para o resto da vida. Posso m esm o. Morei na Costa Oeste. Os j aponeses m e ensinaram , lá em Seattle. Você pode ir a Chey enne se quiser e m e deixar aqui. Não m e force. Tenho m edo de você e vou reagir. — Sua voz enfraqueceu. — Se você se aproxim ar, vou tentar te m achucar m uito.

— Ah! Anda. Põe o m aldito vestido! Que história é essa? Você deve estar m aluca, falando em m atar e aleij ar, só porque quero que você entre no carro depois do j antar e suba a autobahn com igo para ver um suj eito cuj o livro você...

Bateram à porta. Joe foi até a entrada e abriu-a. Um m enino de uniform e, no corredor, disse:

— Serviço de lavanderia. O senhor cham ou a recepção.

— Ah, é — disse Joe, voltando até a cam a; apanhou as novas cam isas brancas que acabara de com prar e levou-as ao m enino. — Pode devolvê-las em m eia-hora?

— Só se for para passar as dobras — disse o m enino, exam inando-as. — Sem lavar. Sim , acho que dá, senhor.

— Com o é que você sabia que cam isa branca nova não se usa sem passar? — perguntou Juliana, enquanto Joe fechava a porta.

Joe não respondeu, contentando-se em sacudir os om bros.

— Eu tinha esquecido — disse Juliana. — E um a m ulher deve saber... quando a gente as tira do celofane, estão sem pre am assadas.

— Quando eu era m ais m oço costum ava m e vestir e sair m uito.

— Com o é que você sabia que o hotel tinha serviço de lavanderia? Eu não sabia. Será que você cortou e tingiu m esm o os cabelos? Acho que foram sem pre louros e que você estava era de peruca. É ou não é?

Novam ente ele deu de om bros.

— Você deve ser da S.D. — disse ela. — Fazendo o papel de italiano m otorista de cam inhão. Você nunca lutou no Norte da África, não é? Você tinha era que vir para cá m atar Abendsen, não é? Sei que é. Devo ser m eio burra m esm o.

Ela sentiu-se seca, vazia, sem graça. Após um intervalo, Joe respondeu:

— Claro que lutei no Norte da África. Só que não foi na artilharia de Pardi. Foi com os Brandenburgers. — acrescentou. — Wehrmacht kommando. Infiltrado no quartel-general inglês. Não vej o qual a diferença; tivem os bastante ação. E estive no Cairo; ganhei aquela m edalha e um a citação por heroísm o no cam po de batalha. Sou cabo.

— Aquela caneta é um a arm a? ele não respondeu.

— Um a bom ba — percebeu ela de repente, falando em voz alta. — Um a espécie de bom ba relógio, preparada para explodir quando for tocada.

— Não — disse ele. — O que você viu é um transm issor e receptor de dois watts. Para m e m anter em contato radiofônico. No caso de um a m udança de planos, considerando a situação política flutuante em Berlim .

— Você entra em contato com eles na hora de agir. Para ter certeza.

Ele assentiu.

— Você não é italiano; é alem ão!

— Suíço.

— Meu m arido é j udeu — disse ela.

— Pouco m e im porta o que seu m arido sej a. Eu só quero que você ponha aquele vestido e se arrum e para irm os j antar. Penteie o cabelo de qualquer m aneira; queria que tivesse ido ao cabeleireiro. Talvez o salão do hotel ainda estej a aberto. Você podia fazer isso enquanto espero as cam isas, faço a barba e tom o m eu chuveiro.

— Com o é que você vai m atá-lo?

— Por favor, ponha o vestido novo, Juliana — disse Joe. — Eu vou telefonar e perguntar pelo cabeleireiro.

Foi até o telefone.

— Por que você precisa que eu vá j unto?

— Tem os um a ficha de Abendsen e parece que ele é particularm ente atraído por certo tipo de m ulher m orena, sensual — respondeu Joe, discando. — Um tipo especificam ente levantino ou m editerrâneo.

Enquanto ele falava com o pessoal do hotel, Juliana foi até a cam a e deitou-se. Fechou os olhos e colocou um braço sobre o rosto.

— Eles têm um a cabeleireira sim — disse Joe, depois de desligar. — Ela pode atender você im ediatam ente. Vá até o salão, que fica na sobreloj a. — Entregou-lhe algo; abrindo os olhos viu tratar-se de m ais notas do Reichsbank. — Para pagá-la.

— Deixe-m e ficar aqui deitada, sim ? — disse ela.

— Por favor.

Ele fitou-a com um a expressão de profunda curiosidade e preocupação.

— Seattle é com o São Francisco seria — disse ela

— se não tivesse havido o Grande Incêndio. Velhos edifícios de m adeira, alguns de tij olos e tão cheia de subidas e descidas quanto São Francisco. Os j aponeses estão lá há m uito tem po, desde antes da guerra. Têm um quarteirão com ercial, casas, loj as e tudo o m ais, há m uito tem po. É um porto. O velhinho j aponês que m e ensinou isso — eu tinha ido para Seattle com um suj eito da Marinha Mercante e enquanto estava lá com ecei a aprender — cham ava-se Minoru Ichoy asu; andava de paletó e gravata. Era redondo com o um ioiô. Ensinava no andar de cim a de um edifício com ercial j aponês ; tinha aquelas letras douradas antigas na porta e um a sala de espera com o a de um dentista. Com núm eros do National Geographic Magazine.

Inclinando-se sobre ela, Joe puxou-a pelo braço e fez com que se sentasse. Sustentou-a e fê-la levantar-se.

— O que foi? Você parece doente.

Olhou o rosto dela, exam inando suas feições.

— Estou m orrendo — disse ela.

— É só um a crise de angústia. Você não tem sem pre? Vou te arrum ar um calm ante na farm ácia do hotel. Que tal fenobarbital? E não com em os nada desde as dez da m anhã. Você vai ficar logo boa. Quando chegarm os à casa de Abendsen, você não precisa fazer nada, a não ser ficar a m eu lado; eu falo. Basta sorrir e ser sim pática com igo e com ele; m antenha-se perto dele e converse, para que fique j unto de nós e não se afaste. Quando ele te vir sei que vai nos deixar entrar, especialm ente com o decote daquele vestido italiano. Até eu te deixava entrar, se fosse ele.

— Quero ir ao banheiro — disse ela. — Estou passando m al, por favor.

Lutou para se libertar.

— Estou m e sentindo m al. Me larga.

Ele soltou-a e ela atravessou o quarto até o banheiro ; fechou a porta.

Sou capaz de fazer, pensou ela. Acendeu a luz que a cegou m om entaneam ente. Piscou os olhos. Vou achar. Havia, no arm arinho de rem édios, em cim a da pia, um pacote de lâm inas de barbear, sabonete, pasta de dente, oferta do hotel. Abriu o pacote.

Com o fio só de um lado, com o esperava. Desem brulhou a lâm ina prêto-azulada, nova e coberta de graxa.

A água caía do chuveiro. Ela entrou... m eu Deus! estava de roupa. Estragada. O vestido colado no corpo. Os cabelos escorrendo. Horrorizada, ela tropeçou, quase caiu, procurando a saída. A água pingava pelas m eias... com eçou a gritar.

Joe encontrou-a em pé ao lado da privada. Tinha tirado a roupa m olhada, inutilizada; estava nua, apoiada num braço, encostada, descansando.

— Nossa Senhora — disse, quando percebeu que ele estava ali. — Eu não sei o que fazer. Meu vestido de j érsei está todo estragado. É de lã.

Ela apontou; ele virou e viu a pilha de roupa ensopada.

Muito calm am ente, m as com o rosto tenso, ele disse:

— Bom , em todo caso você não ia vestir isso.

Com um a toalha branca felpuda do hotel ele a enxugou e levou-a de volta ao quente e atapetado quarto de dorm ir.

— Vista a roupa de baixo, qualquer coisa. Vou cham ar a cabeleireira aqui; ela tem que vir, não tem j eito. Apanhou novam ente o telefone e discou.

— Que pílulas você m e arranj ou? — perguntou, quando ele acabou de telefonar.

— Esqueci de arranj ar. Vou ligar para a farm ácia. Não, espera; eu tenho algum a coisa. Nem butal, ou qualquer porcaria igual.

Correu até a m ala e com eçou a rem exer. Quando ele estendeu-lhe as duas cápsulas am arelas, ela disse:

— Vão dar cabo de m im ? Aceitou-as desaj eitadam ente.

— O quê? — disse ele, com o rosto contraído. Fazer apodrecer a parte de baixo do m eu corpo, pensou ela. Secar m inhas virilhas.

— Quero dizer — em endou ela, cautelosam ente — isso não vai m e dopar com pletam ente?

— Não, é um produto da A.G. Chemie, que nos dão lá. Eu tom o quando não consigo dorm ir. Vou te arranj ar um copo dágua, respondeu ele, saindo do quarto, apressado.

A lâm ina, pensou ela. Acho que eu engoli; vai com eçar a cortar m inhas entranhas irrem ediavelm ente. É castigo. Casada com um j udeu e am igada com um assassino da Gestapo. Sentiu as lágrim as virem novam ente aos olhos, fervendo. Por todos os m eus pecados. Arrasada.

— Vam os — disse ela, ficando de pé — à cabeleireira.

— Você não está vestida!

Ele sentou-a e tentou vestir-lhe as calcinhas m as sem sucesso. — Preciso m andar arrum ar teu cabelo — disse, num a voz desesperada. — Onde está aquela Hur, aquela m ulher?

Ela pôs-se a falar devagar e penosam ente:

— Cabelo cria urso que rem ove m anchas na nudez. Escondendo, sem pele para pendurar no gancho. O gancho de Deus. Cabelo, escuta, puta (*). As pílulas estão m e devorando. Essência de terebentina, na certa. Tudo isso se m istura para form ar um produto m ais corrosivo, que m e com erá as tripas para sem pre.

(*) Trata-se de um j ogo de palavras sem nexo, fruto de desarranj o m ental. O texto em inglês é o seguinte: "Hair creates bear who rem oves spots in nakedness. Hiding, no hide to be hung with a hook. The hook from God. Hair, hear, Hur. (N. do T.)

Fitando a com assom bro, Joe em palideceu. Deve estar lendo dentro de m im , pensou ela. Está lendo m inha m ente com sua m áquina, em bora eu não a encontre.

— Aquelas pílulas — disse ela. — Confundem tudo e m e fazem perder a cabeça.

— Você não as tom ou — disse ele apontando para a m ão dela, fechada; ela descobriu que ainda estavam lá. — Você está doente da cabeça.

Ele parecia lento e pesado, com o um a m assa inerte.

— Você está m uito doente. Não podem os ir.

— Nada de m édico — respondeu ela. — Vou ficar boa.

Tentou sorrir, olhando-o atentam ente para ver se, pela expressão do rosto dele, conseguira. Um a reflexão do seu cérebro apodrece m eus pensam entos.

— Não posso te levar à casa dos Abendsen — disse ele. — Pelo m enos não agora. Am anhã. Talvez você m elhore. Vam os tentar am anhã. Não há outro j eito.

— Posso ir até o banheiro, de novo?

ele assentiu, com o rosto tenso, m al ouvindo o que ela dizia. Ela voltou ao banheiro e novam ente fechou a porta. No arm arinho havia outra lâm ina, que segurou na m ão direita. Saiu de novo.

— Até loguinho — disse ela.

Quando ela abriu a porta do corredor, ele gritou, tentando agarrá-la, num gesto desesperado.

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— É horrível — disse ela. — Eles não respeitam nada. Eu devia saber.

Eu posso enfrentar batedores de carteira e assaltantes noturnos: claro que posso dom iná-los. Onde fora este? Deu-lhe um tapa no pescoço.

— Me deixe passar — disse ela. — Não m e barre o cam inho se não quiser um a lição.

Segurando a lâm ina, ela abriu a porta. Joe estava sentado no chão, com as m ãos crispadas na garganta.

— Adeus — disse ela e fechou a porta, cam inhando pelo corredor quente, atapetado.

Um a m ulher de avental branco, de cabeça baixa, cantando baixinho, em purrando um carrinho. Olhando os núm eros nas portas, chegou defronte de Juliana; a m ulher levantou a cabeça, seus olhos quase saltaram das órbitas e seu queixo caiu.

— Oh, m eu bem — disse ela — você está m esm o de pileque; você precisa m uito m ais que um a cabeleireira — entre aí no seu quarto e vista qualquer coisa antes que te ponham para fora do hotel. Meu Deus do céu!

Ela abriu a porta atrás de Juliana.

— Diga ao seu hom em que dê um j eito nesse pileque ; vou m andar trazer café quente. Agora, por favor, entre aí.

Em purrando Juliana de volta para o quarto, ela bateu a porta e ouviu-se o som do seu carrinho, afastando-se.

A cabeleireira, lem brou-se Juliana. Baixou os olhos e viu que estava sem roupa nenhum a; a m ulher tinha razão.

— Joe — disse ela. — Não querem m e deixar.

Ela encontrou a cam a, a m ala, abriu-a e espalhou as roupas. Calcinha, saia, blusa, sapatos baixos.

— Me fizeram voltar — disse ela. Encontrando um pente, passou-o rapidam ente pelo cabelo, depois escovou-o. — Que experiência! A m ulher estava ali fora, pronta para bater na porta.

Ficando de pé, foi procurar o espelho:

— Estou m elhor assim ?

O espelho estava na porta do arm ário; virando-se, observou-se, rodando, ficando na ponta do pé.

— Estou m orrendo de vergonha — disse ela voltando-se para olhá-lo. — Nem sei o que estou fazendo. Você deve ter m e dado algum a coisa; não sei o que foi, só m e fez piorar, em vez de aj udar.

Ainda sentado no chão, apertando o lado do pescoço, Joe disse:

— Escuta, você é ótim a. Cortou m inha aorta, a artéria do pescoço.

Rindo, ela deu um tapinha na própria boca.

— Meu Deus, com o você é um m onstro. Quero dizer, você erra as palavras todas. A aorta é no peito; você quer dizer a carótida.

— Se eu deixar — disse ele — vou m orrer de hem orragia dentro de dois m inutos. Você sabe m uito bem . De m odo que m e arranj a um socorro qualquer, um m édico ou um a am bulância. Está entendendo? Fez de propósito? Claro. Está bem ... vai cham ar ou buscar alguém ?

— Foi de propósito — disse ela, após ter refletido.

— Bom — disse ele. — Em todo caso, cham a alguém . Para m e aj udar.

— Vá você.

— Não consigo tapar inteiram ente.

O sangue escorria entre seus dedos, até o pulso, viu ela, fazendo um lago no chão.

— Não ouso m e m exer. Preciso ficar aqui.

Ela vestiu o casaco novo, fechou a bolsa nova de couro feita a m ão, apanhou a m ala e todos os pacotes dele que conseguiu carregar; tratou especialm ente de não esquecer a caixa grande com o vestido azul italiano cuidadosam ente dobrado no interior. Abriu a porta e voltou-se para ele.

— Talvez avise na m esa — disse ela. — Lá em baixo.

— Sim — respondeu ele.

— Está certo — confirm ou ela. — Vou avisá-los. Não m e procure no apartam ento de Canon City porque não pretendo voltar para lá. Estou com a m aior parte daquelas notas do Reichsbank, de m odo que estou bem , apesar de tudo. Adeus. Sinto m uito.

Ela fechou a porta e apressou-se corredor abaixo., arrastando a m ala e os em brulhos.

No elevador, um hom em de negócios idoso e bem vestido, acom panhado da esposa, aj udou-a a levar os em brulhos e, lá em baixo, entregaram tudo ao carregador.

— Obrigada — agradeceu-lhes Juliana.

Depois que o carregador levou sua m ala e em brulhos até a calçada da frente, ela encontrou um em pregado do hotel que lhe explicou com o apanhar o autom óvel. Logo ela estava na garagem fresca de concreto no subsolo do hotel, esperando enquanto um servente lhe trazia o Studebaker. Encontrou dinheiro trocado na bolsa e deu um a gorj eta ao rapaz; pouco depois estava subindo um a ram pa banhada por um a luz am arela e percorrendo um a rua escura apenas ilum inada pelos faróis dos autom óveis e anúncios lum inosos.

O porteiro uniform izado do hotel colocou pessoalm ente sua bagagem no carro, com um sorriso tão cordial e encoraj ador que ela lhe deu um a gorj eta enorm e antes de partir. Ninguém tentou im pedir sua partida, e isso a deixou assom brada; ninguém piscou. Na certa sabem que ele vai pagar, concluiu. Ou talvez j á o tenha feito quando nos registram os.

Enquanto ela esperava, com os outros carros, que m udasse o sinal, lem brou-se de que tinha esquecido de avisar na portaria que Joe estava sentado no chão do quarto precisando de um m édico. Esperando sentado, esperando até o dia de São Nunca, ou até o pessoal da lim peza aparecer am anhã a qualquer hora. É m elhor eu voltar, pensou, ou telefonar. Parar num a cabine telefônica.

É tão idiota, pensou enquanto guiava à procura de um lugar para estacionar e telefonar. Quem diria, um a hora atrás? Quando nos registram os, quando param os... nós íam os nos vestir e sair para j antar; podíam os até ter ido a um a boate. Reparou que tinha com eçado a chorar; lágrim as pingavam do nariz na blusa, enquanto guiava. Pena que eu não tenha consultado o oráculo; teria sabido e m e avisado. Por que não o fiz? Podia tê-lo interrogado a qualquer hora, em qualquer ponto da viagem ou até antes de partir. Com eçou a gem er sem querer; o ruído de um desespero até então para ela desconhecido horrorizou-a, m as não conseguia parar por m ais que cerrasse os dentes com força. Um lam ento chorado, gritado, cantado, apavorante, saindo pelo seu nariz.

Quando conseguiu estacionar, ficou sentada com o m otor ligado, trem endo, com as m ãos nos bolsos do casaco. Cristo, disse a si m esm a, na m aior fossa. Bom , são dessas coisas que acontecem , suponho. Saiu e tirou a bagagem da m ala do carro; no banco de trás, abriu-a e rem exeu roupas e sapatos até encontrar os dois volum es pretos do oráculo. Lá, no banco de trás, com o m otor ligado, com eçou a j ogar três m oedas do Estado das Montanhas Rochosas, à luz da vitrine de um a grande loj a. O que farei? perguntou. Diga-m e o que fazer; por favor.

O hexagram a quarenta e dois, o Acréscim o, com linhas m óveis no segundo, terceiro, quarto e no topo; m udando, portanto, para o hexagram a quarenta e três, a Travessia. Ela passou os olhos pelo texto com avidez, devorando as palavras, gravando na m ente as sucessivas etapas do seu significado, j untando e com preendendo. Incrível, descrevia a situação exatam ente — m ais um a vez um m ilagre.

Tudo o que havia acontecido estava ali, diante de seus olhos, reproduzido, esquem atizado.

É vantaj oso

Em preender algum a coisa.

É vantaj oso atravessar as grandes águas.

Um a viagem para fazer algum a coisa im portante, não ficar ali. Agora os versos. Seus lábios m exeram -se procurando...

Dez pares de tartarugas não podem se opor a ele.

Perseverança constante traz boa sorte.

O rei o apresenta diante de Deus.

Agora o seis no terceiro. Lendo, ficou tonta;

Som os enriquecidos por m aus acontecim entos.

Nenhum a culpa, se fores sincero.

E anda pelo m eio,

E apresente-se com um selo ao príncipe.

O príncipe... a profecia apontava para Abendsen. O selo, o novo exem plar do livro. Maus acontecim entos... o oráculo sabia o que lhe ocorrera, a coisa terrível com Joe ou quem fosse. Ela leu o seis no quarto

lugar:

Se andares pelo m eio

e te apresentares ao príncipe,

Ele seguirá.

Tenho que ir lá, pensou, m esm o que Joe venha atrás de m im . Devorou o últim o verso m óvel, o nove no alto:

Ele não aum enta ninguém .

Na verdade, alguém até o fere.

Ele não m antém seu coração constantem ente firm e.

Má sorte.

Meu Deus, pensou ela; isto quer dizer o assassino, o pessoal da Gestapo — está m e dizendo que Joe ou alguém igual ele, outro qualquer, vai chegar lá e m atar Abendsen. Rapidam ente, virou para o hexagram a quarenta e três. O j ulgam ento:

É preciso com decisão tornar o assunto conhecido

Na corte do rei.

Precisa ser anunciado honestam ente. Perigo.

É necessário inform ar a própria cidade.

Não é vantaj oso recorrer às arm as.

É vantaj oso em preender algum a coisa.

De m odo que não adianta voltar ao hotel e procurar saber de Joe; é inútil porque enviarão outros. Novam ente o oráculo diz, com m aior ênfase ainda- vá a Chey enne e avise Abendsen, por m ais perigoso que sej a para m im . Preciso levar-lhe a verdade.

Ela fechou o livro.

Tom ando novam ente a direção, m ergulhou no tráfego. Num instante achou o cam inho para deixar o centro de Denver e entrar na autobahn principal para o norte; ia no m áxim o de velocidade que o carro perm itia, o m otor fazendo um barulho estranho que sacudia o volante, o banco e sacudia as coisas no porta-luvas.

Que Deus sej a louvado por ter criado o doutor Todt e suas autobahns, disse a si m esm a enquanto voava pela escuridão, enxergando apenas seus faróis e as linhas dem arcadoras da estrada.

Às dez da noite, por causa de problem as com os pneus, ainda não alcançara Chey enne, de m odo que não havia m ais nada a fazer a não ser sair da estrada e procurar um lugar para pernoitar.

Um a placa de saída da autobahn, um pouco m ais adiante, dizia: GREELEY — CINCO MILHAS. Am anhã cedo recom eço, pensou, enquanto passava devagar pela rua principal de Greeley, alguns m inutos m ais tarde. Viu vários m otéis anunciando vagas, portanto não havia problem as. O que preciso fazer, resolveu, é ligar para Abendsen hoj e a noite e avisar que vou chegar.

Quando estacionou, desceu cansada, aliviada de poder esticar as pernas. O dia todo na estrada, das oito da m anhã em diante. Um bar aberto dia e noite podia ser avistado a poucos m etros; com as m ãos nos bolsos do casaco, dirigiu-se para ele e, logo, estava trancada na segurança de um a cabine telefônica, pedindo inform ações de Chey enne à telefonista.

O núm ero dele — graças a Deus — constava do catálogo. Colocou as m oedas e a telefonista fez a ligação.

— Alô — disse um a voz fem inina j ovem , vigorosa e bastante agradável; um a m ulher provavelm ente da sua idade.

— Mrs. Abendsen? — perguntou Juliana. — Posso falar com Mr. Abendsen?

— Quem está falando, por favor?

— Eu li o livro dele — respondeu Juliana — e vim de Canon City, Colorado, dirigindo o dia inteiro. Estou em Greeley agora. Pensei poder chegar aí hoj e à noite, a qualquer hora.

Passado um m om ento, Mrs. Abendsen disse, num a voz ainda agradável:

— Sim , é m uito tarde. Nós nos deitam os cedo. Tem algum a... razão especial para querer falar com m eu m arido? ele anda m uito ocupado agora...

— Queria falar com ele — disse ela.

Sua voz pareceu-lhe m onótona e sem ressonância; fitava a parede da cabine, sem encontrar m ais nada para dizer; seu corpo estava todo doído e sua boca m uito seca, com gosto de cabo de guarda-chuva. Do outro lado da cabine ela enxergava o balcão e o rapaz servindo milk-shakes a quatro adolescentes. Ela queria estar com eles; m al ouvia a resposta de Mrs. Abendsen. Sonhava com um a bebida gelada e algo com o um sanduíche de galinha para acom panhar.

— Hawthorne trabalha em horas irregulares — dizia Mrs. Abendsen com sua voz alegre, eficiente. — Se vier até aqui am anhã não posso lhe prom eter nada, porque talvez estej a ocupado o dia todo. Mas se você quiser correr o risco...

— Quero — interrom peu-a Juliana.

— Sei que terá prazer em conversar com você por alguns m inutos, se possível — continuou Mrs. Abendsen. — Mas, por favor, não fique desapontada se por acaso ele não puder deixar o trabalho nem para dar-lhe um a palavrinha ou vê-la.

— Lem os seu livro e gostam os — disse Juliana. Tenho-o aqui com igo.

— Com preendo — disse Mrs. Abendsen, de boa vontade.

— Nós param os em Denver para fazer com pras e perdem os m uito tem po. — Não, pensou ela; agora está tudo m udado, tudo diferente. — Ouça, o oráculo m e disse para ir a Chey enne.

— Minha Nossa... — disse Mrs. Abendsen, que parecia saber algo do oráculo, m as não estar levando a situação m uito a sério.

— Vou ler os versos.

Tinha levado o oráculo para dentro da cabine; apoiando os volum es na prateleira sob o telefone, com eçou a virar as páginas com dificuldade.

— Um m inuto.

Localizou a página e leu para Mrs. Abendsen prim eiro o j ulgam ento e depois os versos. Quando chegou ao nove, no alto, ouviu Mrs. Abendsen soltar um a exclam ação.

— Com o? — disse Juliana, interrom pendo-se.

— Continue — respondeu Mrs. Abendsen. Parecia a Juliana que seu tom era, agora, m ais cortante, m ais aberto.

Depois que Juliana leu o j ulgam ento do hexagram a quarenta e três, contendo a palavra perigo, fez-se silêncio. Mrs. Abendsen e Juliana nada disseram .

— Bem , estou ansiosa por recebê-la am anhã — disse Mrs. Abendsen, finalm ente. — Pode dizer-m e seu nom e, por favor?

— Juliana Frink. Muito obrigada, Mrs. Abendsen.

A telefonista com eçou nesse instante a reclam ar por que acabara o tem po, de m odo que Juliana desligou, apanhou a bolsa e os volum es do oráculo, saiu da cabine telefônica e dirigiu-se ao bar.

Depois de ter pedido um sanduíche e um a coca-cola, e ficar sentada descansando e fum ando um cigarro, lem brou-se de que nada dissera a Mrs. Abendsen sobre o hom em da Gestapo ou da S. D. ou o que fosse, o tal de Joe Cinadella, que ela deixara no hotel de Denver. Mal podia acreditar. Esqueci! disse para si m esm a. Apagou-se inteiram ente da m inha m em ória. Com o pôde acontecer? Devo estar m aluca; devo estar m uito doente, burra e m aluca.

Mexeu na bolsa por um m om ento, tentando encontrar troco para outro telefonem a. Não, resolveu, levantando-se do banquinho. Não posso cham á-los de novo hoj e à noite; vou deixar isso para lá — é tarde dem ais. Estou cansada e j á devem estar dorm indo a estas horas. Com eu seu sanduíche de salada de galinha, bebeu sua coca, depois dirigiu até o m otel m ais próxim o, alugou um quarto e caiu na cam a, ainda trêm ula.