O Homem Invisível

H. G. Wells · Capítulo 27 de 30

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O Homem Invisível

Capítulo XXVI

 

O assassinato de Wicksteed

 

O Homem Invisível, ao que parece, fugiu da casa do dr. Kemp num estado da mais cega fúria. Uma criança

que brincava nas proximidades do portão do doutor foi agarrada com violência e atirada a distância, tendo o

tornozelo quebrado; e depois disso o Homem Invisível ficou durante algumas horas fora do alcance da

percepção humana. Ninguém soube aonde ele foi, nem o que fez. Mas podemos imaginá-lo caminhando ao

sol daquela manhã quente de junho, subindo a colina e depois descendo rumo ao descampado além de Port

Burdock, vociferando sua raiva e seu desespero diante daquela fatalidade insuportável, e por fim buscando

abrigo, exausto e coberto de suor, por entre os matagais de Hintondean, onde voltou a formular seus planos

de guerra contra a humanidade. Este parece ter sido o local de refúgio mais provável que ele encontrou,

porque foi ali que reapareceu da maneira mais trágica, por volta das duas horas daquela tarde.

Pode-se apenas imaginar qual seria seu estado de espírito durante aquele período, e que tipo de

planos andou arquitetando. Não podia haver dúvida de que estava enfurecido, além de qualquer limite, pela

traição do dr. Kemp, e embora possamos entender os motivos que levaram o médico a proceder assim,

também podemos imaginar e compreender a fúria que tal fato produziu no Homem Invisível. Talvez ele

tenha voltado a experimentar a mesma decepção arrasadora que lhe causou aquele seu primeiro passeio por

Oxford Street; porque é fora de dúvida que ele contara como certa a adesão de Kemp ao seu plano brutal de

dominar o mundo pelo medo. Em todo caso, ele desapareceu por volta do meio-dia e nenhuma testemunha

pôde dar pistas do que ele fez até as duas e meia daquela tarde. Foi uma sorte para a humanidade, mas para

ele esse intervalo de inatividade revelou-se fatal.

Durante esse período, uma multidão crescente de voluntários começou a se organizar e a se espalhar

em buscas por toda aquela região. Até aquela manhã, o Homem Invisível tinha sido apenas uma lenda, um

terror. À tarde, graças à proclamação feita em termos inequívocos pelo dr. Kemp, ele se tornava um

antagonista tangível, alguém que deveria ser ferido, capturado ou abatido por qualquer meio, e a população

começou a se organizar com rapidez espantosa. Por volta das duas da tarde ele ainda poderia ter se evadido

daquela área por trem; dessa hora em diante, isso se tornou impossível. Todos os trens de passageiros ao

longo das linhas do grande paralelogramo formado por Southampton, Manchester, Brighton e Horsham

viajavam com as portas trancadas, e todo o tráfego de mercadorias tinha sido suspenso. E num grande

círculo de trinta quilômetros em volta de Port Burdock, homens armados com rifles e porretes estavam se

distribuindo em grupos de três ou quatro, acompanhados de cães farejadores, para vasculhar as estradas e os

campos.

Policiais a cavalo percorriam as trilhas entre os povoados, detendo-se em cada pequena propriedade

para avisar a todos que trancassem as portas e se mantivessem dentro de casa a menos que estivessem

armados. Todas as escolas da região encerraram as aulas às três horas, e as crianças, assustadas e mantendo-se

sempre em grupos, voltaram às pressas para casa. O alerta do dr. Kemp — assinado, é verdade, pelo Coronel

Adye — estava pregado em postes e portas de todo o distrito entre as quatro e cinco da tarde. Ele resumia

com clareza a natureza e as condições daquele combate e enfatizava a necessidade de privar o Homem Invisível de sono e de alimentação, bem como de manter vigilância incessante para perceber qualquer

indício de sua presença. Tão rápida e firme foi a ação das autoridades, e tão espontânea e universal era a

crença naquela estranha criatura, que antes do anoitecer uma área de centenas de quilômetros quadrados se

encontrava praticamente em estado de sítio. E, antes que escurecesse, um calafrio de horror se alastrou por

todo o condado. Em cochichos passados nervosamente boca a boca, correu célere de ponta a ponta da

região a notícia do assassinato do sr. Wicksteed.

Se é correta nossa suposição de que foram os matagais de Hintondean o refúgio do Homem

Invisível naquele dia, então devemos supor que no começo da tarde ele arriscou-se a uma nova surtida,

talvez com a intenção de apossar-se de algum tipo de arma. Não podemos mais saber os detalhes desse seu

projeto, mas para mim é prova suficiente o fato de que antes mesmo de se deparar com o sr. Wicksteed ele

já estava de barra de ferro em punho.

É evidente que não poderemos saber jamais os detalhes de como se deu aquele confronto. Ele

ocorreu à entrada de uma mina de cascalho, a menos de duzentos metros dos portões do solar de Lord

Burdock. Todos os sinais dão indícios de uma luta desesperada — o chão revolvido, os numerosos

ferimentos infligidos ao sr. Wicksteed, sua bengala feita em pedaços; mas por que motivo ele foi atacado é

difícil imaginar, a não ser que se considere um acesso de fúria homicida. Na verdade, a teoria que aponta

para a loucura do criminoso é difícil de contradizer. O sr. Wicksteed era um homem de quarenta e cinco ou

quarenta e seis anos, intendente de Lord Burdock, de aparência e hábitos inofensivos, a última pessoa no

mundo que pensaria em desafiar tão formidável antagonista. Contra ele, o Homem Invisível usou uma

barra de ferro arrancada de um pedaço partido da cerca. Ele abordou aquele pacífico senhor que estava indo

para casa almoçar, atacou-o, destruiu seus frágeis meios de defesa, quebrou seu braço, derrubou-o ao chão, e

reduziu sua cabeça a uma massa pastosa.

Era bem claro que ele devia ter arrancado a barra de ferro da grade antes de encontrar sua vítima; já

devia estar trazendo-a consigo. Dois outros detalhes, apenas, merecem ser mencionados aqui com relação a

este assunto. O primeiro é a circunstância de que a mina de cascalho não ficava situada no trajeto que o sr.

Wicksteed percorria entre o solar e sua própria casa; na verdade, ficava a uns duzentos metros de distância.

O outro é o testemunho de uma menina que, indo para a escola durante a tarde, avistou a vítima “trotando”

de um modo peculiar no terreno que conduzia à mina. A pantomima feita por ela para ilustrar suas palavras

sugeria um homem em perseguição de alguma coisa no chão à sua frente, tentando atingi-la com a bengala.

Essa menina foi a última pessoa a ver o sr. Wicksteed com vida. O crime aconteceu já fora do seu campo de

visão, oculto dos seus olhos por um pequeno bosque de árvores e uma depressão no terreno.

Bem; aos olhos deste redator, pelo menos, esses detalhes dão ao crime um perfil muito distante do

crime gratuito. Podemos imaginar, sem dúvida, que Griffin recolheu a barra de ferro com a intenção de

usá-la como instrumento, mas não necessariamente com o propósito de usá-la como arma. Wicksteed

poderia estar passando casualmente por ali e ter notado a barra de ferro movendo-se inexplicavelmente no

ar. Sem que lhe ocorresse a ideia de um homem invisível — já que Port Burdock fica a quinze quilômetros

dali —, ele pode ter se aproximado do objeto; podemos mesmo supor que ele jamais tivesse ouvido falar do

Homem Invisível. Podemos imaginar que o Homem Invisível tentava afastar-se dali, para evitar que sua

presença naquelas redondezas fosse descoberta, e que Wicksteed, excitado e curioso, tenha ido em

perseguição daquele objeto que parecia mover-se sozinho, e até mesmo tentado tocar nele com sua bengala.

É claro que em circunstâncias normais o Homem Invisível poderia ter facilmente deixado para trás

um perseguidor mais idoso, mas a posição em que o corpo de Wicksteed foi encontrado sugere que ele teve

a má sorte de encurralar o fugitivo num recanto entre um arbusto espinhoso e a entrada do poço da mina.

Para os que já conhecem o temperamento raivoso do Homem Invisível, o desfecho dessa situação é fácil de

conceber.

Mas tudo isso não passa de hipótese. Os únicos fatos indiscutíveis — porque mesmo o testemunho

de uma criança pode às vezes não ser totalmente confiável — são a descoberta do corpo de Wicksteed,

espancado até a morte, e a barra de ferro, manchada de sangue, jogada entre os espinhos. O fato de Griffin

ter largado ali a barra sugere que, no tumulto emocional produzido pelo crime, o propósito para o qual ele a

recolhera — supondo que houvesse um — foi deixado de lado. Ele era sem dúvida um indivíduo

imensamente egoísta e insensível, mas a visão de sua vítima, sua primeira vítima, ensanguentada aos seus pés,

pode ter lhe despertado uma onda de remorsos que por algum tempo fez submergir quaisquer planos de

ação que ele tivesse em mente.

Após o assassinato do sr. Wicksteed, tudo indica que o criminoso fugiu pelo campo na direção da

baixada próxima. Há relatos de que uma voz foi ouvida, já no fim da tarde, por dois homens que

trabalhavam num campo próximo de Fern Bottom. A voz gemia e gargalhava, soluçava, grunhia e, de vez

em quando, soltava gritos inarticulados. Atravessou um campo de trevo e sumiu na direção das colinas.

Naquela tarde, o Homem Invisível deve ter percebido o rápido uso que o dr. Kemp fez das suas

confidências. Deve ter encontrado todas as casas trancadas com segurança; deve ter vagueado nos arredores

das estações de trem e das tavernas, e sem dúvida deve ter lido os cartazes ali afixados, e compreendido a

dimensão da campanha movida contra ele. À medida que a tarde ia avançando, os campos iam sendo

invadidos por grupos de homens, aos três ou quatro, por entre os latidos dos cães. Todos tinham sido

instruídos a dar apoio instantâneo a qualquer dos grupos que localizasse o fugitivo. Mas este conseguiu

manter-se a distância. Podemos imaginar sua exasperação ao compreender que ele próprio fornecera as

informações que agora estavam sendo usadas para persegui-lo. Naquele dia ele fraquejou; e por vinte e

quatro horas, salvo quando agrediu Wicksteed, ele foi um homem caçado. Durante a noite deve ter

dormido e se alimentado de alguma forma, porque na manhã seguinte deu mostras de estar recuperado,

ativo, forte, raivoso e maligno, pronto para desfechar seu derradeiro ataque contra o mundo.