O Homem do Castelo Alto
Capítulo 1
HAVIA um a sem ana que Mr. Childan aguardava ansiosam ente o carteiro. Mas a valiosa encom enda proveniente dos Estados das Montanhas Rochosas ainda não chegara. Quando abriu a loj a na sexta-feira cedo e viu apenas cartas na caixa do correio pensou logo: vou ter um freguês furioso.
Tirou um a xícara de chá instantâneo da m áquina autom ática na parede, apanhou um a vassoura e pôs-se a varrer; em pouco tem po a frente da American Artistic Handcrafts Inc. estava pronta para o dia, lim pinha, com a caixa cheia de troco, um vaso de m argaridas frescas e o rádio tocando m úsica de fundo. Lá fora na calçada passavam hom ens de negócios a cam inho de seus escritórios em Montgom ery Street. Ao longe, um bonde; Childan parou para observá-lo com prazer. Mulheres com seus longos e coloridos vestidos de seda... observou-as tam bém . Então o telefone tocou. Voltou-se para atender.
— Sim — disse um a voz conhecida, quando atendeu.
O coração de Childan ficou gelado.
— Aqui fala Mr. Tagom i. O m eu cartaz de alistam ento da Guerra de Secessão j á chegou, senhor? Por favor, lem bre-se; foi-m e prom etido para a sem ana passada.
A voz era exigente, breve, apenas polida, apenas m antendo a etiqueta.
— Não lhe dei um depósito, Mr. Childan, com aquela exigência? É para presente, sabe? Já tinha explicado. Um cliente.
— Pesquisas prolongadas — com eçou Childan — feitas às m inhas próprias custas, Mr. Tagom i, referentes à encom enda prom etida que, com o o senhor sabe, origina-se fora desta região e é portanto...
Mas Tagom i interrom peu: — Então não chegou.
— Não, Mr, Tagom i. Um a pausa glacial.
— Não posso m ais esperar — disse Tagom i.
— Sim , senhor.
Childan olhou com tristeza através da vitrine da loj a, o dia quente brilhante e os edifícios com erciais de São Francisco.
— Um substituto, então. Que recom enda, Mr. Childan?
Tagom i propositalm ente pronunciou m al o nom e; era um insulto dentro da etiqueta que fez arderem as orelhas de Childan. Estava num a falsa posição, sua situação causava-lhe um a terrível m ortificação. As aspirações, os m edos e os torm entos de Robert Childan vieram à tona e ficaram expostos, inundando-o, paralisando sua língua. Gaguej ou, com a m ão crispada no telefone. O ar de sua loj a cheirava a m argaridas; a m úsica continuava a tocar, m as ele sentiu com o se estivesse m ergulhando em algum m ar distante.
— Bem ... — conseguiu m urm urar. — Batedeira de m anteiga. Máquina de fazer sorvete de 1900.
Sua m ente recusava-se a pensar. Com o quando a gente se esquece; com o quando a gente se engana. Ele tinha trinta e oito anos, recordava os dias anteriores à guerra, os outros tem pos. Franklin D. Roosevelt e a Feira Mundial; o antigo m undo, m uito m elhor.
— Talvez pudesse levar vários artigos interessantes ao seu escritório? — sussurrou.
Foi m arcado um encontro para as duas horas. Preciso fechar a loj a, pensou, enquanto desligava. Não havia escolha. Era preciso m anter a boa-vontade desse gênero de clientes; os negócios dependiam deles.
Ali de pé, ainda trêm ulo, percebeu que alguém — um casal — entrara na loj a. Jovens, elegantes, bem vestidos. De aspecto agradável. Acalm ou-se e cam inhou, sem pressa, na direção deles, sorrindo. Estavam debruçados sobre o m ostruário no balcão, e tinham escolhido um lindíssim o cinzeiro. Casados, adivinhou. Moram na Cidade das Neblinas Sinuosas, os novos apartam entos exclusivos no Sky line, com vista para Belm ont.
— Alô — disse, e sentiu-se m elhor. Sorriram -lhe sem nenhum a superioridade, apenas com afabilidade. Seu m ostruário — que era realm ente o que havia de m elhor no gênero ali na Costa — tinha im pressionado; percebeu isso e ficou agradecido. Eles com preenderam .
— Peças de fato excelentes, senhor — disse o j ovem .
Childan inclinou-se espontaneam ente.
Os olhos deles, brilhantes não só pela ligação hum ana, m as ainda pelo prazer com um que sentiam ao ver os obj etos de arte que ele vendia, por seus gostos e satisfações m útuos, fixaram -se nele; agradeciam -lhe por ter coisas com o estas, que eles podiam ver, tocar, exam inar, m anusear talvez, até m esm o sem com prar. Sim , pensou, sabem em que espécie de loj a estão; aqui não há bugigangas para turista, placas de sequóia onde se lia MUIR WOODS, MARIN COUNTY, P.S.A., coisinhas, aneizinhos ou cartões postais com a vista da Ponte. Especialm ente os olhos da m oça, grandes, escuros. Com o seria fácil, pensou Childan, m e apaixonar por um a garota assim . Que trágica seria então m inha vida; com o se j á não estivesse bastante ruim . Esse cabelo preto na m oda, as unhas pintadas, as orelhas furadas com os longos brincos de m etal feitos a m ão.
— Seus brincos — m urm urou. — Com prados aqui, talvez?
— Não — disse ela. — Em m inha terra.
Childan balançou a cabeça. Nada de arte am ericana contem porânea; apenas o passado poderia estar representado ali, num a loj a com o a dele.
— Vão ficar m uito tem po aqui? — perguntou. — Na nossa São Francisco?
— Vou ficar aqui por tem po indeterm inado — disse o hom em . — Trabalho na Com issão de Inquérito para Planej am ento do Nível de Vida das Áreas Sinistradas..
Seu rosto dem onstrou orgulho. Não era m ilitar. Não era um daqueles recrutas provincianos, m ascadores de chicletes, com seus rostos de cam poneses gananciosos, peram bulando por Market Street, boquiabertos diante dos cabarés, dos film es sexy, dos tiro-ao-alvo, das boates baratas com fotos de louras de m eia-idade sustentando as tetas entre dedos enrugados, com um riso debochado nos lábios... os antros de j azz, que form avam a m aior parte da baixa São Francisco, frágeis barracos de lata e de tábuas que surgiram das ruínas m esm o antes de cair a últim a bom ba. Não — aquele j ovem era da elite. Culto, educado, m ais ainda que Mr. Tagom i, que afinal era um alto funcionário, com o posto de Adido Com ercial para a Costa do Pacífico. Tagom i era um hom em velho. Sua form ação vinha do tem po do Gabinete de Guerra.
— Queriam obj etos de arte popular tradicional am ericana para presente? — perguntou Childan. — Ou talvez para decorar seu novo apartam ento aqui? Se fosse esta últim a hipótese... — seu coração apressou-se.
— Acertou — disse a m oça. — Estam os com eçando a decorá-lo. Estam os ainda um pouco indecisos. Acha. que poderia aj udar-nos?
— Poderia passar em seu apartam ento, sim — disse Childan. — Levarei várias m alas com m aterial e lá, no am biente, posso sugerir coisas que lhes convenham . Esta: é, naturalm ente, a nossa especialidade.
Baixou os olhos para encobrir suas esperanças. Poderia ser um negócio de m ilhares de dólares.
— Estou para receber um a m esa da Nova Inglaterra, toda de m adeira de encaixe, não tem um prego. De enorm e beleza e valor. E um espelho da época da guerra de 1812. E tam bém a arte aborígene: um grupo de tapetes de pêlo de cabra com tintura vegetal.
— Por m im — disse o hom em — prefiro a arte das, cidades.
— Pois não — disse Childan ansiosam ente. — Ouça,, senhor. Tenho um m ural do período dos correios W. P. A., original, feito de m adeira, em quatro partes, retratando Horace Greeley. Peça de colecionador, de valor inestim ável.
— Ah! — disse o hom em , com os olhos escuros brilhando.
— E um a vitrola de 1920, transform ada em bar.
— Ah!
— E, senhor, ouça: um retrato emoldurado e autografado de Jean Harlow.
O hom em ficou com os olhos esbugalhados.
— Vam os m arcar um encontro? — perguntou Childan, aproveitando o m om ento psicológico certo.
Tirou do bolso interno do casaco a caneta e a caderneta.
— Anotarei seu nom e e endereço, senhor e senhora. Mais tarde, quando o casal saiu da loj a, Childan ficou de pé, m ãos nas costas, olhando a rua. Feliz. Se todos os dias fossem assim ... Mas era m ais do que os negócios, era o sucesso de sua loj a. Era a oportunidade de conhecer um j ovem casal j aponês socialm ente, na base de um a aceitação dele com o hom em m ais do que com o um yank ou, na m elhor das hipóteses, com o um com erciante de obj etos artísticos. Sim , esses j ovens da geração em ascensão, que não se lem bravam dos dias de antes da guerra, nem da própria guerra — eram a esperança do m undo. Diferença de lugar nada significava para eles.
Isso acabará, pensou Childan. Algum dia. A própria idéia de lugar. Não m ais governados e governantes, m as gente.
E contudo trem ia de m edo ao se im aginar batendo à porta deles. Exam inou suas anotações. Os Kasouras. Se fosse recebido, sem dúvida lhe ofereceriam chá. Faria direito as coisas? Saberia com o agir e falar no m om ento exato? Ou iria se desgraçar, com o um idiota, com algum a gafe terrível?
O nom e dela era Betty. Que com preensão em seu rosto, pensou. Os olhos delicados, sensíveis. Certam ente, m esm o naquele pouco tem po na loj a, percebera suas esperanças e derrotas.
Suas esperanças — de repente ficou tonto. Que aspirações eram essas, beirando a loucura se não o suicídio? Mas não eram desconhecidas as relações entre j aponeses e yanks, em bora geralm ente fossem entre um j aponês e um a yank. Mas... estrem eceu à idéia. E ela era casada. Afastou da cabeça esse desfile de pensam entos involuntários e pôs-se a abrir a correspondência m atinal com toda atenção.
Suas m ãos, descobriu, ainda estavam trem endo. E foi então que se lem brou do encontro com Mr. Tagom i às duas; diante da idéia, suas m ãos deixaram de trem er e seu nervosism o transform ou-se em decisão. Preciso encontrar algum a coisa aceitável, disse a si próprio. Onde? E com o? O quê? Um telefonem a. Fontes. Habilidade com ercial. Desenterrar um Ford 1929 totalm ente restaurado, com capota de tecido preto e tudo. Um a grande j ogada para m anter sem pre a clientela. Avião trim otor do correio aéreo, m odelo original, encontrado num celeiro em Alabam a, etc. Apresentar a cabeça m um ificada de Mr. B. Bill, incluindo os cabelos brancos esvoaçantes; sensacional obj eto am ericano. Firm ar m inha reputação nos m ais altos círculos de connoisseurs do Pacífico, incluindo o arquipélago nipônico. Para inspirar-se, acendeu um cigarro de niarijuana da excelente m arca Land-O-Sm iles.
Em seu quarto de Hay es Street, Frank Frink estava na cam a pensando em com o se levantar. O sol entrando pela persiana brilhava no m onte de roupa caída no chão. Seus óculos, tam bém . Pisaria neles? Tentar chegar ao banheiro por outro cam inho, pensou. Arrastar-se ou rolar. Sua cabeça doía m as não se sentia triste. Nunca olhe para trás, resolveu. Horas? O relógio na côm oda. Onze e m eia! Santo Deus. Mas continuava na horizontal.
Estou despedido, pensou.
Ontem com etera um erro na fábrica. Tivera um a conversa errada com Mr. Wy ndam -Matson, um suj eito de cara am assada e nariz tipo Sócrates, com anel de brilhante e fecho-ecler de ouro na braguilha. Em outras palavras, um a força. Um m onarca. Os pensam entos de Frink tropeçavam às cegas.
Sim , pensou, e agora vão m e boicotar; m eus conhecim entos são inúteis, não tenho profissão. Quinze anos de experiência. Perdidos.
E agora teria que aparecer diante da Com issão de Justificação dos Trabalhadores para um a revisão de sua categoria de trabalho. Com o nunca tinha conseguido descobrir qual exatam ente a relação de Wy ndam -Matson com os pinocs — o governo fantoche branco instalado em Sacram ento — não tinha idéia da influência que seu ex-patrão poderia ter j unto às autoridades reais, os j aponeses. A C. J. T. era dirigida por pinocs. Teria que enfrentar quatro ou cinco fisionom ias balofas de m eia-idade, do tipo de Wy ndam -Matson. Se não conseguisse sua j ustificação ali, iria às Missões Com erciais de Im portação-Exportação que operavam fora de Tóquio, com escritórios na Califórnia, Oregon, Washington e nas regiões de Nevada incluídas nos Estados Am ericanos do Pacífico. Mas se seu apelo fracassasse tam bém lá...
Mil planos rodavam em sua cabeça enquanto ele, deitado, observava o antigo globo de luz no teto. Poderia, por exem plo, passar para os Estados das Montanhas Rochosas. Mas esses Estados tinham um a certa ligação com os E.A.P. e talvez o extraditassem . E o Sul? Seu corpo arrepiou-se. Isso não. Com o branco teria bastante lugar, na verdade m ais do que tinha aqui nos E.A.P. Mas... não queria aquele tipo de lugar.
E, pior ainda, o Sul tinha um em aranhado de ligações econôm icas, ideológicas e Deus sabe o que m ais, com o Reich. E Frank Frink era j udeu.
Seu nom e original era Frank Fink. Nascera na Costa Leste, em Nova York e, em 1941, fora convocado pelo Exército dos E.U.A., logo após a derrota da Rússia. Depois dos j aponeses tom arem o Havaí, foi enviado à Costa Oeste. Quando a guerra term inou, lá estava ele, do lado j aponês da linha dem arcadora. E ali continuava, quinze anos m ais tarde.
Em 1947, no Dia da Capitulação, tinha ficado m eio frenético. Odiando os j aponeses com o odiava, j urou vingança; tinha enterrado suas arm as dez pés abaixo da terra, num porão, bem em brulhadas e lubrificadas, para o dia do levante, dele e de seus cam aradas. Contudo, o tem po funcionou com o um bálsam o, um santo rem édio, fato este que ele não levara em consideração. Quando se lem brava da idéia, do grande banho de sangue, da depuração dos pinocs e seus senhores, era com o se estivesse revendo um daqueles m anchados alm anaques de seus dias de ginásio, encontrando um a relação de suas aspirações j uvenis. Frank "Goldfish" Fink será paleontólogo e j ura desposar Norm a Prout. Norm a Prout era a schönes Mädchen da classe e ele realm ente j urara casar-se com ela. Aquilo tudo acontecera há m uito tem po, com o ouvir Fred Allen ou ver um film e de W. C. Fields. Desde 1947 ele devia ter visto ou falado com uns seiscentos m il j aponeses e o desej o de agredir um ou todos eles sim plesm ente nunca se concretizou depois dos prim eiros m eses. Deixou de ter qualquer im portância.
Mas sim . Havia um , um Mr. Om uro, que adquirira o controle de um a grande área de im óveis no centro de São Francisco e que, por uns tem pos, foi proprietário da casa de Frank. Aquilo sim é que era um salafrário, pensou. Um tubarão que nunca fazia consertos, que dividira os quartos em pedaços cada vez m enores, que aum entara os aluguéis... Om uro explorava os pobres, sobretudo os ex-soldados à beira da m iséria, durante a depressão, no início dos anos cinqüenta. Contudo, fora um a das m issões com erciais j aponesas quem cortara a cabeça de Om uro com o castigo. E hoj e em dia um a tal violação da dura, rígida porém j usta, lei civil j aponesa era inim aginável. Era um ponto a favor da incorruptibilidade dos oficiais j aponeses de ocupação, sobretudo os que entraram depois da queda do Gabinete de Guerra.
Lem brando-se da honestidade sólida e estóica das Missões Com erciais, Frank sentiu-se confortado. Até Wy ndam -Matson seria espanado com o um a m osca barulhenta. Fosse ou não dono da corporação W. M. Pelo m enos, assim esperava. Acho que eu tenho m esm o fé nesse negócio de Aliança de Co-Prosperidade do Pacífico, disse a si próprio. Estranho. Lem brando os prim eiros dias... parecia tão obviam ente falso, então. Propaganda, vazia. Mas agora...
Levantou-se da cam a e foi trocando as pernas até o banheiro. Enquanto se lavava e se barbeava, ouviu as notícias do m eio-dia no rádio.
"Não depreciem os este esforço",
dizia o rádio quando ele m om entaneam ente fechou a água quente.
"Não, não o farem os", pensou Frank am argam ente. Sabia a que esforço particular o rádio se referia. Mas, no fundo, havia um quê de côm ico na situação, a im agem de alem ães fortes e carrancudos m archando por Marte, na areia verm elha virgem de pés hum anos. Ensaboando o queixo, Frink pôs-se a cantarolar um a sátira a si próprio. Gott, Herr Kreisleiter. Ist dies vielleicht der Ort wo man das Konzentrationstlager bilder kann? Das Wetter ist so schön. Heiss, aber doch schön...
O rádio dizia:
A Civilização da Co-Prosperidade precisa parar e considerar se, no desej o de fornecer um a igualdade de responsabilidade e deveres m útuos j untam ente com rem unerações...
Jargão típico da hierarquia dom inante, notou Frink.
... não deixam os de levar em consideração a futura arena em que se desenrolarão os negócios dos hom ens, sej am eles nórdicos,. j aponeses, negros...
E continuava, continuava.
Enquanto se vestia, repassava com prazer a sua sátira. O tempo está schön, tão schön. Mas não há o que respirar...
Contudo, era um fato; o Pacífico não fizera nada para a colonização dos planetas. Estava envolvido — ou m elhor, atolado — na Am érica do Sul. Enquanto os alem ães estavam ocupados em lançar no espaço enorm es sistem as robotizados, os j aponeses queim avam as florestas do interior do Brasil, erguendo edifícios de apartam entos de oito andares, de alvenaria, para ex-caçadores de cabeça. Até os j aponeses lançarem seu prim eiro foguete, os alem ães teriam posto o sistem a solar no bolso. Segundo os pitorescos e antigos livros de história, os alem ães ficaram para trás enquanto o resto da Europa solidificava seus im périos coloniais. Mas, refletiu Frink, desta vez não iam chegar por últim o; aprenderam .
E isso o levou a pensar na África e na experiência nazista lá. E seu sangue parou de correr, hesitou, e por fim continuou.
Aquela enorm e ruína vazia.
O rádio dizia:
...devem os contudo considerar com orgulho nossa insistência nas necessidades físicas fundam entais dos povos de todos os lugares,.suas aspirações subespirituais que devem ser...
Frink desligou o rádio. Então, m ais calm o, ligou-o novam ente.
Cacete, pensou. África. Para os fantasm as das tribos m ortas. Varridas para fazer um a terra de... quê? Quem sabia? Talvez nem m esm o os grandes arquitetos de Berlim soubessem . Bando de autôm atos, construindo e trabalhando. Construindo? Esm agando. Ogres de um a exposição de paleontologia, atarefados em fazer um copo com o crânio do inim igo, a fam ília inteira em penhada em pescar prim eiro o conteúdo — os m iolos crus — para com er. Depois fazer utensílios dos ossos das pernas dos hom ens. Era lucrativa essa idéia de não só com er quem não se gosta, m as com ê-los dentro do seu próprio crânio. Os prim eiros técnicos! O hom em pré-histórico de blusa branca esterilizada num laboratório de algum a universidade de Berlim , pesquisando com o aproveitar crânios, pele, orelhas e gordura de outras pessoas. Ja, Herr Doktor. Um a nova utilidade para o dedo grande do pé; vej a, pode-se adaptar a j unta para funcionar com o isqueiro. Agora, se Herr Krupp puder produzir em quantidade...
Aquela idéia horrorizava-o: o antigo e gigantesco' canibal quase hom em vicej ando agora, dom inando o m undo m ais um a vez. Passam os um m ilhão de anos fugindo dele, pensou Frink, e agora ei-lo de volta. E não apenas com o adversário... Mas com o senhor.
... podem os deplorar,
O rádio, a voz dos barriguinhas-am arelas de Tóquio estava falando. Cristo, pensou Frink; e nós os cham am os de m acacos, esses pigm eus civilizados de pernas tortas que não m ais instalarão câm aras de gás nem derreterão suas esposas para transform ar em cera.
...e deploram os no passado o terrível desperdício de seres hum anos nesta ansiedade fanática que coloca a m aioria dos hom ens totalm ente fora da com unidade legal.
Eles, os j aponeses, eram fortes em leis.
...Para citar um santo ocidental conhecido de todos nós: "De que adianta a um hom em ganhar o m undo inteiro se perde a alm a?
O rádio parou. Frink, dando o nó na gravata, tam bém parou. Era a ablução m atinal.
Tenho que entrar em algum acordo com eles aqui, decidiu. Boicotado ou não, seria a m orte para m im deixar o território controlado pelos j aponeses e aparecer no Sul ou na Europa — em qualquer parte do Reich.
Vou ter que entrar num acordo com o velho Wy ndam -Matson.
Sentado na cam a, com um a xícara de chá m orno ao lado, Frink tirou o I Ching da prateleira. Do tubo de couro, tirou as quarenta e nove varetas de yarrow. Refletiu, até ter os pensam entos sob controle e as perguntas form uladas.
Disse em voz alta: "Com o deverei aproxim ar-m e de Windam -Matson de m aneira a conseguir um acordo decente com ele?" Escreveu a pergunta na tabuinha e com eçou a passar as varetas de um a m ão para a outra até obter a prim eira linha, o início. Um oito. Metade dos sessenta e quatro hexagram as elim inados de saída. Dividiu as varetas e obteve a segunda linha. Com o tinha prática, logo conseguiu todas as seis linhas; o hexagram a estava form ado e nem era preciso consultar o quadro. Reconheceu-o com o o Hexagram a Quinze Ch'ien. Modéstia. Ah! Os hum ildes subirão, os soberbos cairão, as fam ílias poderosas serão hum ilhadas; nem precisava consultar o texto — j á o sabia de cor. Um bom presságio. O oráculo estava dando conselhos favoráveis.
Apesar disso, sentiu-se um pouco decepcionado. Havia um a certa infantilidade no Hexagram a Quinze; m uito ingênuo. Claro que tinha de ser m odesto. Talvez fosse esse o negócio. Afinal, ele não tinha nenhum poder sobre o velho W.M. A única coisa que podia fazer era adotar o ponto de vista do texto do Hexagram a Quinze; o m om ento era daqueles em que é preciso solicitar, esperar, aguardar com fé. O céu na hora certa faria com que fosse readm itido ou talvez até prom ovido.
Não tinha para ler nenhum a linha, pois não tirara nenhum seis ou nove; era um hexagram a estático. De m odo que estava term inado. Não ia com eçar outro hexagram a.
Um a nova pergunta, então. Preparando-se, disse alto: "Será que ainda verei Juliana?"
Era sua m ulher. Ou m elhor, sua ex-m ulher. Juliana divorciara-se dele há um ano, e não se viam há m eses; ele nem sabia onde ela estava m orando, obviam ente, deixara São Francisco. Talvez até os E.A.P. Os am igos com uns não tinham recebido notícias ou as estavam escondendo dele.
Dividiu as varetas de yarrow com atenção, os olhos fixos nas com binações. Quantas vezes indagara sobre Juliana, de um a form a ou de outra? Lá vinha o hexagram a, surgido da divisão das varetas ao acaso. Indefinido, m as enraizado no m om ento que estava vivendo, em que sua vida estava ligada a todas as outras vidas e partículas do universo. O hexagram a representava necessariam ente, com seu padrão de linhas inteiras e partidas, a situação. Ele, Juliana, a fábrica de Gough Street, a autoridade das Missões Com erciais, a exploração dos planetas, os bilhões de corpos am ontoados na África, que agora não eram nem m ais cadáveres, m as m atérias-prim as quím icas, de criaturas vivendo em torno dele nos barracos de São Francisco, os dem entes de Berlim , com seus rostos calm os e planos m aníacos — todos ligados a este m om ento de j ogar as varetas para selecionar a sabedoria apropriada num livro iniciado no século XXX a. C. Um livro criado pelos sábios da China num período de cinco m il anos, burilado, aperfeiçoado, aquela soberba cosm ologia — e ciência — codificada antes que a Europa tivesse aprendido a extrair raiz quadrada.
O hexagram a. Seu coração parou. Quarenta e quatro. Kou. Vir ao Encontro. Seu j ulgam ento ponderado. A donzela é poderosa. Não se deve casar com tal donzela. Mais um a vez saía isso em relação a Juliana.
Oy vey, pensou, tornando a deitar. Então não era feita para m im ; eu sei. Não foi isso que perguntei. Por que o oráculo tem que m e lem brar disso? Um a falta de sorte para m im , tê-la encontrado e m e apaixonado — e estar apaixonado — por ela.
Juliana — a m ulher m ais bonita com quem j á se casara. Sobrancelhas e cabelos negros: leves traços de sangue espanhol distribuídos em pura cor, até em seus lábios. Seu andar leve e silencioso; usava sapatos de tênis do tem po de colégio. Mesm o suas roupas tinham todas um ar m eio arruinado, deliberadam ente usadas e m uito lavadas. Eles passaram tanto tem po sem dinheiro que, apesar de sua beleza, ela tivera que usar suéter de algodão, j aqueta de pano com fecho-ecler na frente, saia castanha de tweed e m eias curtas de colegial; e ela o odiava porque dizia que desse j eito ficava parecendo um a daquelas m ulheres que j ogam tênis ou (pior ainda) recolhem cogum elos nos bosques.
Mas acim a e além de tudo, ele fora atraído de início por seu ar aloucado; sem a m enor razão. Juliana cum prim entava gente totalm ente estranha, com um portentoso sorriso à Mona Lisa, que as pessoas ficavam surpresas e paravam , antes de responder, fosse para dizer alô ou não. E ela era tão atraente que na m aioria das vezes diziam m esm o alô, diante do que Juliana passava ereta. No início, chegou a pensar que ela fosse m íope, m as depois verificou que era m esm o um a profunda estupidez cuidadosam ente escondida. E assim , finalm ente, com eçou a irritar-se com seu cum prim ento de relance a estranhos e com a m aneira vegetal, silenciosa, que tinha de ir e vir com o se estivesse em algum a m issão secreta. Mas, m esm o assim , m esm o no final, quando brigavam tanto, ele nunca deixou de encará-la corno um a invenção direta, literal, de Deus, surgida em sua vida por m otivos que não lhe eram dados a conhecer. E por isso — um a espécie de intuição religiosa ou fé em relação a ela — não se conform ava de tê-la perdido.
Parecia tão próxim a agora... com o se ainda fosse sua. Aquele espírito, ainda ativo em sua vida, girando silenciosam ente pelo quarto em busca de fosse o que fosse que Juliana buscava. E tam bém em sua m ente, cada vez que apanhava os volum es do oráculo.
Sentado na cam a, cercado da desordem de sua vida solitária, preparando-se para sair e com eçar seu dia, Frank Frink se perguntou quem m ais na vasta e com plicada São Francisco estaria naquele exato m om ento consultando o oráculo. Teriam recebido conselhos tão tétricos quanto ele? Seria o teor do Mom ento tão adverso para eles quanto o era para ele?