O Homem do Castelo Alto
Capítulo 15
O CAPITÃO Rudolf Wegener, que no m om ento viaj ava sob o nom e de Conrad Goltz, negociante de equipam ento m édico por atacado, olhou pela vigia do foguete da Lufthansa Me9-E. Europa à vista. Que rapidez, pensou. Pousarem os no cam po de Tem pelhof dentro de, aproxim adam ente, sete m inutos.
Gostaria de saber o que foi que realizei, pensou enquanto via a m assa terrestre crescer. Agora era com o general Tedeki. O que ele puder fazer nas ilhas. Pelo m enos fornecem o-lhes a inform ação. Fizem os o possível. Mas não há m otivo para ser otim ista, pensou. Os j aponeses provavelm ente não poderão fazer nada para m odificar o curso da política interna alem ã. O governo Goebbels está no poder e com certeza ali perm anecerá. Assim que se consolidar, voltará novam ente a estudar a idéia do Dente de Leão. E outra grande parte do planeta será destruída, com sua população, para a realização de um ideal fanático, alucinado.
E se eles, os nazistas, destruírem tudo? Nada m ais deixarem que cinzas estéreis? Eles poderiam ; têm a bom ba de hidrogênio. E na certa o fariam ; o pensam ento deles inclina-se para e s s e Götterdammerung. Eles talvez o desej em , talvez estej am ativam ente buscando esse holocausto final, do qual todos seriam vítim as.
E o que deixará ela, essa Terceira Loucura Mundial? Acabará com toda espécie de vida, em toda parte? Quando nosso planeta tornar-se um planeta m orto, m orto por nossas próprias m ãos?
Não podia acreditar. Mesm o que toda a vida do nosso planeta sej a destruída, deve haver vida em algum a outra parte, da qual não sabem os nada. É im possível que o nosso sej a o único m undo; deve haver outros m undos invisíveis para nós, em algum a região ou dim ensão que sim plesm ente não percebem os.
Em bora eu não o possa provar, em bora nem sej a lógico, eu acredito, disse a si próprio.
O alto-falante disse: Meine Damen und Herren. Achtung, bitte.
Está chegando o m om ento de pousar, pensou o Capitão Wegener. É quase certo que eu sej a recebido pelo Sicherheitsdienst. O problem a é o seguinte: que facção política será representada? A de Goebbels? Ou a de Hey drich? Adm itindo-se que o General S.S. Hey drich ainda estej a vivo. Durante m inha perm anência a bordo deste foguete podem tê-lo apanhado e fuzilado. As coisas acontecem depressa nos tem pos de transição num a sociedade totalitária. Na Alem anha nazista, m uitos nom es respeitados têm sido riscados da lista dos vivos...
Alguns m inutos depois, quando o foguete pousou, estava de pé, encam inhando-se para a saída, com o sobretudo dobrado no braço. Atrás e à frente dele, passageiros ansiosos por chegar. Nenhum j ovem artista nazista desta vez, refletiu. Nenhum Lotze para m e im portunar até o fim com seus argum entos idiotas.
Um funcionário fardado da com panhia — vestido, reparou Wegener, com o o Marechal do Reich em pessoa — aj udou-os a descer a ram pa, um por um , até a pista. Ali, ao lado da saída, um grupo de cam isas-negras. Para m im ? Wegener com eçou a afastar-se lentam ente do foguete. Um pouco m ais longe, hom ens e m ulheres esperando, acenando, cham ando... até m esm a algum as crianças.
Um dos cam isas-negras, um louro de cara achatada e im passível, usando a insígnia dos Waffens-S.S. aproxim ou-se de Wegener, bateu os saltos das botas um contra o outro, fez corretam ente a continência e disse:
— Ich bitte mich zu entschuldigen. Sind Sie micht Kapitän Rudolf Wegener, von dr. Abwehr?
— Desculpe — respondeu Wegener. — Sou Conrad Goltz. Representante da A.G. Chemikalien, fornecedor de equipam ento m édico.
Com eçou a afastar-se. Dois outros cam isas-negras, tam bém das Waffen-S.S., aproxim aram -se. Os três cercaram -no de tal m odo que, em bora ele continuasse no seu passo norm al, na direção que escolhera, estava abrupta e efetivam ente sob prisão. Dois dos hom ens das Waffen-S. S. tinham m etralhadoras debaixo dos sobretudos.
— Você é Wegener — disse um deles, no m om ento em que entravam no prédio. Ele não respondeu.
— Tem os um carro — continuou o hom em das Waffen-S.S. — Recebem os instruções para esperar seu foguete, entrar em contato com o senhor e levá-lo im ediatam ente ao General Hey drich da S.S., que está com Sepp Dietrich no O.K.W. da Leibstandarte Division, Foi-nos recom endado especialm ente não perm itir que o senhor se aproxim e de gente da Wehrmacht ou do Partei.
Então não serei liquidado, disse Wegener a si próprio. Hey drich está vivo, em lugar seguro e tentando fortalecer sua posição contra o Governo Goebbels.
Talvez, afinal de contas, o Governo Goebbels caia, pensou enquanto o enfiaram — gentilm ente — dentro do Daim ler do estado-m aior da S. S., que os aguardava. Um destacam ento das Waffen-S.S. de repente transferido à noite; guardas do Reichskanzlei trocados, substituídos. As delegacias policiais de Berlim subitam ente cuspindo hom ens arm ados da S. D. em todas as direções — as estações de rádio e a energia elétrica cortadas. Tem pelhof fechado. Ruído de passagem de artilharia pesada, ao longo das ruas principais, na escuridão.
Mas o que im porta? Mesm o que o doutor Goebbels sej a deposto e a Operação Dente de Leão cancelada? Eles continuarão a existir, os cam isas-negras, o Partei e seus planos, se não for no Oriente será então em algum a outra parte.
Em Marte ou Vênus.
Não é de estranhar que Mr. Tagom i não tenha podido agüentar, pensou. O terrível dilem a de nossas vidas. Aconteça o que acontecer, é incom paravelm ente ruim . Por que lutar, então? Por que escolher? Se todas as alternativas são as m esm as...
Evidentem ente, vam os para a frente, com o sem pre fizem os. Dia após dia. Neste m om ento trabalham os contra a Operação Dente de Leão. Mais tarde, em outro m om ento, trabalharem os para derrotar a polícia. Mas não podem os fazer tudo ao m esm o tem po; é um a seqüência. Um processo que se desenrola. Só podem os controlar o fim fazendo um a escolha a cada passo.
Só podem os esperar, senhor. E tentar.
Em algum outro m undo, talvez sej a diferente. Melhor. Existem claras alternativas entre o bem e o m al. Não estas obscuras j ustaposições, estas m isturas, sem que disponham os da ferram enta adequada para dissociar as peças.
Não possuím os o m undo ideal, tal com o gostaríam os de ter, onde a m oralidade é fácil porque o conhecim ento é fácil. Onde se pode acertar sem esforço, porque percebe-se o óbvio.
O Daim ler entrou em m ovim ento, com o capitão Wegener sentado atrás, um cam isa-negra de cada lado, de m etralhadora ao colo. Um cam isa-negra na direção.
Suponham os que, m esm o agora, estej am m e enganando, pensou Wegener, enquanto o carro corria em grande velocidade pelo trânsito de Berlim . Não estão m e levando ao general S.S. Hey drich, na O.K.W. da
Leibstandarte Division; estão m e levando para um a prisão do Fartei, para m e torturarem e, por fim , m atar-m e. Mas eu escolhi; escolhi voltar para a Alem anha; escolhi arriscar ser capturado antes de ter conseguido chegar ao abrigo do pessoal da Abwehr.
A m orte a cada m om ento, um a avenida sem pre aberta para nós em qualquer ponto. E eventualm ente a escolhem os, quase sem querer. Ou então desistim os e a tom am os deliberadam ente. ele olhou passarem as casas de Berlim . Meu próprio Volk, pensou, você e eu, de novo j untos.
— Com o vão as coisas? — perguntou aos três da S. S. — Há algum a novidade quanto ao desenvolvim ento da situação política? Eu estou fora há várias sem anas, desde antes da m orte de Borm ann, na verdade.
— Há, naturalm ente, um a m assa histérica que apoia o Pequeno Doutor — respondeu o hom em à sua direita. — Foi a m assa que o levou ao poder. Contudo, é pouco provável que, quando elem entos m ais sóbrios se firm arem , queiram apoiar um aleij ado e um dem agogo que só se m antém excitando e enfeitiçando as m assas com suas m entiras e seduções.
— Com preendo — disse Wegener.
A coisa continua, pensou. Os ódios intestinos. Talvez as sem entes estej am aí, no final das contas. Eles se com erão uns aos outros e deixarão o resto de nós aqui e ali pelo m undo, ainda vivos. Ainda bastantes para novam ente construir, esperar e fazer alguns planos sim ples.
Juliana Frink chegou a Chey enne, Wy om ing, à um a hora da tarde. No centro com ercial da cidade, diante do velho e gigantesco depósito ferroviário, ela parou num a charutaria e com prou dois j ornais vespertinos.
Estacionada j unto à calçada, procurou até encontrar a notícia.
FÉRIAS ACABAM EM NAVALHADA FATAL
Está sendo procurada para interrogatório, referente a ataque fatal à navalha contra seu m arido em seus elegantes aposentos do Hotel Presidente Garner, em Denver, Mrs. Joe Cinadella, de Canon City. De acordo com os em pregados do hotel, ela partiu im ediatam ente após o que deve ter sido o clím ax trágico de um a discussão conj ugai. Lâm inas de gilete encontradas no quarto que, por ironia, são fornecidas com o cortesia aos hóspedes, foram aparentem ente as arm as usadas por Mrs. Cinadella, descrita com o sendo m orena, atraente, elegante, esbelta por volta dos trinta, para cortar o pescoço de seu m arido. O corpo foi encontrado por Theodore Ferris, em pregado do hotel, que apanhara um as cam isas de Cinadella para passar, m eia hora antes, e estava voltando com elas conform e lhe fora pedido, dando com aquela cena tétrica. O apartam ento, disse a polícia, conservava sinais de luta, sugerindo um a briga violenta que...
Então ele m orreu, pensou Juliana, dobrando o j ornal. E além disso, eles não sabem m eu nom e verdadeiro; não sabem quem eu sou nem nada sobre m im .
Menos preocupada agora, ela continuou até encontrar um m otel adequado; lá alugou um quarto e tirou sua bagagem do carro. Daqui para frente não preciso m e apressar, disse a si própria. Posso m esm o esperar até de noite para ir à casa dos Abendsens; assim posso usar m eu vestido novo. Não poderia usá-lo de dia; não se usa vestido toilette antes do j antar.
E posso acabar de ler o livro.
Ela instalou-se no quarto do m otel, ligou o rádio, m andou trazer café da lanchonete, enroscou-se na cam a bem feita, com o exem plar novo do Grasshopper, que com prara na livraria do hotel em Denver.
Às seis e quinze da tarde ela acabou de ler o livro. Será que Joe leu até o fim ? perguntou-se. Há m uito m ais coisas aí dentro do que ele entendeu. O que é que Abendsen quis dizer? Nada sobre seu m undo de faz-de-conta. Sou eu a única que sabe? Aposto que sim ; ninguém , além de m im , entendeu o sentido do Grasshopper com o eu — im aginam que entenderam .
Ainda um pouco perturbada, guardou o livro na m ala, vestiu o casaco e deixou o quarto em busca de um lugar para j antar. O ar estava cheiroso e os anúncios lum inosos e luzes de Chey enne pareceram -lhe particularm ente estim ulantes. Diante de um bar, duas bonitas prostitutas índias, de cabelos negros, estavam discutindo e ela dim inuiu o passo para olhar.
Num erosos carros, reluzentes, subiam e desciam as ruas; aquele espetáculo tinha um aspecto brilhante e de felicidade, de confiança no futuro, de expectativa de algum acontecim ento im portante e feliz, em vez de virar-se para o passado... pensou ela, para o velho e cansado, para o usado e j ogado fora.
Num restaurante francês cavo — onde um hom em de casaco branco estacionava os carros dos clientes, cada m esa tinha um a vela queim ando num enorm e copo de vinho e a m anteiga era servida não em quadrados m as parecendo bolas de gude — ela saboreou um bom j antar e, depois, com tem po de sobra, foi passeando de volta ao seu m otel. As notas do Reichsbank estavam quase acabando, o que não a preocupava; não tinha im portância. ele nos falou de nosso m undo, pensou, abrindo a porta do quarto do m otel. Deste que está em volta de nós, agora. No quarto, ela ligou o rádio outra vez. ele quer que vej am os as coisas com o são. E eu vej o, cada vez m ais, à m edida que o tem po passa. Tirando o vestido azul da caixa, ela o estendeu cuidadosam ente na cam a. Não tinha sido danificado; o m áxim o de que precisava era um a escovada para tirar qualquer fiapo. Mas quando abriu os outros pacotes verificou que não trouxera nenhum dos novos soutiens com prados em Denver.
— Que droga! — disse, afundando num a cadeira.
Acendeu um cigarro e ficou fum ando algum tem po.
Talvez desse para usar com soutien com um . Tirou a saia e a blusa e experim entou o vestido. Mas as alças ficavam aparecendo e tam bém a parte superior de cada taça, de m odo que não dava. Ou talvez, pensou, eu possa ir sem soutien... Há anos que não tentava isso lem brou-se de seus dias de ginásio quando tinha busto m uito pequeno; naquela época isso a preocupava. Mas a m aturidade e o j udô a tinha levado ao tam anho 38. Mesm o assim , experim entou o vestido sem o soutien, ficando de pé num a cadeira no banheiro para poder se ver no espelho do arm arinho.
O vestido ficou deslum brante m as, Santo Deus, era m uito arriscado. Era só ela se debruçar para apagar um cigarro ou apanhar um drinque e seria um desastre.
Um broche! Podia usar o vestido sem soutien e fechar um pouco na frente. Despej ando o conteúdo de sua caixa de j óias na cam a, ela enfileirou os broches, relíquias que tinha há anos, presentes de Frank ou de outros hom ens, de antes do seu casam ento e agora o novo que Joe lhe com prara em Denver. Sim , um pequeno broche de prata m exicana, em form a de cavalo, com binava bem ; ela encontrou o ponto exato. Finalm ente acabou podendo usar o vestido.
Qualquer coisa agora m e satisfaz, pensou. Tanta coisa dera errado! Restava tão pouco dos planos m aravilhosos!
Ela deu um a boa escovada nos cabelos que ficaram bem brilhantes e agora faltava só escolher sapatos e brincos. Depois vestiu o casaco novo, apanhou a bolsa nova de couro, feita a m ão, e saiu.
Em vez de ir de Studebaker, pediu ao dono do m otel que lhe cham asse um táxi. Enquanto esperava no escritório do m otel, teve de repente a idéia de telefonar a Frank. Por que lhe ocorreu, não podia im aginar, m as ali estava ela. Por que não? perguntou-se. Podia ser a cobrar: ele ficaria radiante de falar com ela e pagaria de boa vontade.
De pé atrás da m esa do escritório, ela apertou o fone no ouvido, encantada com o diálogo das telefonistas interurbanas tentando conseguir sua ligação. Ouvia a telefonista de São Francisco, ao longe, que pedia inform ações para obter núm ero, depois m il barulhinhos em seu ouvido e, por fim , o ruído do telefone tocando. Enquanto esperava, ficou olhando para ver se chegava o táxi; não dem orará m uito, pensou. Mas não se incom odará de esperar; estão acostum ados.
— Seu núm ero não responde — inform ou-lhe, por fim , a telefonista de Chey enne. — Podem os fazer a ligação m ais tarde e...
— Não — respondeu Juliana, balançando a cabeça. Tinha sido só um im pulso. — Não estarei aqui. Obrigada.
Desligou. O dono do m otel estava ali perto para evitar que fosse cobrado a ele algo por engano. Ela saiu rapidam ente do escritório para a calçada fria e escura, ficando ali de pé, esperando.
Um táxi novinho em folha surgiu do trânsito, aproxim ou-se da calçada e parou; a porta se abriu e o m otorista saltou para abrir-lhe a porta.
Um m om ento depois, Juliana estava a cam inho, sentada no banco de trás daquele carro luxuoso, atravessando Chey enne em direção à casa dos Abendsens.
A casa dos Abendsens estava com as luzes acesas e ela ouviu m úsica e vozes. Era um a casa térrea, de estuque, cercada de arbustos e de um grande j ardim com posto principalm ente de rosas trepadeiras. Subindo o cam inho de pedras, ela pensou: estarei realm ente aqui? É aqui o "Castelo Alto"? Que pensar dos boatos e histórias? A casa era sim ples, bem cuidada e o j ardim tratado. Havia até um velocípede parado no cam inho de cim ento.
Seria ele o Abendsen errado? Ela tirara o endereço na lista telefônica de Chey enne, m as correspondia ao núm ero que ela cham ara na noite anterior, de Greeley .
Entrou na varanda, de grades de ferro-batido, e tocou a cam painha. Através da porta entreaberta via a sala, várias pessoas em pé, j anelas com persianas, um piano, lareira, estantes... Bem arrum ado, pensou. Um a festa? Mas não estavam com roupa de festa.
Um m enino descabelado, de uns treze anos, de cam iseta e calça Lee, escancarou a porta.
— Sim ?
— Mr. Abendsen está? — perguntou. — Está ocupado?
Falando para alguém atrás dele, dentro de casa, o m enino cham ou:
— Mãe, ela quer falar com papai.
Ao lado do m enino apareceu um a m ulher de cabelo castanho-averm elhado, por volta dos trinta e cinco anos, com olhos cinzentos, firm es e fortes, e um sorriso tão franco e aparentem ente sem com plexos, que Juliana soube que estava diante de Caroline Abendsen.
— Telefonei ontem à noite — disse Juliana.
— Ah, sim , naturalm ente.
Seu sorriso aum entou. Tinha dentes brancos, perfeitam ente regulares; irlandesa, concluiu Juliana. Só sangue irlandês pode dar tanta fem inilidade a um m axilar daqueles.
— Dê-m e seu casaco e sua bolsa. Veio num a hora ótim a; estam os com alguns am igos. Que vestido lindo... é da Casa Cherubini, não é?
Atravessou a sala com Juliana até o quarto, onde colocou as coisas dela j unto com as outras, em cim a da cam a.
— Meu m arido está por aí. Procure um hom em alto, de óculos, bebendo um old-fashioned.
A luz inteligente em seus olhos transm itiu-se a Juliana; seus lábios trem eram — tem os m uita coisa em com um , percebeu Juliana. Não é incrível?
— Eu vim de m uito longe — disse Juliana.
— Sim , é verdade. Ali está ele.
Caroline Abendsen levou-a de volta à sala, em direção a um grupo de hom ens.
— Meu bem — cham ou ela — venha cá. Esta m oça é um a leitora sua, que quer m uito dar um a palavrinha com você.
Um dos hom ens separou-se do grupo e aproxim ou-se, de copo na m ão. Juliana viu um hom em m uito alto, de cabelo preto, crespo; sua pele tam bém era escura e os olhos pareciam ser m uito levem ente violeta ou castanhos, por trás dos óculos. Ele vestia um terno sob m edida, de um a fibra natural caríssim a, talvez lã inglesa; o terno valorizava seus om bros largos e robustos, sem nada acrescentar. Em toda sua vida, nunca vira um terno assim ; ficou inteiram ente fascinada.
— Mrs. Frink veio de Canon City, Colorado, para falar com você sobre o Grasshopper — disse Caroline.
— Pensei que m orasse num a fortaleza — com entou Juliana.
Inclinando-se para exam iná-la, Hawthorne Abendsen esboçou um leve sorriso.
— Sim , m orávam os. Mas para chegar lá era preciso tom ar um elevador e eu fiquei com fobia. Estava m eio de porre quando isso aconteceu m as, ao que m e lem bre e pelo que m e disseram , eu m e recusei a ficar de pé porque disse que o elevador estava sendo puxado por Jesus Cristo e que íam os todos até o fim da linha. Eu estava decidido a não ficar de pé. Ela não entendeu.
— Hawth toda vida disse, desde que eu o conheço, que, quando encontrar Cristo, vai se sentar; não ficará de pé — explicou Caroline.
O hino, lem brou Juliana.
— De m odo que você desistiu do "Castelo Alto" e voltou para a cidade — disse ela.
— Gostaria de servir-lhe um drinque — ofereceu Hawthorne.
— Aceito — respondeu ela. — Mas não um old-fashioned.
Ela j á dera um a olhada no aparador; havia m uitas garrafas de uísque, hors-d'oeuvre, copos, gelo, coquete-leira, cerej as e fatias de laranj a. Ela encam inhou-se para lá, acom panhada por Abendsen.
— Só I. W. Harper com gelo — disse ela. — Sem pre gostei disso. Você conhece o oráculo?
— Não — respondeu Hawthorne, enquanto preparava o drinque para ela.
— O Livro das Transmutações? — insistiu ela, surpresa.
— Não, não conheço — repetiu ele. Estendeu-lhe o drinque.
— Não brinque com ela — disse Caroline Abendsen.
— Eu li seu livro — disse Juliana. — Na realidade term inei hoj e à tarde. Gom o é que você sabe tudo aquilo sobre esse outro m undo que descreveu?
Hawthorne não respondeu; esfregou a j unta dos dedos contra o lábio superior, com o olhar fixo para além dela e a testa franzida.
— Você usou o oráculo? — perguntou Juliana. Hawthorne olhou para ela.
— Eu não quero que você brinque ou deboche — insistiu Juliana. — Me diga sem fazer graça.
Mordendo o lábio, Hawthorne fixou o olhar no chão; colocou em volta do próprio corpo os dois braços e balançou-se para frente e para trás nos calcanhares. Os outros na sala calaram -se e Juliana notou que seus m odos m udaram . Eles não estavam contentes com o que ela dissera. Ela não tentou retratar-se nem disfarçar; não estava fingindo. Era im portante dem ais. E viera de m uito longe e fizera coisas dem ais para aceitar dele qualquer coisa que não fosse a verdade.
— É... um a pergunta difícil de responder — disse finalm ente Abendsen.
— Não é não — retrucou Juliana.
Agora todos na sala estavam em silêncio; olharam Juliana de pé j unto a Caroline e Hawthorne Abendsen.
— Sinto m uito — disse Abendsen. — Não posso responder im ediatam ente. Terá que aceitar isso.
— Então por que escreveu o livro? — perguntou Juliana.
Apontando com o copo, Abendsen respondeu:
— O que faz esse broche no seu vestido? Afasta os perigosos espíritos que surgem do m undo im utável? Ou é só para prender?
— Por que m udou de assunto? — inquiriu Juliana. — Por que se torna evasivo diante das perguntas e faz um com entário fora de propósito com o esse? É infantil.
— Todos têm ... segredos técnicos — disse Hawthorne Abendsen. — Você tem os seus, eu tenho os m eus. Você devia ler m eu livro e aceitá-lo pelo valor que aparenta, com o eu aceito o que vej o...
Novam ente apontou para ela com o copo:
— Sem perguntar se é autêntico o que está por baixo, ali, ou coberto de aram es, barbatanas de baleia e forros de espum a. Isso não faz parte da confiança que se deve ter na natureza hum ana e no que se vê em geral?
Ele parecia, pensou ela, irritável e agitado agora, não m ais tão polido, nem acolhedor. E Caroline, notou ela com o canto do olho, estava com um a expressão de exasperação tensa; seus lábios estavam com prim idos e deixara inteiram ente de sorrir.
— Em seu livro — disse Juliana — você m ostrou que há um a saída. Não era isso que queria dizer?
— "Saída" — ecoou ele ironicam ente.
— Você fez m uito por m im — prosseguiu Juliana. — Agora posso ver que não há o que tem er aqui, não há o que querer nem odiar, nem evitar, nem do que fugir. Ou o que valha a pena perseguir.
Ele encarou-a, balançando o copo, exam inando-a.
— Há m uita coisa neste m undo que vale a pena, na m inha opinião.
— Eu com preendo o que se passa em sua m ente — disse Juliana.
O que via nele era a velha e conhecida expressão no rosto de um hom em e não a perturbava encontrá-la. Ela não se sentia m ais com o antes.
— A ficha da Gestapo diz que você se sente atraído por m ulheres com o eu.
Abendsen, com um a quase im perceptível m udança de expressão, disse:
— Não há m ais Gestapo, desde 1947.
— A S.D. então, ou o que for.
— Quer fazer o favor de explicar? — pediu Caroline, em voz breve.
— Quero — respondeu Juliana. — Eu vim a Denver com um deles. Eles vão acabar aparecendo aqui. Você devia se esconder, em vez de m anter a casa aberta assim , deixando entrar quem quiser, com o eu. O próxim o que chegar aqui... Não vai haver ninguém com o eu para im pedir.
— Você diz "o próxim o" — disse Abendsen, depois de um m om ento. — O que aconteceu com o que veio com você até Denver? Por que não vai aparecer aqui?
— Eu cortei-lhe o pescoço — respondeu ela.
— Que coisa incrível — disse Hawthorne. — Ouvir um a m oça te dizer isso, um a m oça que você nunca viu na vida.
— Não está acreditando?
— Claro que sim — concordou ele. — Deu-lhe um sorriso tím ido, delicado, triste. Aparentem ente nem lhe passara pela cabeça não acreditar.
— Obrigado — disse.
— Por favor esconda-se deles — pediu ela.
— Bem , nós tentam os, com o você sabe. Com o você leu na capa do livro... tudo aquilo sobre arm as e aram e eletrificado. E escrevem os aquilo para parecer que estam os tom ando precauções.
Sua voz tinha um tom seco, cansado.
— Você podia ao m enos andar arm ado — disse sua m ulher. — Sei que um dia alguém que você convidar para entrar e conversar vai lhe dar um tiro; um especialista nazista especializado em m atar se vingando; e você vai ficar filosofando com o agora. Já vi tudo.
— Eles m e apanham — disse Hawthorne — se quiserem . Com aram e eletrificado, "Castelo Alto" e tudo.
Você é tão fatalista, pensou Juliana. Conform ado com a própria destruição. Tam bém sabe disso, a m aneira com o tom ou conhecim ento do m undo em seu livro?
— O oráculo escreveu seu livro. Não foi? — perguntou Juliana.
— Quer saber a verdade? — retrucou por sua vez
Hawthorne.
— Quero e tenho direito — respondeu ela. — Pelo que fiz. Não é? Você sabe que sim .
— O oráculo — disse Abendsen — estava ferrado no sono durante todo o tem po em que escrevi o livro. Dorm indo a sono solto no canto do escritório.
Seus olhos não dem onstravam a m enor alegria; ao contrário, seu rosto parecia m ais longo, m ais som brio do que nunca.
— Diz-lhe — pediu Caroline. — Ela tem razão; ela tem o direito de saber, pelo que fez por você.
Virando-se para Juliana, ela disse:
— Eu lhe contarei então, Mrs. Frink. Hawth fez as escolhas um a por um a. Milhares delas. Através dos versos. Período histórico. Assunto. Personagens. Enredo. Levou anos. Hawth até perguntou ao oráculo que sucesso teria. O oráculo respondeu lhe que seria um grande sucesso, o prim eiro realm ente grande de sua carreira. De m odo que você tinha razão. Você deve usar m uito o oráculo, para ter percebido.
— Por que será que o oráculo resolveu escrever um rom ance? — disse Juliana. — Já pensou em perguntar-lhe isso? E por que um rom ance sobre a derrota dos alem ães e j aponeses? Por que especialm ente esta história e não um a outra? O que é que o oráculo não pode nos dizer diretam ente, com o sem pre fez? Isto deve ser diferente, não acham ?
Nem Hawthorne nem Caroline deram um a palavra.
— O oráculo e eu — disse finalm ente Hawthorne — há m uito tem po chegam os a um acordo quanto aos direitos autorais. Se eu lhe perguntar por que escreveu o Grasshopper, vou acabar tendo que dar-lhe a m inha parte tam bém . A pergunta insinua que eu não fiz m ais do que bater à m áquina e isso não é verdadeiro nem decente.
— Eu perguntarei — disse Caroline — se você não quiser perguntar.
— Não é você quem deve perguntar — respondeu Hawthorne. — Deixe que ela o faça. Depois, dirigindo-se a Juliana, disse:
— Você tem um a... m ente excepcional. Sabia?
— Onde está seu exem plar? — perguntou Juliana. — O m eu está no carro, lá no m otel. Vou buscá-lo se não m e deixar usar o seu.
Voltando-se, Hawthorne foi buscá-lo. Ela e Caroline o seguiram , passando pela sala cheia de gente, em direção a um a porta fechada. Diante da porta ele deixou-as. Quando voltou, viram os dois volum es pretos.
— Eu não uso as varetas — disse ele a Juliana. — Não sei com o segurá-las; deixo-as sem pre cair.
Juliana sentou-se j unto a um a m esa baixa, no canto.
— Preciso de papel e lápis para escrever.
Um dos convidados atendeu ao pedido. As pessoas na sala form aram um a roda em torno dela e dos Abendsens, escutando e olhando.
— Pode fazer a pergunta em voz alta — disse Hawthorne. — Nós não tem os segredos aqui.
— Oráculo — disse Juliana — por que escreveu The Grasshopper Lies Heavy? Que lição devem os tirar?
— É desconcertante a sua m aneira supersticiosa de form ular a pergunta — disse Hawthorne.
Mas abaixou-se para vê-la atirar as m oedas.
— Vá — disse; deu-lhe três m oedas chinesas de latão furadas no m eio. — Eu costum o usar essas.
Ela com eçou a lançar as m oedas; sentia-se calm a e segura de si. Hawthorne anotou as linhas por ela. Quando ela atirara as m oedas seis vezes, ele baixou os olhos e disse:
— Sun no alto. Tui em baixo. Vazio no m eio.
— Sabe qual é o hexagram a? — perguntou ela. — Sem consultar a tabela?
— Sei — respondeu Hawthorne.
— É Chung Fu — disse Juliana. — Verdade Interior. Eu tam bém sei, sem usar a tabela. E sei o que significa.
Levantando a cabeça, Hawthorne exam inou-a atentam ente. Tinha agora um a expressão quase selvagem .
— Quer dizer, não é, que m eu livro é verdade?
— Sim — respondeu ela.
— A Alem anha e o Japão perderam a guerra? — perguntou ele, com raiva.
— Perderam .
Hawthorne, então, fechou os dois volum es e ficou de pé; não disse nada.
— Até você se recusa a enfrentar os fatos — disse Juliana.
Ele refletiu um m om ento. Seu olhar ficara vazio, notou Juliana. Virado para dentro. Preocupado com ele m esm o... e depois seus olhos ficaram novam ente claros; ele resm ungou :
— Não tenho certeza de nada.
— Acredite — disse Juliana. ele fez que não com a cabeça.
— Não pode? — perguntou ela. — Tem certeza? Hawthorne Abendsen disse:
— Você quer que eu autografe um exem plar do Grasshopper para você?
— Acho que vou em bora — disse ela, ficando de pé. — Muito obrigada. Desculpe se atrapalhei sua reunião. Foi gentil de sua parte ter-m e recebido.
Passando por ele e Caroline, atravessou a roda de gente, para ir da sala ao quarto onde estavam seu casaco e bolsa.
Enquanto vestia o casaco, Hawthorne apareceu ao seu lado.
— Você sabe o que você é? — perguntou, voltando-se para Caroline, que estava ao seu lado. — Esta m enina é um dem ônio. Um espírito chthonic que... — levantou a m ão e esfregou um a sobrancelha, deslocando os óculos ao fazê-lo... — que vaga incansavelm ente pela face da terra. — Recolocou os óculos no lugar. — Ela faz o que o instinto lhe inspira, sim plesm ente para exprim ir seu ser. Ela não queria vir aqui e fazer m al; apenas aconteceu, com o acontecem as estações do ano. Estou contente de que tenha vindo. Não m e desgosta descobrir isso, esta revelação que ela teve através do livro. Ela não sabia o que ia fazer ou encontrar aqui. Acho que tem os todos m uita sorte. De m odo que não vam os brigar; de acordo?
— Ela é m uito, m uito destruidora — disse Caroline.
— A realidade tam bém é — respondeu Hawthorne. Ele estendeu a m ão a Juliana. — Obrigado pelo que fez em Denver.
— Boa-noite — disse ela, estendendo-lhe a m ão. — Faça com o sua m ulher disse. Passe a usar um a arm a.
— Não — disse ele. — Eu resolvi há m uito tem po. Não vou deixar que isso m e preocupe. Posso contar com o oráculo, de vez em quando, e ficar nervoso, especialm ente à noite. Não é m au, num a tal situação. — Sorriu um pouco. — Na realidade, a única coisa que m e incom oda é saber que todos esses vagabundos que nos rodeiam , ouvindo e registrando tudo, estão bebendo todo o álcool que tem os em casa, enquanto nós ficam os aqui falando.
Voltando-se, afastou-se a passos largos, a cam inho do aparador para arranj ar gelo para seu drinque.
— Para onde vai você, agora que j á fez o que tinha que fazer aqui? — perguntou Caroline.
— Não sei.
O problem a não a preocupava. Devo ser um pouco igual a ele, pensou; não deixo que certas coisas m e incom odem , por m ais im portantes que sej am .
— Talvez volte para m eu m arido, Frank. Tentei telefonar-lhe hoj e; preciso tentar de novo. Depois verei com o m e sinto.
— Apesar do que você fez por nós, ou diz que fez...
— Você gostaria que eu nunca tivesse vindo a esta casa... — afirm ou Juliana,
— Se você salvou a vida de Hawthorne, isto é horrível de m inha parte, m as estou tão transtornada; não posso com preender tudo o que você e Hawthorne acabam de dizer.
— Que estranho — com entou Juliana. — Eu nunca teria pensado que a verdade a deixasse zangada.
A verdade, pensou. Terrível com o a m orte. Só que m ais difícil de encontrar. Eu tenho sorte.
— Eu pensei que você ficasse tão alegre e anim ada com o eu. É um m al-entendido, não é? — Ela sorriu e depois de um instante Mrs. Abendsen conseguiu sorrir-lhe de volta. — Bom , em todo caso, boa-noite.
Um m om ento m ais tarde, Juliana pisava novam ente o cam inho de pedras pelo qual viera, passando por focos de luz da sala e depois pelas som bras além do gram ado da casa, até chegar na calçada m ergulhada na escuridão.
Seguiu andando, sem olhar m ais para a casa dos Abendsens procurando um táxi, um carro, brilhante e vivo, que a levasse de volta ao seu m otel.
Você terminou O Homem do Castelo Alto
Philip K. Dick
Livros como este
-
O Caçador de Androides
-
Total Recall
-
As Casas de Armas de Isher
-
Total War: A espada de Átila
-
O Problema dos Três Corpos
-
Stalingrado: 1942 - o início do fim da Alemanha nazista
Depois do livro
Páginas que vieram com esta edição, guardadas aqui para consulta.