O Homem do Castelo Alto

Philip K. Dick · Capítulo 4 de 16

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O Homem do Castelo Alto

Capítulo 3

Ao CAIR DA TARDE, olhando para cim a, Juliana Frink viu o ponto de luz no céu subir em arco e desaparecer a oeste. Um daqueles foguetes nazistas, pensou. Rum o à Costa. Cheio de figurões. E eu estou aqui em baixo. Acenou com a m ão, em bora o foguete naturalm ente j á tivesse passado.

As som bras avançavam vindas das Montanhas Rochosas. Picos azuis sum indo na noite. Um bando de pássaros lentos, m igratórios, acom panhava, a linha das m ontanhas. Aqui e ali um carro acendia os faróis; viu pontos gêm eos na estrada. Luzes, tam bém , de um posto de gasolina. Casas.

Já vivia ali em Canon City , Colorado, havia alguns m eses. Era professora de j udô.

Seu dia de trabalho term inara e preparava-se para tom ar um a chuveirada. Sentia-se cansada. Todos os chuveiros estavam ocupados pelos clientes do Ray’s Gym, de m odo que ela ficara em pé, esperando lá fora, saboreando o ar fresco e a quietude da m ontanha. A única coisa que ouvia agora era o som abafado da lanchonete no fim da rua, à beira da estrada. Dois enorm es cam inhões diesel estavam parados e entrevia, na penum bra, os choferes que cam inhavam vestindo suas j aquetas de couro antes de entrar na barraca.

Ela pensou: não foi Diesel quem se atirou pela escotilha do cam arote? Quem tentou o suicídio num a viagem m arítim a? Talvez eu devesse fazer o m esm o. Mas ali não havia m ar. No entanto há sem pre um j eito. Com o em Shakespeare. O alfinete de um broche espetado no peito e adeus Frink. A garota que não tem m edo de vagabundar no deserto. Que anda de cabeça erguida, consciente das diversas form as de pressionar o nervo do adversário ofegante. Em vez disso, poderia m orrer, digam os, aspirando o gás da descarga de um carro na estação rodoviária, talvez com um canudo com prido.

Aprendera aquilo, pensou, com os j aponeses. Eles lhe ensinaram a atitude de calm a diante da m orte, j untam ente com o m eio de ganhar dinheiro com o j udô. Com o m atar, com o m orrer. Yang e yin. Mas isso agora pertence ao passado, aqui é terra protestante.

Era bom ver os foguetes nazistas passarem sem parar, sem o m enor interesse por Canon City , Colorado. Nem por Utah, Wy om ing, nem pela região leste do Nevada, nem por nenhum dos estados cobertos de desertos ou de pastagens. Não valem os nada, pensou. Podem os viver nossas vidinhas. Se quiserm os. Se nos interessar.

Ouviu abrir a porta de um dos chuveiros. A im agem da enorm e Miss Davis apareceu, term inado seu banho, vestiu-se, pôs a bolsa debaixo do braço.

— Oh, estava esperando, Mrs. Frink? Desculpe.

— Nada a desculpar — disse Juliana.

— Sabe, Mrs. Frink, tenho aproveitado tanto o j udô. Mais ainda que o Zen. Queria dizer-lhe.

— Afine os quadris pelo m étodo Zen — disse Juliana. — Perca peso sem dor com o satori. Desculpe, Miss Davis. Ando com a cabeça m eio confusa.

Miss Davis disse:

— Fizeram -lhe m uito m al?

— Quem ?

— Os j aponeses. Antes de você aprender a se defender.

— Foi terrível — disse Juliana. — Você nunca esteve lá, na Costa Oeste. Onde eles estão.

— Nunca saí do Colorado — disse Miss Davis, com voz trêm ula de tim idez.

— Pode acontecer aqui — disse Juliana. — Talvez resolvam ocupar esta região tam bém .

— Não depois de tanto tem po!

— Nunca se sabe o que vão fazer — disse Juliana. — Escondem seus verdadeiros pensam entos.

— O que foi forçada a fazer?

Miss Davis, apertando a bolsa contra o peito com os dois braços, aproxim ou-se, no crepúsculo, para ouvir.

— Tudo — disse Juliana.

— Nossa Senhora! Eu teria reagido — disse Miss Davis.

Juliana pediu licença e entrou no chuveiro; alguém se aproxim ava de toalha no braço.

Mais tarde, sentada no Tasty Charley's Broiled Hamburgers, passou os olhos pela lista dos sanduíches. O jukebox tocava um a m úsica caipira qualquer, guitarra e cantoria soluçantes... O ar estava pesado de fum aça gordurosa. Apesar disso, o local estava quente e alegre e reconfortou-a. Gostava da presença dos choferes no balcão, da garçonete, do im enso cozinheiro irlandês com seu casaco branco, dando troco na caixa.

Ao vê-la, Charley aproxim ou-se para servi-la pessoalm ente. Mostrando os dentes, falou arrastado:

— Missy quer chá agora?

— Café — disse Juliana, aturando o incansável hum or do cozinheiro.

— Tá bem — disse Charley , balançando a cabeça.

— E um sanduíche quente de filé com m olho.

— Não quer sopa ninho-de-rato? Ou talvez m iolos de cabra fritos no azeite?

Os dois m otoristas de cam inhão voltaram -se nos tam boretes, rindo tam bém da piada. Além disso, tinham prazer em olhá-la. Mesm o sem a brincadeira do cozinheiro, teria sido olhada pelos m otoristas. Aqueles m eses de j udô lhe haviam dado um físico excepcional; sabia o quanto fora beneficiada e o controle que tinha do seu corpo.

É tudo conseqüência dos m úsculos do om bro, pensou, ao ser olhada. Com o nas bailarinas. Nada tem que ver com tam anho. Mandem suas esposas à academ ia e nós as ensinarem os. E vocês ficarão m uito m ais satisfeitos com a vida.

— Não cheguem perto dela — o cozinheiro avisou aos m otoristas com um a piscada. — É capaz de atirá-los no chão.

Ela perguntou ao m otorista m ais j ovem :

— Você está vindo de onde?

— Missouri — responderam os dois, ao m esm o tem po.

— São dos Estados Unidos? — perguntou.

— Eu sou — disse o m ais velho. — De Filadélfia. Tenho três filhos lá. O m ais velho com onze anos.

— Olhem — disse Juliana: — É... fácil conseguir um bom em prego lá?

O m ais m oço disse:

— Claro. Se você tiver a cor certa.

Ele tinha o rosto escuro, os cabelos negros crespos. Sua expressão tornara-se am arga e contraída.

— Ele é carcamano — disse o m ais velho.

— E daí? — disse Juliana. — A Itália não ganhou a guerra?

Ela sorriu ao j ovem m as ele não retribuiu. Em lugar disso, seus olhos som brios puseram -se a brilhar ainda m ais intensam ente e de repente afastou-se.

Sinto m uito, pensou ela, m as não disse nada. Não posso evitar que você nem ninguém sej am m orenos. Pensou em Frank. Im aginou se j á teria m orrido. Nunca falava o que devia e sem pre fora de hora. Não, pensou. De um a certa form a, ele gosta dos j aponeses. Talvez se identifique com eles porque são feios. Ela sem pre dissera a Frank que ele era feio. Poros dilatados. Narigão. Ela tinha pele fina, excepcional. Será que, sem m im , ele m orreu? Um alcagüete é um a espécie de pássaro (*). E dizem que pássaros m orrem .

(*) Tradução aproxim ada. O texto é: A fink (alcagüete) is a finch (tentilhão). And they say birds die. (N. da E.)

— Você vai voltar à estrada hoj e à noite? — perguntou ao j ovem m otorista italiano.

— Am anhã.

— Se você não se sente feliz nos Estados Unidos, por que não fica aqui de um a vez? — perguntou ainda. — Eu vivo nas Rochosas há m uito tem po e não é tão ruim . Já m orei na Costa, em São Francisco. Eles lá tam bém têm esse negócio de cor de pele.

Olhando-a de relance, do banquinho no qual se instalara com odam ente, o italiano disse:

— Madam e, j á é bastante chato ter que passar um dia ou um a noite num a cidade dessas. Morar aqui? Nossa Senhora! Se eu pudesse conseguir um outro tipo de em prego qualquer e não tivesse que estar nesta estrada com endo em lugares com o este...

Notando que o cozinheiro ficara verm elho, parou de falar e com eçou a tom ar o seu café. O m otorista m ais velho disse:

— Joe, você é um esnobe.

— Você podia viver em Denver — disse Juliana. — É m ais agradável que aqui.

Conheço esses am ericanos do Leste, pensou. Gostam da vida folgada. Fantasiando grandes coisas. Aqui é o fim do m undo para eles, as Rochosas. Nada acontece aqui desde antes da guerra. Gente velha, aposentada, fazendeiros burros, retardados, pobres... e todos os rapazes espertos partiram para o Leste, para Nova York, atravessando a fronteira, legalm ente ou não. Porque, pensou, é lá que está o dinheiro, o abundante dinheiro da grande indústria. A expansão. Os investim entos alem ães foram de grande aj uda... Não tardaram a reconstruir os Estados Unidos.

O cozinheiro disse num a voz rouca e zangada:

— Meu chapa, não gosto nada de j udeus, m as vi alguns deles fugindo dos seus Estados Unidos em 49 e você pode, portanto, ficar com os seus Estados Unidos. Se construíram m uito e se há m uito dinheiro sobrando por lá é porque roubaram tudo daqueles j udeus quando

OS expulsaram de Nova York, com aquela m aldita Lei Nazista de Nurem berg. Morei em Boston quando era m enino e não m orria de am ores pelos j udeus, m as nunca pensei que chegaria a ver aquela lei racial nazista aplicada nos Estados Unidos, m esm o tendo perdido a guerra. Surpreende-m e você não estar nas Forças Arm adas Am ericanas, preparando-se para invadir um a republiqueta sul-am ericana, abrindo um a nova frente para os alem ães, perm itindo-lhes fazer recuar os j aponeses m ais um pouco...

Os dois m otoristas se levantaram , de cara fechada. O m ais velho apanhou um vidro de ketchup do balcão, que segurou de cabeça para baixo pelo gargalo. O cozinheiro, sem deixar de enfrentar os dois, estendeu a m ão atrás das costas até tocar um dos espetos de carne. Em punhou-o, preparado.

Juliana disse:

— Denver vai ter um a daquelas pistas com grande resistência ao calor para que os foguetes da Lufthansa possam pousar.

Nenhum dos três hom ens m oveu-se ou falou. Os outros fregueses ficaram sentados em silêncio. Finalm ente o cozinheiro disse:

— Passou um hoj e de tarde.

— Não estava indo para Denver — disse Juliana. — Estava indo para o Oeste, para a Costa.

Aos poucos, os dois m otoristas retom aram seus lugares. O m ais velho resm ungou:

— Sem pre m e esqueço; são m eio am arelos aqui. O cozinheiro disse:

— Os j aponeses não m ataram j udeus, nem durante nem depois da guerra. Os j aponeses não construíram fornos crem atórios.

— É pena que não o tenham feito — disse o m ais velho.

Mas, segurando a xícara de café, recom eçou a com er.

Am arelos, pensou Juliana. É, suponho que sej a verdade. Nós aqui gostam os dos j aponeses.

— Onde está hospedado? — perguntou a Joe, o m otorista m ais m oço. — Para passar a noite?

— Não sei — respondeu. — Saí do cam inhão para entrar aqui. Detesto este Estado inteiro. Talvez durm a, no cam inhão.

— O Honey Bee Motel não é m au — disse o cozinheiro.

— Tá — disse o j ovem . — Talvez eu vá pra lá. Se: não se incom odarem por eu ser italiano.

Ele tinha o sotaque carregado, em bora tentasse disfarçar.

Observando-o, Juliana pensou: é idealism o o que O' faz tão am argo. Exigir dem ais da vida. Sem pre em m ovim ento, inquieto e aflito. Eu tam bém sou assim ; não agüentava m ais ficar na Costa Oeste e daqui a pouco não agüento m ais ficar aqui. Os pioneiros não eram assim ? Mas, pensou, agora a fronteira não fica aqui; fica nos outros planetas.

Pensou: eu e ele podíam os nos engaj ar num foguete colonizador. Mas os alem ães não o aceitariam por causa de sua pele m orena e a m im por m eu cabelo escuro. Aqueles SS nórdicos, bichas, m agros e pálidos, nos seus castelos de treinam ento na Baviera. Este suj eito — Joe não sei o quê — não tem nem m esm o a expressão correta no rosto; devia ter aquela expressão fria e contudo entusiasta de quem não crê em nada e assim m esm o tem fé absoluta. Sim , eles são assim . Não são idealistas feito Joe e eu; são cínicos dotados de um a fé total. É um a espécie de deficiência cerebral, com o um a lobotom ia — aquela m utilação que os psiquiatras alem ães fazem e que é um m iserável sucedâneo da psicoterapia.

O problem a deles, concluiu, é o sexo; nos anos 30 j á praticavam coisas infam es e isso tem piorado. Hitler foi o iniciador com sua — o que era? Sua irm ã? Tia? Sobrinha? E a fam ília j á sofria de consangüinidade; seus pais eram prim os. Estão todos praticando incesto, voltando ao pecado original de desej ar as próprias m ães. É por isso que eles, as bichas da elite do SS, têm aquele risinho angelical, aquela inocência loura de bebê; estão se guardando para a m am ãe. Ou para os cam aradas.

E quem é m am ãe para eles? pensou ela. O líder, Herr Borm ann, que dizem estar m orrendo? Ou... o Doente.

O Velho Adolf, que se supõe estar num sanatório em algum a parte, num estado senil. Sífilis cerebral, datando de seus dias m iseráveis de vagabundo em Viena... casacão preto com prido, cuecas suj as, abrigos para m endigos.

Obviam ente, era a vingança irônica de Deus, com o num film e m udo. Aquele hom em horrível com ido por um a suj eira interna, o castigo histórico para a m aldade hum ana.

E o pior era que o Im pério Alem ão atual era um produto daquele cérebro. No início um partido político, depois um a nação, depois m etade do m undo. E os próprios nazistas haviam diagnosticado, haviam reconhecido, aquele curandeiro que cuidou de Hitler com plantas, aquele Dr. Morell que tratou Hitler com um rem édio cham ado Pílulas Antigas do Dr. Koester — fora inicialm ente especialista em doenças venéreas. O m undo inteiro sabia e, m esm o assim , o falatório do Líder ainda era sagrado, ainda era o Evangelho. Suas idéias j á tinham agora contam inado um a civilização inteira e, com o esporos do m al, as bichas louras cegas voavam da Terra aos outros planetas, espalhando a infecção.

Resultado do incesto: loucura, cegueira, m orte.

Brr. Sacudiu-se.

— Charley — Juliana cham ou o cozinheiro. — Minha com ida não está pronta?

Sentiu-se totalm ente só; ficando de pé foi até o balcão e sentou-se ao lado da caixa.

Ninguém reparou seu m ovim ento a não ser o j ovem ^ m otorista italiano; seus olhos negros fixaram -se nela. Cham ava-se Joe. Joe o quê? ela se perguntou.

Agora m ais perto dele, viu que não era tão m oço assim . Difícil dizer: a energia que em anava dele perturbava-lhe o j ulgam ento. A toda hora passava a m ão pelos cabelos, em purrando-os para trás com dedos curvos e rígidos. Há algum a coisa de especial neste hom em , pensou. Ele respira... m orte. Perturbava-a, porém a atraía. Agora o m otorista m ais velho inclinou a cabeça e sussurrou algo no ouvido dele. Então os dois exam inavam -na, desta vez com um olhar que era apenas o interesse m asculino com um .

— Miss — disse o m ais velho. Os dois estavam tensos, agora. — Sabe o que é isto?

Mostrou um a caixa branca, chata, não m uito grande.

— Sei — disse Juliana. — Meias de nylon. Fibra sintética feita unicam ente pela I.G. Farbeno, grande cartel de Nova York. Muito raras e caríssim as.

— Devem os isso aos alem ães; m onopólio não é m á idéia.

O m ais velho passou a caixa ao com panheiro, que em purrou-a com o cotovelo em direção dela.

— A senhora tem carro? — perguntou o j ovem italiano, tom ando seu café.

Charley saiu da cozinha, trazendo a com ida dela.

— Você podia m e levar àquele lugar. — Os olhos fortes, selvagens, ainda a estudavam e ela ficou cada vez m ais nervosa e ainda m ais fascinada. — Aquele m otel, ou não sei o quê, onde deverei passar a noite, não é?

— Sim — disse ela. — Eu tenho um carro. Um velho Studebaker.

 

O alto-falante no fundo do corredor disse: Achtung, meine Damen und Herren. Na sua poltrona, Mr. Bay nes teve um sobressalto e abriu os olhos. Através da j anela à sua direita podia ver, m uito abaixo, o castanho e verde da terra, e depois o azul. O Pacífico. O foguete, percebeu, com eçara sua longa e vagarosa descida.

Prim eiro em alem ão, depois em j aponês e por fim em inglês, o alto-falante explicou que não era perm itido fum ar nem desam arrar-se do assento acolchoado. A descida, explicou, levaria oito m inutos.

Os retro-j atos foram ativados então, tão de repente e com tam anha violência, sacudindo a nave de tal form a, que diversos passageiros tiveram a respiração cortada. Mr. Bay nes sorriu e, na poltrona do outro lado da passagem , um hom em m ais j ovem , com cabelos louros cortados rente, tam bém sorriu.

— Sie fürchten dasz — com eçou o j ovem , m as Mr. Bay nes disse im ediatam ente, em inglês:

— Desculpe; não falo alem ão.

O j ovem alem ão fitava-o com um a indagação nos olhos, de m odo que repetiu a frase em inglês.

— Não alem ão? — disse o j ovem surpreendido, num inglês com sotaque.

— Sou sueco — disse Bay nes.

— Em barcou em Tem pelhof.

— Sim , estive na Alem anha a serviço. Meus negócios m e levam a m uitos países.

Obviam ente, o j ovem alem ão não podia acreditar que alguém no m undo m oderno, alguém que tinha negócios internacionais e viaj ava — podia dar-se ao luxo de viaj ar — no m ais recente foguete da Lufthansa, não soubesse ou não quisesse falar alem ão. Virou-se para Bay nes:

— Qual seu ram o de negócios, mein Herr?

— Plásticos. Poliéster. Resinas. Ersatz para usos industriais. Com preende? Nenhum produto de consum o.

— A Suécia tem um a indústria de plásticos? O tom era de incredulidade.

— Sim , e m uito boa. Se m e der seu nom e enviar-lhe-ei um folheto da firm a. — Mr. Bay nes tirou bloco e caneta.

— Não se preocupe. Seria inútil. Sou artista, não hom em de negócios. Não se ofenda. Talvez tenha visto m eus trabalhos quando esteve no Continente. Alex Lotze.

Esperou.

— Lam ento m as não m e interesso por arte m oderna — disse Br. Bay nes. — Gosto dos cubistas e abstratos de antes da guerra. Gosto de um quadro que signifique algum a coisa, não apenas um ideal.

Voltou-se para o lado.

— Mas é esta a tarefa da arte — disse Lotze. — Fazer progredir a espiritualidade do hom em além do sensível. — Sua arte abstrata representava um período de decadência espiritual, de caos espiritual, devido à desintegração da sociedade, a velha plutocracia. Os m ilionários j udeus e capitalistas, o international set, que sustentavam a arte decadente. Aqueles tem pos passaram ; a arte tem que continuar — não pode ficar parada.

Bay nes assentiu com a cabeça, olhando para fora da j anela.

— Já esteve no Pacífico? — perguntou Lotze.

— Diversas vezes.

— Eu não. Está havendo em São Francisco um a exposição de m eus trabalhos, organizada pelo escritório do Dr. Goebbels em colaboração com as autoridades j aponesas. Um intercâm bio cultural para prom over com preensão e boa vontade. Precisam os aliviar as tensões entre

o Oriente e o Ocidente, não concorda? É preciso ter m ais com unicação e a arte pode ser o m eio.

Bay nes fez que sim com a cabeça. Abaixo, além do anel de fogo do foguete, podia ver agora a baía e a cidade de São Francisco.

— Onde se com e em São Francisco? — perguntou Lotze. — Eu tenho reserva no Palace Hotel, m as ouvi falar que se com e bem no setor internacional, com o em Chinatown.

— É verdade — disse Bay nes.

— E os preços são altos em São Francisco? Estou m eio sem dinheiro nesta viagem . O Ministério é m uito econôm ico.

Lotze riu.

— Depende do câm bio que você conseguir. Im agino que estej a trazendo letras de câm bio do Reichsbank. Sugiro que vá ao Banco de Tóquio em Sam son Street e troque lá.

— Dank sehr- — disse Lotze. — Eu teria trocado no hotel.

O foguete havia quase pousado. Agora Bay nes podia ver a própria pista, os galpões, os estacionam entos, a autobahn para a cidade, as casas... Linda vista, pensou. Montanhas e água, e restos de neblina flutuando pelo Golden Gate.

— O que é aquela enorm e estrutura ali em baixo? — perguntou Lotze. — Está sem i-acabada, aberta de um lado. Um espaçoporto? Pensei que os nipônicos não tivessem espaçonaves.

Com um sorriso, Bay nes disse:

— Aquele é o Golden Poppy Stadium. Cam po de baseball.

Lotze riu.

— Sim , eles adoram beiseball. Incrível. Com eçaram a construir aquela im ensa estrutura para um passatem po, um esporte inútil, um a perda de tem po...

Interrom pendo, Bay nes disse:

— Está pronta. Aquela é a form a perm anente.. Aberta de um lado. Um novo desenho arquitetônico. Orgulham -se dele.

— Parece — disse Lotze olhando para baixo — ter sido desenhado por um j udeu.

Bay nes fitou o suj eito durante alguns segundos. Sentiu, intensam ente, por um m om ento, o desequilíbrio, o traço psicótico da m ente germ ânica. Será que Lotze queria m esm o dizer aquilo? Seria um com entário realm ente espontâneo?

— Espero que nos encontrem os depois em São Francisco — disse Lotze, enquanto o foguete tocava o chão. — Ficarei perdido sem um conterrâneo com quem conversar.

— Não sou conterrâneo seu — disse Bay nes.

— Ah, sim , é verdade. Mas, racialm ente, está m uito próxim o. Para todos os efeitos, dá na m esm a.

Lotze com eçou a agitar-se na poltrona, preparando-se para desam arrar os com plicados cinturões.

Estou racialm ente próxim o deste hom em ? — perguntou-se Bay nes. Tão próxim o que, para todos os efeitos, dá na m esm a? Então tam bém possuo o traço psicótico. O m undo psicótico em que vivem os. Os loucos estão no poder. Há quanto tem po sabem os disto? Encaram os isto? E... quantos de nós sabem ? Lotze não. Talvez se a gente souber que é louco então não estej a louco. Ou está, finalm ente, deixando de ser. Acordando. Suponho que apenas poucos tenham consciência disto. Pessoas isoladas, aqui e ali. Mas as grandes m assas... o que pensam ? As centenas de m ilhares de pessoas aqui nesta cidade. Será que im aginam que vivem num m undo são? Ou adivinham , entrevêem , a verdade...?

Mas, pensou, o que significa louco? Um a definição legal. O que quero dizer com isso? Eu sinto, vej o, m as o que é?

É algum a coisa que eles fazem , algum a coisa que são. É seu inconsciente. Sua falta de conhecim ento dos outros. Não sabem o que fazem aos outros, desconhecem a destruição que causaram e estão causando. Não, pensou. Não é isso. Eu não sei; sinto, tenho a intuição. Mas... são deliberadam ente cruéis... é isso? Não. Meu Deus, pensou. Não consigo encontrar, esclarecer. Será que ignoram partes da realidade? Sim . Mas é m ais do que isso. São seus planos. Sim , seus planos. A conquista dos planetas. Algo frenético, dem ento, com o a conquista da África e, antes disso, Europa e Ásia.

Sua visão: é cósm ica. Não um hom em aqui, um a criança ali, m as um a abstração: i-aça, terra. Volk. Land. Blut. Ehre. Não hom ens honrados, m as Ehre em si, honra: o abstrato é real, o real c invisível para eles. Die Güte, m as não hom ens bons, este hom em bom . É seu sentido de espaço e tem po. Enxergam além do aqui, do agora, no vasto, negro e profundo além , o im utável. E isto é fatal à vida. Porque conseqüentem ente não haverá m ais vida; houve um dia em que o espaço era só partículas de poeira, gases quentes de hidrogênio, m ais nada e será assim outra vez. Isto é um intervalo, ein Augenblick. O processo cósm ico está se acelerando, fazendo a vida retroceder ao granito e ao m etano; a roda gira para toda vida. Tudo é tem porário. E estes — estes loucos — obedecem ao granito, ao pó, ao apelo do inanim ado; querem auxiliar a Natur.

E, pensou, eu sei por quê. Querem ser os m otores da história, não as vítim as. Identificam -se com o poder de Deus e acreditam -se a sua im agem . É esta sua loucura básica. Foram dom inados por algum arquétipo; seus egos expandiram -se psicòticam ente ao ponto de não saberem onde eles com eçam e onde pára a essência divina. Não é orgulho; é um a hipertrofia do ego levado ao seu m áxim o — confusão entre quem adora e quem é adorado. O hom em não devorou Deus; Deus devorou o hom em . O que não com preendem é a fragilidade do hom em . Eu sou fraco, pequeno, sem a m enor im portância diante do universo. Não sou notado dentro dele; vivo sem ser visto. Mas por que isto é m au? Não é m elhor assim ? Quem cham a a atenção dos deuses é destruído. Sej a pequeno... e escape à invej a dos grandes.

Enquanto soltava seu cinto de segurança, Hay nes disse:

— Mr. Lotze, eu nunca disse isso a ninguém . Eu sou j udeu. Com preende?

Lotze fitou-o com com paixão, fixam ente.

— O senhor nunca descobriria — disse Bay nes — porque não tenho nenhum traço físico de j udeu; alterei m eu nariz, dim inuí m eus grandes poros gordurosos, clareei m inha pele quim icam ente, m odifiquei a form a de m eu crânio. Em sum a, fisicam ente não posso ser descoberto. Posso e tenho freqüentado as rodas m ais altas da sociedade nazista. Ninguém m e descobrirá. E...

Parou, chegando perto, bem perto de Lotze e falando num a voz baixa que só Lotze podia ouvir:

— Há outros de nós. Está ouvindo? Nós não m orrem os. Ainda existim os. Vivem os invisíveis.

Após um m om ento Lotze balbuciou:

— A Polícia de Segurança...

— O D.S. pode exam inar m inha ficha — disse Bay nes. — Você pode m e denunciar. Tenho relações nos altos círculos. Alguns são arianos, outros são j udeus em posições im portantes em Berlim . Sua denúncia não será levada a sério e depois eu o denunciarei. E através destas m esm as relações, farei com que o m etam em prisão preventiva.

Sorriu, inclinou a cabeça e seguiu pelo corredor da nave, afastando-se de Lotze para j untar-se aos outros passageiros.

Todos desceram a ram pa para a pista fria e

batida de vento. Em baixo, Bay nes m om entaneam ente viu-se outra vez perto de Lotze.

— Na realidade — disse Bay nes, andando ao lado dele — eu não gostei da sua cara, Mr. Lotze, por isso acho que o denunciarei de qualquer form a.

Afastou-se, então, deixando Lotze para trás.

Na extrem idade da pista, no portão de entrada, havia um grande núm ero de pessoas esperando. Parentes, am igos dos passageiros, alguns acenando, buscando, sorrindo, ansiosos, perscrutando rostos. Um j aponês corpulento, de m eia-idade, bem vestido num sobretudo inglês, sapatos pontudos Oxford, chapéu-coco, estava um pouco à frente dos outros, com um j aponês m ais m oço ao seu lado. Na lapela usava o im portante distintivo da Missão Com ercial do Governo Im perial para o Pacífico. Ei-lo, percebeu Bay nes. Mr. N. Tagom i, vindo pessoalm ente para receber-m e.

Adiantando-se, o j aponês cham ou:

— Herr Bay nes... boa-noite Sua cabeça inclinou-se hesitante.

— Boa noite, Mr. Tagom i — disse Bay nes, estendendo a m ão.

Cum prim entaram -se, depois inclinaram -se. O j aponês m ais j ovem tam bém inclinou-se, sorrindo.

— Faz um pouco de frio, senhor, nesta pista aberta — dis.se Mr. Tagom i. — Iniciarem os a viagem de volta ao centro da cidade no helicóptero da Missão. Está bem ? Ou precisa fazer algum a coisa?

Exam inou o rosto de Mr. Bay nes com ansiedade.

— Podem os partir j á — disse Bay nes. — Quero ver se o hotel está reservado. Minha bagagem , contudo...

— Mr. Katom ichi cuidará disso — disse Mr. Tagom i. — Ele virá depois. Sabe, senhor, nesta estação term inal é preciso quase um a hora de fila para retirar a bagagem . Mais do que a viagem .

Mr. Katom ichi sorriu sim pàticam ente.

— Está bem — disse Bay nes. Mr. Tagom i disse:

— Tenho um presente para o senhor.

— Com o? — disse Bay nes.

— Para atrair suas boas graças.

Mr. Tagom i pôs a m ão no bolso do sobretudo e extraiu um a pequena caixa.

— Escolhido entre os m ais finos objets d’art da Am érica.

Ofereceu a caixa.

— Bem — disse Bay nes. — Obrigado. Aceitou a caixa.

— Durante um a tarde inteira, diversos funcionários com petentes exam inaram todas as possibilidades — disse Mr. Tagom i. — Este é o m ais autêntico obj eto da velha e m oribunda cultura am ericana, artigo raro conservando o sabor de passados dias tranqüilos.

Mr. Bay nes abriu a caixa. Na alm ofada de veludo preto repousava um relógio de pulso Mickey Mouse.

Será que Mr. Tagom i estava pregando-lhe um a peça? Levantou os olhos e viu a fisionom ia tensa, preocupada, de Mr. Tagom i. Não, não era brincadeira.

— Muito obrigado — disse Bay nes. — lato é realm ente incrível.

— Apenas existem alguns poucos, talvez uns dez autênticos relógios Mickey Mouse 1938 no m undo inteiro hoj e — disse Mr. Tagom i, estudando seu rosto, absorvendo sua reação, sua apreciação. — Não conheço nenhum colecionador que tenha um , senhor.

Entraram na estação term inal e subiram j untos a ram pa.

Atrás deles, Mr. Katom ichi dizia:

— Harusame ni nuretsutsu yane no temari kana...

— Que foi? — disse Mr. Bay nes a Mr. Tagom i.

— Um velho poem a — disse Mr. Tagom i. — Do período m édio Tokugawa.