O Homem Invisível
Prefácio
O homem invisível (1897) foi o quinto livro publicado por H. G. Wells depois de sua estreia em 1895 com
A máquina do tempo. Com o sucesso imediato do primeiro livro, ele mergulhou numa atividade frenética,
porque ainda no mesmo ano publicou o romance fantástico The wonderful visit, além de sua primeira
coletânea de contos, The stolen bacyllus and other incidents. Em 1896, saiu o clássico A ilha do dr. Moreau e
logo depois As rodas do acaso, este um romance a respeito do hábito recente de fazer longos passeios de
bicicleta. E, no princípio de 1897, foi lançada sua segunda coletânea, The Plattner story and others. Wells
escrevia com a celeridade de um jornalista profissional, e toda sua obra desta fase inicial tem as mesmas
características: originalidade de ideia e de abordagem, narrativa rápida e cheia de ação; eventuais digressões
teóricas que justificam a premissa fantástica, de maneira aceitável, para o leitor comum. Na nota biográfica
incluída na edição da Penguin Books para este livro, Patrick Parrinder assim comenta seu período como
estudante de Ciências: “Ele era fascinado pelos postulados teóricos e pelos horizontes imaginativos das
ciências naturais, mas não tinha paciência com os detalhes práticos e as tarefas repetitivas e rotineiras do
trabalho de laboratório.” Esta descrição também se aplica a Wells como escritor: o que o seduz na literatura
não é o trabalho meticuloso da produção de uma frase perfeita; é o arrebatamento produzido por uma ideia
vívida e original.
O tema da invisibilidade é tão antigo quanto o das viagens no tempo; Wells apenas deu a ambos
uma premissa com aparência científica — que, afinal de contas, é tudo quanto é necessário numa obra de
literatura. O leitor de um romance científico espera do autor um mínimo de conhecimento da ciência,
algum respeito ao método científico e ao bom-senso, e habilidade para articular um raciocínio que pareça
justificar o que acontece no livro. O leitor sabe que viagens no tempo e homens invisíveis são fantasias; mas
o leitor dos anos 1890 descobriu que essas fantasias podiam ser justificadas na linguagem de seu dia a dia, no
espírito do seu tempo.
Wells não foi o primeiro a explorar a invisibilidade num contexto moderno. O romance em três
volumes The invisible gentleman, de James Dalton (1833), foi bastante popular em sua época, mas num
contexto de fantasia. Criaturas misteriosas e invisíveis aparecem em contos clássicos, frequentemente
reeditados em antologias, como “What was it?”, de Fitz-James O’Brien (1859), “Le Horla”, de Guy de
Maupassant (1887), e “The damned thing”, de Ambrose Bierce (1893).
Por outro lado, o próprio Wells afirmou ter se inspirado, em primeiro lugar, no poema humorístico
“The perils of invisibility”, de W. S. Gilbert (1836-1911), o libretista de Arthur Sullivan numa série de
óperas cômicas que fizeram grande sucesso no teatro da era vitoriana. O protagonista do poema, Old Peter,
recebe da fada Picklekin o dom da invisibilidade, mas o mesmo não acontece com suas roupas:
“(…) A well-bred fairy (so I’ve heard)
Is always faithful to her word:
Old PETER vanished like a shot,
But then — HIS SUIT OF CLOTHES DID NOT! (…)
So there remained a coat of blue,
A vest and double eyeglass too,
His tail, his shoes, his socks as well,
His pair of — no, I must not tell. (…)”[1]
Provavelmente as sugestões visuais do poema deram a Wells o primeiro impulso para a criação das
situações do seu Homem Invisível — já contaminadas de certa comicidade, e iniciando-se, in media res, com
o personagem, já invisível, às voltas com camuflagens e disfarces.
A originalidade maior de Wells não reside no uso do tema, mas na explicação razoavelmente
convincente que ele inventou. Wells fez isto com brilhantismo: seu homem invisível não recorre a um
chapéu mágico ou uma capa encantada (como ocorre nos contos de fada e nos romances de cordel), mas
obtém sua invisibilidade por meio de um estudo da refração e reflexão óptica, do uso de “centros
irradiadores de uma espécie de vibração etérea” com o uso de dínamos e de um motor a gás. O leitor sabe
que é impossível; mas quando um leitor quer ser seduzido, basta-lhe uma mentira atraente; ele quer
acreditar, mas não acreditará em qualquer coisa. A “voluntária suspensão da descrença” que Coleridge
diagnosticou, de modo definitivo, como indispensável à leitura de um texto fantástico, só ocorre quando o
leitor sente no autor firmeza imaginativa bastante para levá-lo não apenas além da realidade, mas além das
fantasias anteriores. Wells descreve todo o aspecto teórico do processo no Capítulo XIX e mostra as
experiências preparatórias de Griffin no Capítulo XX, de modo que, quando este torna a si próprio
invisível, o leitor (principalmente o de 1897) já está pronto para aceitar tudo.
Além de tratar de modo diferente o processo que causa a invisibilidade, Wells também o fez com
suas consequências. O romance de Dalton era basicamente uma fantasia moralizante, em que, segundo
observou o crítico John Clute, todas as medidas eram tomadas para mostrar que o protagonista não
ganharia nada com a sua condição. Wells, mesmo incluindo uma mensagem moral em sua narrativa (o
Homem Invisível é punido por sua arrogância e sua misantropia), dedica-se mais a explorar até o fim as
consequências práticas da invisibilidade, colocando seu personagem em circunstâncias que tanto lhe trazem
benefícios quanto desvantagens. A descrição do passeio de um homem nu e invisível pelas ruas geladas de
Londres, nos Capítulos XXI, XXII e XXIII, transforma em pesadelo o sonho de qualquer leitor que deseja
usar a premissa da história para um wish fulfillment, para uma realização de fantasias sem compromissos.
Julio Verne queixava-se de que Wells inventava situações cientificamente impossíveis; mas as aventuras dos
personagens de Wells têm uma textura realista, e de conhecimento in loco de tipos sociais, mais espessa e
mais verossímil que as de Verne.
Até o encontro do Homem Invisível com o dr. Kemp, nós o vemos através dos olhos de pessoas
comuns, interioranas, aqueles ingleses das classes mais baixas que Wells conhecia tão bem. Ele os vê
alternadamente com carinho e com sarcasmo; não os despreza e não os idealiza; trata-os de igual para igual.
Este lado realista do livro mostra como Wells foi capaz de manter ao longo da vida inteira uma carreira de
sucesso escrevendo tanto romances fantásticos quanto romances mainstream — romances de costumes, de
análise psicológica e de observação social. Seu conhecimento das pessoas comuns e sua empatia com elas
lembram a obra de Philip K. Dick, outro autor que tentou manter duas carreiras literárias em paralelo.
Wells tem seus defeitos. Os diálogos muitas vezes não dizem grande coisa e parecem estar ali apenas
para obedecer à convenção dramática de que quando dois personagens estão juntos precisam falar sobre
algo. Aqui e acolá o texto apresenta pequenos erros de continuidade, ou pequenas pontas deixadas soltas sem
um esclarecimento final. O autor tinha consciência disso. Em sua autobiografia, ele reconhece: “Os críticos
não precisam vir me informar de que uma boa parte da minha obra é escrita com desleixo, mal-acabada,
impaciente. Grande parte dela foi redigida às pressas e revisada sem muita atenção, e há partes que têm uma
textura tão pálida e pastosa quanto o rosto de uma freira alimentada com goma.” Suas qualidades como
escritor não são as do estilista, e sim as do autor que mal tem tempo de colocar no papel o jorro de imagens
que lhe brota na mente.
Em todo caso, Wells impressiona pela notável visualidade de seu modo de escrever. Seu livro é
contemporâneo dos primeiros anos do cinema, mas a rápida sucessão das peripécias e a intensa ação física parecem uma prefiguração dos filmes de perseguição que fariam sucesso nas telas a partir da virada do
século. Existe algo das comédias de Buster Keaton ou Harold Lloyd nas trapalhadas dos habitantes de Iping
tentando prender o Homem Invisível, na cena em que Griffin é perseguido dentro da loja de
departamentos, e depois na cena da taverna em que o sr. Marvel tenta se proteger de sua fúria. E um clima
de tensão e suspense, lembrando a fase britânica de Alfred Hitchcock, está presente nos capítulos dos roubos
ao vicariato e à loja de adereços teatrais. A cena final do corpo de Griffin reaparecendo aos poucos inspirou
as metamorfoses ou desaparecimentos graduais com que o cinema nos maravilhou em filmes sobre
vampiros, lobisomens e monstros como o de dr. Jekyll e mr. Hyde. Wells descreve com elegância as
imagens, surpreendentes para sua época, de alguém que retira as ataduras e barbas que lhe cobrem o rosto
para revelar o Nada por trás delas, ou de como uma roupa sendo vestida ou despida por alguém invisível
parece executar movimentos inexplicáveis, sozinha, no ar. Objetos não são movidos: movem-se, diante dos
olhos espantados das testemunhas. Tudo em Wells é visual e concreto. Se a prosa também se compõe, como
afirmava Ezra Pound sobre a poesia, de “música verbal”, “imagem” e “ideia”, foi em cima destes dois
últimos itens que Wells criou sua obra e sua fama, bem como um modelo seguido por centenas de autores
de ficção científica até os nossos dias.
Braulio Tavares