O Homem Invisível

H. G. Wells · Capítulo 29 de 30

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O Homem Invisível

Capítulo XXVIII

 

O caçador caçado

 

O sr. Heelas, o vizinho mais próximo do dr. Kemp entre os proprietários de villas nas redondezas, estava

adormecido na estufa de plantas, à certa distância de sua casa, quando teve início o cerco à casa do doutor.

O sr. Heelas pertencia àquela minoria obstinada que se recusava a acreditar “em todo aquele absurdo” sobre

um homem invisível. Sua esposa, entretanto, acreditava, fato de que ele iria ser relembrado em breve. Ele

teimava em caminhar pelo jardim como se nada estivesse acontecendo, e, durante a tarde, deitou-se para

fazer a sesta, como fazia havia anos. Quando as janelas do doutor foram destruídas, ele estava em pleno

sono; mas quando despertou foi tomado pela estranha sensação de que havia algo errado. Olhou para a casa

de Kemp, esfregou os olhos, olhou de novo. Então firmou os pés no chão e ficou à escuta. Murmurou

pedindo que diabos o levassem, mas aquela imagem estranha continuou visível. A casa de Kemp tinha a

aparência de estar abandonada havia semanas, e depois de um combate violento. Todas as janelas estavam

quebradas, e todas elas, salvo as do belvedere, estavam com as persianas internas fechadas.

— Eu seria capaz de jurar — murmurou ele, olhando o relógio — que estava tudo normal há

menos de vinte minutos.

Então ele percebeu um som de pancadas e de vidro se despedaçando a distância. E ficou

boquiaberto ao se deparar com uma visão ainda mais extraordinária. As persianas da sala foram abertas com

violência e ali surgiu a criada do dr. Kemp, vestida para sair, lutando para abrir os postigos e sendo ajudada

pelo doutor Kemp em pessoa! Um instante depois, a janela era escancarada e a criada forçava-se a passar por

ela, caindo do lado de fora e saindo a correr por entre os arbustos. O sr. Heelas ficou de pé, soltando uma

vaga exclamação de espanto diante desse fato inusitado, e logo viu o próprio Kemp subir no peitoril, pular

para fora, e reaparecer um instante depois correndo ao longo de um renque de arbustos, e correndo

encurvado, como alguém que quer evitar ser visto. Logo ele sumiu por trás de uma moita de laburno, para

reaparecer depois escalando uma cerca que dava para o descampado. Bastou-lhe apenas um segundo para

saltar para o outro lado e disparar em tremenda velocidade ladeira abaixo, rumo à casa do sr. Heelas.

— Meu Deus! — gritou o sr. Heelas, a quem uma ideia ocorreu de repente. — É o bruto do

Homem Invisível! Têm razão! Ele existe!

Com o sr. Heelas, pensar era agir; e sua cozinheira, que o avistava de uma janela no pavimento de

cima, ficou espantada ao vê-lo partir na direção de casa a uma velocidade de uns bons quinze quilômetros

por hora. Portas estrondaram, campainhas retiniram, e a voz do sr. Heelas elevou-se por sobre esse barulho

como o mugido de um touro.

— Tranquem as portas! Tranquem as janelas! Tranquem tudo! O Homem Invisível vem aí!

No mesmo instante a casa encheu-se de um alarido de gritos, ordens e passos atropelados. Ele

próprio encarregou-se de trancar as janelas da varanda, e ao fazê-lo avistou a cabeça e os ombros de Kemp

que surgiam por cima da cerca viva do jardim. Um instante depois o doutor rompeu por entre os arbustos e

cruzava a boa velocidade o relvado, na direção da casa.

— Não pode entrar! — gritou o sr. Heelas, correndo os ferrolhos. — Sinto muito se ele quer pegá-lo, mas aqui você não entra!

Kemp colou à vidraça um rosto transido pelo terror, e pôs-se a bater e sacudir a janela em frenesi.

Vendo que seus esforços eram inúteis, correu dando a volta à varanda, pulou a balaustrada do fim e veio

esmurrar a porta lateral. Sem resposta, cruzou o portão lateral, rodeou até a parte fronteira da casa e dali

disparou rumo à estrada da colina. Mal o sr. Heelas, com o rosto horrorizado colado à vidraça, viu o doutor

desaparecer, percebeu os arbustos da sebe sendo curvados e pisados por algo invisível. Diante disso, fugiu

escada acima, deixando assim de testemunhar o restante da caçada. Ouviu apenas, quando passou ao lado da

janela da escada, a batida forte do portão.

Ao chegar à estrada da colina, Kemp naturalmente tomou o rumo da descida, e foi assim que veio a

repetir em pessoa a mesma corrida desabalada que vira do belvedere, com olhos críticos, ser executada pelo

vagabundo, dias antes. Ele imprimiu boa velocidade para um homem fora de forma, e, embora estivesse

pálido e coberto de suor, mantinha uma certa frieza mental. Corria a passos largos, e onde quer que no chão

à sua frente surgisse um trecho de terreno pedregoso, ou de cacos de garrafas, ele tomava esse rumo,

deixando que os pés descalços que o perseguiam escolhessem o mesmo trajeto para alcançá-lo.

Pela primeira vez em sua vida, Kemp percebeu o quanto aquela estrada era indescritivelmente longa

e deserta, que as primeiras casas da cidade lá embaixo ficavam a uma distância incrivelmente remota, e que

nunca existira um método de avanço mais doloroso e mais lento do que o de correr. Todas as villas de

silhuetas esguias, adormecidas ao sol da tarde, pareciam trancadas e barricadas — e, sem dúvida, estavam

mesmo trancadas e barricadas, por ordem dele próprio. Mas com certeza alguém estaria vigiando, para o

caso de uma situação como a sua! Agora a cidade já se erguia à sua frente, a visão distante do mar já

desaparecera por trás dela, e algumas pessoas podiam ser vistas caminhando. Um tramway se aproximava no

sopé da colina; mais além, via-se a delegacia de polícia. O que era aquele ruído atrás, pés que se

aproximavam? O doutor acelerou o ritmo.

As pessoas já começavam a olhar na sua direção, um ou dois desataram a correr, e a respiração ardia

em sua garganta. O tramway estava mais perto agora, e ele viu as pessoas no Jolly Cricketers fechando

ruidosamente as portas. Por trás do tramway avistavam-se pilhas de madeira e montes de cascalho — obras

de drenagem. Ele teve o impulso fugaz de correr para dentro do tramway e fechar as portas, mas preferiu

seguir direto, rumo à delegacia. Um instante depois passou diante do Jolly Cricketers, e então estava em

plena rua, machucado, extenuado, mas cercado de gente. O condutor do tramway e seu ajudante, que

assistiam àquela furiosa corrida, mantinham-se imóveis, com os cavalos desatrelados. Lá na frente, operários

com expressão perplexa o acompanhavam com os olhos, por trás de montes de cascalho.

Ele reduziu um pouco a velocidade, mas ouviu atrás de si os passos abafados de seu perseguidor, e

voltou a acelerar. “O Homem Invisível!”, gritou para os operários, fazendo um gesto vago, e numa súbita

inspiração pulou por cima de uma daquelas valas, colocando um grupo de trabalhadores entre ele e seu

inimigo. Então, abandonando a ideia de ir para a delegacia, enveredou por uma ruazinha lateral, ultrapassou

a carroça de um verdureiro, hesitou por um décimo de segundo à porta de uma loja de doces, e então

tomou uma travessa que conduzia de volta a Hill Street. Duas ou três crianças brincavam ali, e espalharam-

se gritando quando ele surgiu; portas e janelas começaram a se abrir, e as mães de família revelavam em altas

vozes o que achavam daquilo. Kemp desembocou em Hill Street, agora uns trezentos metros do fim da

linha do tramway, e imediatamente teve consciência de uma grande vociferação e de pessoas que acorriam

em tumulto.

Virou-se para olhar e viu, a uma dúzia de metros, um operário corpulento disparando imprecações e

dando golpes no ar com uma pá, e logo atrás dele o condutor do tramway correndo de punhos cerrados.

Um grupo de homens acompanhava os dois, gritando e dando socos à toa. Da parte de baixo da cidade,

homens e mulheres aproximavam-se correndo, e ele percebeu um homem emergindo de uma loja empunhando um bastão. “Espalhem-se, espalhem-se!”, gritou alguém, e Kemp percebeu que a perseguição

começava a se inverter. Ele deteve-se, ofegante.

— Ele está por aqui! — berrou. — Formem uma linha...

Uma pancada o atingiu embaixo do ouvido, e ele saiu cambaleando, tentando manter-se de frente

para o agressor invisível. Conseguiu ficar de pé, mas quando esmurrou o ar foi em vão. Outro golpe o

apanhou no queixo e ele se estatelou no chão. Um instante depois um joelho comprimiu seu diafragma e

mãos ferozes agarram-lhe a garganta, mas uma delas tinha o aperto mais fraco que a outra. Ele conseguiu

agarrar os pulsos e ouviu um grito de dor do adversário. Nisso ele avistou a pá empunhada pelo operário

grandalhão cortar o ar à sua frente e parar de repente produzindo um ruído surdo. Algo líquido respingou

no seu rosto. As mãos em sua garganta se afrouxaram, e, com um esforço convulsivo, Kemp se

desembaraçou daquele aperto, agarrou um ombro nu e conseguiu derrubá-lo no chão, pondo-se por cima.

Procurou agarrar e manter os braços invisíveis colados ao chão.

— Venham! Acudam! — gritou. — Ele está no chão! Segurem seus pés!

Um segundo depois todos em volta precipitaram-se sobre ele, e um estranho que cruzasse a rua

naquele instante iria imaginar que ali se travava uma partida de rugby das mais renhidas. E depois do grito

de Kemp, não se ouviu nenhuma outra voz, apenas a respiração arquejante dos homens e a saraivada de

golpes.

Mas o Homem Invisível fez um último e desesperado esforço, jogou para o lado dois dos

antagonistas e ficou de joelhos. Kemp agarrou-se a ele como um mastim se aferra a uma caça, e uma dúzia

de mãos agarraram, arranharam e golpearam o Invisível. O condutor do tramway agarrou-o pelo pescoço e

puxou-o para trás. Todo aquele amontoado de homens rolou por cima da presa, e receio que tenham sido

desferidos violentos pontapés. Ouviu-se um grito de “Piedade! Piedade!” que em seguida se transformou

num ruído de alguém sufocando.

— Parem, seus loucos — disse Kemp com voz rouca, empurrando os homens para trás. — Ele está

ferido! Recuem!

Houve um recuo atropelado abrindo um clarão, e o círculo de rostos excitados contemplou o

doutor, que parecia estar de joelhos a alguns centímetros no ar, agarrando braços invisíveis de encontro ao

solo. Por trás dele, um policial agarrava um par de tornozelos invisíveis.

— Não o deixem escapar — disse um operário grandalhão, empunhando uma pá ensanguentada.

— Está fingindo.

— Não, não está — disse o doutor, erguendo-se com cautela. — E eu vou segurá-lo.

Seu rosto estava arranhado e vermelho; ele falava com dificuldade devido a um grande inchaço no

lábio. Ele soltou uma das mãos invisíveis e pareceu estar tateando um rosto.

— O rosto dele está todo molhado. Meu Deus!

Ele afastou-se, ficando de joelhos no chão, ao lado daquele inimigo que nenhum deles avistava. A

multidão em volta agitava-se, empurrando-se uns aos outros, enquanto mais e mais gente afluía para olhar.

Gente saía das casas, e a porta do Jolly Cricketers foi novamente aberta. Ninguém falava uma palavra.

Kemp voltou a apalpar aquele corpo, sua mão parecendo procurar alguma coisa no vazio.

— Não está respirando — anunciou. — E não consigo sentir o coração. E aqui do lado... meu

Deus!

De repente uma velha que espreitava por baixo do braço do homem com a pá gritou:

— Olhem! — E apontou com um dedo encarquilhado.

E olhando na direção em que ela apontava todos viram algo, a princípio tênue e translúcido, como

se feita de vidro, a silhueta de uma mão imóvel, com seu desenho de veias e artérias e ossos e nervos. Foi se

tornando cada vez mais opaca enquanto todos a contemplavam.

— Olhem! — gritou o policial. — Os pés! Estão aparecendo!

E assim, bem devagar, começando pelos pés e mãos e estendendo-se ao longo dos ombros até os

órgãos vitais do corpo, aquela estranha mudança prosseguiu, lembrando a maneira como um veneno se

espalha no organismo. Primeiro surgiram os nervos finos e brancos, depois a silhueta difusa de um membro,

depois os ossos vítreos e a intrincada rede de artérias, depois a carne, a pele, tudo isto surgindo de maneira

enevoada até se tornar denso e opaco. Por fim eles puderam ver o seu peito afundado por golpes e o

contorno desfocado de suas feições encovadas.

Quando por fim a multidão abriu um pouco de espaço e Kemp ficou de pé, ali estava diante deles,

nu, estirado no chão, o corpo ferido e machucado de um homem de seus trinta anos de idade. Seu cabelo e

a barba por fazer eram brancos, não o branco da idade, mas o do albinismo, e seus olhos eram vermelhos.

Suas mãos estavam crispadas, os olhos arregalados, e sua expressão era de raiva e desalento.

— Cubram o seu rosto! — gritou um homem. — Pelo amor de Deus, cubram esse rosto.

E três crianças que haviam se enfiado por entre as pernas dos adultos foram agarradas e retiradas dali

às pressas.

Alguém trouxe um lençol do Jolly Cricketers e cobriu o corpo, que em seguida foi carregado para a

taverna. E ali, numa cama barata, num quarto dos fundos mal-iluminado, encerrou-se a estranha carreira do

Homem Invisível.