O Homem do Castelo Alto

Philip K. Dick · Capítulo 7 de 16

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O Homem do Castelo Alto

Capítulo 6

DE MANHÃ cedo, respirando o ar fresco e ensolarado, Juliana Frink fazia as com pras do dia. Passeava pela calçada, carregando as duas sacolas, parando de loj a em loj a para olhar as vitrines. Não tinha pressa.

Não tinha algum a coisa para com prar no m ercadinho? Foi entrando, tentando se lem brar. Seu curso de j udô com eçava ao m eio-dia; até lá estava livre, hoj e. Sentando no banquinho defronte do balcão, colocou as sacolas no chão e com eçou a folhear as diversas revistas.

Viu que o novo Life trazia um artigo enorm e intitulado: Televisão na Europa: um olhar sobre o amanhã. Virando as páginas, interessada, viu a foto de um a fam ília alem ã assistindo a televisão na sala de estar.

Já havia, dizia o artigo, quatro horas de transm issão por dia em Berlim . Algum dia teriam estações de televisão em todas as m aiores cidades da Europa. E, até 1970, construiriam um a em Nova York.

O artigo m ostrava engenheiros eletrônicos do Reich em Nova York, aj udando o pessoal local a resolver seus problem as. Era fácil ver quais eram os alem ães. Tinham aquele aspecto saudável, lim po, enérgico, seguro. Os.am ericanos, por sua vez — pareciam gente. Podiam ser.qualquer um .

Via-se um dos técnicos alem ães apontando algum a coisa e os am ericanos tentando ver o quê. Acho que eles enxergam m elhor que nós, pensou ela. Há vinte anos que com em m elhor. Garantem que eles vêem coisas que ninguém vê. Vitam ina A, talvez?

Gostaria de saber com o é ficar sentada na sala de estar de casa e ver o m undo inteiro num pequeno tubo de vidro cinzento. Se aqueles nazistas podem ir e vir de Marte, porque não põem a televisão para funcionar logo? Acho que preferia poder olhar aqueles shows côm icos, ver com o Bob Hope e Jim m y Durante são realm ente, a dar um a volta por Marte.

Talvez sej a isso, pensou, recolocando a revista no lugar. Os nazistas não têm o m enor senso de hum or, então para que vão querer televisão? Em todo caso, j á m ataram a m aioria dos grandes com ediantes. Porque quase todos eram j udeus. Na verdade, percebeu, m ataram quase todo m undo no cam po das diversões. Não sei com o Hope escapou, dizendo tudo o que ele diz. Claro, tem que transm itir do Canadá. E lá é um pouco m ais livre. Mas Hope diz as coisas na cara. Feito aquela piada com Göring... aquela em que Göring com pra Rom a e m anda reconstruí-la no seu refúgio nas m ontanhas. E depois ressuscita os prim eiros tem pos do cristianism o, para que seus leõezinhos tenham com que se distrair...

— Pretende com prar essa revista, senhorita? — perguntou o hom enzinho seco que cuidava do m ercadinho, com um ar cheio de suspeita.

Sentindo-se culpada, repôs no lugar o Reader's Digest que estava folheando.

Passeando novam ente pelas calçadas com suas sacolas de com pras, Juliana pensou: talvez Göring sej a o novo Führer quando aquele Borm ann m orrer. Parece diferente dos outros. Borm ann só conseguiu entrar porque aproveitou a ocasião quando Hitler estava caindo aos pedaços e só os que estavam m uito próxim os de Hitler viram a rapidez com que se insinuou. O velho Göring estava fora de circulação, em seu palácio nas m ontanhas. Göring devia ter sido Führer depois de Hitler, porque foi a sua Luftwaffe que acabou com aquelas estações de radar inglesas e derrotou a R.A.F.. Hitler lhes teria m andado bom bardear Londres, com o fizeram com Roterdã.

Mas com certeza vai ser Goebbels, achava ela. Era o que todo m undo estava dizendo. Contanto que não sej a aquele terrível Hey drich. Mataria todos nós. É louco de pedra.

O único de quem eu gosto, pensou, é aquele Baldur von Schirach. É o único que tem cara de norm al, em todo caso. Mas não tem a m enor possibilidade.

Virou-se e subiu a escada que levava à porta principal do velho edifício de m adeira em que m orava.

Quando abriu a porta do apartam ento viu Joe Cinadella ainda na m esm a posição em que o deixara, no m eio da cam a, de barriga para baixo, braços caídos. Continuava dorm indo.

Não, pensou. Não é possível que ainda estej a aqui; o cam inhão foi em bora. Tê-lo-ia perdido? Obviam ente.

Entrando na cozinha, colocou as sacolas das com pras na m esa, entre a louça suj a do café.

Será que ele perdeu o cam inhão de propósito? perguntou-se. É isso que eu queria saber.

Que hom em estranho... tinha sido tão ativo com « ela, praticam ente a noite toda. E contudo era com o se não estivesse presente, com o se fizesse aquilo sem perceber. Com o pensam ento em outro lugar, talvez.

Com o era seu hábito, com eçou a guardar a com ida na velha geladeira G. E. de m otor na cúpula. Depois, com eçou a tirar a m esa.

Talvez tenha feito dem ais, pensou ela. É com o um a segunda natureza; seu corpo faz os m ovim entos autom aticam ente, com o o m eu agora, lavando pratos e talheres na pia. Podia fazer isso com 3/5 de seu cérebro faltando, com o a perna de um sapo na aula de biologia.

— Ei — cham ou. — Acorda.

Joe m oveu-se na cam a e resm ungou.

— Você ouviu o program a do Bob Hope outro dia? — gritou. — Contou um a piada gozadíssim a, a do m aj or alem ão entrevistando uns m arcianos. Os m arcianos não podem apresentar docum entos provando que seus avós são arianos, sabe. Então o m aj or alem ão m anda dizer a Berlim que Marte é povoado por j udeus.

Entrando na sala, onde Joe estava estendido na cam a, ela acrescentou:

— E eles têm trinta centím etros de altura, duas cabeças... você sabe com o é o Bob Hope.

Joe abrira os olhos. Não disse nada; fitava-a sem piscar. Seu queixo, escurecido pela barba, seus olhos escuros, sofridos... Ela então ficou em silêncio tam bém .

— O que é? — disse finalm ente. — Você está com m edo?

Não, pensou; é Frank quem tem m edo. Isto é... não sei o quê.

— O cam inhão foi em bora — disse Joe, sentando-se.

— E o que é que você vai fazer?

Ela sentou-se na beira da cam a, enxugando os braços e as m ãos com o pano de prato.

— Apanho ele na volta. Meu colega não diz nada a ninguém ; sabe que eu faria a m esm a coisa por ele.

— Você j á fez isso antes? — perguntou.

Joe não respondeu. Você se atrasou de propósito, disse Juliana a si própria. Eu sei; vi logo.

— E se ele voltar por outro cam inho? — disse ela.

— ele sem pre vai pela Cinqüenta. Nunca a Quarenta. Ele teve um desastre na Quarenta um a vez; uns cavalos atravessando a estrada e lá foi ele. Nas Rochosas.

Apanhando suas roupas na cadeira, com eçou a vestir-se.

— Quantos anos você tem , Joe? — perguntou, enquanto ele contem plava o corpo nu.

— Trinta e quatro.

Então, pensou, deve ter estado na guerra. Ela não viu qualquer m arca física; tinha, na verdade, um bom corpo, seco, com pernas com pridas. Joe, vendo que ela o observava, fechou a cara e virou de lado.

— Não posso olhar? — perguntou, querendo saber por quê.

A noite inteira j untos e agora essa m odéstia.

— Som os bichos ou o quê? — perguntou. — Não podem os suportar nos ver de dia, tem os que nos esprem er contra as paredes?

Resm ungando, ele encam inhou-se para o banheiro de cueca e m eias, esfregando o queixo.

Esta é m inha casa, pensou Juliana. Eu te deixo ficar aqui e você não m e deixa te olhar. Por que quer ficar, então? Seguiu-o ao banheiro; ele tinha ligado a água quente, para fazer a barba.

Em seu braço, ela viu um a tatuagem , a letra C em azul.

— O que é isso? — perguntou. — Sua m ulher? Connie? Corinne?

Joe, lavando o rosto, respondeu:

— Cairo.

Que nom e exótico, pensou com invej a. E em seguida ficou verm elha.

— Sou burra m esm o — disse. — Um italiano, de trinta e quatro anos, da parte nazista do m undo... claro que ele tinha estado na guerra. Mas do lado do Eixo. E lutara no Cairo; a tatuagem era ligação deles, dos alem ães e italianos veteranos daquela cam panha — a derrota do exército inglês e australiano sob o com ando do General Gott, nas m ãos de Rom m el e seu Afrika Korps.

Ela saiu do banheiro, voltou para a sala e com eçou a fazer a cam a; suas m ãos voavam .

As coisas de Joe estavam cuidadosam ente arrum adas sobre a cadeira; roupa, um a pequena m ala e obj etos pessoais. Entre estes, ela reparou num a caixa de veludo m eio parecida com um estoj o de óculos; abriu-a e exam inou-a.

Você lutou m esm o no Cairo, pensou, olhando a Cruz de Ferro de Segunda Classe, tendo no alto a inscrição 10 de j unho, 1945. Não foi todo m undo que ganhou um a dessas; só os valentes. O que será que você fez... tinha só dezessete anos, na época.

Joe apareceu na porta do banheiro bem na hora em que ela estava tirando a m edalha da caixa; ela percebeu sua presença, sentiu-se culpada e deu um pulo. ele, porém , não parecia zangado.

— Estava só olhando — disse Juliana. — É a prim eira que vej o. Foi o próprio Rom m el quem pendurou?

— Não, foi o General Bay erlein. Rom m el j á tinha sido transferido para a Inglaterra, para acabar o serviço lá.

Sua voz estava calm a. Mas sua m ão j á estava na testa, dedos enfiados no cabelo, naquele m ovim ento de pente que parecia ser um tique nervoso crônico.

— Quer m e contar com o foi? — perguntou Juliana, enquanto ele voltava ao banheiro e à barba.

Ao m esm o tem po em que fazia a barba e depois tom ava um longo banho de chuveiro quente, Joe Cinadella contou-lhe um pouco; nada parecido com a história que gostaria de ouvir. Seus dois irm ãos m ais velhos serviram na cam panha da Etiópia, enquanto ele, aos treze anos, fazia parte da j uventude fascista de Milão, sua terra natal. Mais tarde, seus irm ãos entraram para um a bateria da artilharia de elite do Maj or Ricardo Pardi e, quando com eçou a Segunda Guerra, Joe j á tinha idade para j untar-se a eles. Lutaram sob as ordens de Graziani. Seu equipam ento, sobretudo os tanques, era terrível. Os ingleses os abatiam com o lebres, m esm o aos oficiais superiores. As portas dos tanques tinham que ser sustentadas por sacos de areia durante as batalhas, senão se abriam . O Maj or Pardi, porém , tinha encontrado m unição usada, que tratou de polir, azeitar e reaproveitar; com ela, cortou o grande avanço desesperado dos tanques do General Wavell em 43.

— Seus irm ãos estão vivos? — perguntou Juliana. Os irm ãos tinham sido m ortos em 44, estrangulados com aram e-farpado pelos com andos ingleses, o Long Range Desert Group que operava atrás das linhas do Eixo e que se tornara particularm ente fanático nas últim as etapas da guerra, quando ficara evidente que os Aliados não tinham com o ganhar.

— E com o você se sente com relação aos ingleses agora? — perguntou hesitante.

Joe disse:

— Gostaria que os nazistas fizessem com a Inglaterra o que esta fez com a África.

Sua voz não tinha a m enor expressão.

— Mas fazem ... dezoito anos — disse Juliana. — Sei que os ingleses fizeram coisas especialm ente terríveis, m as...

— Falam do que os alem ães fizeram aos j udeus — disse Joe. — Os ingleses fizeram pior. Na Batalha de Londres — calou-se. — Aquelas arm as que expelem fogo, fósforo e óleo; eu vi algum as tropas alem ãs, depois. Navio após navio, incendiados, reduzidos a cinza. Aqueles canos subm arinos, que transform aram o m ar em fogo. E as populações civis, sob aqueles ataques aéreos que Churchill pensou fossem salvar a guerra na últim a hora. Aqueles ataques de terror a Ham burgo e Essen e...

— Vam os m udar de assunto — disse Juliana.

Na cozinha, com eçava a fritar bacon; ligou o pequeno rádio branco de plástico, m arca Em erson, que Frank lhe dera no seu aniversário.

— Vou preparar algum a coisa para você com er. Mudou a estação, procurando um pouco de m úsica leve, agradável.

— Vem ver — disse Joe, sentado no sofá da sala, com a m ala ao lado.

A m ala estava aberta e dela retirara um livro gasto, dobrado, bem m anuseado. Sorriu para Juliana.

— Vem cá. Você sabe o que dizem ? Este suj eito... m ostrou o livro. — Isto é m uito gozado. Senta.

Tom ou-a pelo braço, puxando-a para perto dele.

— Vou ler para você. Suponha que eles tivessem ganho. Com o seria? Não precisam os nos preocupar; esse suj eito aí j á pensou em tudo.

Abrindo o livro, Joe com eçou a virar as páginas devagar.

— O Im pério Britânico controlaria a Europa inteira. O Mediterrâneo todo. A Itália desapareceria. A Alem anha, tam bém . Só ficariam os bobbies, aqueles soldadinhos de chapéu alto peludo e o rei até o Volga.

Em voz baixa, Juliana disse:

— E seria tão ruim assim ?

— Você leu o livro?

— Não — concedeu ela, esticando o pescoço para ver a capa.

Já tinha ouvido falar; m uita gente estava lendo.

— Mas Frank e eu — m eu ex-m arido e eu — m uitas vezes falam os de com o seria se os Aliados tivessem ganho a guerra.

Joe não parecia estar ouvindo; olhava fixam ente c exem plar de The Grasshopper Lies Heavy.

— E aqui — continuou — você sabe com o é que a Inglaterra ganha? Com o derrota o Eixo?

Sacudiu a cabeça, sentindo a tensão crescente no hom em ao seu lado. Seu queixo trem ia; passava a língua pelos lábios, enfiava os dedos no cabelo... quando falou, sua voz estava rouca.

— Ele faz a Itália trair o Eixo — disse Joe.

— Oh! — disse ela.

— A Itália passa para o lado dos Aliados. Junta-se aos anglo-saxões e abre o que ele cham a de "ventre vulnerável" da Europa. Mas é natural que ele pense assim . Nós todos sabem os que o covarde exército italiano fugia cada vez que encontrava os ingleses. Bebendo vino. Boas-vidas não feitos para a luta. Esse suj eito... — Joe fechou o livro, exam inando a contracapa. — Abendsen. Não posso culpá-lo. ele escreveu esta fantasia, im aginou com o seria se o Eixo perdesse. E de que outra m aneira podia perder a não ser que a Itália resolvesse trair?

Sua voz tornou-se áspera.

— O Duce era um palhaço; nós todos sabem os disso.

— Preciso virar o bacon.

Desvencilhou-se dele e voltou depressa à cozinha. Seguindo-a, ainda com o livro na m ão, Joe continuou:

— E os Estados Unidos entram . Depois, derrotam os j aponeses. E, depois da guerra, os ingleses e am ericanos dividem o m undo. Exatam ente com o foi feito pela Alem anha e o Japão, na realidade.

Juliana disse:

— Alem anha, Japão e Itália.

Ele ficou olhando para a cara dela, espantado.

— Você esqueceu da Itália.

Encarou-o com calm a. Você tam bém se esqueceu? perguntou-se. Com o todo m undo? O pequeno im pério no Oriente Médio... a com édia m usical Nova Rom a.

Ela serviu-lhe um prato de ovos com bacon, torradas com geléia e café. Com eçou logo a com er.

— O que é que vocês com iam no Norte da África? — perguntou, enquanto tam bém se sentava.

Joe disse:

— Burro m orto.

— Que horror!

Com um sorriso que era m ais um a careta, Joe disse:

— Asino Morte. As latas de carne tinham as iniciais A. M. Os alem ães cham avam de Alter Mann. Hom em Velho.

Recom eçou a com er rapidam ente.

Gostaria de ler isso, pensou Juliana, estendendo a m ão para apanhar o livro debaixo do braço de Joe. Será que vai dar tem po? O livro estava m eio engordurado; algum as páginas estavam rasgadas. Cheias de m arcas digitais. Lido por m otoristas de cam inhão pela noite afora, pensou. Nas lanchonetes decrépitas ao longo da estrada... aposto que você lê devagar, pensou. Aposto que há sem anas, talvez até m eses, que está lendo este livro.

Abrindo o livro ao acaso, ela leu:

...agora, na velhice, ele gozava a tranqüilidade, um im pério que os antigos tinham am bicionado porém não conseguido, navios da Crim éia a Madri, e o im pério todo, todo, com a m esm a m oeda, língua, bandeira. A grande Union Jack desfraldada da aurora ao crepúsculo: finalm ente realizada, essa união do sol e da bandeira.

— O único livro que eu carrego — disse Juliana — Não é nem um livro; é um oráculo, o I Ching; Frank m e viciou e eu o consulto sem pre para resolver. Nunca m e afasto dele. Nunca.

Fechou o exem plar do Grasshopper.

— Quer ver? Quer usar?

— Não — disse Joe.

Apoiando o queixo nos braços cruzados sobre a m esa e olhando-o de lado, ela disse:

— Você se m udou para cá de vez? Que é que você pretende, afinal?

Voltou a pensar nos insultos, nas calúnias. Você m e deixa petrificada, pensou, com seu ódio da vida. Mas... você tem qualquer coisa. Você é feito um anim alzinho, sem im portância m as esperto. Estudando seu rosto escuro, estreito e inteligente, ela pensou : com o pude im aginar que você fosse m ais m oço que eu? Mas até isso é verdade, sua infantilidade; você é ainda o caçula, adorando seus dois irm ãos m ais velhos e seu Maj or Pardi e o General Rom m el, sofrendo e suando para livrar-se dos tommies. Será que estrangularam m esm o seus irm ãos com aram e-farpado? Ouvim os falar nisso, nas histórias das atrocidades e vim os as fotos divulgadas após a guerra... Estrem eceu. Mas os com andos ingleses foram j ulgados e castigados há m uito tem po.

O rádio j á não tocava m ais m úsica; parecia estar com eçando um noticiário, captado da Europa por ondas curtas. A voz sum iu e em baralhou se. Um a longa pausa, nada. Silêncio. Então ouviu-se o locutor de Denver, m uito claro, próxim o. Estendeu a m ão para m udar de estação, m as Joe im pediu.

...notícias da m orte do Chanceler Borm ann chocaram a Alem anha inteira que ontem m esm o tinha a certeza de que...

Ela e Joe levantaram -se bruscam ente.

...todas as estações do Reich cancelaram seus program as habituais e transm itiram o hino do Partei, Horst Wessel Lied, pelo Das Reich, coro da Divisão S.S. Mais tarde, em Dresden, onde o Secretário executivo do Partei e os chefes da Sicherheits-dienst, a polícia de segurança nacional que substituiu a Gestapo em seguida a...

Joe aum entou o volum e.

... reorganização do governo incentivada pelo falecido Reichführer, Him m el, Albert Speer e outros, duas sem anas de luto oficial foram decretadas e j á m uitas loj as e firm as fecharam suas portas, inform ou-se. Até o m om ento nada foi dito sobre a esperada reunião do Reichstag, o últim o parlam ento do Terceiro Reich, cuj a aprovação é necessária...

— Vai ser Hey drich — disse Joe.

— Queria que fosse aquele grandalhão louro, aquele Schirach — disse ela. — Puxa, então acabou m orrendo. Você acha que Schirach tem possibilidade?

— Não — disse Joe abruptam ente.

— Talvez agora haj a outra guerra civil — disse ela. — Mas aqueles caras estão agora m uito velhos. Göring e Goebbels — e todos aqueles caras do Partido.

O rádio continuava:

...procurado em seu refúgio nos Alpes perto do passo de Brenner...

Joe disse:

— Esse deve ser o Gordo Herm ann.

...disse apenas que estava desolado pela perda, não só por se tratar de um soldado e patriota e fiel líder do Partei, m as tam bém , com o j á disse m uitas vezes no passado, de um am igo pessoal, o qual, pode-se lem brar, ele apoiou nas discussões concernentes à interinidade do poder logo depois da guerra, quando parecia que elem entos hostis à ascensão de Herr Borm ann à suprem a chefia...

Juliana desligou o rádio.

— Estão só enchendo lingüiça — disse. — Por que usar palavras com o essas? Ficam falando daqueles assassinos terríveis com o se fossem iguais a gente.

— São iguais a gente — disse Joe, sentando-se novam ente e recom eçando a com er. — Não há nada que eles tenham feito que nós não teríam os feito em seu lugar. Salvaram o m undo do com unism o. Estaríam os vivendo sob o dom ínio verm elho, agora, se não fosse a Alem anha. Seria bem pior.

— Isso é conversa — disse Juliana. — Com o na rádio. Conversa fiada.

— Vivi sob o dom ínio dos nazistas — disse Joe. — Sei do que se trata. É conversa fiada viver doze, treze anos — até m ais — quase quinze anos? Tenho carteira de trabalho da O.T.; trabalhei para a Organization Todt desde 1947, na África do Norte e nos Estados Unidos. Olha — apontou um dedo na direção dela. — Eu tenho, com o todos os italianos, j eito para trabalhos de terraplenagem ; a O.T. m e deu um a alta qualificação, nada de cavar asfalto ou m isturar cim ento para as autobahns; aj udava nos desenhos. Engenheiro. Um dia, o doutor Todt foi inspecionar o trabalho do nosso grupo. Disse para m im : "Você tem boas m ãos". Foi um grande m om ento, Juliana. A dignidade do trabalho; não são apenas palavras. Antes d s nazistas, todo m undo desprezava o trabalho m anual. Eu tam bém . Aristocracia. A Frente de Trabalho acabou com isso. Pela prim eira vez tive consciência de m inhas m ãos.

ele estava falando tão depressa que seu sotaque reaparecera, m al dando para ela entender.

— Nós todos vivíam os com o irm ãos lá na floresta, no norte de Nova York. Cantávam os. íam os m archando para o trabalho. O espírito da guerra, m as só para reconstruir, não para destruir. Foi a m elhor época, a da reconstrução, depois da guerra — filas e m ais filas de edifícios bonitos, lim pos, duradouros, construídos bloco após bloco, em Nova York e Baltim ore. Agora, é claro, não há m ais esse trabalho. Os grandes cartéis, com o Krupp und Sohnen, de Nova Jersey, dirigem tudo. Mas

isso não é nazism o; isso é apenas o velho poder europeu. Pior, está ouvindo? Nazistas com o Rom m el e Todt são um m ilhão de vezes m elhores do que industriais com o Krupp e os banqueiros, aqueles prussianos todos; deviam ter sido m ortos a gás. Aqueles senhores encasacados.

Mas, pensou Juliana, aqueles senhores encasacados chegaram para ficar. E teus ídolos, Rom m el e o doutor Todt, vieram logo depois das hostilidades para lim par os escom bros, construir a s autobahns, pôr a indústria para funcionar. Até deixaram viver os j udeus, feliz surpresa — deram anistia para que os j udeus pudessem cooperar. Até 49, em todo caso... e aí adeus Todt e Rom m el, que foram m andados pastar.

Então não sei? pensou Juliana. Frank não m e contou tudo? Você não pode m e ensinar nada a respeito da vida sob o regim e nazista; m eu m arido era — é — j udeu. Eu sei que o doutor Todt era o hom em m ais m odesto e m ais gentil da face da terra; eu sei que ele só queria dar trabalho — trabalho honesto, decente — aos m ilhões de am ericanos desesperados, hom ens e m ulheres, de olhos m ortos, que reviravam as ruínas depois da guerra. Eu sei que ele queria cuidados m édicos, colônias de férias e casas para todos, independente de raça; era um construtor, não um pensador... e na m aioria das vezes conseguiu o que queria — conseguiu m esm o. Mas...

Um a preocupação, que a estivera vagam ente incom odando, veio à tona.

— Joe. Esse livro, esse Grasshopper; não está proibido na Costa Leste?

Ele assentiu com a cabeça.

— Então com o é que você está lendo? — Algum a coisa a preocupava. — Não estão fuzilando quem lê...

— Depende do seu grupo racial. Do que estiver escrito em sua braçadeira.

Então era isso. Os eslavos, os poloneses, os porto-riquenhos, são os m ais lim itados quanto ao que podem , ler, fazer, ouvir. Os anglo-saxões têm um a vida m ais fácil; têm escola pública para os filhos e podem freqüentar bibliotecas, m useus e concertos. Mas m esm o assim ... The Grasshopper não estava apenas no index; era proibido e para todos.

Joe disse:

— Eu lia na latrina. E escondia debaixo do travesseiro. O fato é que o li j ustam ente porque era proibido.

— Você é m uito coraj oso — falou ela. Duvidando, ele perguntou:

— Você está sendo irônica?

— Não. Acalm ou-se um pouco.

— É fácil para vocês aqui; levam um a vida segura, sem propósito, sem nada para fazer, sem nada com que se preocupar. Alienação, lem branças do passado, certo?

Seus olhos debochavam dela.

— Você vai acabar se m atando de tanto cinism o — disse ela. — Você perdeu seus ídolos um a um e agora não tem o que am ar.

Ela apontou-lhe o garfo; ele aceitou a crítica. Com e, pensou ela. Ou então renuncia até aos processos biológicos.

Enquanto com ia, Joe olhava o livro e dizia:

— Esse Abendsen m ora por aqui, de acordo com a capa. Em Chey enne. De um lugar tão tranqüilo, deve ter um a boa perspectiva do m undo, você não acha? Lê o que ele diz, lê alto.

Apanhando o livro, ela leu a contracapa.

— É um veterano. Serviu nos Marines dos Estados Unidos na Segunda Guerra e foi ferido na Inglaterra, por um tanque Tigre nazista. Foi sargento. Aqui diz que ele tem praticam ente um a fortaleza na qual escreve,, cercado de arm as por todos os lados. Pondo o livro de lado, ela disse:

— E o que aqui não diz e que eu ouvi falar, é que ele é um a espécie de paranóico; o lugar todo é cercado de aram e-farpado eletrificado e fica no alto de um a m ontanha. Difícil de chegar lá.

— Talvez ele tenha razão de viver assim — disse Joe — depois de escrever um livro desses. Os chefões alem ães quase explodiram quando leram .

— Ele j á vivia assim antes; escreveu o livro lá. O lugar se cham a — olhou a capa do livro — Castelo Alto. Foi o apelido que lhe deu.

— Então não o apanharão — disse Joe, m astigando rapidam ente. — ele está de sobreaviso. Esperto.

Ela disse:

— Eu acho que ele deve ter m uita coragem para escrever um livro desses. Se o Eixo tivesse perdido a guerra, a gente teria podido escrever e dizer tudo que quisesse, com o antigam ente; seríam os um só país e teríam os um sistem a legal j usto, o m esm o para todos.

Para sua surpresa, ele concordou com isso.

— Eu não te entendo — disse ela. — No que é que você acredita? O que é que você quer? Você defende esses m onstros, esses aleij ões que trucidaram os j udeus, e depois você...

Desesperada, ela segurou-o pelas orelhas; ele piscou os olhos, de surpresa e de dor, enquanto ela ficava de pé e o puxava com ela.

Encararam -se, ofegantes, sem conseguir falar.

— Deixa eu acabar de com er a com ida que você fez para m im — disse Joe por fim .

— Você não vai m e dizer? Não vai m e contar? Você sabe o quê; você entende m uito bem e fica aí com endo, fingindo não saber do que se trata.

Ela soltou suas orelhas; tinham sido tão torcidas que estavam de um verm elho vivo.

— Conversa — disse Joe. — Não tem im portância o que você falou. Igual à rádio. Você sabe com o os cam isas pardas cham am quem fica filosofando? Eierkopf. Cabeça de ovo. Porque suas cabeçorras quebram facilm ente... nos conflitos de rua.

— Se você pensa isso de m im — disse Juliana — por que não vai em bora? Por que fica aqui?

Sua careta enigm ática gelou-lhe a espinha.

Gostaria de nunca tê-lo trazido para cá, pensou ela. Mas agora é tarde dem ais; sei que não vou conseguir m e livrar dele — ele é forte dem ais.

Algum a coisa terrível está acontecendo, pensou. Vindo dele. E eu pareço estar aj udando.

— O que é que há? — Estendendo a m ão, ele deu-lhe um soco brincalhão no queixo, afagou-lhe o pescoço, m eteu os dedos em baixo de sua blusa e apertou seus om bros afetuosam ente. — Que m au-hum or! Qual é o problem a? Conta... Eu te analiso de graça.

— Vão te cham ar de analista j udeu — deu-lhe um débil sorriso. — Você quer acabar num forno crem a-tório?

— Você tem m edo de hom em . Certo?

— Não sei.

— Senti ontem de noite. Só porque eu — interrom peu-se bruscam ente. — Porque procurei satisfazer teus desej os.

— Porque j á foi para a cam a com tantas m ulheres — disse Juliana — é isso que você ia dizer.

— Mas eu sei que tenho razão. Ouve; nunca te m agoarei, Juliana. Juro pela alm a de m inha m ãe. Serei especialm ente cuidadoso e, se você quiser aproveitar m inha experiência... Você terá a possibilidade. Você vai perder esse m edo todo; eu posso te acalm ar e m elhorar, e isso em pouco tem po. Você tem tido é azar, só isso.

Ela assentiu, m ais calm a. Mais ainda se sentia triste e fria, e ainda não sabia realm ente por quê.

 

Para com eçar seu dia, Mr. Nobusuke Tagom i im pôs-se um m om ento de solidão. Sentado em seu escritório, no edifício Nippon Times, refletia.

Já antes de deixar sua casa para vir ao trabalho, recebera o relatório de Ito sobre Mr. Bay nes. Para o j ovem estudante não havia dúvida: Mr. Bay nes não era sueco. Mr. Bay nes era certam ente alem ão.

Mas a capacidade de Ito para lidar com os idiom as germ ânicos nunca im pressionara nem as Missões Com erciais nem o Tokkoka, a polícia secreta j aponesa. Aquele idiota na certa não achou nada para conversar com o hom em , pensou Mr. Tagom i. Um entusiasm o desastrado, com binado com doutrinas rom ânticas. Procurar saber, m as sem pre desconfiando.

Em todo caso, a conferência com Mr. Bay nes e o velho senhor vindo do Japão logo teria início, na hora apropriada, qualquer que fosse a nacionalidade de Mr. Bay nes. E Mr. Tagom i gostara dele. Era essa, para ele, talvez a qualidade básica de um hom em de situação elevada — com o ele próprio. Saber reconhecer um hom em bom à prim eira vista. Ter intuição quanto a pessoas. Saber ler nas entrelinhas. Penetrar no íntim o das pessoas.

O coração, aprisionado entre duas linhas yin de negra paixão. Estrangulado, às vezes e, contudo, m esm o assim , há a luz do yang, a fagulha no centro. Gosto dele, disse Mr. Tagom i a si próprio. Alem ão ou sueco. Espero que a zaracaína aj ude sua dor de cabeça. Preciso lem brar de perguntar, logo que chegar.

O intercom em sua m esa com eçou a tocar.

— Não — disse abruptam ente ao aparelho. — Nada de discussão. Este é o m om ento da Verdade Interior. Da introversão.

Do pequeno alto-falante, saiu a voz de Mr. Ram sey :

— Senhor, acaba de chegar esta notícia do serviço de im prensa lá em baixo. O Chanceler do Reich m orreu. Martin Borm ann.

A voz de Ram sey sum iu. Houve um silêncio.

Mr. Tagom i penou: é preciso cancelar todos os encontros hoj e. Levantou-se da m esa e com eçou a andar para baixo e para cim a rapidam ente, apertando as m ãos. Vej am os. Enviar im ediatam ente um ofício ao Cônsul do Reich. Essa é um a tarefa secundária; um funcionário pode providenciar. Sinceros pêsam es, etc. Todo o Japão se une ao povo alem ão nesta triste hora. E depois? Ficar de prontidão. Estar em posição de receber inform ações de Tóquio instantaneam ente.

Apertando o botão do intercom , disse:

— Mr. Ram sey, trate de arranj ar um a ligação com Tóquio. Avise as telefonistas; fiquem alertas. Não podem os perder o contato.

— Sim , senhor — disse Mr. Ram sey .

— Estarei em m inha sala de agora em diante. Corte todos os assuntos de rotina. Corte qualquer ligação com um .

— Senhor?

— Preciso estar livre caso sej a necessária qualquer m edida de urgência.

— Sim , senhor.

Meia hora m ais tarde, às nove, chegou um a m ensagem do m ais alto funcionário do governo im perial na Costa Oeste, o em baixador j aponês j unto aos Estados Am ericanos do Pacífico, o Honorável Barão L.B. Kaelem akule. O Ministério das Relações Exteriores convocou um a sessão extraordinária no edifício da em baixada em Sutter Street e cada Missão Com ercial devia enviar um alto funcionário para assistir a ela. No caso, isso queria dizer o próprio Mr. Tagom i.

Não havia tem po para trocar de roupa. Mr. Tagom i dirigiu-se apressadam ente ao elevador expresso, desceu ao térreo e um m inuto m ais tarde estava a cam inho no Cadillac 1940 da Missão, guiado por um experiente chofer chinês uniform izado.

No prédio da em baixada encontrou carros de outros dignitários estacionados em volta, doze ao todo. Hom ens altam ente colocados, alguns dos quais conhecia, outros totalm ente desconhecidos, podiam ser vistos subindo a larga escadaria da em baixada e entrando no pórtico. O chofer de Mr. Tagom i abriu-lhe a porta e ele desceu depressa, agarrado à pasta de docum entos; estava vazia, porque não tinha papéis para trazer — m as era essencial não passar por m ero espectador. Subiu as escadas com o se estivesse em m issão de im portância vital, em bora na verdade não soubesse nem do que iam tratar na reunião.

Haviam -se form ado pequenos grupos; entabulavam -se discussões em voz baixa na ante-sala. Mr. Tagom i j untou-se a alguns cidadãos que conhecia, balançando a cabeça e assum indo, com o eles, um ar solene.

Um funcionário da em baixada logo apareceu e encam inhou-os para um grande salão, cheio de cadeiras desm ontáveis. Todos sentaram -se em silêncio. Só se ouvia barulho de pés e tosse. Cessaram as conversas.

Na frente, um senhor com um m aço de papéis na m ão encam inhou-se ao estrado. Calças listradas: era o representante do Ministério das Relações Exteriores.

Houve certa agitação. Alguns personagens discutiam em voz baixa, com as cabeças j untas.

— Senhores — disse o representante do Ministério em voz alta e autoritária. Todos os olhos voltaram -se para ele. — Com o sabem , foi confirm ada a m orte do Reichskanzler. Mediante um a declaração oficial de Berlim . Este encontro, que não levará m uito tem po — estarão logo de volta a seus escritórios — tem a finalidade de inform á-los do que j ulgam os deverá acontecer na vida política alem ã com o resultado da luta entre as diversas facções que, agora, provavelm ente irão arregaçar as m angas e atirar-se à disputa do lugar deixado vazio por Herr Borm ann. Eis os candidatos m ais im portantes. Em prim eiríssim o plano, Herm ann Göring. Perm itam , por favor, que lhes relem bre detalhes conhecidos. O Gordo, com o é cham ado, devido à sua corpulência, que foi um coraj oso ás da aviação na Prim eira Guerra Mundial, fundou a Gestapo e ocupou posto de grande im portância e poder no governo prussiano. É um dos m ais im placáveis entre os prim eiros nazistas, m as excessos sibaríticos deram origem a um a im agem enganosa de am ável bebedor de bons vinhos, im agem que nosso governo insiste não sej a considerada. Este hom em , em bora supostam ente de saúde fraca, m esm o m órbida por causa de seus apetites, assem elha-se m ais aos vaidosos césares da antiga Rom a, cuj o poder parecia crescer em lugar de dim inuir com o passar dos anos. O retrato fantástico que fazem deste personagem de toga com seus leões de estim ação, proprietário de im enso castelo repleto de troféus e obj etos de arte, é sem dúvida exato. Trens carregados de obj etos roubados chegavam aos seus dom ínios durante a guerra, com precedência sobre as necessidades bélicas. Nossa estim ativa: este hom em am biciona um enorm e poder e é capaz de obtê-lo. O m ais auto-indulgente de todos os nazistas, oferece um forte contraste com o falecido H. Him m ler, que levava um a vida m odesta com um salário m ínim o. Herr Göring é o sím bolo da m entalidade corrom pida, usando o poder com o m eio de adquirir fortuna pessoal. Tem um a m entalidade prim itiva, freqüentem ente vulgar, m as é um hom em inteligente, talvez o m ais inteligente dos chefes nazistas. Seu obj etivo: autoglorificação, à m oda dos antigos im peradores. A seguir, Herr J Goebbels. Teve paralisia infantil quando criança. De origem católica. Orador brilhante, escritor, m entalidade flexível e fanática, engraçado, urbano, cosm opolita. Muito galanteador com as senhoras. Elegante. Educado. Altam ente capaz. Grande capacidade de trabalho; necessidade com pulsiva de m andar. Dizem que nunca descansa. Personagem m uito respeitado. Pode ser encantador, m as tem rasgos de violência inigualados pelos outros nazistas. Orientação ideológica sugerindo ponto de vista m edieval j esuíta exacerbado por um niilism o germ ânico pós-rom ântico. Considerado com o o único intelectual autêntico do Fartei. Quando m oço, am bicionava ser autor dram ático. Poucos am igos. Em bora não sej a estim ado por seus subordinados, é contudo o produto bem acabado de m uitos dos m elhores elem entos da cultura européia. Por trás de sua am bição não se deve ver vaidade m as o desej o do poder pelo poder. Espírito de organização no sentido prussiano clássico. Herr R. Hey drich.

O representante do Ministério parou, olhou em volta e continuou.

— Muito m ais m oço do que os acim a citados, participou da Revolução de 1932. Fez carreira na elite do S.S. subordinada a H. Him m ler, talvez tenha tido papel de destaque na m orte ainda não totalm ente explicada de Him m ler em 1948. Oficialm ente, elim inou seus rivais dentro do aparelho policial, tais com o A. Eichm ann, W. Schellenberg e outros. Dizem ser um hom em tem ido por m uitos m em bros do Partei. Responsável pelo controle de elem entos da Wehrmacht após o fim das hostilidades, na fam osa disputa entre a polícia e o exército, que levou à reorganização do aparelho governam ental, da qual o N.S.D.A.P. saiu vitorioso. Apoiou M. Borm ann do princípio ao fim . Produto do treinam ento das elites e, contudo, anterior ao cham ado S.S. Castle System. Dizem faltar-lhe m entalidade afetiva no sentido tradicional. Enigm ático no com portam ento. Possivelm ente, tem um a visão da sociedade que considera a luta entre os hom ens com o um a série de j ogos; tem um peculiar desligam ento quase científico encontrado tam bém em certas rodas tecnológicas. Não se interessa por discussões ideológicas. Em sum a: pode ser cham ado m oderno quanto à m entalidade; do gênero posterior ao século das luzes, que dispensa as cham adas ilusões necessárias, com o a crença era Deus, etc. Não tendo sido o significado desta m entalidade dita realista decifrado pelos sociólogos em Tóquio, este hom em deve ser considerado um a interrogação. Contudo, deve-se notar um a sem elhança com um a deteriorização da afetividade que ocorre em casos de esquizofrenia patológica.

Mr. Tagom i sentiu-se m al enquanto ouvia.

— Baldur von Schirach. Antigo chefe da Juventude de Hitler. Considerado idealista. De aparência pessoal atraente, é considerado m oderadam ente experiente e com petente. Acredita fielm ente nas m etas do Fartei. Responsabilizou-se pela drenagem do Mediterrâneo e pela distribuição de vastas extensões agrícolas. Tam bém suavizou a política violenta de exterm inação racial em terras eslavas no início dos anos 50. Dirigiu-se diretam ente ao povo alem ão para que fosse perm itido aos restos das populações eslavas viver em reservas fechadas na Europa Central. Tentou exigir a abolição de certas form as de exterm inação e experiências m édicas, m as não teve sucesso. Doutor Sey ss-Inquart. Antigo nazista austríaco, agora encarregado das áreas coloniais do Reich, responsável pela política colonial. Talvez o hom em m ais odiado no território d o Reich. Teria instigado a m aioria se não todas as m edidas de repressão contra os povos conquistados. Trabalhou com Rosenberg no sentido de obter vitórias ideológicas alarm antem ente grandiosas, com o um a tentativa de esterilizar a população russa sobrevivente, após o encerram ento das hostilidades. Não há provas concretas, m as é considerado um dos responsáveis pelo holocausto do continente africano, criando assim condições de genocídio da população negra. Talvez o m ais próxim o, quanto ao tem peram ento, do prim eiro Führer, A. Hitler.

O representante do Ministério cessou sua leitura seca e lenta.

Mr. Tagom i pensou: acho que estou enlouquecendo. Preciso sair daqui; vou ter um ataque. Meu corpo está pondo tudo para fora, estou m orrendo. Ficou de pé, em purrando cadeiras e pessoas para sair. Quase não enxergava. Precisava chegar ao lavatório. Correu pela passagem lateral.

Várias cabeças voltaram -se. Viram -no. Hum ilhação. Doente num a reunião im portante. Iria perder o lugar. Continuou correndo, passando pela porta aberta por um funcionário da em baixada.

Im ediatam ente cessou o pânico. Sua visão retornou ao norm al; j á conseguia distinguir os obj etos. O chão e as paredes se estabilizaram .

Ataque de vertigem . Disfunção do ouvido interno, sem dúvida.

Um esgotam ento orgânico m om entâneo.

Dar aos pensam entos um a orientação segura. Lem brar a ordem do m undo. Que o faz m over-se? Religião? Pensou: Dançar agora uma gavota, calmamente. Os dois juntos, os dois juntos, muito bem. É o estilo exato. Pequena form a de um m undo reconhecível, Gondoliers. G. & S. Fechou os olhos, im aginando a com panhia D'Oy ly Carte com o a tinha visto em sua tournée depois da guerra. Um m undo finito, finito...

Um funcionário da em baixada, segurando-lhe o cotovelo, disse:

— Senhor, posso aj udá-lo em algo?

Mr. Tagom i inclinou-se:

— Estou bem .

O rosto do outro, calm o, delicado. Nenhum a zom baria. Estarão todos rindo de m im ? pensou Mr. Tagom i. Lá no fundo?

0 m al existe! É real, feito cim ento.

Não posso acreditar. Não posso suportar. O m al não é um ponto de vista. Peram bulou pelo vestíbulo, ouvindo o trânsito de Sutter Street e o porta-voz do Ministério dirigindo-se ao auditório. Nossa religião está toda errada. Que devo fazer? perguntou-se. Foi até a porta principal da em baixada; um funcionário abriu-a e Mr. Tagom i desceu as escadas até a aléia. Os carros. Seu carro. Motorista esperando.

É algum a coisa em nós. No m undo. Derram ado sobre nós, vertido em nossos corpos, nossas m entes, corações, no próprio chão.

Por quê?

Som os toupeiras. Rastej ando pelo chão, fuçando. Não sabem os nada. Percebi isso... e agora não sei para onde ir. Só urrar de m edo. Fugir.

Lam entável.

Zom bam de m im , pensou, vendo que os m otoristas o observavam enquanto se dirigia ao seu carro. Esqueci m inha pasta. Deixei-a lá, ao lado da cadeira. Todos os olhos estavam postos nele quando fez sinal ao seu m otorista. Aberta a porta entrou no carro.

Me leve ao hospital, pensou. Não, de volta ao escritório.

— Edifício Nippon Times — disse em voz alta. — Vá devagar.

Olhou a cidade, os carros, as loj as, os edifícios altos, agora m uito m odernos. Gente. Todos esses hom ens, essas m ulheres, cada um tratando da sua vida.

Quando chegou ao escritório deu ordem a Mr. Ram sey para entrar em contato com um a das outras m issões com erciais, a m issão de m etais não ferrosos e pedir que seu representante à reunião na em baixada se com unicasse com ele logo que chegasse.

Pouco depois do m eio-dia, recebeu a cham ada.

— Talvez tenha notado m eu m al-estar na reunião — disse Mr. Tagom i ao telefone. — Sem dúvida cham ou a atenção de todos, sobretudo m inha partida precipitada.

— Não notei nada — disse o hom em dos m etais não ferrosos. — Mas depois da reunião, não o vendo, fiquei pensando no que havia acontecido.

— Muito hábil de sua parte — disse Mr. Tagom i, taciturno.

— De m aneira algum a. Estou certo de que estavam todos ocupados dem ais em ouvir a leitura para reparar em qualquer outra coisa. Quanto ao que se passou depois que você partiu... Você chegou a ouvir o relatório sobre a corrida dos aspirantes na luta pelo poder? Foi o princípio.

— Ouvi até a história do doutor Sey ss-Inquart.

— Depois disso, o orador analisou a situação econôm ica deles. O governo nipônico acha que o esquem a da Alem anha de reduzir as populações da Europa e Norte da Ásia ao status de escravos, além de assassinar todos os intelectuais, elem entos burgueses, j uventude patriótica e não sei que m ais, é um a catástrofe econôm ica. A única coisa que os salvou foram as incríveis realizações tecnológicas da ciência e indústria alem ãs. Arm as m ilagrosas, por assim dizer.

— Sim — disse Mr. Tagom i. Sentado à sua m esa, segurando o telefone com um a m ão, serviu-se um a xícara de chá quente. — Com o o fizeram suas arm as m ilagrosas V-l e V-2 e seus j atos de guerra.

— É coisa de prestidigitador — disse o hom em da não ferrosos. — Seu uso da energia atôm ica tem m antido o país com a cabeça fora dágua. E a diversão proporcionada por suas viagens circenses de foguete á Marte e Vênus. Ressaltou o fato de que, apesar dos resultados em ocionantes, essas viagens não foram de nenhum real valor econôm ico.

— Mas são dram áticas — disse Mr. Tagom i.

— Os prognósticos são som brios. Acreditam que a m aioria dos nazistas altam ente colocados está se recusando a enfrentar os fatos à luz da situação econôm ica. Assim sendo, aceleram a tendência que conduz a aventuras cada vez m aiores, a novos tour-de-force, ficando tudo cada vez m enos previsível e m enos estável em geral. O ciclo de entusiasm o delirante, depois o m edo, depois as soluções m ais desesperadas, propostas pelo Fartei. Bem , o que ele queria dizer era que isto tudo tende a levar ao poder os aspirantes m ais responsáveis e tem erários.

Mr. Tagom i concordou.

— De m odo que som os levados a supor que será feita a pior escolha, em lugar da m elhor. Os elem entos m oderados e responsáveis serão derrotados no atual choque.

— Quem é considerado o pior? — perguntou Mr. Tagom i.

— R. Hey drich, o doutor Sey ss-Inquart, H. Göring. Na opinião do Governo Im perial.

— E o m elhor?

— Possivelm ente B. von Schirach e o doutor Goebbels. Mas não foi m uito explícito quanto a isso.

— Mais algum a coisa?

— Disse que precisávam os ter fé no Im perador e no Gabinete, neste m om ento m ais do que nunca. E que podem os confiar no Palácio.

— Houve um m om ento de silêncio respeitoso?

— Houve.

Mr. Tagom i agradeceu ao hom em da m etais não terrosos e desligou.

Enquanto tom ava seu chá, o intercom soou. Era a voz de Miss Ephreikian:

— O senhor queria enviar um a m ensagem ao cônsul alem ão. — Pausa. — Gostaria de ditá-la agora?

É m esm o, pensou Mr. Tagom i, j á tinha esquecido.

— Venha à m inha sala — respondeu.

Ela entrou logo, com um sorriso esperançoso nos lábios.

— Está se sentindo m elhor, senhor?

— Sim . Um a inj eção de vitam inas foi de grande aj uda. — Refletiu um m om ento. — Lem bre-m e: qual o nom e do cônsul alem ão?

— Está aqui, senhor. Freiherr Hugo Reiss.

— Mein Heri' — com eçou Mr. Tagom i. — Recebem os a notícia chocante do falecim ento de seu líder, Herr Martin Borm ann. Meus olhos estão cheios de lágrim as ao escrever estas palavras. Quando recordo as coraj osas ações de Herr Borm ann pela salvação do povo alem ão de seus inim igos internos e externos, bem com o as m edidas de adm irável severidade aplicadas aos derrotistas e traidores, que se propunham a arruinar toda a possibilidade para o gênero hum ano de ter um a visão do cosm o, o cosm o no qual as louras raças nórdicas após séculos m ergulharam ...

Parou. Não sabia com o term inar. Miss Ephreikian desligou o gravador, esperando.

— É um a grande época — disse ele.

— Devo gravar, senhor? É essa a m ensagem ? incerta, ligou a m áquina.

— Estava falando com você — disse Mr. Tagom i. Ela sorriu.

— Vam os ouvir o que gravei até agora — disse Mr. Tagom i.

A fita com eçou a rodar. Ouviu sua voz, fina e m etálica, saindo do alto-falante de duas polegadas

"... de Herr Borm ann pela salvação..." Ouviu o ranger peculiar enquanto a fita corria. Arranhões, pensou.

— Achei o final — disse, quando a fita deixou de rodar. — Determ inação de se elevar e sacrificar-se para obter um lugar na história, do qual nenhum ser vivo poderá deslocá-lo, aconteça o que acontecer.

Parou.

— Som os todos insetos — disse a Miss Ephreikian. — Tateando atrás de algo de terrível ou divino. Concorda?

Inclinou-se. Miss Ephreikian, sentada ao lado do gravador, inclinou-se levem ente tam bém .

— Envie isso — disse-lhe. — Assine, etc. Trabalhe as frases, se quiser, para que signifiquem algum a coisa. Enquanto ela deixava a sala, ele acrescentou:

— Ou para que não signifiquem nada. Com o preferir.

Abrindo a porta do escritório, ela lançou-lhe um olhar curioso.

Depois da saída dela, ele com eçou a exam inar os assuntos rotineiros do dia. Mas quase im ediatam ente veio a voz de Mr. Ram sey no intercom .

— Senhor, Mr. Bay nes no telefone.

Bom , pensou Mr. Tagom i. Agora podem os com eçar a discussão im portante.

— Pode ligar — disse, apanhando o telefone.

— Mr. Tagom i... — era a voz de Mr. Bay nes.

— Boa-tarde. Devido à notícia da m orte do Chanceler Borm ann, não pude estar aqui de m anhã. Contudo...

— Mr. Yatabe entrou em contato com o senhor?

— Ainda não.

— Seus funcionários j á foram prevenidos? — disse Mr. Bay nes. Parecia agitado.

— Sim — disse Mr. Tagom i. — Será convidado a entrar logo que chegue.

Fez um a anotação m ental para avisar Mr. Ram sey ; ainda não tivera tem po. Então não vam os com eçar as discussões até o velho aparecer? Sentiu-se desanim ado.

— Senhor — prosseguiu — estou ansioso por com eçar. Pode apresentar-nos seus m oldes inj etáveis? Em bora tenha havido confusão hoj e...

— Houve um a m odificação — disse Mr. Bay nes. — Vam os esperar por Mr. Yatabe. Tem certeza de que ele não chegou? Quero que prom eta avisar-m e logo que ele chegue aí. Por favor, faça o que puder, Mr. Tagom i.

A voz de Mr. Bay nes parecia forçada, nervosa.

— Dou-lhe a m inha palavra.

Agora ele, tam bém , sentia-se agitado. A m orte de Borm ann era a causa disso.

— Enquanto esperam os — disse rapidam ente — teria prazer em convidá-lo para alm oçar. Até esta hora ainda não pude alm oçar.

Im provisando, continuou:

— Em bora tenham os que esperar quanto aos detalhes, talvez pudéssem os passar em revista a situação m undial, em particular...

— Não — disse Mr. Bay nes. Não? pensou Mr. Tagom i.

— Senhor — disse — não m e sinto bem hoj e. Aconteceu-m e um sério acidente; eu tinha a esperança de contá-lo ao senhor.

— Sinto m uito — disse Mr. Bay nes. — Cham arei m ais tarde.

O telefone ficou m udo. Desligara abruptam ente.

Ofendi-o, pensou Mr. Tagom i. Deve ter percebido, com razão, que esqueci de inform ar os funcionários da chegada do velho senhor. Mas não é grave; apertou o botão do intercom e disse:

— Mr. Ram sey , venha à m inha sala, por favor.

Posso corrigir isso im ediatam ente. Há coisas m ais im portantes, pensou. A m orte de Borm ann o abalara.

Um a coisa sem gravidade e contudo indicativa de m inha atitude tola e fraca. Mr. Tagom i sentiu-se culpado. Não é um bom dia, pensou. Devia ter consultado o oráculo e descobrir em que m om ento estavam . Afastei m e do Tao; é evidente.

Qual dos sessenta e quatro hexagram as, pensou, está m e influenciando? Abrindo a gaveta da escrivaninha, retirou o I Ching e colocou os dois volum es sobre a m esa. Tanta coisa para indagar aos sábios. Tantas perguntas dentro de m im que m al posso articular...

Quando Mr. Ram sey entrou, j á obtivera o hexagram a.

— Vej a, Mr. Ram sey .

Mostrou-lhe o livro. Era o hexagram a quarenta e sete. Opressão — Exaustão.

— Um m au sinal, em geral — disse Mr. Ram sey. — Qual foi a pergunta, senhor? Se não o ofendo ao perguntar.

— Indaguei quanto ao Mom ento — disse Mr. Tagom i. — O Mom ento para todos nós. Nenhum a linha em m ovim ento. Um hexagram a estático.

Fechou o livro.

 

Às três da tarde, Frank Frink, ainda aguardando com seu sócio a decisão de Wy ndam -Matson sobre o dinheiro, resolveu consultar o oráculo. O que vai acontecer? perguntou, j ogando as peças.

O hexagram a era o quarenta e sete. Tirou um a linha m óvel. Nove no quinto lugar.

Seu nariz e seus pés foram cortados fora.

A opressão nas m ãos do hom em com faixas púrpuras nos j oelhos.

A alegria vem devagar.

Por m uito tem po — ao m enos m eia hora — ele estudou a linha e o m aterial ligado a ela, tentando decifrar seu significado. O hexagram a, m uito especialm ente com aquela linha m óvel, perturbava-o. Finalm ente concluiu, relutantem ente, que o dinheiro não sairia.

— Você depende dem ais desse troço aí — disse Ed McCarthy .

Às quatro horas, um m ensageiro da Corporação W.-M. apareceu e entregou a Frink e McCarthy um envelope. Ao abri-lo encontraram um cheque visado de dois m il dólares.

— De m odo que você estava errado — disse McCarthy .

Então, pensou Frank, o oráculo deve estar se referindo a algum a conseqüência futura disto. É esse o problem a; m ais tarde, quando tiver acontecido, pode-se olhar para trás e ver exatam ente o que queria dizer. Mas agora...

— Podem os com eçar a m ontar a loj a — disse McCarthy .

— Agora? Hoj e? — sentia-se cansado.

— Por que não? Já fizem os os pedidos. É só pôr as cartas no correio. Quanto m ais cedo m elhor. E as encom endas locais que puderm os encontrar, vam os buscar pessoalm ente.

Vestindo o paletó, Ed dirigiu-se à porta do quarto de Frink.

Haviam persuadido o proprietário a alugar-lhes o porão do prédio. No m om ento servia de depósito. Logo que tirassem os caixotes podiam construir sua banca de trabalho, colocar a fiação elétrica, as lâm padas, com eçar a m ontar seus m otores e correias. Já tinham esboçado os desenhos, as especificações, as listas de peças. Na verdade, j á haviam com eçado.

Lá vam os nós, percebeu Frank Frink. Já tinham até achado um nom e:

EDFRANK JOALHEIROS

— O m áxim o que posso fazer hoj e — disse ele — é com prar a m adeira para a banca, e talvez algum m aterial elétrico. Mas nada de m aterial para as j óias.

Foram , então, a um depósito de m adeira ao sul de São Francisco. Um a hora depois estavam com a m adeira.

— O que é que está te incom odando? — perguntou Ed McCarthy, enquanto entravam num a loj a de ferragem que vendia por atacado.

— O dinheiro. Me deprim e. Financiar as coisas desta m aneira.

— O velho W.-M. com preende — disse McCarthy .

Eu sei, pensou Frink. É j ustam ente o que m e deprim e. Entram os no m undo dele. Som os iguais a ele. É um pensam ento agradável, por acaso?

— Não olhe para trás — disse McCarthy . — Olhe para a frente. Para o negócio.

Estou olhando para a frente, pensou Frink. Pensou no hexagram a. Que ofertas e libações posso fazer? E... a quem ?