O Homem do Castelo Alto
Capítulo 14
MR. NOBUSUKE Tagom i pensou: não há resposta. Nenhum a com preensão. Nem no oráculo. Mesm o assim , tenho que continuar a viver, dia após dia, de qualquer j eito.
Vou partir para onde possa passar despercebido.
Viver invisível, pelo m enos. Até a chegada de novos tem pos quando...
Em todo caso, despediu-se da m ulher e deixou a casa. Mas não para ir ao edifício Nippon Times, com o de costum e. Que tal descansar? Ir até o parque Golden Gate, com seu zoológico e seu aquário? Visitar lugares onde seres que não pensam encontram , m esm o assim , prazer de viver.
Tem po. É um longo percurso para o velotáxi e m e dá m ais tem po para perceber as coisas. Se é possível falar assim .
Mas árvores e anim ais não são hum anos. Preciso agarrar-m e à vida hum ana. Essa história fez com que eu m e sentisse criança, em bora isso possa ser bom . Posso dar um j eito para ser assim .
O velotáxi pedalou por Kearny Street, em direção ao centro de São Francisco. Andar de bonde, pensou subitam ente Mr. Tagom i. A satisfação de um a viagem quase em ocionante, num veículo enternecedor que deveria ter desaparecido desde 1900 m as que, estranham ente, continua a existir.
Despediu o velotáxi e andou pela calçada até a parada m ais próxim a.
Talvez, pensou, não possa voltar nunca m ais ao edifício Nippon Times, com seu fedor de m orte. Minha carreira está acabada, m as é m elhor assim . A j unta diretora das Missões Com erciais pode m e arranj ar um substituto. Mas Tagom i ainda anda, existe, lem brando cada detalhe. Portanto nada term inou.
Em todo caso a guerra, a Operação Dente de Leão, vai varrer-nos a todos. Independente do que estiverm os fazendo na hora. Nosso inim igo é aquele ao lado de quem lutam os na últim a guerra. De que nos serviu? Devíam os ter lutado contra eles, talvez. Ou deixado que eles perdessem , aj udando seus inim igos, os Estados Unidos, a Inglaterra, a Rússia.
Era desesperador, qualquer que fosse o lado por onde se exam inasse a questão.
O oráculo enigm ático. Talvez tenha se retirado do m undo dos hom ens, entristecido. A partida dos sábios.
Entram os num Mom ento em que estam os sós. Não podem os conseguir aj uda, com o antes. Bom , pensou Mr. Tagom i, talvez isso tam bém sej a bom . Ou possa ser transform ado em bem . É preciso continuar a procurar o Cam inho.
Subiu no bonde de Califórnia Street e foi até o fim da linha. Até saltou e aj udou a virar o bonde em torno da plataform a giratória de m adeira. Aquela, de todas as suas experiências urbanas, era a que tinha m aior significado para ele, habitualm ente. Agora perdera o efeito; sentia com m aior intensidade ainda o vazio que o envolvia, devido à contam inação que chegara até aqui.
Naturalm ente voltou de bonde. Mas... por m era form alidade, percebeu, vendo as ruas, os prédios, o trânsito passarem em sentido inverso.
Perto de Stockton, levantou-se para descer. Mas na parada, quando j á ia em bora, o condutor cham ou-o:
— Sua pasta, senhor.
— Obrigado.
Esquecera-a no bonde. Estendendo a m ão, recebeu-a e depois inclinou-se enquanto o bonde se pôs em m ovim ento. Um a pasta com um conteúdo m uito valioso, pensou. No interior, um Colt 44, peça de coleção, agora m antido sem pre à m ão, para o caso de os bandidos da S.D. tentarem vingar se de m im com o indivíduo. Nunca se sabe. E contudo... Mr. Tagom i sentia que este novo com portam ento, apesar de tudo, era neurótico. Não devia ceder, disse a si m esm o m ais um a vez, enquanto andava, com a pasta na m ão. Com pulsão-obsessão-fobia. Mas não conseguia libertar-se.
Está dentro de m im e eu dentro dela, pensou.
Terei, então, perdido m eu prazer de colecionar? — perguntou-se. Estará todo o m eu instinto pervertido pela lem brança do que fiz? E o gosto de colecionar terá sido atingido totalm ente e não apenas no que se refere a este obj eto? Sustentáculo de m inha vida... área, ai de m im ! em que vivi com tam anho deleite.
Cham ando um velotáxi, deu o endereço da loj a de Robert Childan, em Montgom ery Street. Vam os descobrir. Perm anece um fio que m e liga à região onde a vontade se exerce. Talvez eu possa usar um ardil contra m inha ansiedade: trocar m eu revólver por obj eto de historicidade m ais garantida. Esta arm a, para m im , tem um a história por dem ais subj etiva... e da espécie errada. Mas isso term ina com igo; ninguém m ais pode ter sem elhante experiência com este revólver, no interior de m inha psique unicam ente.
Libertar-m e, resolveu entusiasm ado. Quando a arm a for em bora, ela deixa toda a som bra do passado. Pois não existe apenas em m inha m ente; é — com o sem pre se disse da teoria da historicidade — inerente à arm a em si. Um a equação entre nós dois!
Chegou à loj a. Onde j á fiz tantos negócios, pensou enquanto pagava ao chofer. Públicos e particulares. Carregando a pasta, entrou rapidam ente.
Mr. Childan estava na caixa registradora, polindo com um a flanela um obj eto.
— Mr. Tagom i — disse Childan, com um a reverência.
— Mr. Childan — respondeu Tagom i, tam bém inclinando-se.
— Que surpresa agradável. Estou encantado. Childan deixou de lado o obj eto e a flanela. Deu a volta e passou para o outro lado do balcão. Houve o ritual de sem pre, cum prim entos, etc. Todavia, Mr. Tagom i sentiu que o outro hoj e tinha algo diferente. Um tanto... apagado. Um a m elhora, achou. ele era sem pre um pouco gritador, barulhento. Habitualm ente agitado. Mas aquela m udança talvez fosse um m au presságio.
— Mr. Childan — disse Mr. Tagom i, colocando sua pasta no balcão e abrindo o fecho-ecler. — Desej o trocar um obj eto que lhe com prei aqui há vários anos — Costum a fazer isso, se não m e engano.
— Costum o — respondeu Mr. Childan. — Dependendo das condições, naturalm ente.
Seu olhar estava alerta.
— Revólver Colt 44 — inform ou Mr. Tagom i.
Ficaram os dois em silêncio, observando a arm a em seu estoj o de tela e com a caixa de m unição desfalcada.
Mr. Childan parecia ligeiram ente frio. Ah! com preendeu Mr. Tagom i. Bem , assim sej a.
— O senhor não está interessado? — perguntou Mr. Tagom i.
— Não senhor — respondeu Mr. Childan, com voz seca.
— Não insistirei.
Nem tinha forças. Eu cedo. Yin, a adaptação, a receptividade, m e tem em suas garras, eu tem o...
— Desculpe-m e, Mr. Tagom i.
Mr. Tagom i inclinou-se e recolocou a arm a, a m unição e o estoj o na pasta. É o destino. Devo ficar com isto.
— O senhor parece... bastante desapontado — notou Mr. Childan.
— O senhor reparou?
Ficou perturbado; deixara transparecer seu m undo interior? Deu de om bros, obviam ente.
— Tinha um a razão particular para querer trocar este artigo? — perguntou Mr. Childan.
— Não — disse ele, novam ente escondendo seu universo íntim o... com o devia ser.
Mr. Childan hesitou e depois disse:
— Eu... será que este obj eto veio de m inha loj a? Não trabalho com este artigo.
— Tenho certeza — respondeu Mr. Tagom i. — Mas não im porta. Aceito sua decisão; não estou ofendido.
— Senhor — disse Childan — perm ita-m e m ostrar-lhe algo que acaba de chegar. Dispõe de um m om ento?
Mr. Tagom i sentiu nascer a velha com oção.
— Algo de interesse fora do com um ?
— Venha, senhor.
Childan indicou o cam inho para o outro lado da loj a; Mr. Tagom i seguiu-o.
Dentro de um cofre de vidro trancado, em bandej as de veludo negro, repousavam pequenas espirais de m etal, apresentando m ais um a sugestão de form a, que um a form a bem definida. Mr. Tagom i sentiu-se tom ado de um a estranha em oção quando parou para observá-los.
— Mostro-os im piedosam ente a cada um de m eus clientes — disse Robert Childan. — O senhor sabe o que são?
— Jóias, ao que parece — respondeu Mr. Tagom i, notando um broche.
— Obj etos de fabricação am ericana. Claro. Mas, senhor, não são antigos.
Mr. Tagom i levantou os olhos.
— Senhor, estes são novos. — A fisionom ia branca, algo parada, de Robert Childan estava conturbada de paixão. — Esta é a nova vida de m inha terra, senhor.
O início de algum a coisa sob a form a de pequenas sem entes im perecíveis. Sem entes de beleza.
Mr. Tagom i exam inou dem oradam ente, com verdadeiro interesse, segurando-as, várias peças. Sim , há algo novo que as anim a, concluiu. A Lei do Tao é confirm ada aqui; quando o yin está por toda parte, o prim eiro raio de luz vive subitam ente nas trevas m ais profundas, m ais escuras... É um fenôm eno fam iliar a todos nós; j á presenciam os antes, com o o vej o hoj e aqui. E contudo para m im são apenas fragm entos de m el. Não posso m e entusiasm ar, com o Mr. Robert Childan. Infelizm ente, para am bos. Mas é a verdade.
— Muito bonito — m urm urou, devolvendo as peças.
— Senhor, isto não se fabrica da noite para o dia — disse Mr. Childan, com voz forte.
— Com o?
— A nova visão em seu coração.
— Você foi convertido — disse Mr. Tagom i. — Eu gostaria de sê-lo. Mas não sou.
Inclinou-se.
— Fica para outra vez — falou Mr. Childan, acom panhando o até a entrada da loj a.
Ele não fez o m enor gesto para m ostrar outros artigos, reparou Mr. Tagom i.
— Sua certeza é de gosto duvidoso — disse Mr. Tagom i. — Parece forçar indevidam ente.
Mr. Childan não se sentia atingido.
— Perdão — respondeu. — Mas sou sincero. Eu sinto latente nesses obj etos o germ e do futuro.
— Assim sej a — disse Mr. Tagom i. — Mas seu fanatism o anglo-saxão não m e im pressiona.
Contudo, sentiu um a certa renovação de esperanças. Suas esperanças.
— Até outro dia — disse, inclinando-se. — Voltarei breve. Talvez possam os estudar sua profecia.
Mr. Childan inclinou-se, em silêncio.
Carregando sua pasta, com o Colt 44 no interior, Mr. Tagom i partiu. Saio com o entrei, refletiu. Ainda à procura. Ainda m e faltando o que preciso, se devo voltar ao m undo.
E se eu tivesse com prado um daqueles obj etos estranhos, desconhecidos? Se tivesse ficado com ele, exam inando, contem plando... teria, a seguir, através dele, encontrado o cam inho de volta? Duvido.
São para ele, não para m im .
E contudo, m esm o se um a só pessoa encontrar o cam inho... significa que há um Cam inho. Mesm o que eu pessoalm ente não o alcance.
Eu o invej o.
Mr. Tagom i fez m eia volta e retornou à loj a. Ali, à porta, estava Mr. Childan de pé, observando-o. Não tinha ainda entrado.
— Senhor — disse Mr. Tagom i. — Com prarei um daqueles, qualquer um que o senhor escolher para m im . Não tenho fé, m as no m om ento qualquer aj uda pode ser útil.
Seguiu Mr. Childan m ais um a vez pela loj a, até o cofre de vidro.
— Não acredito. Vou carregar esse obj eto com igo, e o olharei a intervalos regulares. Um a vez cada dois dias, por exem plo. Se depois de dois m eses eu não enxergar...
— Pode trazê-lo de volta e lhe pagarei o m esm o preço — respondeu Mr. Childan.
— Obrigado — disse Mr. Tagom i.
Sentia-se m elhor. Às vezes é preciso tentar qualquer coisa, pensou. Não é vergonha algum a. Ao contrário, é sinal de sabedoria, de reconhecer a situação.
— Isto irá acalm á-lo — afirm ou Mr. Childan. Ofereceu-lhe um pequeno triângulo de prata ornado de gotas côncavas. Preto em baixo, brilhante e lum inoso em cim a.
— Obrigado — disse Mr. Tagom i.
Mr. Tagom i voltou de velotáxi para Portsm outh Square, um pequeno parque aberto na encosta sobre Kearny Street, de onde se via o Distrito Policial. Sentou-se num banco, ao sol. Pom bas passeavam pelos cam inhos pavim entados à procura de com ida. Em outros bancos, hom ens m al vestidos liam o j ornal ou cochilavam . Aqui e ali, havia outros deitados na gram a, quase adorm ecidos.
Tirando do bolso o saco de papel com o nom e da loj a de Mr. Robert Childan, Mr. Tagom i ficou sentado com o saco em am bas as m ãos, aquecendo-se. Depois abriu o saco e tirou sua nova aquisição para exam iná-la a sós, na solidão daquele pequeno parque, feito de gram ados e cam inhos, freqüentado por velhos.
Segurou a espiral de prata. Aquele pequeno obj eto refletia o sol do m eio-dia, com o um brinde barato de lata de cereais, um espelho de aum ento Jack Arm strong, adquirido pelo correio. Ou... Om, com o dizem os Brahm anes. Um ponto dim inuto onde tudo está contido. Am bos, ao m enos em aparência. O tam anho, a form a. Continuou conscienciosam ente a exam iná-lo.
Será que vem , com o profetizou Mr. Robert Childan? Cinco m inutos. Dez m inutos. Fico sentado o m áxim o que agüentar, pensou. O tem po, infelizm ente, vai nos obrigar a vender a descoberta. O que, então, tenho em m inhas m ãos, enquanto ainda há tem po?
Desculpe, pensou Mr. Tagom i na direção do fragm ento de m etal. Som os sem pre obrigados a levantar e agir. A contragosto, com eçou a guardar a coisa no saco. Um últim o olhar esperançoso — novam ente investigou com todas suas forças. Com o criança, disse para si m esm o. Im itar a inocência e a fé. À beira-m ar, andando ao acaso, apanhava conchas e colocava-as no ouvido para escutar em seu m urm úrio a sabedoria do m ar.
Aqui era o olho substituindo o ouvido. Penetra em m im e m e inform a o que foi feito, o que significa, o porquê. Um m undo de conhecim ento com prim ido num a espiral de dim ensões restritas.
Pedindo dem ais e por isso não obtendo nada.
— Ouça — disse ele sotto você à espiral. — A garantia de venda prom etia m uito.
E se eu sacudi-la com violência, com o um relógio velho recalcitrante? Foi o que fez, para cim a e para baixo. Ou com o dados num m om ento crítico da partida. Para despertar a divindade no interior. Talvez estej a adorm ecida. Ou em viagem . A brincadeira irônica do Profeta Elias. Ou então esta divindade continuará o seu cam inho. Mr. Tagom i sacudiu a espiral de prata violentam ente para baixo e para cim a na m ão fechada. Cham á-lo em voz alta. Exam inou-o m ais um a vez.
Você, sua coisinha, está vazia, pensou.
Xingá-la, disse a si próprio. Am edrontá-la.
— Estou perdendo a paciência — disse, sotto você. E daí? Jogá-la na latrina? Soprar nela, sacudi-la outra vez? Ganhe o j ogo para m im .
Ele riu. É preciso estar vazio para tentar aqui em pleno sol. Que espetáculo para quem passar por perto! Olhou em volta, sentindo-se culpado. Mas ninguém o tinha visto. Os velhos cochilavam . Ali estava tudo tranqüilo.
Tentei tudo, convenceu-se. Im plorei, contem plei, am eacei, filosofei longam ente. O que m ais poderia fazer?
Poderei ao m enos ficar aqui? Isso m e é negado. A oportunidade talvez volte a ocorrer. No entanto, com o disse W. S. Gilbert, um a tal oportunidade não voltará a ocorrer. Será? Sinto que sim .
Quando eu era criança, pensava com o criança. Mas agora coloquei de lado as coisas pueris. Agora preciso pesquisar em outros cam pos. Devo exam inar este obj eto de m aneira nova. Preciso ser científico. Esgotar, por análise lógica, cada prem issa. Sistem aticam ente, seguindo o exem plo clássico aristotélico.
Pôs o dedo no ouvido direito, para abafar o barulho do trânsito e outros que pudessem distraí-lo. Depois apertou o triângulo de prata, com o um a concha, centra o ouvido esquerdo.
Nenhum ruído. Nenhum som de m ar sim ulado, na realidade ruídos interiores da circulação sangüínea; nem isso.
Então, que outro sentido era capaz de captar o m istério? A audição era inútil, evidentem ente. Mr. Ta-g; m i fechou os olhos e com eçou a passar os dedos por todos os recantos da superfície da peça. O tato tam bém não, seus dedos não lhe diziam nada. O olfato. Aproxim ou a prata do seu nariz e aspirou; um vago arom a m etálico, m as que não transm itia significado algum . O gosto. Abrindo a boca, enfiou o triângulo de prata com o se fosse bolacha, m as naturalm ente sem m astigá-lo. Nenhum significado, só um a coisa dura, am arga, fria.
Novam ente segurou-o na palm a da m ão. De volta por fim à visão. Hierarquicam ente, o m ais elevado na escala grega de prioridades. Rodou o triângulo de prata de todas as m aneiras possíveis e im agináveis; exam inou-o de cada ponto de vista extra rem.
O que vej o? perguntou-se. Aquilo m erecia um longo, paciente e cuidadoso estudo. Que indício neste obj eto m e leva à verdade?
Entrega-se, ordenou ao triângulo de prata. Revela o arcano secreto.
É com o o sapo vindo das profundezas, pensou. Agarram o-lo e ordenam os que nos diga o que repousa no fundo das águas. Mas aqui o sapo nem dá resposta; deixa-se estrangular em silêncio, torna-se pedra, argila ou m ineral. Inerte. Volta à rígida substância fam iliar do seu m undo tum ular.
O m etal vem da terra, pensou, exam inando o obj eto. Vem de baixo: daquele reino que é o m ais baixo, o m ais denso. Terra dos duendes e cavernas, úm ido, sem pre escuro. Mundo yin, em seu aspecto m ais m elancólico. Mundo de cadáveres, decadência e colapso. De fezes. Tudo que m orreu, escorrendo e se desintegrando cam ada por cam ada. O m undo dem oníaco do im utável; o tem po-que foi.
Entretanto, à luz do sol, o triângulo de prata brilhava. Refletia luz. Fogo, pensou Mr. Tagom i. Um obj eto nem úm ido nem escuro, afinal. Nem pesado ou inerte m as pulsando de vida. O reino do alto, aspecto do Yang: em pírico etéreo, isto é o trabalho de um artista: retira rocha m ineral da terra escura e silenciosa e a transform a em algo que brilha e reflete a luz do céu.
Ele deu a vida à m orte. Cadáver transform ado em visão feérica; o passado cedeu ao futuro.
Qual é você? perguntou ao pedaço de prata. Yin escuro e m orto ou yang brilhante e vivo? Na palm a de sua m ão, a espiral de prata dançava e cegava-o; apertou os olhos, vendo agora só o j ogo da luz.
Corpo de yin, alm a de yang. Metal e fogo unidos. O externo e o interno; um m icrocosm o na palm a de m inha m ão.
De que este obj eto fala? Ascensão vertical. Para o céu. De que tem po? Do m undo de luz do m utável. Sim , esta coisa revelou seu espírito: luz. Agora m inha
atenção está presa; não posso afastar o olhar. Estou enfeitiçado por esta hipnótica superfície resplandecente, que não posso m ais controlar. Não sou m ais livre para abandoná-la.
Agora fala com igo, disse-lhe ele. Agora que m e laçaste. Quero ouvir tua voz saindo dessa cegante luz branca, com o esperam os ver apenas na segunda existência do Bardo Thodol. Mas eu não preciso esperar a m orte, a decom posição do m eu animus enquanto vaga em busca de um novo ventre. Evitarem os todas as divindades terríveis e benéficas e as luzes esfum açadas tam bém . E os casais em coitus. Tudo m enos esta luz. Estou pronto a enfrentá-la sem terror. Nota que não estrem eço.
Sinto os ventos quentes do karma guiando-m e. Mesm o assim fico aqui. Meu treinam ento foi correto: não devo fugir da brilhante luz branca pois, se o fizer, novam ente reentrarei no ciclo da vida e da m orte, sem nunca conhecer a liberdade, sem nunca ter descanso. O véu de maya tom bará m ais um a vez se eu... A luz desapareceu.
Na sua m ão havia apenas um opaco triângulo de prata. Um a som bra interceptara o sol; Mr. Tagom i levantou os olhos.
Um policial alto, de uniform e azul, de pé diante de seu banco, sorria.
— Hem ? — disse Mr. Tagom i, surpreendido.
— Estava vendo com o funciona esse quebra-cabeça. O policial pôs-se a andar.
— Quebra-cabeça — ecoou Mr. Tagom i. — Não
é um quebra-cabeça.
— Não é um daqueles quebra-cabeça de desm ontar? Meu garoto tem um a porção. Alguns são difíceis.
O policial seguiu seu cam inho.
Tudo estragado, pensou Mr. Tagom i. Minha oportunidade de atingir o nirvana. Foi-se. Interrom pida por esse bárbaro Yank branco do Neanderthal. Aquele sub-hum ano pensava que eu estava absorvido por um j ogo infantil.
Levantando-se do banco, deu alguns passos inseguros. Preciso acalm ar-m e. Esses xingam entos racistas de baixo nível são indignos de m inha pessoa.
Incríveis paixões irredim íveis chocam -se em m eu peito. Atravessou o parque. Continuar andando, disse a si m esm o. A catarsis pelo m ovim ento.
Alcançou a periferia do parque. A calçada de Kearny Street. Trânsito intenso e barulhento. Mr. Tagom i parou na beira da calçada.
Nenhum velotáxi. Foi andando pela calçada; j untou-se à m ultidão. Nunca aparecem quando a gente precisa deles.
Meu Deus, o que é isto? ele parou, de queixo caído diante da coisa horrorosa aparecendo no horizonte. Com o um a lagarta de parque de diversões suspensa, cortando a vista toda. Um a enorm e construção de m etal e cim ento no ar.
Mr. Tagom i voltou-se para um pedestre, um hom em m agro de terno am arrotado.
— O que é isso? — perguntou, apontando.
— Horrível, não é? — respondeu o hom em , m ostrando os dentes. — Aquilo é o Embarcadero Freeway. Muita gente acha que estragou a paisagem .
— É a prim eira vez que o vej o — disse Mr. Tagom i.
— Sorte sua — disse o hom em , seguindo.
Um pesadelo, pensou Mr. Tagom i. Preciso acordar. Onde estão os velotáxis, hoj e? Com eçou a andar m ais depressa. Toda a paisagem tinha um ar sinistro, enfum açado, tum ular. Cheirava a queim ado. Os prédios cinza fosco, a calçada, as pessoas, com um a pressa anorm al. E ainda nenhum velotáxi.
— Táxi! — gritou, andando apressado. Inútil. Só carros e ônibus. Carros com o brutais trituradoras, todos de form ato pouco fam iliar. Evitou vê-los, m antendo os olhos fixos diante de si. Distorção de m inha percepção ótica, de natureza particularm ente grave. Um a perturbação afetando m eu sentido de espaço. O horizonte ondulava. Era com o um astigm atism o m ortal, atingindo sem aviso prévio.
Preciso descansar. Adiante, havia um a lanchonete suj a. Só brancos no interior, todos com endo. Mr. Tagom i em purrou as portas de m adeira. Cheiro de café. No canto, um jukebox berrando; titubeou, m as encam inhou-se ao. balcão. Todos os banquinhos estavam ocupados por brancos. Mr. Tagom i soltou um a exclam ação. Vários brancos voltaram -se. Mas nenhum saiu de onde estava sentado. Nenhum cedeu-lhe seu banco. Apenas recomeçaram a comer.
— Insisto — disse Mr. Tagom i em voz alta ao prim eiro branco; gritou no ouvido do hom em .
O suj eito colocou a caneca de café no balcão e disse:
— Tom a cuidado, Toj o!
Mr. Tagom i olhou para os outros brancos; todos o observavam , com expressões hostis. E ninguém se m exeu.
A existência Bardo Thödol, pensou Mr. Tagom i. Ventos quentes soprando-m e para quem sabe onde. Esta é a visão de... de quê? Pode o animus suportar? Sim , o Livro dos Mortos nos prepara: após a m orte tem os um a visão fugidia dos outros, m as tudo nos parece hostil. Fica-se isolado. Sem apoio onde quer que nos virem os. A terrível viagem — e sem pre os reinos do sofrim ento, do renascim ento, prontos para receber o espírito em fuga, desm oralizado. As desilusões.
Afastou-se apressado do balcão. As portas fecharam -se abanando atrás dele; estava novam ente de pé na calçada.
Onde estou? Fora do m eu m undo, do m eu espaço, do tem po.
O triângulo de prata desorientou-m e. Soltei m inhas am arras e agora estou pisando no nada. Dem ais para m inhas forças. Será sem pre um a lição para m im . Procuram os ir contra nossas percepções... para quê? Para peram bular inteiram ente perdido, sem sinais ou guia?
Esta situação hipnogógica. Faculdade de atenção dim inuída até este estado crepuscular; o m undo visto apenas no seu aspecto sim bólico arquetípico, totalm ente confundido com m aterial inconsciente. Típico do sonam bulism o engendrado por hipnose. Preciso parar este terrível escorregão pelas som bras; recuperar a concentração e restaurar assim o centro do ego.
Procurou nos bolsos o triângulo de prata. Havia desaparecido. Deixado no banco do parque, com a pasta. Catástrofe.
Curvando-se, correu pela calçada, na direção do parque.
Vagabundos sonolentos observaram -no com surpresa, quando corria pelo cam inho acim a. 0 banco estava lá. E, encostada no banco, sua pasta. Nem sinal do triângulo de prata. Procurou. Sim . Caiu na gram a; estava sem i-oculto. Onde o atirara com raiva.
Voltou a sentar-se, ofegante.
Concentrar-se novam ente no triângulo de prata, disse a si próprio quando recuperou o fôlego. Exam iná-lo cuidadosam ente e contar. Quando chegar a dez, fazer um barulho assustador. Erwache, por exem plo.
Fantasia idiota do gênero fuga, pensou Em ulação dos aspectos m ais nocivos da adolescência, no lugar da inocência clarividente, pura, da verdadeira infância. Justam ente o que m ereço, em todo caso.
Tudo culpa m inha. Não houve intenção por parte de Mr. Robert Childan ou dos artesãos; m inha própria cobiça é a única culpada. Não se pode forçar a com preensão a vir.
Ele contou devagar, em voz alta e depois saltou de pé.
— Maldita burrice — disse, bruscam ente. As névoas estariam dissipadas? Espiou em volta. A difusão estava dim inuída, provavelm ente. Agora podia apreciar a escolha incisiva das palavras de São Paulo: visto através de um vidro, obscuram ente, não era um a m etáfora, m as um a alusão perspicaz à disposição ótica. Nós realm ente vem os astigm aticam ente, no sentido fundam ental da expressão: nosso espaço e nosso tem po são criações da nossa própria m ente e quando m om entaneam ente falham ... é com o o distúrbio agudo do ouvido m édio.
Ocasionalm ente desprezam os nosso centro de gravidade, perdendo todo sentido de equilíbrio.
Voltou a sentar-se, guardou a espiral de prata no bolso do casaco e ficou segurando a pasta no colo. O que preciso fazer agora, disse a si próprio, é ir ver aquela construção m aligna — com o foi que o hom em a cham ou? Embarcadero Freeway. Se ainda estivesse visível. Mas sentiu m edo.
E contudo, pensou, não posso ficar aqui sentado. Tenho cargas a carregar, com o diz a velha expressão am ericana. Tarefas a cum prir. Dilem a.
Dois m eninos chineses vieram pulando pelo cam inho. Um bando de pom bas levantou vôo; os m eninos pararam . — Ei, garotos — gritou Mr. Tagom i, enfiando a m ão no bolso. — Venham cá.
Os m eninos aproxim aram -se, desconfiados.
— Aqui têm um a m oeda — Mr. Tagom i atirou-a e eles correram para apanhá-la. — Dêem um pulo até Kearny Street e vej am se há algum velotáxi. Voltem para m e avisar.
— Vai nos dar outra m oeda? — perguntou um dos m eninos. — Quando a gente voltar?
— Sim — disse Mr. Tagom i. — Mas digam -m e a verdade.
Os m eninos saíram na disparada pelo cam inho.
Se não tiver, pensou Mr. Tagom i, é m elhor eu m e retirar para algum lugar bem reservado e m e m atar. Segurou com força a pasta. Ainda tenho a arm a; isso não é problem a.
Os m eninos vieram correndo de volta.
— Seis! — gritou um deles. — Eu contei seis!
— Eu contei cinco! — exclam ou o outro m enino, ofegante.
— Vocês têm certeza de que eram velotáxis? — perguntou Mr. Tagom i. — Viram claram ente os condutores pedalando?
— Sim , senhor — responderam os dois, em coro. Deu um a m oeda a cada um . Agradeceram e foram em bora.
Voltar ao escritório e ao trabalho, pensou Mr. Tagom i. Ficou de pé, agarrando a pasta pela alça. O dever m e cham a. Novam ente um dia rotineiro.
Mais um a vez desceu o cam inho, até a calçada.
— Táxi! — cham ou.
Do m eio do trânsito surgiu um velotáxi; o condutor parou j unto à calçada, o rosto m agro escuro brilhando, o peito ofegante.
Sim , senhor.
— Leve-m e ao edifício Nippon Times — ordenou Mr. Tagom i.
Subiu e acom odou-se.
Pedalando furiosam ente, o condutor m isturou seu velotáxi aos outros veículos.
Era um pouco antes do m eio-dia quando Mr. Tagom i chegou ao edifício Nippon, Times. Do vestíbulo principal, pediu à telefonista que o ligasse com Mr. Ram sey .
— Aqui Tagom i — disse, quando foi com pletada a ligação.
— Bom -dia, senhor. Estou aliviado. Não o tendo visto e ficando preocupado telefonei para sua casa às dez horas, m as sua esposa disse que o senhor saíra sem dizer para onde.
— Já voltou tudo ao lugar, aí? — perguntou Mr.
Tagom i.
— Não resta sinal algum .
— Com pletam ente?
— Palavra, senhor.
Satisfeito, Mr. Tagom i desligou e tom ou o elevador.
Lá em cim a, entrando em seu escritório, deu um a -olhada em tudo. Até onde alcançava sua visão. Nem sinal, com o lhe afirm aram . Sentiu alívio. Ninguém saberia se não tivesse visto. A historicidade presa aos quadrados de nylon do chão...
Mr. Ram sey entrou no escritório:
— Sua coragem foi obj eto de um elogio no Times — com eçou. — Um artigo descrevendo...
Reparando na expressão de Mr. Tagom i, interrom peu-se.
— Responda a estas perguntas urgentes — disse
Ir. Tagom i. — O general Tedeki? Isto é, Mr. Yatabe?
— Em vôo secretíssim o, de volta a Tóquio. Pistas falsas sem eadas aqui e ali.
Mr. Ram sey cruzou os dedos, sim bolizando a esperança dele.
— Por favor, queira inform ar com relação a Mr. Bay nes. ,.
— Não sei. Durante sua ausência, ele fez um a breve aparição, que pode ser considerada furtiva, m as não falou — Mr. Ram sey hesitou. — Talvez tenha voltado à Alem anha.
— Muito m elhor para ele ir para as ilhas nipônicas — disse Mr. Tagom i, falando principalm ente para si próprio.
Em todo caso, era no general idoso que suas preocupações principais se concentravam . E está fora do m eu alcance, pensou Mr. Tagom i. Minha pessoa, m eu escritório; serviram -se de m im aqui, o que naturalm ente é apropriado e bom . Eu fui sua... com o se diz? Cobertura.
Eu sou a m áscara, ocultando o real. Atrás de m im , escondida, passa a atualidade, ao abrigo dos olhares curiosos.
Estranho, pensou. É vital, às vezes, ser apenas um a frente de papelão, um anteparo. Há um pouco de satori ali, se eu pudesse apreendê-lo. Sua finalidade, num esquem a geral de ilusão, não pode ser sondada. Lei de econom ia: nada se perde. Mesm o o irreal. Que lado sublim e no processo!
Miss Ephreikiam apareceu, m uito agitada.
— Mr. Tagom i. A telefonista m e m andou aqui.
— Fique calm a, senhorita — disse Mr. Tagom i.
A corrente do tem po nos im pele para adiante, pensou.
— Senhor, o cônsul alem ão está aqui. Quer falar com o senhor. Seu olhar ia de Mr. Ram sey para ele e vice-versa; seu rosto tinha um a palidez pouco natural. — Dizem que esteve aqui antes, tam bém , m as sabia que o senhor...
Mr. Tagom i fez sinal que se calasse.
— Mr. Ram sey . Por favor recorde-m e o nom e do cônsul.
— Freiherr Hugo Reiss, senhor.
— Agora m e lem bro.
Bem , pensou, evidentem ente Mr. Childan fez-m e um favor, no final das contas, recusando-se a aceitar de volta a arm a.
Carregando a pasta, deixou a sala e saiu para o corredor.
Lá estava um branco delgado, bem vestido. Cabelos cor de laranj a, cortados rente, sapatos pretos de couro brilhante, europeus, tipo Oxford, postura ereta. Um a afem inada piteira de m arfim . Sem dúvida o próprio.
— Herr Hugo Reiss? — perguntou Mr. Tagom i. O alem ão inclinou-se.
— Acontece — disse Mr. Tagom i — que tem os m antido relações com erciais por correspondência, por telefone, etc, m as, até agora, não pessoalm ente, face a face.
— Um a honra — disse Herr Reiss, aproxim ando-se dele. — Mesm o considerando as circunstâncias deploràvelm ente aborrecidas.
— Quem sabe — disse Mr. Tagom i. O alem ão levantou um a sobrancelha.
— Perdão — disse Mr. Tagom i. — Meu pensam ento está encoberto pelas circunstâncias indicadas. É a fragilidade dessa argila de que fom os m oldados, pode-se concluir.
— Terrível — disse Herr Reiss. Sacudiu a cabeça. — A prim eira vez que eu...
— Antes que com ece suas lam entações, deixe-m e falar — disse Mr. Tagom i.
— Pois não.
— Eu pessoalm ente m atei seus dois hom ens da S. D. — disse Mr. Tagom i.
— Estou aqui a pedido do Departam ento de Polícia de São Francisco — disse Herr Reiss, soprando a fum aça m al-cheirosa do seu cigarro em volta dos dois. — Passei horas no Distrito de Kearny Street e no necrotério, depois li o relatório que seu pessoal fez aos investigadores policiais. Sim plesm ente terrível, do princípio ao fim .
Mr. Tagom i não disse nada.
— Contudo — continuou Herr Reiss, nada confirm a a possibilidade de os bandidos terem ligação com o Reich. No que m e diz respeito, a história toda é um a loucura. Tenho certeza de que o senhor fez o que devia, Mr. Tagori.
— Tagom i.
— Minha m ão — disse o cônsul, oferecendo-a. — Vam os apertar nossas m ãos, com o pessoas civilizadas, e esquecer o caso. É indigno, especialm ente nestes dias críticos, quando qualquer publicidade estúpida poderia inflam ar a m ente das m assas, o que seria prej udicial aos interesses de am bas as nossas nações.
— Não obstante, m inha alm a carrega o peso da culpa — disse Mr. Tagom i. — O sangue, Herr Reiss, não pode ser apagado com o a tinta.
O cônsul parecia estarrecido.
— Desej o obter perdão — disse Mr. Tagom i. — Mas o senhor não pode dar-m o. Talvez não haj a quem possa. Eu pretendo ler o fam oso diário de um antigo teólogo de Massachusetts, Goodm an C. Mather. Trata, segundo fui inform ado, de culpa, fogos do inferno, etc.
O cônsul fum ava seu cigarro rapidam ente, observando Mr. Tagom i com atenção.
— Perm ita-m e inform á-lo de que sua nação — disse Mr. Tagom i — está prestes a m ergulhar num a abj eção m ais profunda que nunca. Conhece o hexagram a O Abismo? Falando em caráter pessoal e não com o representante oficial do Japão, eu lhe digo: tenho o coração doente de horror. Está para haver um banho de sangue que ultrapassa tudo o que conhecem os. E m esm o agora, os senhores lutam por um pequeno ganho egoísta ou para atingir um a m eta idêntica. Sobrepor-se ao grupo rival, à S.D., hein? Ao m esm o tem po em que coloca Herr Kreuz von Meere em m aus lençóis...
Não podia continuar. Seu peito estava opresso. Gom o na infância, pensou. Ataque de asm a quando ficava com raiva da velha.
— Estou doente — disse a Herr Reiss, que apagara o cigarro. — Um a doença que vem se desenvolvendo há m uitos anos m as que se intensificou desde o dia em que ouvi, sem poder fazer nada, contarem as façanhas de seus líderes. Em todo caso, não tenho nenhum a possibilidade de cura. E o senhor tam bém não. Na linguagem de Goodm an C. Mather, se bem m e recordo: Arrependa-se! — Citado corretam ente — disse o cônsul alem ão, em voz rouca.
Assentiu com a cabeça e acendeu um novo cigarro, com dedos trêm ulos.
Mr. Ram sey entrou, vindo do escritório. Trazia nas m ãos um m aço de form ulários e papéis. Disse a Mr. Tagom i, que estava silenciosam ente tentando respirar norm alm ente:
— Já que ele está aqui. Um assunto de rotina, ligado à sua função.
Pensativam ente Mr. Tagom i apanhou os form ulários apresentados. Passou os olhos por eles. Form ulário 20-50. Pedido do Reich feito através de seu representante nos Estados Am ericanos do Pacífico, Cônsul Freiherr Hugo Reiss, para entrega de um crim inoso, detido pelo Departam ento de Polícia de São Francisco, um j udeu de nom e Frank Frink, cidadão alem ão, de acordo com a lei do Reich, a contar de j unho de 1960 Para ser detido preventivam ente, segundo as leis do Reich, etc. Leu o docum ento outra vez.
— Eis um a caneta, senhor — disse Mr. Ram sey. — Isto encerra nossos negócios com o governo alem ão nesta data.
Observou o cônsul com repugnância, enquanto oferecia a caneta a Mr. Tagom i.
— Não — recusou Mr. Tagom i.
Devolveu o form ulário 20-50 a Mr. Ram sey. Depois agarrou-o de volta e rabiscou em baixo: Soltar. Diretoria da Missão Comercial. Autoridade de São Francisco. Vide -protocolo militar 1.9.47. Tagomi. Deu um a cópia ao cônsul alem ão e as outras a Mr. Ram sey, j untam ente com o original.
— Bom -dia, Herr Reiss. Inclinou-se.
O cônsul alem ão tam bém inclinou-se. Mal deu um a olhada no papel.
— Peço-lhe o favor de, no futuro, tratar dos assuntos oficiais por interm édio de correspondência, telefone, telegram a — disse Mr. Tagom i. — Não pessoalm ente.
— Está m e responsabilizando por condições gerais que fogem à m inha j urisdição — respondeu o cônsul.
— Conversa fiada — disse Mr. Tagom i. — É o que tenho a dizer.
— Não é assim que as pessoas civilizadas tratam de negócios — afirm ou o cônsul. — Está dando a tudo isto um caráter am argo e vingativo, em vez de adotar um com portam ento form al, sem nada de pessoal.
Jogou o cigarro no chão do corredor, depois virou-se e foi em bora.
— Leve esse cigarro fedorento j unto — disse Mr.
Tagom i, com voz fraca, m as o cônsul j á dobrara a esquina do corredor.
— Com portam ento infantil da m inha parte — disse Mr. Tagom i a Mr. Ram sey. — O senhor acaba de ser testem unha de um a repugnante m anifestação de infantilidade.
Encam inhou-se, com passo inseguro, à sua sala. Agora não podia nem respirar. Um a dor descia por seu braço esquerdo e ao m esm o tem po um a enorm e m ão aberta achatou e arrebentou suas costelas. — Uff! — disse.
Diante dele não havia m ais tapete, m as apenas chuva de faíscas, subindo, verm elhas.
Socorro, Mr. Ram sey, gritava, no íntim o. Mas não saía som . Por favor. Estendeu as m ãos, tropeçou. Não havia nem onde segurar-se.
Enquanto caía, agarrou dentro do casaco o triângulo de prata que Mr. Childan insistira que com prasse. Não m e salvou, pensou. Não aj udou. Todo aquele esforço.
Seu corpo bateu no chão. De quatro, ofegando, com o nariz no tapete. Mr. Ram sey chegava correndo, quase gritando. Mantenha a dignidade, pensou Mr.
Tagom i.
— Estou tendo um pequeno ataque de coração — conseguiu dizer Mr. Tagom i.
Várias pessoas agitavam -se agora em volta, transportando-o para o sofá.
— Fique calm o, senhor — dizia-lhe alguém .
— Avisem m inha m ulher, por favor — pediu Mr. Tagom i.
Agora estava ouvindo a sirene da am bulância. Um gem ido vindo da rua. E m uita agitação. Gente indo e vindo. Colocaram um cobertor em cim a dele, cobrindo-o até as axilas. Tiraram -lhe a gravata. Afrouxaram o colarinho.
— Agora está m elhor — disse Mr. Tagom i. Ficou deitado confortàvelm ente, sem tentar se m exer. Sua carreira estava encerrada, em todo caso reconheceu. O cônsul alem ão na certa fará escândalo j unto às autoridades. Reclam ará da sua falta de educação. Com razão, talvez. Em todo caso o trabalho estava feito. Pelo m enos de m inha parte, até onde pude. O resto depende de Tóquio e de grupos na Alem anha. A luta foi dem ais para m im , em todo caso.
Julguei que só se tratasse de plásticos, pensou. Que ele fosse um im portante vendedor de m oldes. O oráculo adivinhou e deu um aviso, m as...
— Tirem a cam isa dele — disse um a voz. Sem dúvida o m édico do prédio. Um tom m uito autoritário; Mr. Tagom i sorriu. O tom é tudo.
Poderia ser esta a resposta? perguntou-se Mr. Tagom i. O seu conhecim ento era um m istério pertencente ao organism o corpóreo. Era tem po de partir. Ou hora de parar parcialm ente. Um propósito que devo obedecer.
O que foi que o oráculo dissera por últim o? À sua pergunta no escritório, quando os dois estavam ali m orrendo ou m ortos. Sessenta e um . Verdade Interior. Os porcos e os peixes são os m enos inteligentes de todos; difíceis de convencer. Sou eu. O livro refere-se a m im . Nunca com preenderei totalm ente; é a natureza de tais criaturas. Ou o que está acontecendo com igo agora é a Verdade Interior?
Esperarei. Verei qual das duas coisas.
Talvez am bas.
Naquela noite, logo depois da últim a refeição, um policial veio à cela de Frank Frink, destrancou a porta e disse-lhe que apanhasse suas coisas no escritório.
Pouco depois, ele viu-se na calçada diante do Distrito de Kearny Street, entre os inúm eros pedestres andando apressados, as buzinas dos ônibus e dos carros e os gritos dos condutores de velotáxi. O ar estava frio. Som bras com pridas estendiam -se em frente de cada edifício. Frank Frink ficou um m om ento parado e depois j untou-se autom aticam ente a um grupo de pessoas atravessando no sinal verde.
Preso sem razão algum a, pensou. Sem m otivo. E depois m e soltam da m esm a m aneira.
Não lhe disseram nada; apenas entregaram -lhe seu saco de roupas, a carteira, o relógio, os óculos, os artigos pessoais e ocuparam -se do caso seguinte, um velho bêbado trazido da rua.
Milagre, pensou, terem m e soltado. Um golpe de sorte. Eu devia estar num avião indo para a Alem anha, para ser exterm inado.
Não conseguia acreditar. Em nada, nem na prisão, nem nisto agora. Irreal. Peram bulou diante das loj as fechadas, pulando por cim a dos detritos acum ulados pelo vento.
Vida nova, pensou. Era com o renascer. Era, coisa nenhum a: é.
A quem agradecer? Rezar, talvez?
Rezar a quem ?
Eu queria entender, disse a si próprio, enquanto andava pela calçada noturna cheia de pedestres, passando pelos anúncios lum inosos, e pelas entradas dos bares de Grant Avenue, que deixavam escapar m anifestações ruidosas. Quero com preender. Preciso.
Mas sabia que não conseguiria nunca.
Fique só contente, pensou. E continue andando.
Um a parte de sua m ente o aconselhou: e volte para Ed. Preciso encontrar o cam inho de volta à oficina, lá naquele porão. Recom eçar onde parei, fazendo j óias, usando m inhas m ãos. Trabalhando e não pensando, sem levantar os olhos nem tentar entender. Preciso m anter-m e ocupado. Preciso produzir as peças.
Quarteirão por quarteirão apressou-se pela cidade que anoitecia. Esforçando-se para voltar o m ais depressa possível ao lugar fixo, com preensível, onde estivera antes.
Quando chegou lá, encontrou Ed McCarthy sentado na banca, j antando. Dois sanduíches, um a garrafa térm ica de chá, um a banana, vários biscoitos. Frank Frink ficou de pé na entrada, ofegante.
Por fim Ed ouviu-o e voltou-se.
— Pensei que você tivesse m orrido — disse. Mastigou, engoliu ritm icam ente, deu outra m ordida.
Ao lado do banco, Ed ligara o pequeno aquecedor elétrico; Frank aproxim ou-se e ficou de cócoras, aquecendo as m ãos.
— Bom te ver de volta — disse Ed.
Deu dois tapas nas costas de Frank, e voltou ao seu sanduíche. Não disse m ais nada; os únicos sons eram o roncar do aquecedor e a m astigação de Ed.
Pendurando o casaco num a cadeira, Frank j untou um m ontinho de fragm entos de prata sem i-acabados e levou-os à cortadeira. Atarrachou um chum aço de lã para polim ento ao eixo e ligou o m otor; em bebeu o chum aço com um com posto de acabam ento, colocou a m áscara protetora e depois sentou-se num banquinho e com eçou a lim par as m arcas de fogo dos fragm entos, um por um .